Blog do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba (PR) leobelferrari@uol.com.br


QUANDO A PSICANÁLISE NÃO É O MELHOR TRATAMENTO

             Eu não sei se foi o repórter ou se foi o tradutor. Mas terapia para “exorcisar”, para “evacuar” as angústias recalcadas? Olha, esse negócio de exorcismo e de evacuação não é com a psicanálise não. Por exemplo, se os cidadãos de Vierzon viessem me pedir ajuda, eu não lhes indicaria o divã. Não. Eu lhes indicaria sair correndo depressa – e sem olhar para trás – disso que eles teimam em chamar de cidade. Saiam daí, cidadãos de Vierzon. E rápido! 

 

“Cidade vai fazer terapia para exorcizar má reputação
Frédéric Potet
Enviado especial a Vierzon (departamento do Cher),  Le Monde in UOL, 17/5/2008.

Não faltam aqueles que acharão isso totalmente esdrúxulo, enquanto outros - quem sabe - verão certa utilidade neste exercício. Os habitantes de Vierzon - uma subprefeitura do departamento do Cher situada a 210 km ao sul de Paris - estão convidados para participarem de um exercício um tanto singular, neste sábado, 17 de maio: uma sessão de psicanálise coletiva, em escala da cidade. Cerca de cinqüenta cadeiras de praia, dobráveis e de tecido, além de um divã de estilo Le Corbusier, serão instalados no decorrer da tarde numa esplanada situada à proximidade da estação ferroviária. O objetivo: ajudar Vierzon a "se livrar das suas neuroses profundas", conforme explica um panfleto.

Trajando blusas brancas e gravatas, cinqüenta alunos do colégio Edouard Vaillant - um para cada cadeira - se preparam para ouvir o que têm a dizer seus "pacientes" voluntários, os quais eles filmarão sob a supervisão de um produtor de vídeos profissional e de um "psicanalista urbano". Um documentário - provisoriamente intitulado "Destinação Zon" - será realizado para rematar esta experiência. O ponto de partida da empreitada é um postulado tão difuso quanto impalpável: a suposta "má reputação" que carrega esta ex-cidade operária de 28.500 habitantes, mundialmente célebre por conta de dois versos cantados por Jacques Brel em 1968 ("T'as voulu voir Vierzon/ Et on a vu Vierzon?"; Cê quis ver Vierzon / E a gente viu Vierzon) - e mundialmente suspeita de ser tediosa a gosto?

O happening de sábado deve ser realizado ao lado do edifício que simboliza a cidade: a antiga sede da Sociedade Francesa de Material Agrícola e Industrial. Dotado de uma fachada no estilo Eiffel (estruturas metálicas inventadas pelo engenheiro Gustave Eiffel, que construiu a Torre), esta fábrica produziu tratores (de cor verde) que fizeram a glória de Vierzon durante várias décadas, até se ver forçada a fechar suas portas no início dos anos 1960. Após ter sido comprado pela sociedade americana Case, que também encerrou suas atividades, em 1995, o edifício hoje não passa de uma carcaça abandonada invadida pelas ervas daninhas, com a exceção de uma parte que foi renovada, onde um cinema foi instalado recentemente.

Tudo em Vierzon é muito parecido com este local. Os planos de demissão coletiva e o êxodo de muitas empresas que fugiram dos elevados encargos trabalhistas sangraram gravemente a tradição industrial (porcelana, equipamentos automobilísticos?) desta cidade cuja população não pára de encolher. De fato, Vierzon perdeu 4.000 habitantes desde 1990 e conta, proporcionalmente, 50% a mais de habitantes com idades acima de 60 anos do que a média nacional. A taxa de desemprego pode de fato parecer relativamente moderada (8,5%), mas trata-se de uma aparência enganadora: "Se considerarmos que todas as pessoas ativas foram embora, é normal que ela não seja mais elevada", constata com frieza o jovem prefeito do PCF (Partido Comunista Francês), Nicolas Sansu, 40 anos, que recuperou a administração deste antigo baluarte comunista no primeiro turno das recentes eleições municipais.

Vierzon "cidade vermelha"; Vierzon "cidade morta"; Vierzon "cidade onde não há nada para se fazer", a não ser "ir ao bistrô" e "ficar olhando para os carros que passam"? Tais foram os comentários que o grupo de colegiais vierzonenses já registrou por ocasião de uma investigação prévia que eles realizaram, com uma câmera a tiracolo, pelas ruas da cidade ao longo dos últimos meses.

Contudo, enquanto os depoimentos aflitos não param de se acumular, vale acrescentar que este pequeno universo interiorano não é de todo cinzento: "Vierzon é uma cidade de proletários que não têm trabalho, uma cidade que está envelhecendo e vai perdendo a sua identidade, mas é também uma cidade onde existe uma energia, com a condição de saber procurar por ela", comenta, por exemplo, o dono de um bar do centro. "O problema é que o número de habitantes está diminuindo, e, portanto, há cada vez menos projetos, e cada vez menos energia no final. A cidade perdeu a confiança que a caracterizava".

