Blog do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba (PR) leobelferrari@uol.com.br


PRADA

Miuccia Prada com dois artistas patrocinados por sua Fundação, Francesco Vezzoli (à esquerda) e John Baldessari. Fotomontagem de Matthias Vriens in The New York Times Magazine, 23/3/2008.

 

            Miuccia Prada conseguiu fazer a América. Essa genial artista, essa excepcional ferreira, pedreira e carpinteira, saiu da Itália sem sair da Itália. Vivendo o avesso de seus compatriotas, tratados como estrangeiros, segregados em bairros longínquos, perseguidos, maltratados, sofrendo um doloroso exílio com um sonho infinito de um dia regressar, de um dia dar a volta, Miuccia Prada fez do estilo uma resposta, fez da moda um nome, fez da tradição uma traição. Miuccia Prada pagou o preço da culpa, pagou o preço da fama, pagou o preço de a esperarem onde ela já não mais está. E de transgressão em transgressão, de rompimento em rompimento, eis aí ela bem no meio de dois artistas, bem no entre, bem nesse trabalho com, bem nesse e, bem nesse espaço aberto, bem nessa América-Itália bem milanesa. Miuccia Prada é a mulher que caminha, Gradiva, a mulher que avança. O novo mundo se chama Prada.



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h03
[   ] [ envie esta mensagem ]




O QUE OS OLHOS NÃO VÊEM

Na primeira página do The New York Times, a pré-confissão de Paterson. Inédito!!

Fonte: The New York Times, 20/3/2008.

 

            Até tu, David Paterson? O que eu mais gosto nos Estados Unidos é que a hipocrisia não tem limites. Quando você pensa que o país chegou ao auge, ao clímax (êpa!), eis que essa histérica puritana exige mais, muito mais. Era de praxe o sujeito ser apanhado depois – quando apanhado – e aí sim se desculpar, aí sim confessar, aí sim renunciar. Ora, no país das novidades, no país das oportunidades, no país de Guantánamo, já não é mais assim. David Paterson inovou, fez um upgrade. A partir de agora, a confissão deve vir antes. Só que a novidade de Paterson foi mais abrangente. Ele confessou que nós – ele e a esposa – traíram. Isso foi demais. Uma mulher traidora? Uma mulher que vingou Hillary Clinton? Marco Aurélio não perdoou e fez essa charge maravilhosa – ver abaixo.

A melhor análise internacional veio do correspondente do El País em Washington, Antonio Caño, que magnificamente comentou:

 

“Cada escândalo sexual nos Estados Unidos vem confirmar aos olhos dos europeus o imenso puritanismo de um país que é capaz de destituir um governador por ter utilizado os serviços de uma prostituta, mas não discute a destituição de um presidente pelo erro de uma guerra que está lhe custando quase quatro mil mortos.”

Fonte: Antonio Caño in El País, 14/3/2008.

        

No Brasil houveram análises ótimas de Sérgio Augusto no Aliás de domingo no Estado de São Paulo, de Arnaldo Jabor no Estado de São Paulo na terça-feira e de Contardo Calligaris na Folha de quinta-feira. Mas nada disso chegou perto do que o Globo fez hoje.

Arnaldo Bloch convidou a jornalista e escritora Bety Orsini para comentar essa onda de confissões de traições em série em sua página móvel do jornal, a maravilhosa “Logo” – que veio hoje rodriguiana. E Bety Orsini escreveu, no final de seu artigo, esta jóia preciosa, essa pérola iluminada, esta safira reluzente, este diamante cortante. E depois ainda me perguntam por que eu amo o Rio de Janeiro. Taí: é porque o Rio tem a Bety Orsini. Só isso.

 

“Enfim, não devemos atirar pedras ou flores em traidores e traídos. Num mundo como o nosso, onde a mentira, a dissimulação e o ódio florescem a cada dia, o homem deve ter, no mínimo, o direito de trair, e a  mulher, o de ser adúltera. Nossas testas já estão doloridas dos chifres que nossos governantes nos entubam, cada dia mais um pouco, testa adentro. Somos um país de mentirosos e de cornos. Nossa testa dói, nossa alma está ferida, nossa esperança foi arrancada. Não nos tirem o direito de, volta e meia, abrir as pernas e ter um espasmo de prazer.”

Bety Orsini in O Globo, 21/3/2008.

