O HOMEM QUE NÃO AMAVA AS MULHERES

Imagem reproduzida com a cortesia de Ian Fleming Publications Ltd/Ian Fleming Will Trust in Imperial War Museum, 28/5/2008.
“Em um artigo do Times Literary Supplement, Hugo Williams calcula que, nos 12 romances de Fleming, James Bond vai para a cama com 14 mulheres, enquanto que no cinema ele colecionou 58 mulheres, uma cifra de dar inveja ao catálogo de Leporello [personagem da ópera Don Giovanni de Mozart – ele é o criado de Don Giovanni ou Don Juan], mas não distante do próprio recorde conquistado por Fleming. Aqui há material para um psicanalista. O escritor não amava as mulheres – e parece que ele construiu a personagem “M” com base em sua mãe, uma mulher autoritária que fez ele abandonar um amor juvenil -; ele se comportava como se o seu alter-ego, 007, apressado e logo entediado. Ele pedia logo a uma mulher se ela queria fazer amor, sem bate papo [em italiano, a expressão belíssima é “senza giri di parole”] e, se recebia um não pela frente, passava logo à seguinte. Em “Cassino Royale”, seu primeiro livro, ele já conta essa “parábola convencional” desse modo: “O encontro é em uma festa, no restaurante, no táxi, no apartamento dele, no apartamento dela, o fim de semana no mar, os álibis furtivos e o adeus impaciente debaixo da chuva ou defronte à porta”.”
Fonte: Alessio Altichieri in Corriere della Sera, 28/5/2008.

Escrito por Leonardo Ferrari às 06h24
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QUANDO O URGENTE FAZ ESQUECER O IMPORTANTE
Entendeu? Você será para sempre um “operational” enquanto tiver “gaps” – em bom português, enquanto sua competência for manca, for faltante, for perneta, for capenga, for troncha, for esquálida – em resumo, enquanto humano existir nessa sua “performance”. Agora, lá no “strategic”, ante-sala do céu, é só fazer o “modeling” da sua (in)competência anterior, e aí, de modelagem em modelagem, de “learning” em “learning”, o que restar de você chegará no “goal” da “corporate”.
Na mesma edição do El País de hoje, saiu um artigo memorável da professora Adela Cortina, de Ética e Filosofia Política da Universidade de Valência, sobre essa “tendência”, essa “moda”, essa “corrente prá frente” chamada “desenvolvimento das competências”. É impressionante como esse discurso absolutamente pobre, ignorante e bobo se disseminou no Brasil, não só nas indústrias – onde é de praxe os “treinamentos” para “vestir a mesma camisa”, pisar nas mesmas linhas pintadas no chão da fábrica, cantar o “hino” de manhã cedo, se “motivar para o sucesso”, mas, pasme o leitor, pelas universidades e escolas - não seriam novas fábricas? Um trecho desse magnífico artigo:
“Os novos ares insistem em preparar os alunos para desenvolver competências, tanto nos estudos técnicos como também nas ciências e nas humanidades. O velho debate sobre se educar consiste em formar ou em informar saiu de moda, porque já sabe qualquer professor ou mestre que o seu objetivo agora é preparar meninos e meninas competentes. Competentes para quê? Para desempenhar funções [“ocupaciones” no original] designadas pelo mercado de trabalho, é óbvio.
É por causa disso que, se você tem que desenhar um plano de estudos de qualquer nível educativo ou de pós-graduação, o trabalho mais longo e complicado será não o que se refere aos conteúdos das matérias, mas sim aquele que se relaciona com as “competências”. Para quê deve ser competente o egresso?
A competência é, ao que parece, um conjunto de conhecimentos, habilidades e atividades, necessários para desempenhar uma função dada e produzir um resultado definido. Eu consultei um colega de Pedagogia, excelente profissional, e, com uma boa dose de ironia, ele me apresentou um exemplo muito instrutivo: alguém é competente para fazer a cama quando sabe o que é um lençol, um colchão, o que são as fronhas, ou seja, se ele percebe qual o jeito de melhor estendê-las e, além disso, se lhe parece que no final ficou bem, sem desalinho e sem que pareça desigual. Era só um exemplo, mas, é claro, extensível a atividades mais complexas, como construir pontes e rodovias, elaborar produtos transgênicos, responder a uma denúncia, argumentar diante de uma petição, curar uma doença e tantas outras atividades que correspondem a quem tem um trabalho [“puesto de trabajo” no orignial]. Preparar pessoas para que ocupem cargos no trabalho parece urgente.
Porém, segue pendente aquela pergunta de Ortega sobre se a preocupação pelo urgente não nos está fazendo perder a paixão pelo importante, ou seja, se na escola o aluno deverá ser ensinado a fazer tarefas como manejar o computador ou conhecer os sinais de trânsito, coisa que os estudantes irão aprender de qualquer maneira por sua conta e risco, ou se há que incluir no curriculum as matérias de Humanidades, que preparam o sujeito para extrair sentido da história, para o domínio da língua, para ter a capacidade de criticar, de refletir e de argumentar. Essas não são competências para desempenhar uma função, mas sim capacidades do caráter para dirigir a própria vida. Nada mais, nada menos.
Por outro lado, se insiste, com razão, que o conjunto da educação deve se voltar a formar bons cidadãos. Ora, isso não é nenhuma profissão, mas sim uma dimensão da pessoa que lhe permite conviver com justiça numa comunidade política. Não tanto viver em paz, que pode ser a dos cemitérios ou a dos amordaçados, mas sim conviver com a idéia da justiça como um valor irrenunciável. Para isso, faz falta aprender a lidar com a vida em comum, desde o conhecimento da história compartilhada, a degustação da língua, o exercício da crítica, a reflexão, a arte de apropriar-se de si mesmo para levar adiante a vida, a capacidade de apreciar os melhores valores. Coisas, sobretudo as últimas, que não pertencem ao domínio das competências, e sim da formação de um caráter.”
Fonte: Adela Cortina in La educación como problema, El País, 28/5/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 10h57
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AS TENAZES