Foi precisamente para fazer ressurgir esta "confiança" que David Legrand e Laurent Petit, o produtor de vídeos e o psicólogo que enquadram os alunos do liceu Edouard Vaillant, imaginaram este projeto de introspecção coletiva. "Com toda certeza, o nosso objetivo não é de incentivar as pessoas a se comprazerem com a má imagem que Vierzon pode vir a ter em outros lugares, mas sim de fazer com que elas ponham para fora tudo aquilo que não vai bem e tentem evacuar essas angústias recalcadas. Esta cidade possui ambientes extraordinários, principalmente em razão do seu passado industrial. O seu entusiasmo está simplesmente soterrado", explica David Legrand, que, anos atrás se ilustrou de uma pasta de colegial com vídeo embutido que permite apresentar filmes para pedestres. (...)

Tradução: Jean-Yves de Neufville para UOL. 



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h46
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POR QUEM OS SINOS DOBRAM?

Primeira página do La Repubblica, 16/5/2008.

 

Nesta hora cruel em que acampamentos de ciganos são incendiados em Nápoles, em que imigrantes africanos, romenos, albaneses são confinados em “centros de internamento” -  o eufemismo pós-moderno para campos de concentração – pela Itália inteira, nesta hora terrível em que os fascistas retornam ao poder, é a hora de quem não é fascista se manifestar.  

 

“Há muitos anos, em Nova Iorque, conversei com um taxista que tinha um nome de difícil decifração, e ele me esclareceu que era paquistanês. Me perguntou de onde eu vinha, e eu lhe disse que da Itália, então ele quis saber quantos éramos e ficou muito espantado que fôssemos tão poucos e que a nossa língua não era o inglês.

         Finalmente, me perguntou quais eram os nossos inimigos. Diante de meu espanto, ele com muita paciência me disse que gostaria de saber com quais povos nós estávamos em guerra há séculos por reivindicação territorial, ódios étnicos, permanentes violações de territórios e assim por diante. Eu lhe disse que não estávamos em guerra com nenhum outro povo. Então, com muita paciência, ele me explicou que queria saber quais eram os nossos adversários históricos, aqueles que nos matavam continuamente e nós a eles. Eu lhe repeti que não tínhamos inimigos assim, que a última guerra já tinha acabado há cinqüenta anos – e que ela tinha começado com um inimigo e terminado com outro.

         Ele não ficou satisfeito. Como é possível que um povo não tenha inimigos? Saí do táxi deixando-lhe dois dólares de gorjeta para compensá-lo de nosso indolente pacifismo. Depois me ocorreu subitamente que coisa eu deveria ter respondido, ou seja, de que não é verdade que os italianos não tenham inimigos.

         Se nós não temos inimigos externos ou se não há acordo para estabelecer quais são, é porque nós estamos permanentemente em guerra uns com os outros, o inimigo é interno.”

 

Fonte: Umberto Eco in L´arte sublime di denigrare il nemico, La Repubblica, 16/5/2008.

 

“Anni fa a New York sono capitato con un tassista dal nome di difficile decifrazione, e mi ha chiarito che era pakistano. Mi ha chiesto da dove venivo, gli ho detto dall´Italia, mi ha chiesto quanti siamo ed è stato colpito che fossimo così pochi e che la nostra lingua non fosse l´inglese.

Infine mi ha chiesto quali sono i nostri nemici. Al mio «prego?» ha chiarito pazientemente che voleva sapere con quali popoli fossimo da secoli in guerra per rivendicazioni territoriali, odi etnici, continue violazioni di confine, e così via. Gli ho detto che non siamo in guerra con nessuno. Pazientemente mi ha spiegato che voleva sapere quali sono i nostri avversari storici, quelli che loro ammazzano noi e noi ammazziamo loro. Gli ho ripetuto che non ne abbiamo, che l´ultima guerra l´abbiamo fatta cinquanta e passa anni fa, e tra l´altro iniziandola con un nemico e finendola con un altro.

Non era soddisfatto. Come è possibile che ci sia un popolo che non ha nemici? Sono sceso lasciandogli due dollari di mancia per compensarlo del nostro indolente pacifismo, poi mi è venuto in mente che cosa avrei dovuto rispondergli, e cioè che non è vero che gli italiani non hanno nemici.

Non hanno nemici esterni, e in ogni caso non sono mai in grado di mettersi d´accordo per stabilire quali siano, perché sono continuamente in guerra tra di loro.”

