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LAN

Fonte: Lan in O Globo, 28/6/2008.
Lanfranco Aldo Ricardo Vaselli Cortelini Rossi Rossini. Esse é o nome completo do Lan, esse italiano de Monte Varchi que desembarcou no Rio de Janeiro, via Montevidéu e Buenos Aires em 1952, para nunca mais voltar. Lan encontrou nas mulatas da Portela e nas curvas do Rio de Janeiro aquilo que lhe devolveu a alegria pela vida. Lan é esse encanto de todo sábado nas páginas do Globo. Há em suas cariocaturas a presença dessas mulatas fenomenais, dessas mulatas generosas, dessas mulatas que habitam os sonhos, que puxam, que mexem, que desviam, que tiram da linha reta e estabelecem a curva, a deriva, a inclinação, o errar por aí, sem eira nem beira, sem lenço nem documento, correnteza, via, caminho, um porto manso, suave, onde a chegada é melhor do que a partida, onde nada se realiza completamente, perda de tempo, preguiça, onde a diferença entre o que se espera e o que se ganha não interessa mais, negras lindas, negras maravilhosas, andar...aí, ali, e, acima de tudo, lei do meu bem querer, irrevogável, amá-las todas, uma por uma.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h19
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LOST IN TRANSLATION

Fotografia de Rosangela Dolis na Tasca “Os Telhadinhos” em Ponte de Lima, Portugal in Caderno Viagem, O Estado de São Paulo, 24/6/2008.
Senhorita,
Por favor, umas fodinhas quentinhas, daquelas, senhorita, daquelas. Como? A senhorita vai me dar de brinde alguns biquinhos de amor? E os chupões, senhorita, e os chupões? É claro que eu quero, senhorita, que pergunta. O quê? Corno de quem? É o que dar quando as putinhas estão em jogo. O que é isso? Mamadeiras quentes? Pode ser depois, senhorita, pode? A senhorita está me recomendando os cús, senhorita? Eu fico até sem jeito, senhorita, é que não esperava tão cedo, senhorita. Tá bom, eu entendi que vai ficar caro tudo isso, mas, senhorita, a senhorita promete entregar o que oferece? É a primeira vez que eu venho aqui, senhorita, é a primeira vez. Sim, eu já conheço a sua fama, senhorita, mas não a sua cama, perdão. Saiu sem querer, senhorita. É um ditado lá da minha terra. Eu não estou confundindo nada, lhe garanto, nada de confusão. Não. Largar sua mão não.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h24
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LA BAYADÈRE

Fonte: The New York Times, 25/6/2008.
Querida,
Claudia La Rocco revelou ao mundo nosso segredo. “A Love without end in a world beyond time”. Somos nós. Talvez Khudenov pensou na sua Nikiya, na sua bayadère, mas quando eu li, quando eu me vi ali, Solor, só lo...ve, e esse without end que para mim é tudo, para mim é o que sobrou, minha bayadère, minha baladeira, minha dançarina beyond time, esse beyond tão lindo que nem Petipa conseguiu enquadrar, nem Minkus conseguiu letrar. As palavras se aproximam do beyond e, no entanto, somos nós que escapamos, minha bayadère. É verdade que houve Gamzatti, eu sei, houve Magdaveya, eu sei, houve o Rajá, eu sei. Mas o que é tudo isso perto desse without end, perto desse beyond time? Agora, em meio às ruínas do que poderia ser, em meio ao inverno que cai, ecoa nosso love without end in a world beyond time. Somos nós, bayadère querida. Somos nós.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h14
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O ACORDADO DE CURITIBA

