Blog do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba (PR) leobelferrari@uol.com.br


LOUISE

Louise Labé por Pierre Woeiriot, 1555.

 

Felipe Fortuna faz hoje no Jornal do Brasil uma belíssima homenagem a Louise Labé. É daqueles artigos de se sair na rua declamando, de pregar em todos os shoppings, de transformar em cátedra universitária, de cantar pelos berçários da cidade. Eis aqui o início desta epifania:

 

            “Convivi por mais de 10 anos com uma mulher fora do comum: além de belíssima, dominava o latim e o italiano e manejava com perfeição o arco-e-flecha. Perfeita amazona, talentosa ao tocar alaúde, essa mulher é uma das poetas mais intensas que se pode ler: e confessou seu amor por um poeta e diplomata quando ainda se encontrava casada com um comerciante da sua cidade natal. Viajante fugaz, artista passável, esse amante deixava a mulher fora de si com sua presença, porém muito mais com as seguidas ausências, que a faziam rimar versos de aguda saudade: "Ó belos olhos, ó olhares cruzados, /Ó quentes ais, ó lágrimas roladas, /Ó negras noites em vão esperadas, /Ó dias claros em vão retornados! (...) /De ti me queixo: esses fogos que trago /No coração causaram muito estrago, /Mas não te queima um lampejo sequer".

Essa mulher se chama Louise Labé, viveu e morreu em Lyon entre 1522 e 1566 e seu único livro – Obras, publicado em 1555 – se transformou num modelo do lirismo apaixonado da renascença e de todos os tempos. Também se tornou a manifestação pioneira e irradiante do feminismo. Pois, consciente da sua singularidade em meio aos literatos, Louise Labé escreveu que "as severas leis dos homens não mais impedem as mulheres de se aplicarem às ciências e às disciplinas. (...) Aquelas que têm facilidade devem empregar essa honesta liberdade que nosso sexo antigamente tanto desejou para cultivá-las; e mostrar aos homens o equívoco em relação a nós quando nos privavam do bem e da honra que delas podiam vir". Sua lucidez ia a extremos e flagrava até mesmo o mau comportamento de outras mulheres, que recriminavam os modos liberados (ou libertinos) da poeta. Contra essas mulheres algo invejosas, Louise Labé escreveu em sua "Elegia III": "Não condeneis de maneira tão rude /Um jovem erro em minha juventude, /Se um erro foi: porém, quem sob o céu /Se vangloria de jamais ser réu?".

Conhecedora dos pontos culminantes dos sentimentos, a poeta compôs ainda a "Disputa de loucura e de amor", impressionante peça teatral acerca das poucas diferenças e das muitas similaridades entre aqueles dois deuses que regem a vida humana.”

Fonte: Felipe Fortuna in Criatura de Papel?, Jornal do Brasil, 12/4/2008.

 

         Diante dessa homenagem, eu não resisti e cometi a seguinte tradução, diferente da de Felipe. Que o leitor e o autor me perdoem, mas quem é capaz de resistir a uma mulher dessas? 

        

Ô beaux yeux bruns, ô regards détournés,

Ô chauds soupirs, ô larmes épandues,

Ô noires nuits vainement attendues,

Ô jours luisants vainement retournée !

 

Ô tristes plaints, ô désirs obstiné,

Ô temps perdu, ô peines dépendues,

Ô milles morts en mille rets tendues,

Ô pires maux contre moi destiné !

 

Ô ris, ô front, cheveux bras mains et doigts !

Ô luth plaintif, viole, archet et voix !

Tant de flambeaux pour ardre une femelle !

 

De toi me plains, que tant de feux portant,

En tant d'endroits d'iceux mon coeur tâtant,

N'en ai sur toi volé quelque étincelle.

 

Louise Labé, Deuxième Sonnet in Sonnets, Élégies, Épitres... (1555)

 

Ó belos olhos negros, ó olhares trocados,

Ó suspiros que queimam, ó lágrimas que não param de cair,

Ó obscuras noites em vão atendidas,

Ó dias claros em vão retornados.

 

Ó queixas doloridas, ó desejos obstinados,

Ó tempo mal passado, ó penas sofridas,

Ó mil mortes em mil enganos estendidas

Ó males horríveis contra mim destinados!

