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INIMIGO RUMOR

Fonte: Jornal do Brasil, 19/4/2008.
Há epifanias esperando em cada esquina. Numa delas, eu topei com essa indispensável Juliana Krapp do Jornal do Brasil fazendo uma entrevista magistral com Carlito Azevedo. Quem é Carlito Azevedo? Carlito Azevedo é o homem que não é, é o editor de uma revista que não é revista. Chama-se “Inimigo Rumor” e está fazendo 10 anos de idade! Esplêndido! Espetacular! “Inimigo Rumor” é daquelas obras de arte para se emoldurar na sala, é daquelas obras-primas essenciais. Você vai desencontrá-la nas boas livrarias, pela editora 7 Letras e Cosac Naify.
Eu fico pensando na imensa desordem que “Inimigo Rumor” causa, na monumental confusão que “Inimigo Rumor” transporta. Na hora eu associo com o belíssimo “Rascunho” de Curitiba que é também dessa família. O que seria do mundo sem “Inimigo Rumor”, sem “Rascunho”? Não seria. “Inimigo Rumor” veio para errar por aí, veio para não ficar, veio para fazer nada.
Um pequeno trecho desta memorável entrevista, com direito a Paulo Leminski e não-tudo o mais:
“Juliana Krapp - O que a revista ganhou ou perdeu com o tempo?
Carlito Azevedo - Certa vez, em uma conferência, o mestre tropicalista Rogério Duarte foi apresentado como "o poeta, prosador, filósofo Rogério Duarte". Aí ele disse: "Não sei se sou poeta, não sei se sou prosador, não sei se sou filósofo. Não sei nem se sou Rogério Duarte". Acho que a revista perdeu a obrigação de ser a revista de poesia Inimigo Rumor. Ou seja, ganhou a possibilidade de ser uma reinvenção permanente de algo que, por acaso, continuará se chamando Inimigo Rumor.
Juliana Krapp - Se fosse para descrever a revista em poucas palavras...
Carlito Azevedo - Uma torre no centro do Rio de Janeiro transmitindo para corações conectados a mensagem: "Quem acerta o alvo, erra todo o resto".
Juliana Krapp - Só lê poesia quem faz poesia também? Quem são os leitores da revista?
Carlito Azevedo - Prefiro pensar como Paulo Leminski: o poeta está não só naquele que escreve, mas também naquele que lê. Quem lê poesia também vira, imediatamente, poeta, autor daquele poema ali, que só existe porque ele o está lendo, criando e recriando com sua leitura.”
Fonte: entrevista de Carlito Azevedo a Juliana Krapp in Jornal do Brasil, 19/4/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h52
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AQUELE BEIJO

Fotografia de Roberto Mignanego in Mostra “Baci Rubati” [“Beijos Roubados”], no Espaço Dynamo, praça Greco 5, Milão, Itália – publicada in La Repubblica.it em 17/4/2008.
Roberto Mignanego realizou essa obra-prima, essa obra de arte maravilhosa, capturou para sempre esse beijo roubado, esse beijo de repente, esse beijo-promessa, esse beijo-esperança, esse beijo que é toda a ternura, que é um pedaço do que poderá ser, que é um pedaço do que virá, que é um pedaço daquilo que é, que é um pedaço daquilo que foi, daquilo que restou de nós dois. O La Repubblica honrou Roberto com uma apresentação belíssima:
“São instantâneos da vida: momentos roubados de um modo muito particular. Roubados da banalidade das coisas, da velocidade da vida moderna, roubados do olho distraído que não olha mais para entender o que está acontecendo. Roberto Mignanego é, desse ponto de vista, um fotógrafo austero. E também austero no sentido da pesquisa meticulosa das coisas que não se podem perder, que não podem ser consumidas de modo banal.”
Fonte: La Repubblica, 17/4/2008.