 

A página móvel do Globo. Sensacional!

Fonte: Arnaldo Bloch in O Globo, 21/3/2008.

 

 

Fonte: Marco Aurélio in Zero Hora, 21/3/2008.

 

Novo governador de NY se assume infiel

David Paterson, casado, divulga traições antes que a imprensa investigue tudo; escândalo sexual derrubou antecessor

"Sinto que meu marido me ama, não me preocupo com essas coisas", diz mulher do novo mandatário de Nova York, que também o traiu

DANIEL BERGAMASCO
DE NOVA YORK, Folha de São Paulo, 19/3/2008

Antes que os tablóides descobrissem tudo sozinhos, o novo governador de Nova York, David Paterson, 53, revelou à imprensa americana que já manteve relações fora do casamento de 15 anos com Michelle Paige Paterson, 46.
Substituto do democrata Eliot Spitzer, que renunciou na semana passada depois de descoberto que ele era cliente fiel da rede de prostituição de luxo Emperors Club VIP, Paterson foi bombardeado nos últimas dias por rumores de que também tem um histórico de infidelidade na relação. Ele confirmou tudo aos jornalistas e, ao tablóide "Daily News", concedeu uma entrevista na qual ofereceu certa riqueza de detalhes:
1) Ele já traiu a mulher com funcionária que estava na folha de pagamento do Estado.
2) Seu caso mais duradouro aconteceu entre 1999 e 2002, com uma amante que o encontrava no hotel Days Inn, em Manhattan, muito usado para hospedar legisladores do Estado. O local fica a poucos quarteirões de seu escritório no Harlem, bairro onde moram muitos negros e latinos e onde ele foi criado.
3) Seguindo recomendações do terapeuta sexual contratado para contornar a crise no casamento, ele e a mulher, Michelle, voltaram algumas vezes a esse mesmo hotel da traição para introduzir "coisas novas e excitantes" na relação.
4) Michelle, por sua vez, também já o traiu.
A primeira-dama diz que a infidelidade do marido não é uma preocupação recorrente. "Eu tenho uma filosofia de vida: você tem de deixar as pessoas viverem suas vidas. Eu sinto que meu marido me ama e que é devotado à família. E eu sei que ele me ama. Eu não vou me preocupar com essas coisas", afirmou ela, que negou, ao lado de Paterson, o rumor de que o novo governador tem um filho fora do casamento.
Politicamente, a estratégia de matar futuros escândalos usando da transparência pareceu acertada. As declarações não geraram protestos consideráveis e ainda motivaram elogios públicos de legisladores aliados.

Segredos de alcova
Primeiro governador cego dos Estados Unidos -ele tem apenas 5% de visão no olho direito e nada no esquerdo, devido a uma infecção nos olhos na infância-, Paterson é também o primeiro governador negro do Estado de Nova York.
Graduado em história e direito, conseguiu prestígio como ativista pelos direitos dos deficientes físicos. No discurso de posse, na segunda-feira, falou sobre sua preocupação com os desafios da economia no país -mas os detalhes da intimidade do casal jogaram esse assunto para último plano na mídia americana.
Até porque a competição estava acirrada no noticiário de ontem: Jim McGreevey, ex-governador de Nova Jersey, decidiu confirmar que se juntava à mulher, Dina Matos, em uma relação a três na cama: ele, ela e o motorista do casal, de 29 anos -que foi quem trouxe a história à tona. Dina, que pediu o divórcio, diz que é tudo mentira.

 



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h01
[   ] [ envie esta mensagem ]




O ENCONTRO DE DUAS FALTAS

Fonte: La Repubblica delle Donne, 14/3/2008

 

        A resposta de Giorgio Armani a Doris Salcedo é magnífica. Ele recobre a falta com um símbolo, com um desenho, com um nome – nas palavras de Lacan, ele recobre a falta com outra falta. É um modo de percorrer a borda, andar por ali, fazer um percurso. Pode-se convidar Armani a falar de sua fantasia, de sua aproximação à agulha e à linha, de sua arte espetacular e do modo como essa fantasia desperta o fascínio de muitas mulheres. De minha parte, eu proponho uma mesa-redonda de Giorgio Armani com Doris Salcedo. Humildemente aceito a tarefa de ser o mediador do encontro. Como? Aceitaram a proposta? Vai ser em Bologna o encontro? E já enviaram a passagem, estadia e cinco mil euros de honorários? Fui.  



