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TRABALHO DE LUTO

Míssil balístico intercontinental Topol-M desfila na Praça Vermelha, ontem, em Moscou, durante a parada militar do Dia da Vitória, que celebra o fim da Segunda Guerra Mundial – Fotografia de Yuri Radobnov/AFP in O Globo, 10/5/2008.
O Brasil perdeu aproximadamente mil pessoas na Segunda Guerra Mundial. A Itália, 385.000. Os Estados Unidos, 298.000. A Alemanha, 4.200.000. A Polônia, 5.800.000. E a União Soviética, 18.000.000 (fonte: Encyclopaedia Britannica, consultada em 10/5/2008, verbete “World War II - Casualties”). Dezoito milhões. Então, como elaborar um luto desses? Talvez para um norte-americano, essa parada militar seja ridícula. Talvez para um brasileiro, isso pareça ditadura militar. Talvez para um alemão, isso não faça mais sentido. Porém, para os russos, são dezoito milhões de mortos. O Dia da Vitória fala dessa perda irreparável, fala dessa derrota de dezoito milhões de vidas. Para quem desfilam esses novos mísseis, esses novos tanques, esses novos caças, esses novos soldados? Eles desfilam para os vivos e para os mortos. Para além de qualquer ostentação fálica, para além de qualquer afirmação de poder, para além de qualquer ameaça.
Escrito por Leonardo Ferrari às 09h24
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ENQUANTO ISSO, NA ESTRÉIA DO NOVO GOVERNO RUSSO...

“- Não, o senhor Putin não está. Eu posso anotar o recado.”
Fonte: Patrick Chappatte in International Herald Tribune, 6/5/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h21
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ESPLÊNDIDA COLOSSO
Pelo menos para isso serviu. A resposta da ministra Dilma Rousseff entra para a história desse país. Eis aqui uma grande brasileira, de uma grandeza estranha à casa onde esteve ontem, de uma grandeza daquelas capazes de eliminar toda a grosseria, toda a prepotência, toda a babaquice dessa “oposição” ridícula e ignorante. Quem é José Agripino Maia perto de Dilma Rousseff? Serviu para isso. A grandeza de Dilma Rousseff merecia essa resposta brilhante, essa resposta magnífica, essa resposta-gigante. Dilma Rousseff é das brasileiras que não fizeram acordo com o mal da ditadura, é daquelas brasileiras que não se esqueceram o que significa honra, dignidade e luta. Dilma Rousseff é daquelas que nunca se conformaram com a miséria, com a opressão, com a injustiça que corrói esse país, que dilacera todas as relações sociais, que divide o Brasil entre aqueles que usufruem, aqueles que têm tudo, e aqueles que pegam as migalhas, aqueles que vivem nas sobras. Dilma Rousseff é uma inconformada, é uma mulher desadaptada, é uma ministra única, de um valor extraordinário. Dilma Rousseff é dessas brasileiras que mostram que o Brasil não é um país que vai dar certo. Com Dilma Rousseff, esse país já deu certo. Que resposta sensacional, que página da história se escreveu ontem com a indignação dessa mulher. E como saíram pequenos aqueles senadores, tão mesquinhos, tão narcisistas, tão neuróticos, tão perversos. Para isso serviu.
“- Não se dialoga com pau-de-arara e choque elétrico. Eu tinha 19 anos, fiquei três anos na cadeia e fui barbaramente torturada. Qualquer pessoa que ousar dizer a verdade aos seus interrogadores entrega pessoas para serem mortas. Eu me orgulho muito de ter mentido. Porque mentir na tortura não é fácil. Qualquer comparação entre a ditadura e a democracia só pode partir de quem não dá valor a democracia brasileira.”
Resposta da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff à José Agripino Maia (RN), líder do DEM no Senado.
Fonte: Zero Hora, 8/5/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h29
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SOBRE O MAL E AS CIÊNCIAS HUMANAS

Fonte: Christo Komarnitski, Bulgária, 5/5/2008.
