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PARA NAYARA, COM AMOR

Irina Dvorovenko na noite de gala de abertura do American Ballet Theater, apresentando “Splendid Isolation III”, de Jessica Lang. Foto de Sara Krulwich in The New York Times, 21/5/2008.
Querida Nayara,
Parabéns. Agora que você parte para Nova Iorque, agora que você deixa a Escola de Dança do Teatro Guaíra para ser professora no American Ballet Theater, agora que você segue o rumo do teu coração, dos teus pés, da tua alma, agora que os nova-iorquinos terão o privilégio de ver aquilo que nós, curitibanos, já chorávamos ao te ver dançar, já ficávamos em estado de êxtase, já perdíamos o caminho de casa após dançar contigo, após seguir cada movimento seu, agora, querida Nayara, eu quero te desejar o avesso dessa fotografia de Irina Dvorovenko. Veja, Nayara, ela dança uma “esplêndida solidão”. Querida Nayara, pois eu te desejo bons encontros neste seu novo caminho. Nada de solidão. Talvez os encontros não sejam esplêndidos, talvez os encontros não sejam máximos, talvez os encontros não sejam um sucesso, mas o que um encontro tem de bom é que ele exige da gente o movimento. Repare, querida Nayara, repare que Irina está parada na fotografia. É esse o esplendor do sintoma que paralisa a gente, que impede o passo, que atrapalha o tropeço. Não, querida Nayara, fuja desse esplendor. Foi aí que Narciso se acabou, foi aí que Narciso se afundou. Aos encontros, querida Nayara, aos encontros. Falhos, feios, bons, regulares, mas encontros. É o que eu te desejo, com todo meu amor.

Nayara Macedo fotografada por Caio Vieira in Gazeta do Povo, 20/5/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h33
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A DIFERENÇA SEXUAL, NUA E CRUA

Fotografia: EFE.
Essa é do imprescindível Marcelo Tas:
“Feriadão em Mônaco
Juro, não sou rapaz de muitos luxos ou badalações. Mas não recusaria um convitinho para ver a corrida de domingo em Mônaco. Alguém com um sobrando?” (fonte: blog do Marcelo Tas).
Ora, na hora eu pensei em outra coisa – ou será sempre a mesma? Eis aqui um retrato da diferença sexual. Enquanto que os homens dão voltas nas mulheres para se exibir, para medir quem vai mais rápido, quem chega antes, quem ganha mais, quem tem o maior, quem será o “vencedor”, as mulheres contemplam, usufruem do espetáculo, relaxam e...gozam.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h51
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AMOR CARIOCA

Por que eu amo O Globo? Será porque eu amo o Rio de Janeiro? Ou será porque esse jornal é diferente dos outros, não é igual aos outros? Eu acho que pelas duas razões. Vejamos a edição de hoje. Em que outro jornal eu terei Alessandra Negrini em página inteira fazendo a Leonardo Lichote esta declaração sobre sua personagem no filme de Júlio Bressane?
“Cleópatra é o mito que simboliza o poder feminino, o desejo feminino, mas é também um ícone kitsch. Por isso, criei um sotaque um quê latinizado, com cheiro de perfume barato” (Fonte: entrevista de Alessandra Negrini a Leonardo Lichote in O Globo, 23/5/2008).
Maravilhoso isso! “Um cheiro de perfume barato”! Só essa magnífica Alessandra Negrini poderia interpretar isso!
Mas aí, eu sou chacoalhado subitamente pela charge do indispensável Chico Caruso na primeira página. Sublime! Nosso Indiana Minc está meio atrapalhado no ministério do meio-ambiente. Conseguirá resolver isso?

Fonte: Chico Caruso in O Globo, 23/5/2008.
Eu já estava indo embora do jornal quando fui premiado com a belíssima crônica de Arthur Dapieve sobre a minissérie “Em Tratamento” que a HBO apresenta de 2ª. à 6ª. feira, das 20:30hs. até 21:00hs. Eis um trecho:
“A série também não está ali para iluminar a vida do espectador. A câmera nunca escapa dos consultórios. Eventos relatados não ressurgem em flashbacks. A claustrofobia mais os silêncios eloqüentes, os diálogos cortantes e o desempenho dos atores seguram esta série na qual, a rigor, nada acontece. A não ser na cabeça dos personagens. E na de ao menos um telespectador, Herr Doktor... Peguei-me fazendo análise por correspondência.
‘Em Terapia’ não diverte, não tem um núcleo cômico, não tem vilão nem mocinho, não iria bombar na TV aberta. Vai na contramão de uma sociedade cada vez menos disposta a meter o dedo nas próprias feridas. Quem não pensa na vida é mais feliz, Herr Doktor? Tenho essa impressão. Mas afetar felicidade a todo custo é bom? Viver no coma leva do Prozac...Ei, existe uma série chamada “Personal Trainer”? Eu sei, o nosso tempo acabou” (fonte: Arthur Dapieve in “Escuridão, Escuridão”, O Globo, 23/5/2008).
Olha, depois de encontrar Alessandra, depois de ver nosso Indiana e depois de refletir com Dapieve, posso começar o dia. Obrigado O Globo. Muito obrigado.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h45
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SOBRE O TEMPO