Não há banalidade nesse beijo, não há velocidade, não há coisas. Esse instantâneo parou a morte, parou a passagem, parou o sem sentido, parou nós dois. Lá está Roberto, esse terceiro que interviu, esse terceiro que emoldurou, esse terceiro que agora conta essa cena do buraco da fechadura, essa cena em pleno expresso, em pleno dia – sim, pois foi de dia, foi no ônibus, foi bem assim que aconteceu. Não vimos Roberto, não vimos ao redor, não vimos coisa nenhuma – exceto nossas bocas, nossas línguas, nossos gostos, nossas buracos tocados sem nenhuma possibilidade de retorno, nossos navios queimados na praia, sem volta, sem recurso, sem rede de proteção. Caímos, nos arrebentamos, nos partimos – só para esse beijo e nada mais. Só para isso. Roberto Mignanego registrou nossos pedaços a vagar um dentro do outro – aí, agora, não importa o que você fez, não importa mais onde eu estou, não importa mais a crueldade do final – aí, agora, nós permanecemos, aí, nesse beijo, bem aí, nós fizemos o impossível. Aí.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h37
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A EMILIA-ROMAGNA RESISTIU

Fonte: El País, 16/4/2008.
Três excelentes análises sobre a Itália. No gráfico acima, minha Emilia-Romagna é uma das poucas regiões da Itália em que o fascismo não ganhou. Vignola resiste!! Abaixo, as brilhantes análises de Ezio Mauro no La Repubblica e de Gilles Lapouge no Estado de São Paulo:
“Em que consiste essa capacidade [de Berlusconi] de prender profundamente um País, de tê-lo em suas mãos? Em uma Itália que sequer revelou para si mesma a sua alma de direita e sempre a ocultou debaixo da ambígua complexidade da democracia-cristã, “il Cavaliere” [Berlusconi] criou um senso comum de rebelião e ordem que ele impulsiona e agita em função de etapas e conveniências, com total liberdade, porque não tem que responder a uma verdadeira opinião pública nem dentro do partido (que não celebra um congresso desde 1994), nem no país, pois lhe basta a adesão, o aplauso, a vibração do consenso, como acontece quando a política passa a ser celebrada em grandes eventos, quando os cidadãos se convertem em espectadores e os líderes se transformam em ídolos modernos, para usar a definição de Bauman. Ídolos talhados à medida de uma nova demanda, que já não acredita em formas eficazes de ação coletiva; ídolos que “não indicam o caminho, mas que se oferecem como exemplos”.”
“Cos´è questa capacità di mordere nel profondo del Paese, e di tenerlo in pugno? In un´Italia che non ha mai nemmeno rivelato a se stessa la sua anima di destra, ombreggiandola sotto l´ambigua complessità democristiana, il Cavaliere ha creato un senso comune ribelle e d´ordine, rivoluzionario e conservatore, di rottura esterna e di garanzia interna, che lui muove e agita a seconda delle fasi e delle convenienze, in totale libertà: perché non deve rispondere ad una vera opinione pubblica nel partito (che non ha mai avuto un congresso dal 1994) e nel Paese, bastandogli un´adesione, un applauso, una vibrazione di consenso, come succede quando la politica si celebra in evento, i cittadini diventano spettatori e i leader si trasformano in moderni idoli, per usare la definizione di Bauman. Idoli tagliati a misura della nuova domanda che non crede più in forme di azione collettiva efficace, idoli "che non indicano la via, ma si offrono come esempi".”
Fonte: Ezio Mauro in La Repubblica, 16/4/2008.
O risco de ser refém do racismo de Bossi
Gilles Lapouge* in O Estado de São Paulo, 16/4/2008
É a ressurreição de um político decadente, de 71 anos, cabelos tingidos e rosto mumificado por cremes – que, após dois anos de ausência, entra de novo na arena. Mas “Il Cavaliere Berlusconi” não é o único a ressuscitar. Seu principal aliado, Umberto Bossi, chefe de extrema direita da Liga do Norte, ex-ministro das Reformas, em 2003, está ainda mais milagrosamente conservado do que ele.
Bossi, embora jovem (67 anos), teve problemas cardíacos graves em 2005 e parecia ter desaparecido. Mas bastou que se falasse em eleições para o doente recuperar-se imediatamente. Berlusconi vai ficar “refém” de Bossi? Foi o que disse Walter Veltroni, o candidato de esquerda derrotado. Após a vitória, Berlusconi foi interrogado na TV sobre quem será o seu chanceler.
