Blog do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba (PR) leobelferrari@uol.com.br


UM CAMINHO SOB O SOL

J.G. Ballard em Shepperton, com seus filhos Bea, Fay e Jim, em 1965. Fotografia publicada em El País, 29/3/2008.

         “A descoberta de Freud e dos pintores surrealistas (De Chirico, Ernst, Dalí, Magritte, Delvaux), quando estudava em Cambridge, foi um divisor de águas em sua vida e lhe impulsionou a escrever. ‘Eu ainda penso que a psicanálise e o surrealismo são uma chave para a verdade sobre a existência. Eles oferecem uma via de escape, um corredor secreto para um mundo mais real e com mais significado.’ [J.G. Ballard] ”

         Fonte: Jacinto Antón in Memoria del soñador de apocalipsis, sobre a autobiografia recém lançada de J.G.Ballard, Miracles of Life – Shanghai to Shepperton (Fourth Estate, 2008).



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h14
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PULSÕES E DESTINOS DA PULSÃO

         O preciso instante em que o Eu olha para o Ideal do Eu, ontem no banquete de gala oferecido pela Rainha da Inglaterra ao presidente da França (fotografia Reuters in El País, 28/3/2008). Um Eu ferido, um Eu cornudo, um Eu despedaçado, aprecia, ama de paixão esse Ideal gigantesco, esse Ideal bem arrumado, esse Ideal que talvez possa lhe devolver o que a Outra foi buscar fora dele, nos Estados Unidos. Muitos jornais pensaram na comparação entre Carla Bruni e Jackeline Kennedy. Ora, para entender a França há que pensar na obsessão dos franceses com sua história. Há uma outra mulher que faz sombra sobre os franceses, e ela se chama Maria Antonieta. A cabeça de Maria Antonieta retornou em Carla Bruni – então o Ideal de Sarkozy seria Luís XVI? Eu penso que é uma mistura entre Luís XVI e Napoleão Bonaparte. Ontem ele chegou onde Napoleão não conseguiu. E com sua Maria/Josefina, ele brilhou como o Outro, o XIV, o sol. Não deixa de ser simbólico que, neste mesmo instante, sua ex esteja em lua de mel nos Estados Unidos. Para quem Sarkozy ofereceu o espetáculo de ontem? Não são apenas forças econômicas e sociais que movem a história. Há forças pulsionais em ação. E a pulsão, lembra Freud, é uma força constante, é uma força insistente, é uma força-tarefa. Implacável.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h42
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O HÁLITO DA VIDA

Dona Flor para sempre.

 

Ler Mauro Santayana é um privilégio. O seu texto respira vida, transpira humanidade, inspira mudança, causa alvoroço. O que ele escreveu hoje sobre Jorge Amado é para ser traduzido no mundo inteiro, é para virar cartilha de alfabetização, é para ser pregado nos postes das cidades, é para ser lido em voz alta para todas as crianças antes de dormir, é para ser cantado em todos os bares, é para ser vivido em cada minuto da vida que resta, é para virar cátedra nas universidades. Mauro Santayana é dos imprescindíveis. Muito obrigado, Mauro Santayana. Muito obrigado.

 

O suor e o sonho no Brasil de Jorge Amado, Mauro Santayana in Jornal do Brasil, 27/3/2008.

 

EM BAD GODESBERG, HÁ QUASE 40 anos, realizava-se um encontro de escritores latino-americanos, promovido pelo governo alemão. O decano dos presentes era o guatemalteco Miguel Angel Astúrias, prêmio Nobel de Literatura, e autor de El señor presidente. A grande estrela daqueles dois ou três dias era Gabriel García Márquez. E havia razão para isso: Cien años de soledad encantava a Europa. A mim, que lera ainda na adolescência Hombres de maiz interessava mais o maduro guatemalteco do que o ainda jovem escritor colombiano. Astúrias olhou para Jorge Amado, que, como sempre, seduzido pela companhia de Zélia, conversava com um crítico alemão, e me sussurrou: "Jorge é de longe o melhor de todos nós. Suas criaturas cheiram a suor, sangue, e a tudo mais que produz a carne. Jorge sabe encontrar e descrever o pecado, e, na vida dos oprimidos, só o pecado vale a pena. Só no pecado eles encontram a liberdade".