Fotografia de Tomasz Urban, Lodz, Polônia.
A psicanalista francesa Sol Aparício escreveu um trabalho sobre o tempo que é de uma beleza, de uma poesia e de uma leveza inesquecíveis. Sublime é pouco para esse texto maravilhoso. Que magnífica reflexão! Belíssimo fragmento do que é uma análise. Sol Aparício é daquelas imprescindíveis.
“ ‘Eu me sinto muito triste desde que morreu minha vó’. Preocupada em localizar o acontecimento no tempo, perguntei a ela quando havia ocorrido essa morte. Recebi a seguinte resposta: “recentemente, faz muito tempo”. Esse breve intercâmbio se repetiu diversas vezes no curso das entrevistas que se sucederam e acabou adquirindo para mim o valor de um verdadeiro dito espirituoso, cujo efeito cômico respondia, me parece, ao inadequado da pergunta feita. Sem dúvida não havia nada para entender na resposta, fora desse dizer que fazia da morte de sua avó um acontecimento para essa mulher.
A liberdade que ela parecia outorgar-se a respeito dos imperativos de ordem lógica, à qual a alfabetização submete a todos os seres falantes desde a mais ceda idade, me havia deixado perplexa. Só algum tempo depois, esse “recentemente, há muito tempo” – figura singular, ao mesmo tempo elipse e antítese, e também holofrase – terminou por ressoar como uma frase à Novarina [Valère Novarina, teatrólogo. Uma de suas obras se chama “Vousqui habitez le temps” – “Vocês que habitam o tempo”]: “recentemente (diz a dor que eu sinto), faz muito tempo (diz você que habita o tempo)”.
Pois bem, que coisa foi essa intervenção, senão um chamado e uma lembrança do tempo, quer dizer, do discurso?
Habitar o tempo. Não é isso, por acaso, o específico de todo sujeito falante? E isso desde o momento em que o tempo, como sustentava Kant, antes que um dado da experiência, é uma forma a priori de nosso entendimento. Anterioridade da lógica sobre o vivido. Universalidade da categoria, à qual ninguém escapa. De modo que não haveria, propriamente falando, nenhuma possibilidade de um “fora do tempo” para os corpos falantes. E, porém, a experiência de análise é uma experiência da insistência sempre presente daquilo que perdura, daquilo que é inalterável, daquilo que aparentemente é desabitado pelo tempo.
Aí se entende a pertinência dessa observação de Lacan: “é o que nos indica que a função-tempo”, diz ele referindo-se à repetição, “é aqui de ordem lógica, e ligada a uma colocação do real em forma significante” [nota deste blog: essa citação se encontra no seminário 11 de Lacan, final do capítulo III (na edição de 1988, p. 43)]. Habitar o tempo é prestar-se a essa colocação. Neste caso, na análise. Seja qual for “o real” que o sujeito terá de se ver, a regra analítica o submete à tarefa de colocá-lo em forma significante, de submetê-lo ao tempo do discurso. Daí essas mais ou menos bruscas aparições, no curso de uma análise, não tanto do sentimento do tempo, mas sim da repentina consciência de sua existência.
O sentimento do tempo do qual fala o poeta é o da passagem do tempo. Sentimento freqüentemente melancólico, cheio de queixas e recordações. Às vezes, com um pouco de angústia. Ele supõem sempre a antecipação, a retroação, a rememoração, ou, dito de outro modo, a estrutura da memória freudiana.
É preciso então distinguir esse sentimento, que sem dúvida torna presente o tempo, dos momentos da realização do tempo, cujo efeito de desejo é evidente. Pensemos nos momentos em que surge a idéia de um final, com freqüência sob a forma da morte: “Se vou morrer, é melhor que eu acorde”, diz um analisante perdido em seus temores hipocondríacos. Lhe ocorre, então, isso: “que perda de tempo é a neurose!”. Para outro, recém liberto de uma grave doença, e depois de muitos anos de análise, a coisa se formula no apressado anseio de “passar a Outra coisa”. Pressa de passar ao ato, diríamos, de cortar pela raiz o gozo do sintoma. Súbita presença do desejo, para o qual, como dizia Blanchot [Maurice Blanchot], “o fazer supera o ser”.
O discurso analítico que, aos olhos do leigo, parece não dar importância ao tempo, de fato leva o sujeito a levá-lo em conta. Esse “levar em consideração o tempo” constitui, por outro lado, a condição de possibilidade de um viver em seu tempo.
Como se consegue isso? Dando a volta exigida pela submissão ao tempo do sujeito, tempo próprio que determina a incompreensível duração de seu percurso. Que esta duração não possa ser antecipada não quer dizer que o analista a ignore. Muito pelo contrário. Essa é a condição para que consiga apreender a estrutura lógica na qual ele mesmo se encontra. Quer dizer, essa é a condição de situar os instantes de ver, de respeitar os tempos para compreender e de reconhecer os momentos de concluir, que não aconteceriam sem a sua presença.”
Fonte: Sol Aparício in “Tiempo: Lógica y Sentimiento”. Tradução para o espanhol de Aníbal Dreyzin. Publicado no blog de Pablo Peusner em 22/5/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 09h42
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O DESEJO EM SUA MAIS COMPLETA TRADUÇÃO

