Blog do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba (PR) leobelferrari@uol.com.br


O DESTINO ABERTO DA VIDA

Fotografia de Oleg Titjaev.

 

“Tchekhov sempre desprezou essa linha reta entre dois pontos”, escreveu outra grande discípula de Tchekhov, Grace Paley, em um de seus próprios contos, referindo-se à velha noção de trama. “Não por razões literárias, mas sim porque isso desvanece toda esperança. Todos os seres, reais ou inventados, merecem o destino aberto da vida.”

 

Grace Paley citada por Leopoldo Brizuela in La Nacion, 31/5/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h10
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ENQUANTO ISSO, LÁ NA ÚLTIMA FRONTEIRA...

“Beep! Deve ter existido vida há muito tempo! Beep! Mas agora não há mais sinal de vida! Beep! Câmbio!”

Fonte: John Darkow in The Columbia Daily Tribune, Missouri, 28/5/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 09h38
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O HOMEM QUE NÃO AMAVA AS MULHERES

Imagem reproduzida com a cortesia de Ian Fleming Publications Ltd/Ian Fleming Will Trust in Imperial War Museum, 28/5/2008.

“Em um artigo do Times Literary Supplement, Hugo Williams calcula que, nos 12 romances de Fleming, James Bond vai para a cama com 14 mulheres, enquanto que no cinema ele colecionou 58 mulheres, uma cifra de dar inveja ao catálogo de Leporello [personagem da ópera Don Giovanni de Mozart – ele é o criado de Don Giovanni ou Don Juan], mas não distante do próprio recorde conquistado por Fleming. Aqui há material para um psicanalista. O escritor não amava as mulheres – e parece que ele construiu a personagem “M” com base em sua mãe, uma mulher autoritária que fez ele abandonar um amor juvenil -; ele se comportava como se o seu alter-ego, 007, apressado e logo entediado. Ele pedia logo a uma mulher se ela queria fazer amor, sem bate papo [em italiano, a expressão belíssima é “senza giri di parole”] e, se recebia um não pela frente, passava logo à seguinte. Em “Cassino Royale”, seu primeiro livro, ele já conta essa “parábola convencional” desse modo: “O encontro é em uma festa, no restaurante, no táxi, no apartamento dele, no apartamento dela, o fim de semana no mar, os álibis furtivos e o adeus impaciente debaixo da chuva ou defronte à porta”.”

Fonte: Alessio Altichieri in Corriere della Sera, 28/5/2008.

 



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h24
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QUANDO O URGENTE FAZ ESQUECER O IMPORTANTE

 

Entendeu? Você será para sempre um “operational” enquanto tiver “gaps” – em bom português, enquanto sua competência for manca, for faltante, for perneta, for capenga, for troncha, for esquálida – em resumo, enquanto humano existir nessa sua “performance”. Agora, lá no “strategic”, ante-sala do céu, é só fazer o “modeling” da sua (in)competência anterior, e aí, de modelagem em modelagem, de “learning” em “learning”, o que restar de você chegará no “goal” da “corporate”.   

 

                Na mesma edição do El País de hoje, saiu um artigo memorável da professora Adela Cortina, de Ética e Filosofia Política da Universidade de Valência, sobre essa “tendência”, essa “moda”, essa “corrente prá frente” chamada “desenvolvimento das competências”. É impressionante como esse discurso absolutamente pobre, ignorante e bobo se disseminou no Brasil, não só nas indústrias – onde é de praxe os “treinamentos” para “vestir a mesma camisa”, pisar nas mesmas linhas pintadas no chão da fábrica, cantar o “hino” de manhã cedo, se “motivar para o sucesso”, mas, pasme o leitor, pelas universidades e escolas - não seriam novas fábricas?  Um trecho desse magnífico artigo:

“Os novos ares insistem em preparar os alunos para desenvolver competências, tanto nos estudos técnicos como também nas ciências e nas humanidades. O velho debate sobre se educar consiste em formar ou em informar saiu de moda, porque já sabe qualquer professor ou mestre que o seu objetivo agora é preparar meninos e meninas competentes. Competentes para quê? Para desempenhar funções [“ocupaciones” no original] designadas pelo mercado de trabalho, é óbvio.