 

Ó braços, mãos, dedos, cabelo, sorriso, face,

Ó voz, ó viola e arco, ó alaúde doloroso!

Quantas chamas para fazer arder uma mulher?

 

De ti me queixo, que tanto fogo possuindo,

Em tantos lados meu coração fostes acendendo,

Sem que uma só fagulha pudesse em ti cair.

                                  

Louise Labé, Segundo Soneto.

 

         Suspiros que queimam? Desejos obstinados? Chamas para fazer arder uma mulher? Fogo? Quem consegue resistir a essa mulher?



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h57
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ANNA

Anna Netrebko in Manon Lescaut, Berlim, abril de 2007.

           

Essa é para o meu querido amigo André Tezza. Ele só está aguardando o pedido da musa para se jogar do penhasco. Não é incrível isso? Esse mestre da música, esse doutor da comunicação, à espera de um pedido, à espera de um simples sinal para se lançar. Esse é o meu amigo. É dos imprescindíveis.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h55
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RENÉE

Renée Fleming fotografada por Brigitte Lacombe/Met Opera em anúncio publicado in The New York Times, 6/4/2008, Arts & Leisure, p. 7.

 

         O leitor sabe o que é se deparar com Renée Fleming em página inteira no jornal de domingo? O leitor percebe o que significa esse olhar de Renée Fleming me inquirindo, me convidando, me acariciando? O leitor faz idéia do poder que essa mulher exerce sobre os meus ouvidos? O leitor consegue compreender o vendaval de emoções que esse anúncio me causou? O leitor entendeu porque apenas alguns pedaços restaram para digitar essas mal traçadas? O que não sobrou, se deixou levar. Eu não estou. Me procurem por lá – aqui, não mais. 



Escrito por Leonardo Ferrari às 14h11
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PROCURA-SE

            Eu não concordo com muitas das idéias de Oliviero Toscani, porém sua entrevista a Miguel Mora do El País sobre a Itália está excelente. Um trecho, memorável:

 

         “Eu tenho a honra de sempre ter votado nos radicais, que nunca, até agora, venderam sua alma por um cargo no governo. Mas tudo o que digo é um ato de amor e de otimismo. Tocamos o fundo do poço, e por sorte nos resta a Europa, a Espanha, Zapatero. Vocês [espanhóis] sim é que estão iluminados! Aqui, tudo é de uma escuridão sinistra. A única coisa que funciona é graças a uma minoria de indivíduos, grandes profissionais, anárquicos mas disciplinados, que agem livremente. Para mim, o governo jamais me ajudou em nada. Ao contrário, só me fez penar com milhões de burocratas que justificam sua incompetência e seu cargo te complicando a vida (...) A Itália é um desaparecido! Em 50 anos, desapareceu a arquitetura, a precariedade da inteligência se transformou em lei, as mammas seguem sendo as grandes castradoras, os professores ganham menos que os operários, ninguém respeita a escola e ainda é um dever defender os professores dos idiotas dos padres. Não é possível refundar o país porque a decadência não é econômica, ela é moral e ela é difundida vinte e quatro horas por dia pela televisão. Nós fomos derrotados pela vulgaridade. Morreremos elegantes, vestidos na última moda, vulgares, vazios e idiotizados por dentro.”

 

Fonte: entrevista de Oliviero Toscani a Miguel Mora in El País, 10/4/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h34
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MONGA

Jessica Simpson, na capa da Esquire, repete Virna Lisi que, em 1965, apareceu também fazendo a barba na capa dessa mesma revista. É ou não é a legítima mulher fálica? Isso me lembrou uma terrível mulher barbada que ganhava a vida em um circo de Carazinho expondo suas, digamos, peculiaridades. No Beto Carrero, em Santa Catarina, também existe a Monga, a mulher-gorila que, em um efeito espetacular, se transforma e sai da jaula pulando sobre a platéia. Quantas vezes eu parei de correr para esperar o retorno da bela? Aí eu já era outro. A bela nunca me decepcionou. Os mistérios da feminilidade exigem coragem.

 



Escrito por Leonardo Ferrari às 16h19
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A LÓGICA DAS FARMACÊUTICAS

“Se todavia restam pessoas sãs, é porque a indústria farmacêutica ainda não é perfeita”.