Sem o jornalismo, Jorge poderia também ter sido grande escritor, mas seria outro escritor. Foi o jornalismo que o levou a conhecer o povo, nos capitães da areia, na humanidade do cais, na vida sacrificada dos cortiços. No fundo de si mesmo, creio que Jorge não dava grande importância à própria importância. A sua postura sempre foi a do adolescente repórter de polícia nas ruas de Salvador. Como todos os grandes homens, Jorge sabia que há coisas muito mais importantes do que a celebridade. Poderia dizer, como Niemeyer, que só a solidariedade vale a pena.

Jorge fez parte da confraria mundial dos grandes criadores de seus anos juvenis, quando a literatura era solidária com os sofredores. Ele me disse, quando o entrevistei em seus 70 anos, que, depois dos ensaios juvenis, entrara em contato com a literatura social norte-americana ao ler Judeus sem dinheiro, de Michael Gold. Gold abriu-lhe o caminho para Jack London, John dos Passos, Theodore Dreiser, Faulkner, John Steinbeck e outros grandes criadores engajados na literatura de resistência contra a exploração dos trabalhadores. Só depois deles foi conhecer os escritores europeus e admirar os portugueses que lhe foram contemporâneos, como Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro, Alves Redol, Fernando Namora, José Cardoso Pires. Esteve entre os primeiros a anunciar, em Saramago, o grande texto renovador das letras de Portugal.

Jorge me disse uma vez, em seu apartamento parisiense, que fazia, em seus romances, reportagens imaginadas. As meninas dos bordéis, os guardas civis, os cachaceiros libertários, os trabalhadores dos cais, ele os transformava em heróis. Reconstruí-los, na ficção, era a forma de libertá-los de seu destino anônimo. O grande narrador amplia a sua solidariedade quando começa a descrever, na segunda fase de sua obra, a vida da pequena classe média e dos malandros da Bahia, em Gabriela cravo e canela, Dona Flor e seus dois maridos e, sobretudo, na saga admirável de Vasco Moscoso do Aragão. No universo de sua ilimitada criatividade, não só as doces meninas dos "castelos", os trabalhadores do cais e a infância perdida nas ruas e nas praias merecem o testemunho de sua solidariedade. Estróinas irresponsáveis, transformados em jogadores espertíssimos, como Vasco Moscoso do Aragão, têm os seus dividendos de glória. Não há registro de tanta spregiatura (para usar o inusitado vocábulo toscano) para com a inveja e a hipocrisia do que a postura que Jorge constrói para o capitão de longo curso, ao depenar os seus parceiros de pôquer na praia de Periperi. Nenhum outro escritor foi capaz de descrever tão bem a vitória da despretensiosa impostura contra a hipocrisia da virtude, na humilhação, no sofrimento e na ressurreição gloriosa do capitão de longo curso naquela tarde e naquela noite no porto de Belém. O navio ­ comandado por quem nunca antes fora além de Salvador a Itaparica ­ salvara-se da imensa catástrofe oceânica, preso ao cais com todas as amarras, todos os ferros, todas as manilhas, todas as espias, todos os strings.

O êxito de Jorge é resultado de sua devoção autêntica ao povo brasileiro. Essa devoção ele a cumpriu no testemunho da luta, que o levou inúmeras vezes à prisão, durante o Estado Novo, à queima de seus livros em auto-da-fé na Bahia, à tentativa de amordaçá-lo quando do governo militar. Tanto quanto os livros escritos na primeira fase de sua vida, quando se impunha o engajamento partidário, as últimas obras de Jorge são nitidamente políticas. Há, em todas elas, o hálito da vida, que Astúrias encontrou nos sumos do corpo, na seiva do sofrimento, da resistência, da transgressão aos códigos de domínio na afirmação da liberdade. Na busca da justiça, que deve ser a razão da política.