Fonte: Laerte in Folha de São Paulo, 21/5/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 09h13
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AS FORÇAS DA LIBERDADE

Fonte: Glauco in Folha de São Paulo, 16/5/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h09
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PERDA TOTAL

Barbara Stanwick, 1937, Everett Collection in The New Yorker, 30/4/2007.
“Mão-boba no seguro
Seguradoras já estão oferecendo a empresas aqui no Brasil apólices para cobertura de indenizações com assédio sexual corporativo. Os primeiros contratos prevêem três modalidades de sinistro: cantada, mão-boba e perda total.”
Fonte: Tutty Vasques in O Estado de São Paulo, 17/5/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 12h47
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SIM

Sim, ela me disse. Sim, o nome foi de uma artista francesa, cantora e a dançarina de strip-tease. Sim, ela também me falou das fogosas e furiosas. Sim, do vale dos amantes também. Sim, aquela primeira vez dela eu também fiquei sabendo. Sim, foram vários encontros. Sim, ela continua assim assim. Sim, eu sim. Sim.

Escrito por Leonardo Ferrari às 08h41
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GTA V

Fonte: El País, 18/5/2008.
Vergonha. Como cidadão europeu, o que eu sinto agora é vergonha. A Europa sofre de amnésia. Uma amnésia bem seletiva, é verdade, mas é amnésia. Trata-se de uma Europa que esqueceu o que seus pais fizeram, esqueceu o que seus avós fizeram, esqueceu do que foi. Quem “esquece” – e isso é implacável – acaba por ser lembrado pelo inconsciente. Nada desaparece do inconsciente. A idéia bem ocidental de que o tempo “cura” é refutada, vinte e quatro horas por dia, pelo inconsciente. Eis aí em cima um retrato doloroso do retorno do “esquecido”, do retorno do recalcado. Esse retrato é uma vergonha, é um escândalo, é um símbolo de nosso tempo. Que a Alemanha apareça aqui como o país com o maior número desses “centros” não deixa de ser desconcertante. “Centros de Detenção” está aqui no lugar do que antes se chamava “Campos de Concentração”. Para aqueles que acham isso um exagero, eu sugiro a leitura do magnífico filósofo italiano Giorgio Agamben, uma voz solitária e radical nesse deserto de idéias que se converteu a Europa.
Em seu novo samba, o indispensável Caetano Veloso também grita: “O fato de os americanos / Desrespeitarem os direitos humanos / Em solo cubano / É por demais forte simbolicamente / Para eu não me abalar / Guantánamo / Base de Guantánamo / Base da baía de Guantánamo” (citado por Arnaldo Bloch na ótima Logo de O Globo de hoje, “A lucidez dos velhos ‘doidões’ “). Guantánamo, outro exemplo de campo de concentração.
Sobre isso, interessantíssimo que o herói do jogo de videogame “GTA IV” (“Grand Theft Auto IV”), Niko Bellic, seja um imigrante sérvio às voltas com a descoberta que o paraíso que seu primo lhe descreveu, a cidade de Liberty City – qualquer semelhança com Nova Iorque não é uma mera coincidência – não é nem city, nem liberty, nem paraíso. E aí, no meio dessa selva, Niko Bellic vai ter que se virar. E aí, a violência explode como uma das “armas” de Niko Bellic para existir nessa “sociedade” onde a política não mais existe, onde o Estado aparece como “inimigo”, onde os “campos de detenção” ameaçam o sujeito de todos os lados. Gonzo Suárez no El País faz uma bela comparação desse videogame com os mensageiros de antigamente, quando os reis mandavam matar o mensageiro para que a má notícia não se espalhasse – na comparação de Suárez, o equivalente seria proibir a venda desse jogo.
Pois é. As mensagens estão no ar, estão nos corpos, estão nas telas (novas teletelas?), estão nos games, estão na esquina, estão de volta. Deram uma tarefa para o tempo que ele não foi capaz de fazer. O tempo não faz passar o mal-estar. O mal-estar retorna – nem que seja com outro mensageiro. Cabe ao sujeito a tarefa de decidir o que fazer com o mal-estar. Fazer análise é um caminho. Varrer para debaixo do tapete ou enfiar a cabeça no buraco...do videogame é outra. São caminhos bem diferentes. A Europa atual dá vergonha. Ela optou pelo videogame.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h46
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