Sobre o artigo de João Pereira Coutinho na Folha de ontem, eu gostaria de esclarecer o seguinte. A psicanálise não vai explicar o mal buscando causas exteriores ao sujeito. Essa é toda a sua diferença, é toda a sua beleza e é também toda a sua limitação, pois, se o sujeito em questão não fala em transferência para um analista – não basta a leitura de um depoimento prestado à polícia -, se não existir análise, então a psicanálise irá se parecer com as demais ciências. Porém, mesmo a hipótese dessa análise existir, o que a psicanálise pode tornar público em um congresso científico, por exemplo, ou em um artigo de jornal, não irá satisfazer esse “desejo” das pessoas não por uma “explicação” singular, particular, mas pela “total”, “A”explicação geral, válida para todos os humanos. A psicanálise não está interessada em explicar – por isso ela não é uma ciência. Seu objetivo é mudar o sujeito – por isso ela é uma ética. Agora, uma mudança ocorrida em uma análise pode se transformar em teoria, pode se transformar em um conceito. Por exemplo, o conceito de perversão. Um conceito psicanalítico não é “aplicável” a todos os sujeitos, mas ele possibilita um debate muito bom sobre a diferença. Porém, quando Coutinho termina o artigo declarando que existem atos “inexplicáveis”, ele ignora aí não só a psicanálise, como também todas as demais ciências humanas, como a sociologia, a filosofia e, incluo aí, uma parte importante da psiquiatria e da psicologia, cujo trabalho justamente é investigar aquilo que parece “inexplicável”. As causas exteriores ao sujeito existem e também contam na estruturação das causas “interiores”. Se recusar a investigar isso é cair no totalitarismo da conclusão “é o mal”.
JOÃO PEREIRA COUTINHO
Folha de São Paulo, 6/5/2008
As caves austríacas
VIRGEM SANTÍSSIMA: mas alguém é capaz de me explicar o que se passa com a Áustria? Sim, sei: crimes existem em toda a parte, cometidos por todas as pessoas. Mas existe um padrão nos crimes austríacos que seria loucura não notar. Uns tempos atrás, o mundo ficou em choque com a história de uma criança de 10 anos que, certo dia, a caminho da escola, foi seqüestrada por um técnico de computadores. A criança ficou na cave durante oito anos de recorrentes abusos. Seu nome era Natascha Kampusch e a história emocionou os europeus. Não foi caso único. Nos arredores de Linz, terra que no passado ficou célebre por um certo austríaco de bigodinho ridículo e particular ódio aos judeus, uma mãe aplicou o mesmo tratamento às três filhas por sete anos. E, agora, cereja no topo do bolo: Josef Fritzl, um eletricista que Lombroso teria enviado diretamente para a cadeia (que rosto, meu Deus, que rosto!), encerrou a própria filha na cave durante 24 anos e teve sete filhos dela. Um deles morreu e foi queimado pelo próprio pai/avô. Três viveram com ele à superfície. Três continuaram nas catacumbas e, sabe-se agora, tinham de assistir às violações da própria mãe. Em todas essas histórias, o que choca não é apenas a brutalidade dos crimes. É a dimensão espacial deles: cave, cave, cave. Se as coisas continuam, não excluo que o mercado imobiliário passe a adotar a última moda: "Vende-se moradia com quatro quartos, dois banheiros, uma sala e uma cave austríaca". As caves austríacas começam a ganhar fama internacional. Basta ler os jornais. Dia após dia, o caso é acompanhado com uma mistura de incredulidade e horror. E a pergunta, recorrente, na boca de jornalistas e leitores: como foi possível? Os meus amigos fazem a mesma pergunta. Eu escuto tudo e, sem pretender catequizar ninguém, acrescento: vocês já ouviram falar do problema do mal? Ninguém ouviu. Ninguém quer ouvir. A palavra "mal" não existe na gramática deles. O mal é resquício religioso, dizem alguns; para acreditar no mal é preciso acreditar em Deus, porque o