Blog do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba (PR) leobelferrari@uol.com.br


A MELHOR PIADA

         A revista Time é a Veja dos Estados Unidos. É tão ruim quanto, é tão idiota quanto, é tão ridícula quanto. E, no entanto, para quem souber ler, é a melhor revista de humor de nossa época – seguida de perto pela Veja. Por exemplo, nessa edição de dar risada sobre as 100 “personalidades” mais influentes do mundo, a revista pediu a Silvio Berlusconi que escrevesse sobre George W. Bush. O resultado disso é para desopilar o fígado. Berlusconi é daqueles que, como diz Hamlet se referindo a Polônio, antes de mamar já cumprimentava a teta (na tradução magnífica de Millôr Fernandes, ed. L&PM). As pérolas devem ser digeridas aos poucos:

 

         “Serão os historiadores que farão o julgamento de sua presidência, mas, qualquer que seja o seu destino, eu tenho certeza de que Bush será lembrado como um líder de ideais, coragem e sinceridade”.

 

         Outra, imperdível:

 

         “Bush não será lembrado só como Comandante em Chefe, mas, acima de tudo, como o presidente que sentiu a obrigação moral de liderar o mundo livre.” (fonte: Silvio Berlusconi sobre George W. Bush in Time, 12/5/2008).

 

         É a revista mais engraçada do mundo. Os americanos, quando querem, são insuperáveis.



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h35
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GEORGIA

Georgia O’Keeffe fotografada por seu marido, Alfred Stieglitz em 1919.

 

CINCO CEGOS, Luis Fernando Verissimo in Zero Hora, 27/4/2008.

 

Todos conhecem a história dos cinco cegos e do elefante. Cada cego apalpa uma parte do elefante e identifica um animal diferente. Significando que as pessoas às vezes julgam coisas grandes por sua área limitada de conhecimento, ou que toda interpretação é subjetiva, ou que o pessoal do circo deveria controlar melhor o acesso a seus animais.         Homero, que ninguém sabe se existiu mesmo, mas, se existiu, era cego; James Joyce, que não era totalmente cego mas enxergava pouco; Jorge Luis Borges, Ray Charles e Mr. Magoo, por exemplo. Cada um apalpando uma parte do elefante.

Homero: “Não sei que bicho é, mas cabem muitos gregos nesta barriga...”

Joyce: “É um animalegórico bucefálico simbioselizando a androginergia da raçumanancial primEva, e estas bolas são decididamente irlandesas.”

Borges: “Este deve ser um dos 87 troncos que sustentam o Palácio dos Pavões em Samarkand, onde está a biblioteca circular do príncipe Rham’apu, onde há um único códice, que contém a única imagem conhecida do Palácio dos Pavões em Samarkand, onde está a biblioteca circular do príncipe Rham’apu, onde há um único códice que contém a única imagem conhecida do Palácio dos Pavões em Samarkand, onde está a biblioteca circular do príncipe Rham’apu, onde há um único códice que contém...Estranho: a imagem de um elefante!”

Mr.Magoo (que entrou na boca do elefante pensando que era o banheiro): “Help!”

Ray Charles (acariciando a cauda peluda do elefante): “Georgia!”

  

         O que é o significante? O significante é justamente aquilo em que cabem muitos gregos para Homero, aquilo que vai à Eva para Joyce, aquilo que dá voltas para Borges, aquilo que faz procurar um banheiro para Mr. Magoo e aquilo que faz pensar na Georgia para Ray Charles. Qual Georgia? Eis aqui a beleza do significante. Há um estado dos Estados Unidos, um estado de dura história racista, que proibiu Ray Charles em 1961 de cantar por lá – pois ele se recusou a fazer um show segregado, somente para uma platéia branca. Somente em 1979 foi revogada a proibição e então “Georgia” foi considerada a música oficial do estado – fato considerado por Ray Charles como a maior honra de sua vida. E há outras Georgias que se transformam em canções, que se mantém na mente e no corpo, que fazem pacíficos sonhos – e outros não -, que me conduzem de volta, sem paz, mais uma vez, e os outros olhos não serviram para nada, a essa canção de você, sem os outros braços a me segurar, sem essa luz da lua, cego de dor, nada simplesmente, nada just...o.   