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h41
[   ] [ envie esta mensagem ]




SHIBBOLETH

“Shibboleth” de Doris Salcedo, no chão da Tate Modern em Londres. Fotografia de Carmen Valino in El País, 24/11/2007.

 

         Doris Salcedo, artista colombiana, falou ontem a Mario Gioia sobre seus trabalhos, o polêmico “Shibboleth”, uma fenda de 167 metros no chão da Tate Modern, em Londres (em exposição até 6 de abril) e a sua primeira obra permanente no Brasil, no pavilhão do Centro de Arte Contemporânea Inhotim, em Brumadinho, Minas Gerais. Trata-se de “Neither” (nenhum), uma instalação que utiliza um cubo branco típico das galerias de arte, recoberto em suas paredes internas com uma grade, às vezes exposta, às vezes recoberta por gesso. Se vivenciar a obra de Doris Salcedo é absolutamente desconcertante, imagine escutar essa mulher. Doris é de uma lucidez estonteante, de uma inteligência magnífica, de uma força imprescindível. O que ela levou para Londres foi o melhor presente que os ingleses poderiam receber na vida. Essa fenda, essa greta, esse rasgo, esse buraco que se abre é de uma fecundidade fenomenal, é toda a diferença feminina aqui exposta, aqui em desafio, aqui como convite, aqui como revolução.         

         Freud utilizou o “shibboleth” em um momento muito importante de seu ensino:

        

         “Um pressuposto fundamental da psicanálise é a diferenciação, na esfera do psíquico, entre o que é consciente [Bewusstes] e inconsciente [Unbewusstes]. Somente a partir dessa distinção, torna-se possível compreender e integrar à ciência os freqüentes e relevantes processos patológicos da vida psíquica. Dizendo de outro modo: da perspectiva psicanalítica não há como considerar que a essência do psíquico esteja situada na consciência [Bewusstsein]. Pelo contrário, é preciso considerar a consciência como sendo apenas uma das qualidades do psíquico e lembrar que diversas outras qualidades podem, ou não somar-se a ela.

         Imagino que já nesse ponto muitos dos interessados em psicologia poderiam desistir da leitura, pois aqui se encontra o primeiro shibboleth da psicanálise.”

         Sigmund Freud in O Eu e o Id. Obras Psicológicas de Sigmund Freud – Escritos sobre a Psicologia do Inconsciente v. 3. Coordenação geral da tradução: Luiz Alberto Hanns. Rio de Janeiro: Imago ed., 2007, p. 28.

 

         Em nota de pé, o tradutor esclarece que “shibboleth” é “um termo de origem hebraica que é empregado internacionalmente na acepção de “palavra-armadilha”, isto é, palavra que serve para identificar de imediato a origem de um falante. Assim, um shibboleth é alguma palavra qualquer cuja pronúncia seja difícil para os estrangeiros e permita identificar o sotaque e a origem do falante. Nesse contexto, o termo “inconsciente” logo denunciaria ao leitor a origem psicanalítica do presente texto e levaria o leitor adepto da visão filosófica da mente a uma desistência da leitura.” (op. cit., nota 4, p. 73).

        

“Shibboleth” está no Houaiss como “xibolete”, da mesma forma também na wikipédia. José Fernandes Guimarães esclarece que “Derrida, aliás, escreveu um livro intitulado Schibboleth - em torno da poética de Paul Celan (para Celan é impossível escrever poesia depois de Auschwitz) e da dádiva (um questionar recorrente em Derrida). Mas, o que é Shibboleth, este Shibboleth de Doris Salcedo? Uma ferida? Uma ferida no corpo - isto é, no espaço museológico? É certo que qualquer ferida tende a cicatrizar. Mas, depois, o corpo - o espaço museológico, neste caso - resta o mesmo? Não é por isso mesmo que, na tradição judaica, a circuncisão (o corte onde nascer e morrer se conjugam) implica o símbolo da pertença e da identidade?”

         Madalena Lello analisa o sentido religioso do termo, bem como conta como foi sua visita à exposição em Londres.