mal, na ortodoxia, é um afastamento de Deus. Outros, mais racionalistas, retomam Sócrates e relembram as lições do velho filósofo. O mal não existe; quando as pessoas cometem maus atos, elas estão convictas de que cometem bons atos. O mal é produto da ignorância dos seres humanos, que se entregam às maiores atrocidades porque desconhecem a luz da racionalidade. E existe até uma minoria que prefere uma variante socrática mais adaptável aos dias de hoje. Não existe mal; existem más circunstâncias sociais, familiares, pessoais que explicam comportamentos "desviantes". O mal é fruto da pobreza. O mal é fruto de pais autoritários (ou demasiado permissivos). O mal é fruto da doença. O mal é loucura, o mal é trauma. Esquecendo a primeira tese, de contornos claramente religiosos (e subjetivos, e complexos), as duas últimas têm um ponto em comum: elas desculpam o criminoso ao imputaram culpas a terceiros. Se a minha ignorância, ou a minha pobreza, ou a minha doença, explicam os meus comportamentos malignos, eu não sou propriamente responsável por eles. Melhor: eu sou vítima deles, exatamente como as vítimas que eu mato ou torturo. E, no entanto, nenhuma das teses consegue desmentir a mais tenebrosa realidade: existem pessoas que cometem atos de gravidade extrema contra terceiros simplesmente porque querem e podem. Não são pobres, nem doentes, muito menos ignorantes: como diria George Steiner, é possível encontrar repetidamente casos de oficiais nazistas que escutavam uma ária de Schubert ao jantar e, no dia seguinte, gaseavam tranqüilamente seres humanos. A cultura não é passaporte para nada. Pode, aliás, representar o oposto: como acrescenta ainda o mesmo Steiner, em paradoxo que derrota qualquer humanista, o contato intenso com a alta cultura pode tornar os homens insensíveis para a realidade em volta. De que valem os gritos de meros anônimos quando nenhum deles será comparável ao grito lancinante que Lear lança à sua filha Cordélia? Desculpar o criminoso com razões exteriores ao próprio pode sossegar algumas almas otimistas. Infelizmente, será apenas uma ilusão. Uma ilusão que vai durar até ao dia em que, numa cave sombria, o mal que habita o coração dos homens voltar a emergir. Sem disfarce, sem desculpa e, pior para nós, sem qualquer explicação.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h32
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NAVEGAR É PRECISO

Só podia ser em Nápoles, e só no bairro Fuorigrotta. Trata-se de um anúncio de uma companhia de navegação. Genial! Eu associei imediatamente. O que é um navio senão uma metáfora daquilo que quer chegar na mulher amada, na mulher buscada, na mulher nunca encontrada...toda. A prefeitura de Nápoles quer retirar o cartaz devido a alguns acidentes de trânsito diante dele. Bobagem. Essa navegação é acidentada mesmo, é cheia de percalços, não há como penetrar nestas águas sem se perder. O nome do bairro fala exatamente disso: fora da gruta. Sensacional! Não tem tudo a ver com navegação?
Fotografia Ansa in Corriere della Sera, 5/5/2008.
Estava eu distraído em Nápoles quando percebi que havia Frank Rich em português. Frank Rich escreve todos os domingos no The New York Times e raras ele é republicado em jornal brasileiro. Ler Frank Rich é ingressar naquilo que os Estados Unidos têm de melhor, ou seja, uma rara combinação de inteligência, crítica e contundência. É pena que aqui no Brasil nós tenhamos nos acostumado com o pior dos Estados Unidos, seu pior cinema, sua pior literatura, sua horrorosa pseudo-cultura empresarial-religiosa e algumas migalhas do que se produz nas universidades de lá. Ler Frank Rich é espanar um pouco essa poeira superficial, todo esse lixo que representa apenas uma face dos Estados Unidos. Ler Frank Rich é navegar por outros mares, é aportar em outras praias.