 

Ray Charles - Georgia On My Mind

 

Georgia, Georgia, the whole day through
Just an old sweet song
Keeps Georgia on my mind
I say Georgia, Georgia
A song love you
Comes as sweet and clear as moonlight through the pines
Other arms reach out to me
Other eyes smile tenderly
Still in peaceful dreams I see
The road leads back to you
I say Georgia, oh Georgia, no peace I find
Just an old sweet song
Keeps Georgia on my mind



Escrito por Leonardo Ferrari às 09h08
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OS CHEIOS SÃO BEM PIORES

Fonte: The New York Times, 30/4/2008.

            Ontem, John Darnton, ex-correspondente do The New York Times, escreveu para o jornal um artigo muito interessante sobre o ditador Robert Mugabe, presidente do Zimbábue, intitulado “O Homem Vazio”. O relato do encontro de Darnton com o ditador é excelente, porém há uma idéia que percorre o final do artigo que é completamente falsa. É a idéia de que só um homem “oco” pode cometer atrocidades. Darnton não quis dizer isso, mas disse sem querer. Ora, a “ocacidade” de Mugabe me parece exemplar de um certo tipo de maldade, exceção no rol dos piores criminosos da humanidade. O que é Mugabe, esse “homem oco”, quando comparado a Hitler, esse sim um “homem cheio”? Ainda mais hoje em dia quando, em qualquer revista da moda, aparecem os mais estúpidos sacanas – das mais diversas ocupações - citando Shakespeare, Goethe, Platão, Aristóteles e, os mais perversos, Freud e Lacan. Os piores crimes contra a humanidade foram cometidos e continuam sendo cometidos por “homens cheios”. Os “ocos” são fichinha. O problema está nos “cheios”.

“Atualmente, enquanto observo Robert Mugabe fortalecer seus 28 anos de controle do Zimbábue enquanto as forças de oposição tentam abrir a força os seus dedos, eu não consigo parar de pensar em uma conversa que ele e eu tivemos certa vez sobre T.S. Eliot, poesia e o mês de abril.

Permita-me explicar. Na época, há quase 30 anos, Mugabe era um líder desconhecido de um movimento guerrilheiro que tentava derrubar o governo branco daquela que então se chamava Rodésia. Eu era um correspondente internacional do "The New York Times" que cobria a África. E a própria Rodésia era um posto avançado ilusório de vida colonial na qual muitos dos 270 mil brancos pareciam ignorar alegremente a guerra que transcorria em prol dos 7 milhões de negros. Eles passavam filtros solares à beira de piscinas, jogavam boliche na grama aparada do Parque Salisbury e escutavam diariamente o rádio para ouvir coisas como "Bote o lixo para fora" na língua shona.

Eu ouvi pela primeira vez sobre Mugabe em maio de 1976, no Quill Club do Ambassador Hotel, um bar onde a polícia do primeiro-ministro Ian Smith, simpatizantes da guerrilha, repórteres e agentes de várias facções suspendiam sua antipatia habitual para fofocar. Nós correspondentes estrangeiros costumávamos mencionar nomes do potencial líder supremo do novo país emergente como mineiros testando pepitas de ouro: seria Joshua Nkomo? Ndabaningi Sithole? Jason Moyo? Um correspondente do "Guardian" chamado James McManus, que parecia particularmente vistoso nos trajes de safári que todos nós usávamos, me puxou de lado e disse que estava apostando seu dinheiro em um novo sujeito chamado Robert Mugabe.

Ninguém sabia muito a respeito dele, ele disse, mas ele era um shona, o que significava que pertencia ao maior grupo tribal. Ele estaria operando a partir de Moçambique, na época notória como a vizinha comunista linha-dura da Rodésia. E, mais intrigante, ele era um intelectual, um professor que adorava a poesia de T.S. Eliot. Compreensivelmente, esta última informação me fisgou.

Um pouco depois eu me vi em Maputo, a adorável capital litorânea de Moçambique. Eu fiz algumas perguntas, me encontrei com algumas pessoas e paguei um jantar de camarões por um número de telefone valioso: o do escritório de Mugabe. Eu tentava marcar um encontro, mas o telefone não estava funcionando.(...)