         Doris Salcedo levou para Londres o que a América Latina tem de melhor: sua angústia, sua dor, sua falta, seu desejo, sua fantasia, seu radicalismo, seu grito, seu ato, seu corpo, seu sexo. Diante disso, o sujeito pode fugir apavorado, pode tentar cercar com arame farpado, pode tentar entupir de cimento, pode tentar continuar falando no celular, pode tentar ignorar, pode tentar processar o Outro porque enroscou a perna bem ali (aliás, esse foi o título maravilhoso da reportagem de Sarah Lyall para o The New York Times, em 11/12/2007: “Caution: Art Afoot” [“Cuidado: Arte no Chão” – bonito que, em inglês, “afoot” também significa “em ação, em movimento”]). Ou então o sujeito pode se aproximar da fenda, pode mergulhar nela, lidar com ela, falar com ela, fazer dela um compromisso. Doris Salcedo levou para Londres o inconsciente. Bem-vinda ao Brasil, querida Doris.

 

“CONCEPÇÃO DE "NEITHER"
            Quando comecei a trabalhar nessa obra, me perguntava como podemos viver com o horror. Como, na década de 30 e 40, conhecíamos a existência dos campos de concentração, mas vivíamos uma vida normal e considerávamos que os campos de concentração não existiam. Nós estamos vivendo uma época igual. Sabemos da sua presença, eles se transformaram, mas não desapareceram. Convivemos com eles. Então, a idéia é pôr em um espaço branco, que é um espaço que remete à nossa intimidade, à nossa casa, que nos protege, justapor a idéia de extrema exterioridade, que é a grade.
Impressionou-me muito que a origem do campo de concentração é um invento espanhol. O general Martínez Campos, em 1896, tem a idéia de acabar com a insurgência independentista em Cuba com um campo de concentração. Os britânicos a retomam na África do Sul na Guerra dos Bôeres [entre 1900 e 1902]. E é impressionante que o campo nasceu em Cuba e voltou a Cuba, neste momento, com Guantánamo.

SENSAÇÕES
            Interessa para mim uma obra que tenha uma experiência, não que narre uma história. Não queria contar a história do campo de concentração, mas sim a experiência de estar em um espaço onde a memória não exista. Você entra aqui, começa a ver a superfície, é repetitiva, exatamente igual. Nesse momento, você tem uma realocação de sua memória, é como se o tempo ficasse em suspensão. Não há nada, é como uma vida confinada, onde tudo -suas memórias, seus objetos, sua vida- é retirado de você para que viva em um espaço vazio.

OBRA NA TATE
            No caso de "Shibboleth", me interessava mudar a perspectiva tradicional, que é a triunfalista européia. Foi permitido a eles construírem "arcos do triunfo", colunas que comemoram sucessos de suas batalhas etc. Para nós, do Terceiro Mundo, restaram as ruínas. É uma obra na qual você analisa a posição das pessoas do Terceiro Mundo dentro do Primeiro Mundo -nós somos sempre os vetores que transportam drogas, doenças, crimes, tudo de negativo. Eu era uma artista do Terceiro Mundo, a primeira a ser convidada a expor naquele espaço. Tinha de levar comigo esse olhar, tinha de ser negativo lá. [Expor no exterior] Implica em uma maior responsabilidade. Porque cada obra tem de ser contundente. Você não pode sair mais ou menos.

ARTISTA COLOMBIANA
            Trato de não trabalhar a experiência pessoal em meus trabalhos. Mas, como cidadã colombiana, eu necessito de visto para ir a 172 países. É um absurdo. Trabalho a partir de pessoas que viveram experiências extremas, o que não é o meu caso. Contudo, ser um artista colombiano é um privilégio. A Colômbia é uma cápsula densa de experiência. O confinamento eu vivo, porque me dá medo transitar pelo país. Na Colômbia, qualquer um pode virar vítima.”

 

Fonte: entrevista de Doris Salcedo a Mario Gioia in Folha de São Paulo, 18/3/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h00
[   ] [ envie esta mensagem ]




QUE NUNCA SEJA-ME APARTADA

Fotografia de Gianni Berengo Gardin na mostra “Una storia privata. Fotografia e arte contemporanea nella collezione Cotroneo” no Museu Carlo Bilotti em Roma. Coleção de Giovanni e Anna Rosa Cotroneo – publicada in La Repubblica, 18/3/2008.

 

         “Poi mi rivolsi a loro e parla' io,
e cominciai: "Francesca, i tuoi martìri
a lagrimar mi fanno tristo e pio.

Ma dimmi: al tempo d'i dolci sospiri,
a che e come concedette amore
che conosceste i dubbiosi disiri?".