Escrito por Leonardo Ferrari às 12h53
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QUANDO A FRANÇA ATRAVESSA O CANAL

“Sarkozy -Desculpe, Rainha, mas eu tenho que atender uma mensagem sobre o jogo entre a França e Inglaterra;

Rainha – Eu não posso acreditar nisso...”

Fonte: Plantu in Le Monde, 27/3/2008.

 

O presidente francês, Nicolas Sarkozy, é um retrato de nossa época. Ontem, Marc Roche no Le Monde, muito divertido, sugeriu ao hiperativo presidente que “evite ficar agitado na carruagem real”. O jornal também recomendou que o presidente não atenda o celular diante da rainha, nem use os óculos Ray-Ban ou fique olhando para o relógio. Na charge de hoje do indispensável Plantu, lá está o presidente interrompendo a rainha para atender uma mensagem no celular. Charge maravilhosa! Carla Bruni, parecendo uma boneca, com o violão ao lado, está magnífica!

As recomendações do Le Monde tem um motivo: ano passado, o presidente foi flagrado checando o celular durante a audiência com o Papa Bento XVI, e já foi criticado pelo estilo de vida de celebridade. Mas, aparentemente, uma gafe já ocorreu mesmo antes da chegada a Londres. Sarkozy causou constrangimento ao pedir que informassem a carta de vinhos que seriam servidos no jantar de ontem no Castelo de Windsor. Segundo o “The Sun”, o pedido foi considerado “bizarro” pelos britânicos. “Até mesmo o fino paladar francês não ficará decepcionado com os vinhos presentes em Windsor”, disse um funcionário ao jornal (fonte: O Globo, 27/3/2008). Ora, nesse ponto o presidente francês está coberto de razão. A Inglaterra é aquele caso típico em que se deve levar o lanche de casa - com o vinho também. A melhor sátira à comida inglesa veio do próprio Hitchcock em Frenesi, ao mostrar o café da manhã dos britânicos, com sua quantidade infinita de frituras e uma dona de casa britânica, mulher do delegado de polícia, às voltas com o aprendizado da culinária francesa. Imperdível. Nesse ponto, eu apóio Sarkozy. Há que checar não só o vinho, mas também o menu. Principalmente o menu!

 

         

Quem é a rainha? Fotografia Reuters in El País, 27/3/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h41
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DESCONFIAR DO PODER

Primeira página do The New York Times, 26/3/2008 – “Companhia de cigarros financiou pesquisa sobre câncer de pulmão”.

 

            Mais uma vez o The New York Times faz uma reportagem histórica. Para mim, é o melhor exemplo do que significa desconfiar do poder. O jornalista Gardiner Harris investigou e descobriu que um trabalho publicado no New England Journal of Medicine – uma das mais respeitáveis publicações científicas do mundo – demonstrando que a tomografia computadorizada é capaz de evitar 80% das mortes por câncer de pulmão, foi financiado por uma companhia de cigarros, o grupo Liggett, produtor de cinco marcas de cigarros nos Estados Unidos. Ora, isso muda completamente a recepção de um estudo desses. Você acha que uma pesquisa financiada pela raposa é feita para ser honesta com o galinheiro?

         Na reportagem, há um parágrafo muito interessante. “Um número crescente de universidades não aceita colaborações de fabricantes de cigarros”. Número crescente? Bom, as Pessoas de Moraes não estão nesse número. Como já dizia aquele ditado latino, “pecunia non olet”, dinheiro não tem cheiro. Dona Branca recusaria essa parceria?

         Aliás, há um belíssimo filme exatamente sobre essa relação entre a indústria de cigarros e as pesquisas científicas. Se chama “O Informante”. É magnífico. Na segunda-feira, dia 24/3, o jornal O Estado de São Paulo trouxe uma excelente reportagem de Emilio Santanna intitulada “Justiça responsabiliza fumante por vício e isenta indústria do cigarro”, demonstrando os equívocos de juízes brasileiros no tratamento desse tema. No Brasil, infelizmente e mais uma vez, muitas vítimas são julgadas culpadas. Sem apelação.  



Escrito por Leonardo Ferrari às 14h32
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ENQUANTO ISSO EM LONDRES...