À medida que a entrevista parecia estar chegando ao fim -ele olhava com freqüência para seu relógio- eu não conseguia evitar o sensação insatisfatória de que tinha obtido uma manchete, mas realmente não tinha conseguido aprender nada sobre o homem. Ele não tinha expressão. Sua voz não se alterava. Seus olhos pequenos não romperam a máscara de segurança plácida e mesmo, ao que parecia, de remota indiferença.

Certamente devia existir uma chave para destrancar este enigma. "Então", eu disse, "o que exatamente o atrai em T.S. Eliot?"

Ele me deu um olhar vazio e se levantou. "Você sabe", eu acrescentei, "'The Waste Land'".

A princípio, incompreensão passou pelo seu rosto, talvez até mesmo uma breve irritação. Eu persisti.

"'Abril é o mês mais cruel'", eu disse. "Eliot. O poeta. Você sabe." Enquanto ele me conduzia até a porta, seu espanto parecia se transformar em raiva. "Eu não tenho a menor idéia do que você está falando", ele disse, fechando a porta firmemente atrás de mim.”

Fonte: John Darnton in The New York Times, 30/4/2008 – traduzido por George El Khouri Andolfato para UOL, 1/5/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 09h47
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A VIDA COMO ELA É

Diane Keaton and Woody Allen in Annie Hall por Al Hirshfield, 1983.

                Se na vida ninguém tem a menor idéia do que está acontecendo, por que em um filme alguém deveria saber para onde vai o roteiro? Isso é Woody Allen. Genial, imprescindível, magnífico.

"Bruno Lester - Por que você não deixa seus atores lerem o roteiro inteiro?
Woody Allen
- Constatei que, se eles não sabem o que está acontecendo, não representam o resultado de suas ações. Eles não atuam sabendo para onde vai o roteiro -atuam de maneira muito espontânea, porque não têm certeza do que está acontecendo. E, de fato, os personagens não devem saber o que está acontecendo.

Bruno Lester - Você é conhecido por não dar muita direção.
Woody Allen
- Não gosto de sobrecarregar atores com muita conversa, análise e direção. Contrato as melhores pessoas, e então saio do caminho delas. Dou liberdade enorme aos atores."

Fonte: entrevista de Woody Allen a Bruno Lester da International Feature Agency in Folha de São Paulo, 30/4/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 10h46
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APESAR DE VOCÊ

Fonte : Rainer Hachfeld in Neus Deutschland, 29/4/2008.

           O novo prefeito de Roma acaba de ganhar sua mais completa tradução. O genial Rainer Hachfeld captou muito bem o "novo" tempo que se inicia na Itália. É a marcha do caranguejo em ação, como lembra Umberto Eco em seu último livro.

          "Em 64 a. C., Marco Túlio Cícero, orador já célebre, mas ainda "homem novo", estranho à nobreza, decidiu candidatar-se ao cargo de cônsul. O seu irmão, Quinto Túlio, escreve então um pequeno manual, dando-lhe conselhos para obter o sucesso no seu empreendimento. [...] Quinto está longe de imaginar um político que se dirige diretamente ao eleitorado, apresentando-lhe um projeto corajoso e enfrentando as críticas, na esperança de conquistar os eleitores com a força arrebatadora de uma utopia. A noção de um debate de idéias encontra-se totalmente ausente destas 20 páginas. Aliás, Quinto recomenda constantemente que o candidato não deve se comprometer com nenhum problema político, de modo a não criar inimigos. O candidato ideal deve apenas "mostrar-se" sedutor, fazendo favores a uns, prometendo-se a outros, sem jamais dizer não a alguém, porque basta deixar circular a idéia de que ele vai fazer alguma coisa. A memória dos eleitores é curta e, mais cedo ou mais tarde, eles irão se esquecer das velhas promessas. [...] Aqueles que, no textos de Quinto, são chamados de "salutadores" ["saudadores"], os que rendem homenagens, são hoje vistos como "terzisti" [nome dado às pessoas que não são de esquerda nem de direita, ou que mudam de orientação política conforme o partido que está no governo], enquanto que os "deductores", cuja presença contínua serve para atestar a autoridade do candidato, têm como função principal a de torná-lo visível, função esta ocupada hoje pela televisão. [...] Não podemos deixar de pensar que a democracia romana começou a morrer quando seus políticos perceberam que não precisavam levar a sério os programas, bastava que se esforçassem por parecer simpáticos aos olhos de seus (como chamá-los?) teleespectadores."