E quella a me: "Nessun maggior dolore
che ricordarsi del tempo felice
ne la miseria; e ciò sa 'l tuo dottore.

Ma s'a conoscer la prima radice
del nostro amor tu hai cotanto affetto,
dirò come colui che piange e dice.

Noi leggiavamo un giorno per diletto
di Lancialotto come amor lo strinse;
soli eravamo e sanza alcun sospetto.

Per più fïate li occhi ci sospinse
quella lettura, e scolorocci il viso;
ma solo un punto fu quel che ci vinse.

Quando leggemmo il disïato riso
esser basciato da cotanto amante,
questi, che mai da me non fia diviso,

la bocca mi basciò tutto tremante.
Galeotto fu 'l libro e chi lo scrisse:
quel giorno più non vi leggemmo avante".

Mentre che l'uno spirto questo disse,
l'altro piangëa; sì che di pietade
io venni men così com'io morisse.

E caddi come corpo morto cade.”

                   Dante Aliguieri in Canto V, Inferno in Commedia.

 

         “Depois voltei-me novamente ao par,

e perguntei: “Francesca, o teu tormento

até as lágrimas move o meu pesar;

         mas dize: dos suspiros no momento,

com que e como concedeu-te amor

do secreto desejo o entendimento?

         E ela a mim: “Não há tão grande dor

qual da lembrança de um tempo feliz,

quando em miséria, e o sabe o teu mentor.

         Mas, se do conhecer desde a raiz

o nosso amor demonstras tal anseio,

eu contarei, como quem chora e diz.

         Líamos um dia nós dois, para recreio,

de Lancelote e do amor que o prendeu;

éramos sós, e sem qualquer receio.

         Vezes essa leitura nos ergueu

olhar a olhar, no rosto desmaiado,

mas um só ponto foi que nos venceu.

         Ao lermos o sorriso desejado

ser beijado por tão perfeito amante,

este, que nunca seja-me apartado,

         tremendo, a boca me beijou no instante.

Foi Galeoto o livro, e o seu autor;

nesse dia não o lemos mais adiante”.

         Enquanto uma dizia seu amargor,

chorava a outra alma e, como quem se esvai

em morte, eu me esvaí de pena e de dor,

         e caí como corpo morto cai.”

 

         Dante Aliguieri, canto V, A Divina Comédia. Tradução de Italo Eugenio Mauro. São Paulo: editora 34, 1998, pp. 53-54.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h33
[   ] [ envie esta mensagem ]




INÚTIL

Cláudio Savaget diante do impossível. Como capturar Manoel de Barros? Fotografia de divulgação, publicada in Jornal do Brasil, 17/3/2008.

 

Mariana Filgueiras anuncia a estréia, amanhã, no canal Futura, de um precioso documentário sobre esse maravilhoso Manoel de Barros. É para emoldurar na parede, transformar em cartilha de alfabetização, publicar em “cases” gerenciais, recitar em praça pública.

Manoel de Barros é desses inúteis, é desses que não servem para nada, é desses perdedores de tempo, é desses que não obedecem, é desses que falam devagar, é desses lentos, muito lentos, é desses que não funcionam direito, é desses que não estão nem aí, é desses fora do sentido, é desses perdedores, é desses fracassados, é desses desnorteados, é desses imprescindíveis.

 

“Dá até para desconfiar da existência do poeta Manoel de Barros, dos mais importantes literatos brasileiros vivos. O poeta não é de entrevistas, não vai a festas literárias e não sai por nada da sombra da sua árvore, no Pantanal. Fala com as formigas, com os caramujos, com o "cheiro do sol", mas com os microfones e câmeras, nunca. Quer dizer, quase nunca. Amigo da família "de Barros", o diretor Cláudio Savaget venceu a resistência manoelina. Em 1992, levou uma câmera para a fazenda do poeta, em Corumbá, em Mato Grosso, e arrancou depoimentos preciosos. Quinze anos depois, voltou à fazenda, gravou outras histórias e o resultado da colagem é a série que o Canal Futura começa a exibir amanhã: Paixão pela palavra: Manoel de Barros.