Ele pediu um segundo, para consultar Bossi, antes de dar o nome do indicado. Essa cena pode ser interpretada em dois sentidos opostos: ou os dois homens são “unha e carne”. Ou Berlusconi está sob vigilância. Não podemos esquecer que Bossi sempre foi um aliado temperamental; em 1994, foi ele quem afundou o primeiro governo Berlusconi.
Nestes últimos dias, as tiradas de Bossi acabaram incomodando Berlusconi. Bossi, que sonha com uma Itália reduzida apenas à Padânia (as províncias do norte: Piemonte, Lombardia, Veneza e Emília Romana), livre dos “vagabundos” da Itália do sul e até mesmo de Roma, exclamou: “Se for necessário, usaremos fuzis contra a gentalha de Roma.”
Berlusconi temeu o pior. E procurou desativar a granada sem trava que é Bossi, explicando que ele não será ministro por causa do “seu estado de saúde”. Bossi respondeu secamente, dizendo que passa muito bem.
Bossi é um grande talento em se tratando de insultos. Ele bate o próprio Berlusconi, que não é conhecido por sua delicadeza (Berlusconi, há alguns anos, não disse que os chineses cozinhavam as crianças na sopa?). Bossi não esconde a admiração pelo líder neonazista austríaco, Joerg Haider. O dois se encontram com freqüência. E têm em comum o gosto pelos festivais medievais, o horror aos africanos e à União Européia.
Há alguns anos, Bossi criou uma “Guarda Nacional da Padânia”: 300 “camisas-verdes”, encarregados do serviço da ordem e limpeza de cidades do norte. Limpeza do que? Dos imigrantes, prostitutas, drogados, homossexuais.
A eloqüência mirabolante de Bossi fez escola entre os seus partidários: o prefeito de Alessandra organiza concursos reservados aos “autóctones” (o que exclui até os italianos do sul). O prefeito de Treviso suprimiu todos os bancos públicos pois os imigrantes têm hábito de se sentar neles. Um membro importante da Liga do Norte, antigo vice-ministro da Educação passeia com um porco em Pádua, no terreno de uma futura mesquita.
Essa cultura do insulto que distingue a Liga do Norte poderá indispor Berlusconi? Enquanto forem apenas “palavras”, nenhum problema, já que ele também não prima pela delicadeza. Mas, mesmo sendo um homem de direita, Berlusconi se surpreende um pouco com Bossi.
Berlusconi não é um europeu fanático, mas em seus mandatos anteriores resignou-se à UE. Bossi é diferente. A Europa o deixa louco. Em 1986, assinou, com Haider, um pacto “contra Maastricht”, ou seja, contra o tratado que rege a UE.
O problema do fisco é um outro “abacaxi”. A Liga do Norte espuma de raiva ante à idéia de os ricos do norte pagarem pesados impostos para sustentar o miserável sul do país, que não é nem mesmo capaz de limpar suas ruas (como em Nápoles, que se afunda no seu lixo).
Enfim, o problema da imigração. Há alguns anos, Bossi queria o uso de metralhadoras ou até um canhão contra os barcos nos quais dezenas de imigrantes africanos tentam chegar às costas do sul da Itália. Berlusconi compartilha com seu amigo e rival dessa desconfiança dos imigrantes. Mas a dosagem de racismo não é a mesma. No caso de Berlusconi é mais o nervosismo, o desejo de reduzir, regular, uma imigração clandestina de fato exagerado e perigosa. Para Bossi, no entanto, é um ódio visceral, um racismo “de pele” que causa, certamente, um racismo político.
*Gilles Lapouge é correspondente em Paris
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h44
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VIGILANTE

Fonte: Jason Vogel in O Globo, 16/4/2008.