 

Fonte: El Roto in El País, 8/4/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h47
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A MÃO DE MARADONA, DE NOVO...

Fonte: La Repubblica, 8/4/2008.

 

Eu acuso. A tocha olímpica não passará pelo Brasil. E passará por Buenos Aires. Isso dói. A tocha olímpica não passará pela Itália. Dupla dor. Eu entendo que ela passe por São Francisco, afinal de contas 20% da população desta cidade é chinesa. Agora, por que Buenos Aires e não Curitiba? O que Buenos Aires tem que Curitiba não tem? Ridículo. Eu acuso. Eu convoco uma manifestação pelo acendimento da tocha simbólica em plena Boca Maldita, hoje à meia-noite. Que cada um leve sua caixa de fósforo e um pedaço de pano. Curitiba precisa da tocha. Hoje à meia-noite. Curitiba mais uma vez estará à altura da história. Buenos Aires? Ridículo. Curitiba não merece isso. O Brasil não merece isso. Cidadãos de Curitiba, às ruas. Pelo fogo, cidadãos, pelo fogo.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h58
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TREMBLEZ TYRANS

Fonte: Rainer Hachfeld in Neues Deutschland, Germany, 7/4/2008.

 

Paris é Paris. Apagaram a tocha olímpica! Brilhante! Maravilhoso! Sensacional!           

 

Protestos anti-China apagam tocha olímpica em Paris, Daniela Fernandes de Paris para BBC Brasil, 7/4/2008 

 

A jornada da tocha olímpica por Paris nesta segunda-feira foi marcada por uma série de incidentes caóticos devido a protestos de manifestantes pró-independência do Tibete.

Logo após o início do percurso, na Torre Eiffel, a polícia francesa foi obrigada a apagar a chama olímpica e colocá-la dentro de um ônibus, interrompendo o desfile, que estava sendo realizado a pé.

A Secretaria de Segurança Pública de Paris declarou que a tocha teve de ser apagada por "por razões técnicas".

Depois de reacesa, a jornada dos atletas pelas ruas foi retomada. No entanto, durante o trajeto, a tocha foi apagada e colocada em um ônibus por duas vezes por causa dos manifestantes que protestam contra a violação de direitos humanos na China. (...)

 

Fonte: Patrick Chappatte in International Herald Tribune, 3/4/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 12h40
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CIDADANIA ITALIANA

         Excelente o depoimento de Rosana Félix ontem na Gazeta do Povo de Curitiba, bem como a reportagem de Breno Baldrati sobre a saga pelo passaporte italiano. O final é belíssimo.

 

Fila não tem nada de cidadania

Rosana Félix, repórter da editoria de Economia in Gazeta do Povo, 6/4/2008.

 

Tenho cidadania italiana, mas só a consegui porque fugi do consulado italiano no Paraná. A espera interminável a que nos submetem faz com que a “fila da cidadania” combine com nomes menos dignos, como a “fila do desrespeito”.

Fiz o meu registro em 1998. Levei os documentos necessários para tirar a cidadania italiana. Além de ter toda a papelada exigida, devidamente traduzida e reconhecida em cartório, levei outro documento que considerava ser um “trunfo”: a autorização de uma prima, que já havia feito a cidadania italiana no consulado italiano do Rio Grande do Sul, para utilizar o processo dela.

Eu pensava, na época, que isso poderia acelerar os trâmites dos meus documentos, já que nossos ascendentes eram os mesmos e todos os papéis a serem apresentados eram exatamente iguais.

Pensei errado. Meus documentos, assim como de milhares de paranaenses e catarinenses, ficaram encostados no consulado. Entendo que o volume de pedidos para obter a cidadania italiana aumentou muito nos últimos anos. Mas não entendo o tratamento dispensado às pessoas que vão até o local. Acredito que, assim como eu, a maioria dos descendentes de italianos tem orgulho de suas raízes e por isso busca a cidadania. Isso é garantido por lei, é direito nosso. Mas nos tratam como se estivéssemos pedindo um grande favor. Fiz várias visitas ao consulado, entre 1997 e 2005. A funcionária responsável pelo atendimento ao público na época era “expert” em destratar todos que buscassem informações.