         É por causa disso que, se você tem que desenhar um plano de estudos de qualquer nível educativo ou de pós-graduação, o trabalho mais longo e complicado será não o que se refere aos conteúdos das matérias, mas sim aquele que se relaciona com as “competências”. Para quê deve ser competente o egresso?

         A competência é, ao que parece, um conjunto de conhecimentos, habilidades e atividades, necessários para desempenhar uma função dada e produzir um resultado definido. Eu consultei um colega de Pedagogia, excelente profissional, e, com uma boa dose de ironia, ele me apresentou um exemplo muito instrutivo: alguém é competente para fazer a cama quando sabe o que é um lençol, um colchão, o que são as fronhas, ou seja, se ele percebe qual o jeito de melhor estendê-las e, além disso, se lhe parece que no final ficou bem, sem desalinho e sem que pareça desigual. Era só um exemplo, mas, é claro, extensível a atividades mais complexas, como construir pontes e rodovias, elaborar produtos transgênicos, responder a uma denúncia, argumentar diante de uma petição, curar uma doença e tantas outras atividades que correspondem a quem tem um trabalho [“puesto de trabajo” no orignial]. Preparar pessoas para que ocupem cargos no trabalho parece urgente.

         Porém, segue pendente aquela pergunta de Ortega sobre se a preocupação pelo urgente não nos está fazendo perder a paixão pelo importante, ou seja, se na escola o aluno deverá ser ensinado a fazer tarefas como manejar o computador ou conhecer os sinais de trânsito, coisa que os estudantes irão aprender de qualquer maneira por sua conta e risco, ou se há que incluir no curriculum as matérias de Humanidades, que preparam o sujeito para extrair sentido da história, para o domínio da língua, para ter a capacidade de criticar, de refletir e de argumentar. Essas não são competências para desempenhar uma função, mas sim capacidades do caráter para dirigir a própria vida. Nada mais, nada menos.

         Por outro lado, se insiste, com razão, que o conjunto da educação deve se voltar a formar bons cidadãos. Ora, isso não é nenhuma profissão, mas sim uma dimensão da pessoa que lhe permite conviver com justiça numa comunidade política. Não tanto viver em paz, que pode ser a dos cemitérios ou a dos amordaçados, mas sim conviver com a idéia da justiça como um valor irrenunciável. Para isso, faz falta aprender a lidar com a vida em comum, desde o conhecimento da história compartilhada, a degustação da língua, o exercício da crítica, a reflexão, a arte de apropriar-se de si mesmo para levar adiante a vida, a capacidade de apreciar os melhores valores. Coisas, sobretudo as últimas, que não pertencem ao domínio das competências, e sim da formação de um caráter.”

Fonte: Adela Cortina in La educación como problema, El País, 28/5/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 10h57
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AS TENAZES

            “Na Itália, acaba de ser publicado um pequeno livro, com menos de 90 páginas que, à contra-corrente do momento atual, expressa a nostalgia pela vocação ideológica perdida [de Maio de 68]. Se chama “La Tenaglia”[“As Tenazes”] (ed. Laterza, 2008) e foi escrito por Natalino Irti, professor de Teoria do Direito da Universidade La Sapienza de Roma. A tese do professor Irti, exposta com nobre contundência panfletária, é que as ideologias – com seus excessos e dogmatismos - foram modelos de filosofia política em ação e com vocação prática de transformar ou ao menos orientar a convivência futura da sociedade. O seu desaparecimento (ou proscrição, diríamos melhor) deixou o campo político livre ao puro e simples pragmatismo, com sua linguagem do dia a dia que esquece sem escrúpulos os laços de hoje com ontem e sobretudo com o amanhã. “A linguagem política – afirma Irti – se faz na mesmice-pragmática e somente no dia-a-dia: declarações, entrevistas, desmentidos, arrependimentos, abandonos, regressos. Nenhuma direção, nenhum para onde que vincule no tempo a vontade e seja explicado e proposto aos eleitores”.