Ainda envolto neste luto infinito que a Itália me deixou, fui literalmente atropelado pela sensacional reportagem de Jason Vogel no Globo de hoje sobre o Vigilante Rodoviário. Espetacular! Muito antes da Família Soprano, só existia para mim este seriado. O Vigilante foi o meu herói. Ali estava um Brasil firme no volante, ali estava um Brasil forte e confiante, ali estava um Brasil amigo, um Brasil-farol, um Brasil que agia a todo instante. E o Lobo? Magnífico auxiliar. O Lobo foi o protótipo do assessor que dava certo, do assessor que trabalhava, do assessor antes dos aspones. Com o Lobo do lado, lá ia o Vigilante. Será que meu fascínio pelo Vigilante tinha a ver com seu nome, Carlos? É que Carlos para mim é o meu pai, o meu pai-herói de uma travessia difícil, de uma travessia para uma outra língua, de uma travessia para um outro mundo. Ali, com ele e com minha vó, eu comecei a soletrar I-t-á-l-i-a pela primeira vez. Mas era na tv, quando o Vigilante entrava em ação, que eu imaginava o que era preciso fazer no Brasil, na Itália, em Carazinho. Era preciso combater o mal, onde ele estivesse. Era preciso seguir pelas rodovias, era preciso ser audaz, era preciso agir. Com o Vigilante eu aprendi um país, eu aprendi uma história, eu aprendi uma vida.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h33
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ALEGRIA

Alinne Moraes.
Ontem, quando recebi o resultado das eleições na Itália, uma profunda tristeza aconteceu. Aí, sem nenhuma esperança, fui surpreendido por esta Sílvia magnificamente interpretada por Alinne Moraes. Quando esta mulher, traída, pisada, abandonada por este Ferraço (que nome excepcional!) vivido admiravelmente por Dalton Vigh (é o papel de sua vida!), resolve se entregar para o motorista João Batista, em uma admirável interpretação de Júlio Rocha, em um motel chamado “Love Game” [“Jogo do Amor”], em uma cena dirigida de forma perfeita por Wolf Maia e equipe, em um texto de uma ironia maravilhosa, em um texto deste Aguinaldo Silva gênio, deste Aguinaldo Silva que joga a vida como ela é diante de nós, que brinca com as palavras, que nos envolve nessas duas, três, quatro caras de uma força imprescindível, foi aí que minha alegria retornou.
Sílvia, que entregou toda a sua vida a Ferraço – e foi desvirginada por ele -, agora se vê desprezada de forma cruel, de forma cínica, da pior forma possível (é a especialidade de Ferraço). Sílvia decide se vingar. Por que João Batista? Aqui emerge mais uma vez todo o respeito de Aguinaldo Silva com a psicanálise. O pai de Sílvia, já morto na história, se chama João. João Pedro. Lá vai esta bela mulher de capote em pleno verão esperar o João...Batista na rua (como uma prostituta) e aí seguem para o motel. Lá, João Batista arranca o que havia debaixo do capote pensando encontrar a nudez de Sílvia. Não. O que ele encontra é a fantasia dessa mulher. A fantasia que precisa de um escravo para ser vivida – o escravo de seu marido, o senhor, agora dela. É ela quem vai comer, não ser comida (a frase de João Batista no final do ato é exemplar, “você quase me matou”). Porém, é no retorno de Sílvia para casa, é no reencontro com Ferraço, quando ela se despe do capote, agora sem nada por baixo - exceto a fantasia - e ele lhe pergunta entediado o que ela foi fazer, o diálogo é para entrar em qualquer antologia sobre o desejo:
“Sílvia – Eu estava com desejo – não se preocupe que não é gravidez, já que você não pode me engravidar - e fui até um restaurante comer bife à cavalo.
Ferraço - Matou o desejo?
Sílvia – O desejo não. Eu matei a fome.”
Que maravilha! Que diálogo excepcional, fora de série, único na história da televisão! Que lição magnífica sobre o desejo enquanto metonímia, o desejo que insiste, o desejo insaciável (Sílvia até me lembrou Messalina, que dizia após incontáveis atos sexuais, “cansada sim, saciada jamais”).
O capítulo de ontem já estaria perfeito assim. Porém, Aguinaldo Silva é generoso para com quem ama seu trabalho. Após essa cena incrível, ele traz outro casal às voltas com uma crise. Trata-se de Narciso (que nome!) e de Maria Paula – os sensacionais Marcos Winter e Marjorie Estiano. Despertando sozinho na cama, Narciso percebe que nunca teve Maria Paula. Ele descobre que nunca esteve acompanhado dela, que a solidão foi sempre a marca desse amor. Que ela sempre foi de Ferraço – que, mas é incrível isso, a desvirginou, outra especialidade de Ferraço! E aí, após desistir, ele escuta essa frase maravilhosa de Maria Paula:
“Isso é como uma correnteza para mim. Eu tento me afastar, eu tento escapar, mas não consigo.”