O pastor branco radical que apóia McCain
FRANK RICH DO "NEW YORK TIMES" in Folha de São Paulo, 5/5/2008.
Entediado com essas repetições infindáveis do reverendo Jeremiah Wright [ex-pastor de Barack Obama]? Então, vá diretamente ao YouTube, procure por "John Hagee Roman Church Hitler" e seja recarregado por um novo choque de bobagens clericais. Você encontrará um televangelista branco, o reverendo John Hagee, palestrando em frente a um enorme diorama. Com uma caneta luminosa, ele aponta para a imagem de uma mulher com seios do tamanho dos de Pamela Anderson, segurando um cálice dourado nas mãos. A mulher é "a Grande Prostituta", explica Hagee, e ela está bebendo "o sangue do povo judeu". Isto porque "a Grande Prostituta" representa "a Igreja Católica Romana", que, na visão dele, teve sede de sangue judeu ao longo da história, das Cruzadas ao Holocausto. Hagee não é um excêntrico obscuro, mas o pastor de uma megaigreja texana. Em 27 de fevereiro, ficou ao lado de John McCain e endossou sua candidatura contra a de Mike Huckabee, o favorito dos conservadores religiosos, que ainda estava na disputa republicana pela candidatura à Casa Branca.
Katrina e gays Devíamos acreditar que nem McCain nem sua campanha tinham a mínima idéia das posições de Hagee? Este vídeo do YouTube, que não é o único, foi postado em 1º de janeiro, quase dois meses antes dos pronunciamento Hagee-McCain para a imprensa. Hagee está em múltiplas redes religiosas, incluindo duas aparições diárias na maior delas, "Trinity Broadcasting", que chega a 75 milhões de lares. Desde então, McCain ficou chocado em descobrir que seu aliado religioso fez muitos outros pronunciamentos bizarros. Hagee, é verdade, jamais culpou o governo americano por criar a Aids. Mas ele diz que Deus mandou o furacão Katrina para punir Nova Orleans por seus pecados, particularmente uma "parada homossexual marcada para a segunda na qual veio o Katrina". Hagee não fez essa acusação em circunstâncias obscuras. Ele a transmitiu em um dos programa de rádio de maior audiência nos EUA, "Fresh Air" da NPR, em setembro de 2006. Ele reafirmou o que disse há menos de duas semanas. Somente depois que um repórter perguntou a McCain sobre o sermão do Katrina, em 24 de abril, o candidato classificou as declarações como "absurdas" e o pastor se retratou. McCain diz que não endossa nenhum dos ataques de Hagee, não mais que Obama endossa os de Wright. Mas aqueles que tentam livrar McCain da acusação de ter abraçado o pastor problemático têm um argumento tênue, que pode ser resumido a isto: McCain não foi por 20 anos um fiel da igreja de Hagee. Fica implícito, na defesa, que McCain foi um recipiente passivo do apoio de um radical intolerante. Na verdade, de acordo com ele próprio, foi McCain quem procurou Hagee, que talvez seja mais conhecido por defender uma "guerra santa" preventiva contra o Irã. (Os discursos agressivos do pastor talvez nos digam mais sobre as posições políticas de McCain que os de Wright sobre as de Obama). Mesmo depois de os ataques de Hagee aos católicos reverberarem na mídia tradicional, McCain não o rejeitou, como fez Obama com o apoio não solicitado de Louis Farrakhan [líder do grupo Nação do Islã], após conclamações feitas pelo âncora da NBC Tim Russert e por Hillary Clinton. Os vídeos de Hagee nunca tiveram a mesma circulação dos de Wright. A grandiloqüência de um pastor branco destilando veneno não fica tão bem na TV quanto o entusiasmo teatral de um homem negro. Talvez por isso quase ninguém retransmita o diálogo entre Pat Robertson e Jerry Falwell, protótipo da alegação de Wright de que o 11 de Setembro foram as galinhas americanas "retornando ao galinheiro". Na conversa transmitida pela TV em 13 de setembro de 2001, eles responsabilizam os pró-aborto, as feministas, os gays e os advogados da União Americana de Liberdades Civis pelos ataques -Wright culpou a política externa americana.