Fonte: Umberto Eco in L´arte sublime di denigrare il nemico, La Repubblica, 16/5/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h43
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AS FORÇAS OBSCURAS

Fonte: Jean-Jacques Sempé in Piauí 20, maio/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h42
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APAIXONADOS

Heidi Hanson. 

“O pé da Gata Borralheira entrou perfeitamente no sapato de cristal, que parecia feito à sua medida, e a madrasta e as filhas choraram de desespero.

         Pouco tempo depois a Gata Borralheira e o Príncipe casaram. Nunca houve um casamento tão magnífico! E os apaixonados viveram felizes, durante muitos e muitos anos.”

         Espere. Mas não era para sempre?



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h41
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DEVASTADOR

Fonte: Clay Bennett in Chattanooga Times Free Press, 13/5/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h48
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ANIVERSÁRIO

Fonte: Deng Coy Miel, Cingapura, 11/5/2008.

No 60º aniversário de fundação de Israel, a revista Piauí traz uma reportagem excelente de Yonatan Mendel sobre o que significa ser jornalista em Israel. A grande contradição é que só em uma democracia uma reflexão e publicação dessas é possível. Por exemplo, um jornalista árabe que escrevesse uma crítica dessas sobre o modo do jornalismo árabe tratar o conflito, não teria a menor chance de ser publicado. Aliás, o autor seria preso imediatamente. O mesmo raciocínio vale para o artista Deng Coy Miel. Basta lembrar das charges sobre Maomé e sua polêmica na Dinamarca.Agora, a questão trazida por Mendel é excelente. Será que o preço da democracia deve ser a mentira, deve ser a ocultação da verdade, deve ser a hipocrisia?

         “Quando se trata de “segurança”, não há tal liberdade [de imprensa]. Só há “nós” e “eles”, as Forças de Defesa de Israel, FDI, e o “inimigo”. O discurso militar, o único discurso permitido, triunfa sobre qualquer outra narrativa. Não que os jornalistas israelenses cumpram ordens ou um código escrito: apenas preferem pensar coisas boas das suas forças de segurança.

         Na maioria das matérias sobre o conflito há duas partes em luta: as Forças de Defesa de Israel de um lado e os palestinos de outro. Quando um incidente violento é relatado, as FDI confirmam ou o Exército diz, mas os palestinos alegam: “Os palestinos alegaram que um bebê ficou gravemente ferido pelos disparos das FDI”. Isso é alguma invenção? (...)

         O Exército israelense nunca mata ninguém intencionalmente, muito menos comete homicídio – uma situação a qual qualquer outra organização armada invejaria. Mesmo quando uma bomba de 1 tonelada é jogada sobre uma densa área residencial de Gaza, matando um homem armado e catorze civis inocentes, inclusive nove crianças, ainda assim não são mortes intencionais nem homicídio: são assassinatos dirigidos. Um jornalista israelense pode dizer que os soldados das FDI atingiram palestinos, ou que os mataram por engano, e que os palestinos foram atingidos, ou foram mortos ou mesmo que encontraram a morte (como se estivessem procurando), mas homicídio está fora de cogitação. (...)

         Há também os próprios territórios ocupados. Notavelmente, não há territórios ocupados em Israel. O termo é ocasionalmente usado por algum colunista ou político de esquerda, mas no noticiário ele inexiste. No passado, foram chamados de territórios administrados, para esconder o fato real da ocupação. Foram então chamados de Judéia e Samaria. E, na grande imprensa israelense de hoje, são chamados de os territórios (Ha-Shtachim). O termo ajuda a preservar a noção de que os judeus são as vítimas, o povo que age apenas em autodefesa, a metade mortal da equação, e que os palestinos são os agressores, os caras ruins, as pessoas que lutam por razão nenhuma.”

Fonte: Yonatan Mendel,  Vocabulário do Jornalismo Israelense in Piauí 20, pp. 27 e 29.



Escrito por Leonardo Ferrari às 09h09
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CINDERELA

                Fátima Montenegro fotografada por Denis Rocco para Anna Ramalho in Jornal do Brasil, 11/5/2008.

                Querida Fátima,

             Houve uma que perdeu um sapatinho de cristal na volta para casa. Ato falho, é claro. Sem querer, ela quis. Agora, também houve um que quis encontrá-la de novo, que quis revê-la. É que ele também perdeu algo muito precioso. E aí só restou um sapatinho, único, uma só medida, aquilo que não mente, a marca desse desencontro. E assim, de prova em prova, de desajuste em desajuste, talvez não seja exatamente você, talvez você não caiba nessa conta, mas o fato é que ele também já não se fascina mais pela exatidão, ele já não se prende na certeza, ele já não anda em linha reta. Nem você está inteira ali, na ponta do pé. Há algo agora que te fascina o ouvido, que circula por ali. Um chamado? Um encanto? Vamos?



Escrito por Leonardo Ferrari às 10h05
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