Em 2005, fui para a Europa. Pretendia ficar lá indefinidamente, por motivos pessoais. Na Alemanha, tive problemas para ampliar o período do meu visto e retornei ao Brasil após quatro meses. Mas eu precisava morar na Europa durante um tempo, e queria fazer isso da forma legal. Por isso decidi seguir o caminho de muitos descendentes de italianos, que foram diretamente à “Bota” para tirar a cidadania italiana.

Busquei informações em diversos lugares para minha viagem. Atualizei meus documentos e fixei residência na região do Vêneto, na região do meu tataravô, para o processo correr mais rapidamente. E foi o que aconteceu: consegui a cidadania em quatro meses.

Sei que hoje em dia há dificuldades adicionais e o tempo de espera pode ser muito maior. Não recomendo esse caminho a todos; é uma opção arriscada e só pode ser escolhida após muita pesquisa e planejamento.

Para quem ainda sonha em obter a cidadania via consulado, o único consolo que resta é saber que não é um documento ou um passaporte que nos fazem “mezzo italiano”, mas sim as histórias das nossas famílias e as boas tradições que mantemos.



Escrito por Leonardo Ferrari às 12h19
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HAVERÁ

Fonte: El País, 7/4/2008.

 

         A entrevista de Massimo d’Alema, ex-primeiro ministro e atual ministro das Relações Exteriores da Itália, chama a atenção sobre essa estranha síndrome que assola o país, a “síndrome da auto-destruição”. Às vésperas de mais uma eleição, onde mais uma vez há um fascista com chances de retornar ao poder, o indescritível Silvio Berlusconi, d’Alema traz importantes reflexões sobre uma Itália que pouca gente vê. Não há auto-destruição maior do que o retorno de Silvio Berlusconi ao poder. E, no entanto, faz parte da história italiana esse flerte com o abismo, esse namoro com o caos, esse casamento com o pior. D’Alema traz uma belíssima definição sobre o canalha do Berlusconi, ao apresentá-lo como a soma do que há de pior na Itália. Pois é, lá vamos nós, italianos, para mais uma eleição. Vencerá o pior? É bastante provável. Queridos primos, mais uma vez minha casa estará aberta a todos vocês. Meu avô e tio de vocês um dia disse chega ao pior, basta de auto-destruição. Ele fez a travessia dessa síndrome num país chamado Brasil. Aqui ele construiu vida, aqui ele construiu luta, aqui ele construiu desejo, aqui ele construiu uma família, aqui ele construiu uma nova Itália. Haverá Itália enquanto houver italianos construtores. Não haverá Itália no fascismo, não haverá Itália no ódio, não haverá Itália na xenofobia, não haverá Itália com Berlusconi, não haverá Itália na auto-destruição.

 

“Às vezes nos castigamos tanto que parece que sofremos de uma síndrome de auto-destruição.”

 

“A China começou a mudar o modelo em 1978 (…) e ela mudou muito depressa. Já os países democráticos exigem, para avançar, grandes consensos, e isso faz com que não seja tão rápido a mudança.”

 

“Há muitas resistências [para a mudança](...) Há fortíssimos interesses de todos aqueles que já têm um lugar ao sol. Nós temos uma tradição corporativa muito antiga, de origem nobre. E também localismos muito fortes que convivem com a debilidade do Estado nacional. Berlusconi é a soma de tudo isso. A Liga Norte criticou Garibaldi por nos ter dado o Sul. Eles têm um fraquíssimo sentido de unidade nacional (...) e esse partido [a Liga Norte] é a força determinante da coalizão pró-Berlusconi.”

 

Fonte: entrevista de Massimo d’Alema a Miguel Mora in El País, 7/4/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 09h39
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RETRATO DO IMPÉRIO QUANDO JOVEM

              Diretamente do aeroporto de Porto Alegre, descubro este anúncio espetacular da vodca sueca-francesa Absolut. Trata-se de um mapa dos Estados Unidos de 1830, quando alguns dos principais estados americanos, da Califórnia ao Texas, pertenciam ao México. Os norte-americanos não gostaram dessa história, enquanto os mexicanos adoraram toda a ironia do slogan, “o mundo absolut”, que em inglês também quer dizer “mundo perfeito”. Seria essa “perfeição”uma devolução ao México daquilo que lhe foi tomado à força? Com a palavra, meus amigos historiadores.



Escrito por Leonardo Ferrari às 18h52
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