 |
|
|
MEDÉIAS

Nuria Espert (à esquerda) e Blanca Portillo, diante de uma imagem de Margarita Xirgu, no Teatro Español de Madri. Fotografia de Cristóbal Manuel in Babelia, El País, 14/6/2008.
O magnífico Babelia do El País de hoje veio com uma entrevista memorável realizada por Rosana Torres com duas artistas de teatro da Espanha, Nuria Espert e Blanca Portillo sobre o mito de Medéia. São três mulheres, Rosana, Nuria e Blanca, falando sobre uma quarta, Margarita, de uma quinta, Medéia! O resultado é epifânico. A fotografia de Cristóbal Manuel é uma obra de arte. Espetacular essas duas atrizes sob a sombra de Margarita Xirgu. Inesquecível! O título que Rosana Torres deu à entrevista, “As Três Idades de Medéia” é uma das coisas mais bonitas que li nos últimos anos. Maravilhoso! Alguns trechos traduzidos:
“Blanca Portillo – (...) Entendê-la. A princípio, me sinto identificada, pelo seu caráter de lutadora, mas logo ela faz o que faz...ela é uma assassina serial. Por que ela faz isso?
Nuria Espert – Por amor. Quando eu a fiz aos 19 anos, o sentimento de Medéia era de puro despeito, negativo, arrebatador, cruel. Um sentimento que se entendia perfeitamente. Logo depois eu a fiz aos 25, aos 35 e aos 45 anos. O amor seguiu, como paixão incontrolável, mas a traição se tornou mais forte que o despeito.
B.P. – É isso, ela foi traída.
N.E. – Eles são sócios [refere-se a Jasão]. Ele pôs a cama e ela o sangue, ela faz qualquer coisa por ele.
B.P. – Até ela descobrir que Jasão quer casar com outra e retirar-lhe os filhos. (...)
N.E. – Ela se entrega inteira. Ela era uma princesa, ele um pirata. Ela se converte em uma espécie de escrava e ele faz o que ela nunca imaginou (...) E não só a traição. O sexo também forma parte do conflito.
B.P. – Um mulher teria que estar por cima disso, mas entendo que isso aconteça, pois eu também perdi o norte por causa de um homem. É tudo muito primitivo. Ela ama esse homem que é um inútil.(...)
N.E. – Ele é um canalha. A culpa é dela por ter se enamorado desse boboca.
B.P. – É o que costuma ocorrer. O que aproxima tudo da realidade é que ele parece ser um grande amante na cama.
N.E. – Faz parte da história.
B.P. – Ela não para de falar sobre o leito ultrajado.(...)”
Fonte: entrevista de Nuria Espert e Blanca Portillo a Rosana Torres in Babelia, El País, 14/6/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h58
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
LOGO

Fonte: Chico Caruso in O Globo, 13/6/2008.
Está esclarecido o problema. O culpado é o significante!
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h18
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
PUNTA D'UN SCORPIO

Fotografia de Elena Shumaeva.
“Non havria Ulysse o qualunqu’altro mai
Più accorto fu, da quel divino aspetto
Pien di gratie, d’honor et di rispetto
Sperato qual i’ sento affanni e guai.
Pur, Amour, co i begli occhi tu fatt’hai
Tal piaga dentro al mio innocente petto,
Di cibo et di calor già tuo ricetto,
Che rimedio non v’è si tu n’el daí.
O sorte dura, che mi fa esser quale
Punta d’un Scorpio, et domandar riparo
Contr’el velen’ dall’istesso animale.
Chieggio li sol’ancida questa noia,
Non estingua el desir a me si caro,
Che mancar non potrà ch’i’ non mi muoia.”
Louise Labé.
“Nem mesmo Ulisses, nem outro qualquer
Bem mais sagaz, poderia pensar
Que nesse doce rosto iria achar
O mal terrível que aflige o meu ser.
Amor, com belos olhos, ao me ver
Fez tanta chaga em meu peito brotar,
Onde alimento e calor vem buscar,
Que apenas tu poderás socorrer.
Cruel destino, de ponta tão dura
Quanto a do fero Escorpião, fingindo
Que em seu veneno acharei minha cura.
Clamo que acabes com minha má sorte,
Mas não extingas meu desejo infindo,
Pois sua falta me traria a morte.”
Louise Labé traduzida por Felipe Fortuna in “Louise Labé: Amor e Loucura”. São Paulo: Siciliano, 1995, pp. 169-170.
Escrito por Leonardo Ferrari às 09h06
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
HER LOW MUSICAL LANGUAGE