Fonte: O Globo, 26/3/2008.

           

Questionar? A partir de agora, só em museu. Passou. Mas ainda bem que também não é em qualquer museu. Esse perigo está concentrado em Londres. Doris Salcedo e movimento Dada no mesmo lugar? Ainda bem que é bem longe daqui. Questionar? Não pode. Isso é coisa do passado.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h38
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A DIFERENÇA SEXUAL

By Barbara Kruger for New York Magazine/Courtesy Mary Boone Gallery. Portrait of Eliot Spitzer by Henry Leutwyler/Countour by Getty Images. Esse trabalho de Barbara Kruger virou a capa da revista New York da semana passada, 24/3.

         A revista New York pediu a dez artistas que criassem uma obra sobre o ex-governador de Nova Iorque, Eliot Spitzer. O trabalho de Barbara Kruger é excelente e permite uma questão sensacional. Se os homens pensam com o pênis, as mulheres pensam com o quê? Essa questão é belíssima porque foram mulheres, as famosas histéricas, quem ensinaram a Freud que o corpo biológico é também um corpo erógeno, um corpo sexual, um corpo imaginário e um corpo simbólico. O que significa dizer que um corpo também é erógeno? Isso significa que cada buraco do corpo não é apenas uma cavidade biológica , por exemplo, um olho – há ali também um olhar, o que faz com que alguém, o ex-governador, sinta prazer sexual olhando, observando outro casal fazer sexo, o gozo voyerístico. Ora, o que seria da Playboy e da Nova, por exemplo, sem a pulsão escópica? O que seria do Big-Brother? Da mesma forma com o buraco da boca. Se essa cavidade biológica está feita pela genética com a finalidade alimentar, por exemplo, lá vem o beijo demonstrar que o erógeno transgride a função biológica, atrapalha a função alimentar – não é uma frase erótica aquela que diz “vou te comer todinha”? É claro que o “comer” em jogo aqui é uma metáfora, exceto se o sujeito envolvido for Hannibal Lecter, um perverso. Agora, de fato o pênis é um órgão privilegiado para o pensamento masculino. Ele acaba servindo de medida entre os homens – por exemplo quantas bombas você tem? Quanto você lucrou hoje? Ou seja, é o raciocínio fálico, que tenta sempre demonstrar que o meu é maior do que o seu – quantas guerras não são feitas com esse propósito? Quantas obras não são erguidas desse jeito? As mulheres não fazem isso com a vagina – elas fazem outras coisas. Isso não. Daí que o gozo feminino é um mistério para os homens. Daí que a satisfação feminina vire um enigma. Daí o imenso fascínio pelo sintoma histérico, o sintoma que virou para sempre o corpo de cabeça para baixo. Se a questão obsessiva masculina gira em torno do pensamento sobre a medida, a questão histérica é esse corpo fragmentado, é esse corpo parcial, é esse corpo dividido pela linguagem. O casal histérica-obsessivo é clássico. Aquela que não sabe sobre o seu sexo se casa com aquele que não pára de se interrogar sobre a suficiência do seu. A insatisfeita encontra o obcecado. Como ela pede...ele dá, mas o que ele dá não é isso, então ele dará mais, ao infinito e além – para ela poder lhe dizer no final que ele ainda não deu tudo, que ainda não foi desta vez, que foi bom, mas poderia ser melhor...   



Escrito por Leonardo Ferrari às 13h11
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OUTRA VEZ

Agora é oficial. Quem está ao lado dela, por ela, com ela?

 

                 Não há nenhum Ferrari entre os guilhotinados na Revolução Francesa. Eu já esperava isso. Eu já contava com isso. A família tomou posição pela revolução. Não há nenhum Ferrari conspirador, não há nenhum Ferrari traidor da pátria, não há nenhum Ferrari monarquista. Na maior revolução já acontecida na história, os Ferrari mais uma vez combateram a tirania, mais uma vez lutaram, mais uma vez não ficaram em cima do muro. A partir de agora, em meu curriculum vitae, estará lá: nenhum guilhotinado na Revolução Francesa! Para mim, isso vale mais que qualquer título universitário ou experiência profissional. Há na história eventos que definem uma família. Nenhum Ferrari entre os guilhotinados na Revolução Francesa! Com isso eu posso viver!  