“Na Itália, acaba de ser publicado um pequeno livro, com menos de 90 páginas que, à contra-corrente do momento atual, expressa a nostalgia pela vocação ideológica perdida [de Maio de 68]. Se chama “La Tenaglia”[“As Tenazes”] (ed. Laterza, 2008) e foi escrito por Natalino Irti, professor de Teoria do Direito da Universidade La Sapienza de Roma. A tese do professor Irti, exposta com nobre contundência panfletária, é que as ideologias – com seus excessos e dogmatismos - foram modelos de filosofia política em ação e com vocação prática de transformar ou ao menos orientar a convivência futura da sociedade. O seu desaparecimento (ou proscrição, diríamos melhor) deixou o campo político livre ao puro e simples pragmatismo, com sua linguagem do dia a dia que esquece sem escrúpulos os laços de hoje com ontem e sobretudo com o amanhã. “A linguagem política – afirma Irti – se faz na mesmice-pragmática e somente no dia-a-dia: declarações, entrevistas, desmentidos, arrependimentos, abandonos, regressos. Nenhuma direção, nenhum para onde que vincule no tempo a vontade e seja explicado e proposto aos eleitores”.
Apagadas as ideologias, que sempre tiveram uma consciência histórica, o pragmatismo só relembra o passado naquilo que lhe convém e sobretudo não se compromete a desenhar nenhum perfil do futuro. Quando chegar o amanhã, veremos o que fazer...Perdido assim seu horizonte de projetos, a política se encontra presa por essas tenazes que dá título ao ensaio de Irti: entre a economia e a religião, ou seja, entre a tecnocracia e a clerocracia. Só a Bolsa e a Igreja se atrevem a trazer certezas definitivas, que assombram com suas exigências aos governantes relativistas enquanto se oferecem como a única referência fundamental aos cidadãos. É esse o triste senão do pragmatismo pós-moderno, ou seja, ele desvaneceu a verdade, mas não se livrou dos dogmas...”
Fonte: Fernando Savater in Regreso al Futuro, El País, 28/5/2008.

Fonte: verbete “tenaz” do Wikcionário, consultado em 28/5/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h38
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IMOBILIZADO

Laurence Olivier e Vivien Leigh. Fotografia de Edward Quinn. Cortesia Edward Quinn Archive (© edwardquinn.com).
“Mas – e queira Deus que este seja o mais assustador “mas” desta curta vida – certo dia, no início da primavera, “ouvi uma jovem se queixando”. Creio que acabávamos de almoçar; sei que estávamos sentados à mesa no pequeno jardim de inverno de Durham Cottage e que era dia. Baixou como um raio do céu azul, como uma gota d’água e eu quase pensei não ter ouvido direito: “Eu já não amo você”.
Devo ter expressado o golpe que sentia, pois ela prosseguiu: “Não há outra pessoa, não é nada disso, eu ainda o amo, mas de modo diverso, como se você fosse meu irmão” – ela usou de fato estas palavras. Tive a impressão de que me haviam condenado à morte. A força central da minha vida, o meu coração na verdade, era como se o mais hábil cirurgião do mundo o tivesse removido. Fiquei de respiração cortada, mas não arquejante, como se tudo no meu íntimo se tivesse imobilizado, senti-me como um peixe num refrigerador. Era inconcebível que aquela imensa, gloriosa paixão deixasse de existir um dia, como uma cabeça coroada após a execução. Pouco tempo depois um amigo me disse que eu a devia ter expulso de casa, ou então saído eu próprio; que nunca deveria ter suportado em silêncio tal humilhação por uma questão de aparências.
O fato é que não podia me mover; levei algum tempo para entender, apreender e acreditar totalmente. Meu recente título de cavaleiro, que fora conferido pouco antes de embarcar para a Austrália, era para mim sagrado; não conseguiria infligir às pessoas tão grosseira decepção. Guardei no meu íntimo a dor e, conforme Viven tinha sugerido, continuamos como se tudo estivesse na mesma. Irmão e irmã, hum!
Um tanto para minha surpresa, ocasionais atos de incesto não eram desencorajados. Achei que aprenderia a suportar aquela fria e estranha vida, contanto que não contasse com voltar a ser feliz. Certo grau de cinismo até que ajudava. E havia o meu trabalho, embora sua chama parecesse ter-se esgotado; teria que descobrir outra inspiração, pois aquela evolara-se.”
Laurence Olivier in Confissões de um Ator. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 2ª. ed., 1982, pp. 130-131.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h13
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