O escritor e professor Cristóvão Tezza é a alma da Curitiba paralela. Além de escrever livros magníficos, como o sensacional “O Filho Eterno” (editora Record), ele agora se apresenta todas as terças-feiras no jornal Gazeta do Povo. Quem quer viver precisa ler Cristóvão Tezza. Esse homem é de uma preciosidade, de uma graça, de um carinho pela vida humana infinitos. Suas crônicas e livros parecem uma coisa e, depois de lidos, relidos, guardados, emoldurados, se multiplicam, florescem, dão frutos inusitados, criam ressonâncias belíssimas, abrem caminhos pelas picadas da existência. Lá vai esse desbravador nos contando de seus medos, de suas angústias, de seus tropeços, de seus ridículos, de seus choros, de suas entregas, de suas paixões, de seus desencontros, de seus não-achados e de seus perdidos. Eis aqui a conclusão de sua dádiva de ontem, esplêndida:
“Mesmo assim, seguríssimos e confortáveis, em pleno século 21, não temos ainda nenhuma defesa contra o ataque terrível dos sonhos. É uma absurda invasão de privacidade, um assalto fantasmagórico e irracional que sabe-se lá de onde desembarca na alma. Em geral são retalhos de filmes mal dirigidos, com roteiros ineptos, sem pé nem cabeça, longas de baixo orçamento, de todos os gêneros, que somos obrigados a assistir por força de alguma lei de reserva do mercado mental – ou crimes pavorosos que cometemos sem cometer, contratados por um produtor sádico, ou desejos fantásticos e inebriantes, mas que inapelavelmente se transformam em quedas de um precipício ou em meros trailers de espetáculos que jamais entrarão em cartaz.
Melhor ficar acordado.”
Fonte: Cristóvão Tezza, Dormir in Gazeta do Povo, 24/6/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h28
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AINDA NÃO

Fonte: The New York Times, 24/6/2008.
Foi no domingo. Foi em Nova Iorque. Foi lá que minha tristeza foi. Foi lá que não houve paz, não houve beleza, mas ouvi essa voz me dizer que chega, essa voz me dizer coisas lindas, coisas loucas – mas ela não regressou, ela mandou me dizer que a partir de agora é sem ela. Não haverá abraços mais, não haverá peixinhos a nadar no mar, não haverá mais se. Foi em Nova Iorque. Foi no domingo.

Fonte: Jornal do Brasil, 24/6/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h47
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SORRIA

Fonte: O Globo, 23/6/2008.
Pedro Motta Gueiros compara no Globo de hoje a fotografia maravilhosa que Erno Schneider tirou do presidente Jânio Quadros em agosto de 1961, seis dias antes da renúncia, com a esplêndida fotografia que Alexandre Cassiano tirou de Dunga ontem em Volta Redonda, quando a seleção olímpica venceu por 1 a 0 um combinado carioca, e sapeca o título: “Sem rumo”. Excelente. Um pé para um lado, o outro pé para o outro lado. Eis aqui uma síntese do humano, demasiado humano. Essa fotografia é um espelho e não um holofote. Ela diz mais sobre a nossa condição do que sobre Dunga ou Jânio Quadros. Esse é aquele momento raro, aquele instante fugaz em que o humano se revela dividido, o humano se revela coxo, o humano se revela atrapalhado, o humano se revela. E pensar que tudo o que fazemos no resto das vinte e quatro horas menos um segundo é tapar, é esconder, é maquiar, é evitar o encontro com esse desencontro, é negar a evidência de nosso desamparo, é teimar em não perceber que o faz de conta falhou. Mas aí, num segundo, aqui, à mostra, à vista, sem mais adiamento, sem mais prazo, sem mais acordos, aqui nesta hora do acerto, nessa hora do desconcerto, somos nós na foto. Sem rumo.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h45
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QUANDO DIZER É FAZER

Barbara Cassin fotografada por Gustavo Cherro in La Nacion, 21/6/2008.
“Estou escrevendo um livro sobre Homero como filósofo. É uma leitura de Homero nas vestes de um filósofo, ou seja, do que Homero pode trazer para os filósofos. Por exemplo, não sei se você sabe que as palavras que Parmênides emprega para descrever o ser são exatamente as mesmas palavras que Homero utiliza para descrever a passagem de Ulisses pelo mar das sereias. É sobre esse tipo de coisa que eu quero refletir. Outra questão que me interessa é como se fazem coisas com as palavras, a performance, o performativo. Quando Ulisses, que está nu e sujo, vê Nausíca com outras jovens, ele pensa em lhe pedir auxílio e se pergunta: “Devo rogar-lhe de joelhos como um suplicante ou devo falar com ela?”. Ulisses se decide pelo discurso. É o discurso que ganha. Então, ele diz a ela: “Eu me ajoelho perante ti, mulher ou deusa, porque temo envolver-te os joelhos”. Isso é magnífico, porque ele não a toca, mas diz que a toca. Dito de outro modo, a toca com palavras...estas são as coisas que estou refletindo agora.”
Barbara Cassin em entrevista a Gustavo Santiago in La Nacion, 21/6/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 10h06
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