 

Site traz lista de guilhotinados na Revolução Francesa

Daniela Fernandes, de Paris para a BBC Brasil, 25/3/2008.

 

Um site que apresenta uma das mais completas listas de pessoas guilhotinadas durante a Revolução Francesa, em 1789, está fazendo sucesso na França e já atraiu mais de 250 mil visitantes.

“Você tem um ancestral decapitado durante a Revolução?”, é a pergunta feita na página de abertura do site Les Guillotinés (“Os Guilhotinados”), que reúne nomes de cerca de 18 mil vítimas desse período da História da França, que durou dez anos.

Para cada pessoa, é possível identificar o motivo preciso da condenação, como por exemplo, “conspirador”, “insubmisso”, “declarou esperar a volta do Antigo Regime”, “traidor da pátria” e “líder de agrupamentos”.

O site, criado por Raymond Combes, um técnico em informática, também permite constatar que não foram apenas os nobres que morreram na guilhotina, contrariamente à idéia normalmente mais difundida sobre o período.

Uma das pessoas mais famosas que morreram guilhotinadas é a rainha Maria Antonieta, morta em 1793 na Praça da Concórdia, em Paris.

Mas camponeses e operários, acusados de serem contra-revolucionários, também foram decapitados, e seus nomes podem ser localizados no site Les Guillotinés, o que vem despertando a curiosidade de muitos franceses em relação aos seus antepassados.

De acordo com o historiador Jean-Louis Beaucarnot, especialista em genealogia, cerca de 5 milhões de franceses teriam um ascendente que morreu guilhotinado durante a Revolução Francesa.

A guilhotina foi inventada pelo médico francês Joseph Ignace Guillotin para executar a pena capital. Ele esperava que o aparelho permitisse execuções menos dolorosas e “mais humanas”.

As informações reunidas no site “Os Guilhotinados” são baseadas em inúmeros livros, além de documentos realizados por ocasião do bicentenário da Revolução Francesa, em 1989, e ainda informações obtidas em diferentes regiões francesas.

O criador do site afirma que muitos nomes de pessoas guilhotinadas nunca haviam sido registrados em documentos oficiais.

Combes diz que somente acrescenta nomes na lista de decapitados se existem documentos para comprovar a autenticidade dos fatos.

O site também fornece informações históricas detalhadas sobre os dez anos da Revolução Francesa, de 1789 a 1799, quando Napoleão Bonaparte assumiu o poder após um golpe de Estado.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h59
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ATÉ TU, AEDES?

Fonte: O Globo, 19/3/2008.

 

            Essa é para o meu amigo Sérgio Menezes. Depois de desmoralizar o capitalismo, depois de escrachar todos os governos, depois de contrariar todas as normas e regulamentos, depois de transgredir o intransgredível, o Rio de Janeiro acaba de desnaturalizar a natureza! Espetacular! Até o mosquito é flex...



Escrito por Leonardo Ferrari às 12h46
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A DIFERENÇA QUE INCOMODA

Fonte: Zero Hora, 23/3/2008.

 

“Sem pranto, sem amigos, sem núpcias, sou, desventurada, arrastada por este franqueado caminho.”

         Antígona de Sófocles. Tradução de Donaldo Schüler in Antígona, L&PM Pocket, 1999, p. 66.

 

         Três bem aventuradas, Luciana Genro, Manuela Dávila e Maria do Rosário me fizeram pensar em Antígona. São três mulheres, são de partidos diferentes, têm propostas parecidas e têm muitos amigos, uma delas até em processo de núpcias, e estão em uma mesma cidade, Porto Alegre e no caminho da eleição para a prefeitura. Em uma reportagem magnífica ontem na Zero Hora, Fábio Schaffner e Klécio Santos foram escutar cada uma delas. Me chamou a atenção a declaração da candidata Maria do Rosário:

 

“- Nenhuma de nós é patricinha. Vamos ter embates duros e com muitas verdades nas nossas falas. Os candidatos terão de se acostumar a ouvir vozes femininas de igual para igual. Somos menos treinadas para essa vida política do cinismo - fuzila Rosário.” (fonte: Fábio Schaffner e Klécio Santos in Zero Hora, 23/3/2008).