Padrão duplo Caso o vídeo tivesse ressurgido no frenesi noticioso da TV a cabo, McCain talvez tivesse sido indagado sobre o porquê de não mais chamar esses pastores de "agentes da intolerância" e de ter escolhido aproximar-se de Falwell ao palestrar, em 2006, na Universidade Liberty, instituição batista fundamentalista criada pelo pastor. Dois pastores brancos ensandecidos não tornam um Wright correto. É inteiramente justo que qualquer eleitor pondere sobre o longo relacionamento entre Obama e seu pastor ao julgar sua adequação para a Presidência. É igualmente justa ponderar a capacidade de Obama de lidar com essa crise pessoal e política que tem respingado repetidamente. Qualquer que seja o veredicto, porém, é ingênuo fazer de conta que não há um padrão duplo operando. Se tivermos de julgar candidatos negros baseando-nos em seus apoiadores mais controversos -e à rapidez com que o renegam- deveríamos fazer o mesmo com os políticos brancos.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h03
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REVOLUÇÃO

Fotografia de Gilles Caron/Contact Press Images in Babelia, El País, 19/4/2008.
Ainda sobre o maio de 68, apareceu aqui na Gazeta do Povo um artigo bastante virulento contra a “herança”deste movimento. O artigo, assinado pelo professor de filosofia Carlos Ramalhete, intitulado “A herança de 1968”termina assim:
“Apresentemos, pois, aos felizes soixante-huitards seu netinho, de boca escancarada e quadril semovente, que berra de fome e sede da beleza e justiça que destruíram. Seu grito ressoa nos alto-falantes: “Créu, Créu, Créééu”.” (fonte: Carlos Ramalhete in “A herança de 1968”, Gazeta do Povo, 1/5/2008).
Curioso que esse estranho desabafo do professor Ramalhete (quem será?) tenha encontrado espaço tão nobre em Curitiba. Porém, pensei nele ao ler hoje o belíssimo artigo de um outro professor de filosofia, Fernando Savater. Reproduzo e traduzo alguns trechos, sem deixar de citar também o magnífico caderno Mais da Folha de São Paulo de ontem dedicado ao tema:
“Quando das comemorações do bicentenário da Revolução Francesa, perguntaram ao primeiro ministro chinês, Chu En-Lai, se ele acreditava que a Revolução trouxera benefícios à humanidade, ele respondeu, cauteloso: ''ainda é muito cedo para confirmar''. (...)
Após algumas décadas de pueris idealizações, ultimamente o Maio de 68 tem recebido muitas vaias e vem sendo desqualificado como a origem de todo o tipo de males: a falta de autoridade escolar, o excessivo individualismo, o frenesi hedonista, a permissividade, o utopismo político, etc... É verdade que a maior parte dessas acusações provém de gente que nem pela idade, nem por vontade, puderam participar daqueles acontecimentos, o que não as impede de falar com tão pouco conhecimento disso, como aquele que eu tenho sobre a guerra de Tróia. Mas, outros críticos estiveram ali, e inclusive foram os ativistas mais virulentos e agressivos, voltando agora essa fúria contra o que antes defenderam. Em política essa é uma lei infalível: sempre os mais extremistas são os que traem depois com maior afinco. Eles estão bem caracterizados no recente livro de Daniel Lindenberg sobre Maio (''Choses vues'', ed. Bartillat): ''Do esquerdismo eles só conservaram o pior: a violência verbal, a afetação da radicalidade e a obsessão do apocalipse, o tom altaneiro e o desprezo pelos fatos.''