São cinco episódios, que vão ao ar terças-feiras, às 23h30, com reprises às sextas-feiras. Com trilha sonora do guitarrista Renato Piau e narração da atriz Cássia Kiss e do jornalista José Hamilton Ribeiro, o documentário é uma biografia mais do que autorizada ­ é uma celebração à vida, feita pelo próprio poeta, hoje aos 91 anos, autor de uma obra espalhada por 22 volumes.

- A palavra falada não tem pudor. Falando, a minha capacidade de inventar não funciona -­ justifica a habitual reclusão. Mas logo se solta. Leva a câmera para a janela do seu quarto de escrever, "o lugar de ser inútil", para mostrar de onde vê duas árvores, todos os dias, ao entardecer. Exibe os lápis de ponta grossa com os quais escreve nos cadernos de pauta, como um aluno do primário, apresenta os empregados da fazenda, tudo como matéria prima de sua poesia.

- Sou um colecionador de frases. A palavra me chama todo dia, toda noite. Eu tenho paixão pela palavra, como por uma mulher bonita -­ conta o poeta.

Um dos melhores momentos da série, mais pela surpresa do que pelas palavras, é quando Manoel tenta explicar como faz sua poesia, e por que não é um erudito.

- Poesia é voar fora da asa. Por exemplo, o verso "O esplendor da manhã não se abre com a faca". O que quer dizer este verso? Porra nenhuma! Mas a imagem é o que me interessa, e a imagem deste verso é maravilhosa -­ diverte-se Manoel, repetindo a gravação, agora, sem o palavrão.”

Fonte: Mariana Filgueiras in “A paixão pelas palavras”, Jornal do Brasil, 17/3/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h36
[   ] [ envie esta mensagem ]




DE VOLTA AO RIO

João Bez Batti e seu ofício. Fotografia de Ricardo Chaves in Zero Hora, 17/3/2008.

 

            O escultor gaúcho João Bez Batti foi visitado por Eduardo Veras no distrito de São Pedro, interior de Bento Gonçalves, no chamado Caminho das Pedras. O artista abrirá amanhã uma exposição no Margs, Museu de Arte do Rio Grande do Sul, até o dia 27 de abril. A seguir alguns trechos desta bela reportagem:

 

            Ao lado da mulher e da filha, ambas advogadas, e do filho Diego, artista também, mas voltado à cerâmica e ao grafite, João Bez Batti mora em uma antiga casa de pedra construída por imigrantes italianos. Calcula que ela tenha pelo menos 120 anos.(...)

O artista começou trabalhando com madeira, passou pelo bronze, pelo arenito e, desde 1989, dedica-se quase exclusivamente ao basalto, uma das mais resistentes rochas vulcânicas. Segundo ele, a mais bonita. Compara:

- Os egípcios (que usavam o basalto) foram mais inteligentes que os gregos (que preferiam o mármore). O mármore é frágil. Nem considero que ele seja uma pedra.

O basalto requer violência.

- O escultor é um destruidor - sublinha. - Tem que destruir uma pedra para construir uma escultura.(...)

Conta que, quando menino, morando a menos de 50 metros do Rio Taquari, na Volta do Freitas, perto de Venâncio Aires, encontrava algum alento nas pedras que recolhia e carregava para o quarto.

- Eu vivia em um ambiente de uma pobreza cultural terrível: não tinha igreja, não tinha sociedade, não tinha livros, não tinha luz elétrica.

O pai, italiano do Norte, era homem severo, exigente, duro com os filhos. A mãe se parecia com o rio.

- Hoje, cada vez que eu volto ao rio, é como se eu voltasse ao berço em que ela me embalou.” 

Fonte: Eduardo Veras in “Um berço feito de pedra”, Zero Hora, 17/3/2008. 

 

 

 

João Bez Batti e a volta ao berço. Fotografia de Ricardo Chavez in Zero Hora, 17/3/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h09
[   ] [ envie esta mensagem ]




NUA

Carol Castro in Revista Domingo, Jornal do Brasil, 16/3/2008. Fotografia de Markos Fortes.