         Apagadas as ideologias, que sempre tiveram uma consciência histórica, o pragmatismo só relembra o passado naquilo que lhe convém e sobretudo não se compromete a desenhar nenhum perfil do futuro. Quando chegar o amanhã, veremos o que fazer...Perdido assim seu horizonte de projetos, a política se encontra presa por essas tenazes que dá título ao ensaio de Irti: entre a economia e a religião, ou seja, entre a tecnocracia e a clerocracia. Só a Bolsa e a Igreja se atrevem a trazer certezas definitivas, que assombram com suas exigências aos governantes relativistas enquanto se oferecem como a única referência fundamental aos cidadãos. É esse o triste senão do pragmatismo pós-moderno, ou seja, ele desvaneceu a verdade, mas não se livrou dos dogmas...”

Fonte: Fernando Savater in Regreso al Futuro, El País, 28/5/2008.

Fonte: verbete “tenaz” do Wikcionário, consultado em 28/5/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h38
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SUBLIMAÇÃO

Iberê Camargo - Figuras - 1987
óleo sobre tela - 78 x 55 cm.

 

“Pinto porque a vida dói.”

           

Iberê Camargo citado por Maria Hirszman in “Obra feita de tinta, gesto e pensamento”, O Estado de São Paulo, 25/5/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h09
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IMOBILIZADO

Laurence Olivier e Vivien Leigh. Fotografia de Edward Quinn. Cortesia Edward Quinn Archive (© edwardquinn.com).

 

“Mas – e queira Deus que este seja o mais assustador “mas” desta curta vida – certo dia, no início da primavera, “ouvi uma jovem se queixando”. Creio que acabávamos de almoçar; sei que estávamos sentados à mesa no pequeno jardim de inverno de Durham Cottage e que era dia. Baixou como um raio do céu azul, como uma gota d’água e eu quase pensei não ter ouvido direito: “Eu já não amo você”.

         Devo ter expressado o golpe que sentia, pois ela prosseguiu: “Não há outra pessoa, não é nada disso, eu ainda o amo, mas de modo diverso, como se você fosse meu irmão” – ela usou de fato estas palavras. Tive a impressão de que me haviam condenado à morte. A força central da minha vida, o meu coração na verdade, era como se o mais hábil cirurgião do mundo o tivesse removido. Fiquei de respiração cortada, mas não arquejante, como se tudo no meu íntimo se tivesse imobilizado, senti-me como um peixe num refrigerador. Era inconcebível que aquela imensa, gloriosa paixão deixasse de existir um dia, como uma cabeça coroada após a execução. Pouco tempo depois um amigo me disse que eu a devia ter expulso de casa, ou então saído eu próprio; que nunca deveria ter suportado em silêncio tal humilhação por uma questão de aparências.

         O fato é que não podia me mover; levei algum tempo para entender, apreender e acreditar totalmente. Meu recente título de cavaleiro, que fora conferido pouco antes de embarcar para a Austrália, era para mim sagrado; não conseguiria infligir às pessoas tão grosseira decepção. Guardei no meu íntimo a dor e, conforme Viven tinha sugerido, continuamos como se tudo estivesse na mesma. Irmão e irmã, hum!

         Um tanto para minha surpresa, ocasionais atos de incesto não eram desencorajados. Achei que aprenderia a suportar aquela fria e estranha vida, contanto que não contasse com voltar a ser feliz. Certo grau de cinismo até que ajudava. E havia o meu trabalho, embora sua chama parecesse ter-se esgotado; teria que descobrir outra inspiração, pois aquela evolara-se.”

         Laurence Olivier in Confissões de um Ator. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 2ª. ed., 1982, pp. 130-131.



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h13
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SUBLIME

“S-Curve” (2006), um dos “não-objetos” do escultor Anish Kapoor. Cortesia Regen Projects in The New York Times, 25/5/2008. 

“Acho que trabalho num espaço entre a ilusão da pintura e a realidade da escultura.”

Fonte: entrevista de Anish Kapoor a Antonio Gonçalves Filho in O Estado de São Paulo, 22/1/2007.



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h29
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