             
           
Ora, que implicância com as patricinhas. Qual é o problema de ser uma patricinha? “De igual para igual”? Mas a voz feminina nunca será igual à voz masculina. É impossível, cara deputada. A diferença sexual há. Não há lei, não há decreto, não há declaração que revogue a diferença. Não é uma questão de cinismo, prezada deputada. É uma questão anatômica, é uma questão simbólica, é uma questão imaginária. A diferença sexual está aí. Talvez por isso uma certa aversão às patricinhas. É que elas exploram a diferença em seus múltiplos aspectos – se fantasiam, se “produzem”, ostentam a diferença sem dó nem piedade. Prezada deputada, meu voto a senhora não terá. Eu não imagino nunca a feminilidade “de igual para igual” com a masculinidade. Eu trabalho com a diferença e pela diferença.  “Embates duros”? Olha deputada, vindo de uma mulher esse “duro” é duro. É verdade que há mulheres que gostam de usar calças, há mulheres que adoram se fazer de homens. O problema é querer transformar isso em uma política. A política da não-diferença é filha do politicamente correto que, tal qual erva daninha, dos Estados Unidos aterrissou no Brasil. É um sintoma da nossa época – tentar apagar da linguagem, tentar apagar das universidades, tentar apagar dos restaurantes, tentar apagar da televisão, tentar apagar dos relacionamentos, qualquer traço, qualquer marca, qualquer símbolo da diferença. Nessa tola “igualdade” – um pastiche do ideal revolucionário francês – vão-se os anéis e os dedos. De permissão em permissão, de tolerância em tolerância, de aceitação em aceitação, uma novilíngua orwelliana se instala. Guerra agora é paz, liberdade é escravidão, feminino é masculino, droga é remédio, babaquice é saber. Eu fico com a patricinha. Eu voto em Manuela Dávila para prefeita de Porto Alegre.



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h42
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EXÍLIO

Foi um paulista, Tito Madi, quem escreveu uma das músicas mais terríveis sobre o exílio. “Gauchinha bem querer” é o nome da maldita. Inicia assim:

 

“Rio Grande do Sul
Vou-me embora sem amor
Vou-me embora do Rio Grande
Vou tão só com a minha dor”

 

Há algo pior que isso? Ir embora sem o amor, levando tão só a dor? Mas a calamidade está só no começo:

 

“Levarei a lembrança comigo
De um amor que de olhares nasceu
De um amor que depressa floriu
Mas tão cedo morreu”

 

Por que tão cedo morreu? Que morte é essa? Eu levei muitos anos de análise para perceber que se morre muitas vezes na vida. Não uma só.

 

“Rio Grande do sul
Eu um dia voltarei
Prá rever o meu Guaíba
Prá rever meu bem-querer”

 

Isso é lindo. É a promessa da volta, do retorno, a expectativa de rever o que já não existe, de recuperar o que já morreu. Belíssimo. Essa expectativa se chama desejo. Esse rever duas vezes é de uma intensidade, é de uma contundência, é de uma esperança indescritível. Ir embora e voltar. Rever.

“E depois se ela ainda quiser
Só nós dois a sonhar e a sorrir
Rio Grande do Sul
Vou chorar ao partir”

         O final é magnífico: se ela ainda quiser, se ela ainda quiser. Esse ainda é a morada da vida. Haverá vida enquanto existir esse ainda. E, no entanto, lá vai ele partir de novo. Não deu certo. Ainda não. Ele não vai conseguir ficar no Rio Grande do Sul – essa ingrata, essa insensível, essa impossível disse não. Ainda não. E por causa desse não, por causa dessa dor, por causa desse choro, por causa dessa saudade dilacerante, ele agora respira, ele agora caminha, ele agora anda com outra, ele agora escreve – músicas e blogues. Desgraçada.



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h26
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