 

De tantas fotografias vistas, de tantas reportagens lidas, de tantas páginas folheadas, de tantas análises dissecadas, de tantos comentários comparados, de tantas informações acumuladas, de tantas colunas repetidas, de tantos depoimentos anotados, de tanta Nova Iorque, de tanto Buenos Aires, de tanta Roma, de tanto Madri, de tanta Paris, nada, mas nada me chamou mais a atenção do que Carol Castro na revista Domingo do Jornal do Brasil. Por que só no Rio de Janeiro eu consigo encontrar uma capa de revista assim? Por que só no Rio de Janeiro eu consigo encontrar uma entrevista tão sensível, tão bem diagramada, tão bem feita assim? Obrigado Anna Carolina Braile e Mariana Salim (entrevista) e obrigado Markos Fortes (fotografias). Por que só no Rio de Janeiro eu me deparo com essa mulher andando pela praia de Ipanema (ou do Leblon?), molhando os pés nessas águas? Reparem que essa é uma mulher que pisa na água (há mulheres que não chegam nem perto), que brinca na areia (há mulheres que não brincam), que, sem se despir, está nua, nuíssima, maravilhosamente nua nessa revista (há mulheres que tudo, menos nuas). Por que só no Rio de Janeiro está Carol Castro interpretando Dona Flor lá naquele maravilhoso teatro das artes na Gávea (que saudade!)? Por que só no Rio de Janeiro há essa leveza, há esse bom gosto, há esse fogo, há esse frescor, há essa flor? O que é que acontece nos outros estados brasileiros que não têm um domingo como esse? O que acontece nos outros estados, sólidos demais, vestidos demais, que não mostram essas líquidas, essas gasosas da região passeando pela cidade, falando de sexo e sussurrando do amor? Por que só no Rio de Janeiro, pode alguém me explicar? Querida Carol, meu vôo chega às seis da tarde no Tom Jobim. Obrigado por você fazer questão de, pessoalmente, me responder isso. Obrigado. A propósito, você cometeu um pequeno deslize em nossa troca de mensagens. Meu nome é Ferrari. Leonardo Ferrari. Não é Vadinho. Como? Eu te chamei primeiro de Florípedes? Deixa estar, Carol, deixa estar...



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h49
[   ] [ envie esta mensagem ]


[ ver mensagens anteriores ]