Excepcional! Mais uma lição sobre o desejo, que corre, que puxa, que atrai, que escapa, que nos leva, que brinca, que trai, que joga, que deixa marca no pescoço, que se repete, que não segue as normas do bom senso, que não dá bola para o que os outros acham que deveria ser, que não está nem aí para o que se espera dele, que não se deixa subjugar pelo bom pensamento nem pelo esforço da consciência, que não consegue ser regrado, que insiste em se realizar, nem que seja desse jeito, assim assim.
Obrigado Aguinaldo Silva, obrigado Wolf Maia, obrigado a toda essa equipe maravilhosa, a esses atores espetaculares. Esse é o poder da arte diante da tristeza. A arte é o agora que já é outro dia.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h31
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O POETA DA CONSCIÊNCIA

M.C. Escher in Railway Bridge, Oosterbeek 1917.
É curioso constatar o modo como o poeta Luis García Montero resolveu lidar com o vazio. Ele contrapõe sua opção pela consciência aos caminhos de Lorca, pela terra, e de Neruda e Alberti, pela ideologia. García Montero parece acreditar que de fato se escolhe, com a consciência, para onde se vai na vida. Nem uma palavra sobre o inconsciente. Ou então, quando ele fala de colocar os sonhos em um quarto separado, novamente é como se ele pudesse fazer isso com aquilo que “atrapalha” a consciência. É como se ele acreditasse piamente nesse poder “extraordinário” do pensamento. García Montero é um poeta cartesiano. Eu nunca havia lido uma homenagem tão grande a René Descartes. Nessas afirmações peremptórias, “esse é o lugar do poeta”, “não pode existir”, “pensar as coisas três vezes”, “o indivíduo não pode”, “a saída é”, o que eu encontro é um homem completamente iludido pela razão. É muito interessante ele citar o ato de Neruda em conseguir retificar seu caminho após uma viagem à Rússia. Por acaso García Montero se acha em um lugar melhor na consciência?
“Héctor Guyot – O que a palabra poética pode aportar a este estado de coisas?
Luis García Montero – A sociedade em que vivemos conduz à comodidade e ao esquematismo, ela busca frases de impacto, de certezas. Mas, nesse momento de confusão, mais importante que convidar a responder é convidar a se fazer perguntas. Convidar a pensar. Hoje, a lentidão é um valor na poesia. Pode parecer uma bobagem passar o dia inteiro pensando em um adjetivo, mas eu creio que o poeta é alguém que se acostumou a pensar as coisas três vezes. Quando nos perguntam algo, 99 por cento das vezes respondemos com lugares comuns. Em um segundo momento, se diz já não o que primeiro lhe ocorre, mas o que te convém. Só em um terceiro momento, se diz aquilo que se acredita que deve ser dito, ainda que gere incompreensão e antipatia. Esse é o lugar do poeta. A verdade não é um ponto de partida, mas um ponto de chegada.
Héctor Guyot – No título de seu livro de ensaios, você fala dos poetas como os “donos do vazio”.
Luis García Montero – O tema do livro é a reivindicação da consciência. Eu utilizo o caso de Federico García Lorca, que é apresentado como um poeta enraizado, o grande andaluz. Mas, em seu último livro, “Diván del Tamarit”, ele volta a Granada e percebe que perdeu sua infância. O parque onde brincava já não existe e a casa onde vivia foi derrubada. Ele descobre que não existem verdades essenciais porque tudo está em perpétuo movimento. Neruda e Alberti, ao contrário, optam por vínculos – não pela nostalgia, mas pela solidariedade. Em nome da liberdade e da justiça, eles fazem militância comunista. Contrapõem à terra, a idéia. Neruda chega a escrever uma ode à morte de Stálin, mas, quando viaja à Rússia e vê o que fez esse homem, ele escreve que Stálin pôs um cadáver em cada jardim da União Soviética. Como se vê, ambos os extremos decepcionam. Diante do vazio do ensimesmamento, da essência terrena e frente ao vazio da entrega à idéia, à ordem-unida, a saída é a consciência individual, um território de fronteira entre ambas. Por cima da consciência individual não pode existir uma ordem patriótica, nem política nem religiosa. O indivíduo não pode diluir-se em um discurso totalitário qualquer que ele seja. E essa consciência é o território da poesia.