No que costumam coincidir os defensores e os detratores é sobre o ''fracasso'' de Maio. Se referem que em nenhum lugar os rebeldes conquistaram o poder, pois De Gaulle venceu as eleições no mês seguinte, os espanhóis tardaram dez anos mais para conseguir uma constituição democrática, os poloneses não se livraram de sua ditadura até 21 anos depois, e assim por diante. Ora, essa é uma visão deformada sobre o que aquelas jornadas tiveram de característico.(...) Tal como disse Raymond Aron, a revolução – no sentido clássico e de guerra civil do termo – foi ''inencontrável''; mas, em troca, seus efeitos parcialmente revolucionários se encontram hoje em toda a parte, por exemplo, na condição das mulheres, na aceitação das opções sexuais antes perseguidas, na presença dos indivíduos no espaço público, no descrédito do militarismo e do totalitarismo comunista, nas ONGs, etc... Não quer dizer que o Maio de 68 tenha sido o único motor dessas transformações sociais (provavelmente ele foi só o sintoma mais agudo e decisivo delas), mas é evidente que ele se converteu no mais visível de seus emblemas coletivos. A ordem do mundo não se purificou de suas crueldades e injustiças, mas ela se tornou menos rígida e mais aberta. (...)
O melhor de 68? Que houve violência contra as coisas, mas pouca contra as pessoas...e nunca o terror. Além disso, ele foi internacionalista: o lema mais bonito segue sendo ''todos somos judeus alemães'' e as organizações ''sem fronteiras'' são devedoras de Maio (a primeira delas, inventada por um daqueles ativistas, Bernard Kouchner [se refere aos ''Médicos Sem Fronteiras''. Hoje, Kouchner é ministro de Sarkozy!]. Houve também porcaria, mas não essa que sai hoje da cloaca nacionalista. Em Roma, olhando para Dany, para Adam, para Paul e para Paolo [no seminário sobre Maio de 68, realizado em Roma no mês de abril – se refere a seus colegas de debate, Daniel Cohn-Bendit, Adam Michnik, Paul Berman e Paolo Flores d’Arcais], eu não me perguntava o que Maio de 68 fez pela humanidade, mas sim o que ele fez por cada um de nós, que ali estivemos. Eu acredito que ele nos deu uma certa liberdade de espírito e que “não morreremos idiotas”, ou pelo menos, não tanto como os outros. Mas, além disso, como não lembrar de meus próprios 21 anos, fervorosos e ingênuos, lutando contra a direita autoritária e clerical, porém me matando com a esquerda oficial? Caramba! Só agora me dou conta: igual a hoje! A minha foi, sem dúvida, uma vocação antiga...
Fonte: Fernando Savater in Un mes y cuarenta años, El País, 5/5/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h40
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ENQUANTO ISSO EM CAXIAS DO SUL...

Fonte: Iotti in Zero Hora, 4/5/2008.
Essa é para o meu querido primo Mário Augusto Ferrari, doutor em Direito, agora caxiense. Radicci, personagem deste imprescindível Iotti, age aqui advertido por Ronaldinho. Iotti nasceu em Caxias do Sul e lá ele deu origem a Radicci, uma caricatura do colono italiano que por lá aportou e se mesclou com toda a cultura do Rio Grande do Sul. Nesse cartum, Iotti traz uma questão excelente: por que os e as trabalhadoras da noite parecem não sentir frio nem gripar? É que eles e elas estão vestidos com algo muito precioso: uma fantasia. A fantasia é o calor que aquece e faz caminhar o desejo. Por mais escandaloso que ele seja, por mais bizarro que ele pareça, por mais estranho que ele se manifeste, por mais torto que ele consista. A fantasia é o verão que habita o mais íntimo da alma humana. Ela é o sol do humano, demasiado humano.
Escrito por Leonardo Ferrari às 09h47
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