 
Histórico
  22/11/2009 a 28/11/2009
  15/11/2009 a 21/11/2009
  08/11/2009 a 14/11/2009
  01/11/2009 a 07/11/2009
  25/10/2009 a 31/10/2009
  18/10/2009 a 24/10/2009
  11/10/2009 a 17/10/2009
  04/10/2009 a 10/10/2009
  27/09/2009 a 03/10/2009
  20/09/2009 a 26/09/2009
  13/09/2009 a 19/09/2009
  06/09/2009 a 12/09/2009
  30/08/2009 a 05/09/2009
  23/08/2009 a 29/08/2009
  16/08/2009 a 22/08/2009
  09/08/2009 a 15/08/2009
  02/08/2009 a 08/08/2009
  26/07/2009 a 01/08/2009
  19/07/2009 a 25/07/2009
  12/07/2009 a 18/07/2009
  05/07/2009 a 11/07/2009
  28/06/2009 a 04/07/2009
  21/06/2009 a 27/06/2009
  14/06/2009 a 20/06/2009
  07/06/2009 a 13/06/2009
  31/05/2009 a 06/06/2009
  24/05/2009 a 30/05/2009
  17/05/2009 a 23/05/2009
  10/05/2009 a 16/05/2009
  03/05/2009 a 09/05/2009
  26/04/2009 a 02/05/2009
  19/04/2009 a 25/04/2009
  12/04/2009 a 18/04/2009
  05/04/2009 a 11/04/2009
  29/03/2009 a 04/04/2009
  22/03/2009 a 28/03/2009
  15/03/2009 a 21/03/2009
  08/03/2009 a 14/03/2009
  01/03/2009 a 07/03/2009
  22/02/2009 a 28/02/2009
  15/02/2009 a 21/02/2009
  08/02/2009 a 14/02/2009
  01/02/2009 a 07/02/2009
  25/01/2009 a 31/01/2009
  18/01/2009 a 24/01/2009
  11/01/2009 a 17/01/2009
  04/01/2009 a 10/01/2009
  28/12/2008 a 03/01/2009
  21/12/2008 a 27/12/2008
  14/12/2008 a 20/12/2008
  07/12/2008 a 13/12/2008
  30/11/2008 a 06/12/2008
  23/11/2008 a 29/11/2008
  16/11/2008 a 22/11/2008
  09/11/2008 a 15/11/2008
  02/11/2008 a 08/11/2008
  26/10/2008 a 01/11/2008
  19/10/2008 a 25/10/2008
  12/10/2008 a 18/10/2008
  05/10/2008 a 11/10/2008
  28/09/2008 a 04/10/2008
  21/09/2008 a 27/09/2008
  14/09/2008 a 20/09/2008
  07/09/2008 a 13/09/2008
  31/08/2008 a 06/09/2008
  24/08/2008 a 30/08/2008
  17/08/2008 a 23/08/2008
  10/08/2008 a 16/08/2008
  03/08/2008 a 09/08/2008
  27/07/2008 a 02/08/2008
  20/07/2008 a 26/07/2008
  13/07/2008 a 19/07/2008
  06/07/2008 a 12/07/2008
  29/06/2008 a 05/07/2008
  22/06/2008 a 28/06/2008
  15/06/2008 a 21/06/2008
  08/06/2008 a 14/06/2008
  01/06/2008 a 07/06/2008
  25/05/2008 a 31/05/2008
  18/05/2008 a 24/05/2008
  11/05/2008 a 17/05/2008
  04/05/2008 a 10/05/2008
  27/04/2008 a 03/05/2008
  20/04/2008 a 26/04/2008
  13/04/2008 a 19/04/2008
  06/04/2008 a 12/04/2008
  30/03/2008 a 05/04/2008
  23/03/2008 a 29/03/2008
  16/03/2008 a 22/03/2008
  09/03/2008 a 15/03/2008
  02/03/2008 a 08/03/2008
  24/02/2008 a 01/03/2008
  17/02/2008 a 23/02/2008
  10/02/2008 a 16/02/2008
  03/02/2008 a 09/02/2008
  27/01/2008 a 02/02/2008
  20/01/2008 a 26/01/2008
  13/01/2008 a 19/01/2008
  06/01/2008 a 12/01/2008
  30/12/2007 a 05/01/2008
  23/12/2007 a 29/12/2007
  16/12/2007 a 22/12/2007
  09/12/2007 a 15/12/2007
  02/12/2007 a 08/12/2007
  25/11/2007 a 01/12/2007
  18/11/2007 a 24/11/2007
  11/11/2007 a 17/11/2007
  04/11/2007 a 10/11/2007
  28/10/2007 a 03/11/2007
  21/10/2007 a 27/10/2007
  14/10/2007 a 20/10/2007
  07/10/2007 a 13/10/2007
  30/09/2007 a 06/10/2007
  23/09/2007 a 29/09/2007
  16/09/2007 a 22/09/2007
  09/09/2007 a 15/09/2007
  02/09/2007 a 08/09/2007
  26/08/2007 a 01/09/2007
  19/08/2007 a 25/08/2007
  12/08/2007 a 18/08/2007
  05/08/2007 a 11/08/2007
  29/07/2007 a 04/08/2007
  22/07/2007 a 28/07/2007
  15/07/2007 a 21/07/2007
  08/07/2007 a 14/07/2007
  01/07/2007 a 07/07/2007
  24/06/2007 a 30/06/2007
  17/06/2007 a 23/06/2007
  10/06/2007 a 16/06/2007
  03/06/2007 a 09/06/2007
  27/05/2007 a 02/06/2007
  20/05/2007 a 26/05/2007
  13/05/2007 a 19/05/2007
  06/05/2007 a 12/05/2007
  29/04/2007 a 05/05/2007
  22/04/2007 a 28/04/2007
  15/04/2007 a 21/04/2007
  08/04/2007 a 14/04/2007
  01/04/2007 a 07/04/2007
  25/03/2007 a 31/03/2007
  18/03/2007 a 24/03/2007
  11/03/2007 a 17/03/2007
  04/03/2007 a 10/03/2007
  25/02/2007 a 03/03/2007
  18/02/2007 a 24/02/2007
  11/02/2007 a 17/02/2007
  04/02/2007 a 10/02/2007
  28/01/2007 a 03/02/2007
  21/01/2007 a 27/01/2007
  14/01/2007 a 20/01/2007
  07/01/2007 a 13/01/2007
  31/12/2006 a 06/01/2007
  24/12/2006 a 30/12/2006
  17/12/2006 a 23/12/2006
  10/12/2006 a 16/12/2006
  03/12/2006 a 09/12/2006
  26/11/2006 a 02/12/2006
  19/11/2006 a 25/11/2006
  12/11/2006 a 18/11/2006
  05/11/2006 a 11/11/2006