Héctor Guyot – “Viver é ir dobrando as bandeiras”, está escrito em um poema seu. É resultado de você ter se adentrado em seu próprio vazio?
Luis García Montero – Tem a ver com isso. Esse verso pertence a “Habitaciones separadas” [“Quartos separados”], um livro de crise, entre outras razões, por eu ter acreditado em muitos sonhos que estavam se desintegrando na época. Eu tive a sensação de expulsar os sonhos de minha casa e ser então muito realista. Ora, quem expulsa os sonhos acaba por se converter em um cínico. Então, eu fiz um pacto comigo mesmo: não mando os sonhos embora, mas tampouco permaneço dormindo com eles. Nós vamos viver em quartos separados. Meus sonhos em uma cama e eu, em outra. Há desencanto nisso? Eu creio que não, mas o otimismo que não renuncia à lucidez. Voltamos à consciência.”
Fonte: entrevista de Luis García-Montero a Héctor Guyot in La Nacion, 12/4/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h28
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A MÃE

Honoré Daumier, Esquisse de la Republique (1848), Musée d’Orsay.
O ano é 1848. O ministro do Interior da França, Ledru-Rollin, lança um concurso aos artistas para representar a República. As condições para concorrer são a de reunir, em uma só figura, os símbolos da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade. Daumier não participou do concurso e não foi mais longe do que este esboço, sua primeira pintura. No entanto, eis aqui uma belíssima representação da República como uma boa mãe para seus filhos.
O ano agora é 2008. Paulo Caruso, inspirado em Daumier, faz uma adaptação do esboço para o Brasil. E agora, é de outra mãe que se trata. Genial! Com a palavra, esse artista imprescindível:
“O humor é a arma secreta da liberdade. Com essa frase, Hermann de Lima, autor do primeiro livro sobre Caricatura no Brasil, definiu essa arte considerada por uns como frívola e mundana e por outros como crítica e destrutiva. Essa é a vocação da caricatura, crítica por excelência. Nascida com o fim do absolutismo, após a revolução francesa, vai ser a primeira a criticar de maneira sistemática e permanente o novo poder, a burguesia. Alguns pescoços cortados mais adiante, a arte saiu dos castelos para as ruas, dos conventos para a luz profana do dia-a-dia. Nada, nada mesmo, pode deter essa escalada rumo à liberdade, e cada tentativa de cerceamento gera revolta e indignação.
Recentemente, houve a questão da proibição das charges sobre o profeta Maomé, que resultaram em perseguições, mortes e atentados. Também tem isso: o camarada que não tem humor, que se leva muito a sério, acaba virando homem bomba e se explodindo em algum hipermercado por aí. Mais perto de nós, aqui na Argentina, a primeira-dama que virou presidenta cerrou os dentes em discurso na Plaza de Mayo para dizer-se vítima de "uma mensagem quase mafiosa" da caricatura que lhe fez o mestre Sábat, do El Clarin. Tal desatino provocou uma reação por parte da imprensa até dos jornais concorrentes, como os artigos estampados no Página 12, defendo o maestro com carinho.
Vemos que o poder está sempre pronto pra tudo, principalmente se perpetuar, e é isso o que a caricatura nos ajuda a impedir. Isso não tem preço. Por isso, esse desenho do primeiro mestre reconhecido mundialmente nessa linguagem nova, Honoré Daumier, serviu de ponto de partida para minha charge sobre a toda poderosa do momento, a ministra Dilma Rousseff . O que, à primeira vista, pode parecer chocante, a nudez de tão recatada figura , é apenas um disfarce. Chocante é a realidade que ela nos ministra, nos impõe, tentando explicar o inexplicável: a confecção, em seu próprio gabinete, de mais um dossiê para intimidar a oposição. O resto é pintura...”
Fonte: Paulo Caruso in Jornal do Brasil, Revista Domingo, 13/4/2008.

Dilma Rousseff, em charge inspirada na obra do mestre francês Honoré Daumier por Paulo Caruso in Jornal do Brasil, Revista Domingo, 13/4/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h06
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