Fotografia de Norm Murray.
“I cannot, for my soul, remember how, when, or even precisely where, I first became acquainted with the lady Ligeia. Long years have since elapsed, and my memory is feeble through much suffering. Or, perhaps, I cannot now bring these points to mind, because, in truth, the character of my beloved, her rare learning, her singular yet placid cast of beauty, and the thrilling and enthralling eloquence of her low musical language, made their way into my heart by paces so steadily and stealthily progressive that they have been unnoticed and unknown.”
Edgar Allan Poe in Ligeia in Poetry and Tales. The Library of America, p. 262.
“Juro pela minha alma que não posso lembrar-me de como, quando ou mesmo precisamente onde travei conhecimento, pela primeira vez, com lady Ligéia. Desde então, longos anos decorreram, e os muitos sofrimentos por que passei perturbaram-me a memória. Ou talvez não possa recordar-me desses pormenores agora porque, na verdade, o caráter de minha bem-amada, seu raro saber, seu singular embora plácido tipo de beleza, a emocionante e aliciadora eloqüência da sua veludosa fala musical, tivessem conquistado meu coração tão furtiva e constantemente que mal me dei conta deles então.”
Edgar Allan Poe in Ligéia in Histórias Extraordinárias. Tradução de José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p.12.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h08
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
DIFERENÇA SEXUAL

“-Obama.
- Hillary.
- Chega de discutir política. Vamos ao cinema. Indiana Jones.
- Sex and the City.”
Fonte: Mike Smith in Las Vegas Sun, 3/6/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h00
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
NÓS CIGANOS

“Meu avô imigrante – Uma mostra em Gênova revive um passado de miséria e mortificação muito parecido com o dos atuais imigrantes.”
Fonte: Adriano Sofri in “Sì, gli zingari eravamo noi” [Sim, os ciganos éramos nós”], La Repubblica, 8/6/2008.
“Carissimo padrino, qui a New yorc questo gennaio a fatto un freddo terribile, che sembrava fosse la fine del mondo, era molto difficile potersi scaldare, in specie la notte. Io e la cugina Maria, in origine a questo freddo, abbiam pensato di passare al Matrimonio, che così esendo in due nel letto si potrà riscaldarci più bene».
“Querido padrinho, aqui em Nova Iorque fez um frio terrível nesse janeiro, que parecia o fim do mundo, foi muito difícil se esquentar, ainda mais à noite. Eu e a prima Maria, em função desse frio, até pensamos em nos casar, pois assim quem sabe, na mesma cama, nós possamos nos esquentar melhor”.
Euticchio Tabachi, originário da Valtellina (Lombardia), 25 de março de 1912 (fonte: Raffaele Niri in La Repubblica, 8/6/2008).
O que é um país maravilhoso? É quando, apesar de um governo fascista, apesar de um governo medíocre, apesar de um governo perverso, as instituições se levantam e dizem não ao totalitarismo, dizem não à estupidez, dizem não à babaquice. É o que acontece na Itália neste momento. Em um ato espetacular o magnífico Galata Museo del Mare de Gênova realiza uma belíssima mostra sobre os imigrantes italianos na América. São fotografias incríveis, cartas emocionantes – como a de Euticchio Tabachi acima citada – cartões postais, livros, filmes – muitos deles da indispensável Fondazione Paolo Cresci. Ora, é fácil perceber as razões que levaram o museu a decidir uma mostra dessas no momento em que o governo italiano sai às ruas caçando imigrantes africanos, romenos e ciganos, entre outros. Porém, para não deixar nenhuma dúvida, outra instituição italiana, o imprescindível La Repubblica, saiu ontem com seu caderno de domingo com a melhor manchete já dada pelo jornal:
|
Sì, gli zingari eravamo noi |
[“Sim, éramos nós os ciganos”]
A reportagem de Adriano Sofri e Raffaele Niri é daquelas para se emoldurar na sala, para se traduzir em fonte 50 em todos os jornais do mundo, para se ler nos cafés e universidades, para contar para as crianças na hora de dormir e para os adolescentes na hora de acordar. Essa é a minha Itália.


Escrito por Leonardo Ferrari às 08h14
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
DOR

Hillary Clinton. Fotografia de Doug Mills in The New York Times, 8/6/2008.
Ela não escolheu. Ela foi levada por uma escolha, ela foi puxada, ela foi dilacerada, ela foi torcida, ela não chegou. E ontem, dia derradeiro, dia da não glória, dia do não encontro, dia do fracasso à céu aberto, ontem, dia maldito, dia-noite, ela escolheu o negro. Negro-luto, negro-dor, negro-cruel. Tantas câmaras para isso? Ela cumpriu uma obrigação que não queria, ela falou quando só queria chorar, ela não estava mais lá. Só o negro-dor, só o negro-falta, só o negro-pérola. No fundo, porém, no íntimo, colado à pele, grudado no corpo, um pedacinho de azul. Essa é a sua escolha. Haverá amanhã. Isso ela disse sem dizer.

Hillary Clinton. Fotografia de Doug Mills in The New York Times, 8/6/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 09h03
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
 |
| [ ver mensagens anteriores ] |
|
 |


|
 |