Fonte: Umbeto Eco in A Passo de Caranguejo (ed. Difel, Portugal. No Brasil saiu "Passo de Caranguejo" de Günther Grass, pela ed. Nova Fronteira, porém o de Eco ainda não foi publicado), citado por Francisco Nunes, 5/6/2007.



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h13
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EU SEI QUE VOU TE AMAR

 

            Cara Monica,

 

         Não vai dar. Eu sei que foi naquela Fontana que um desejo pedi ao jogar uma moedinha – e mais uma, e outra também. Foi de lá que você me convidou para entrar pela primeira vez, me chamou para vir, me implorou para permanecer junto de ti. Não. O que essa vecchia fontana agora conta não é mais uma história de amor, não é mais a história de nós dois, não é mais aquele beijo ali deixado, nada daqueles juramentos ali marcados. É verdade que por onde vou, i tuoi tramonti  seguem comigo – como esquecer? E também bem sei que Trinità dei Monti é o lugar onde a gente ainda vai se rever, vai se rebeijar, vai se refazer. Até lá, não vai dar. Roma já não é mais amor. Roma agora é arrivederci. Amaro onde era dolce, onde éramos a vida. Eu não pedi nada disso. Nem você. Arrivederci.

 

 

 

“A Direita conquista Roma”

Abaixo, à esquerda desta manchete, o artigo magnífico de Ezio Mauro, “Lição capital”:

“O resultado é claro: o Norte é da Liga [Liga Norte, partido fascista], o Sul é de Lombardo [Rafaelle Lombardo, novo presidente da Região da Sicília, fascista], Roma é da AN [Aliança Nacional, partido fascista] e a Itália é de Berlusconi [o fascista-mor]” – “Il risultato è chiaro: il Nord alla Lega, il Sud a Lombardo, Roma ad An, e l´Italia a Berlusconi.” (fonte: Ezio Mauro in La Repubblica, 29/4/2008).



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h26
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A PROFESSORA

A maravilhosa Lilian Lemmertz como Fräulein Elza no magnífico “Lição de Amor” (1975) de Eduardo Escorel.

 

            “Fräulein, pelos dias adiante, pensou duas vezes longamente no caso. Seriamente. Foi honesta. Resolveu ficar bem quieta e aceitar os oito contos. A missão dela não consistia em dirigir um ato: ensinava o amor integral, tão desnaturado nos tempos de agora!...Amor calmo, etc.(...) Professora de amor...porém não nascera pra isso, sabia. As circunstâncias é que tinham feito dela a professora de amor, se adaptara. Nem discutia se era feliz, não percebia a própria infelicidade. Era, verbo ser.”

 

         Mário de Andrade in “Amar, Verbo Intransitivo – Idílio”. Belo Horizonte: Itatiaia, 17ª. ed., 2002, p. 104.



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h56
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O PROFESSOR-ALUNO E A ALUNA-PROFESSORA

Carole Mallory.

 

         Me encantei com essa história. O escritor Norman Mailer manteve, durante dez anos, um amor, digamos, extra-conjugal, com a atriz Carole Mallory. Diz Mallory: 

         “Eu queria que ele me ensinasse a ser escritora. Ele era um dos melhores escritores dos Estados Unidos”. 

         Uma vez por semana o escritor ia visitá-la, lhe dava aulas de narrativa, almoçavam e passavam a tarde fazendo amor, até a próxima semana (fonte: Barbara Celis in El País, 26/4/2008).

         Há muito o que dizer sobre essa relação professor-aluna. Eis aqui o mestre, “um dos melhores”, segundo a própria aluna, “dando” aulas de narrativa – mas não é o sexo também uma narrativa? Não há nele prosa e poesia em abundância? – como, aliás, na linda crônica do Jabor musicada pela Rita Lee.

         Outra questão belíssima: se pela manhã era ele o professor, será que à tarde as posições não se invertiam? O mestre se tornava aluno e a aluna, professora?

         “E passavam a tarde fazendo amor”. Belíssimo!! Summa Cum laude!!



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h38
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