Blog do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba (PR) leobelferrari@uol.com.br


BUSCAMOS

Idea Vilariño em Montevidéu, Uruguai, 1964.

 

BUSCAMOS, Idea Vilariño

Buscamos
cada noche
con esfuerzo
entre tierras pesadas y asfixiantes
ese liviano pájaro de luz
que arde y se nos escapa
en un gemido.

 

 

Buscamos

 

Buscamos

em cada noite

com muito esforço

entre terras sobrecarregadas e asfixiantes

a esse levíssimo pássaro de luz

que arde e nos escapa

num gemido.

 

 

            “A minha melhor lembrança de Montevidéu é o olhar de Idea Vilariño. Ao redor da mesa que os convidados falavam e discutiam com o habitual fervor rio-platense, só ela permanecia em silêncio e observara, essa mulher de setenta e poucos anos, com a pele lisa e brilhante e os traços finos, com uns olhos em que permanecia intacto o fogo frio da juventude. Há pessoas que nos olham desde uma proximidade imediata; Idea Vilariño olhava como emboscada no interior de si mesma, e, rodeada de gente, parecia tão sozinha como nesse quarto que é o espaço visível ou implícito de quase todos os seus poemas: o quarto da insônia, o quarto da solidão ao mesmo tempo orgulhosa e perdida, o quarto do amor furioso e, sobretudo, o quarto da ausência e da lembrança apaixonada e desenganada do amor, o quarto de não esperar mais nada e, ainda assim, seguir esperando aqueles passos na escada e as batidas na porta – onde foi deixada acesa a luz do corredor.”

         Antonio Muñoz Molina in Idea Vilariño, Babelia, El País, 8/3/2008.

 

“Lo que mejor recuerdo de Montevideo es la mirada de Idea Vilariño. Alrededor de la mesa en la que los comensales hablaban con el fervor rioplatense por discutirlo todo sólo ella permanecía en silencio y observaba, una mujer de setenta y tantos años con la piel lisa y brillante y los rasgos afilados, con unos ojos en los que permanecía intacto el fuego frío de la juventud. Hay personas que nos miran desde una cercanía inmediata; Idea Vilariño miraba como emboscada en el interior de sí misma, y rodeada de gente parecía tan a solas como en esa habitación que es el espacio visible o implícito de casi todos sus poemas: la habitación del insomnio, la de la soledad al mismo tiempo orgullosa y desgarrada, la del amor furioso y sobre todo la de la ausencia y la rememoración pasional y desengañada del amor, la habitación de no esperar nada y sin embargo seguir esperando unos pasos en la escalera y unos golpes en la puerta, debajo de la cual se ha encendido a deshoras la luz del descansillo.”

         Antonio Muñoz Molina in Idea Vilariño, Babelia, El País, 8/3/2008.

 



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h59
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PEDAÇO DE MIM

Fotografia de Pier Paolo Cito, da sucursal romana da Associated Press. Foto vencedora do Award of Exellence na categoria General News Reporting do concurso Pictures of the Year International. A foto foi tirada em 23 agosto de 2007 em San Luca, Calábria e retrata algumas mulheres que esperam na Igreja os corpos de Francesco Giorgi, Sebastiano Strangio e Marco Marmo, três das vítimas da tragédia acontecida em 15 de agosto em Duisburg, Alemanha, quando seis cidadãos italianos foram assassinados em um provável ajuste de contas da ‘Ndrangheta, a máfia calabresa. Fonte: La Repubblica, 12/3/2008.

 

 

         As mulheres de San Luca nunca mais serão as mesmas. Seus filhos não vivem mais. As mulheres de San Luca serão para sempre mães. Mesmo que o filho nunca mais volte para casa, mesmo que o filho nunca mais retorne, mesmo que o filho nunca mais fale nada, mesmo que o filho nunca mais diga ciao. As mulheres de San Luca já não esperam mais nada, já não pedem nada a ninguém, já não reclamam, já não se consolam. As mulheres de San Luca estão em um lugar que não existe, em um lugar que não conta, em um lugar que ninguém chega, em um lugar em que não há visitas, em um lugar fora do tempo, em um lugar vazio, cheio do que não há. As mulheres de San Luca são sombras, são espectros, são aquelas lá. As mulheres de San Luca não partirão jamais. Foi ali que elas geraram, foi ali que elas cuidaram, foi ali que elas alimentaram, foi ali que elas foram. As mulheres de San Luca estão aí, reunidas, amontoadas, vividas. As mulheres de San Luca não são mais. Ao contrário da mulher de Verdi, le donne di San Luca sono immobili. É o peso de um adeus que as paralisa, que as agoniza, que as faz estar junto de quem não mais está.



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h28
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O CLUBE DOS HIPÓCRITAS

             A indispensável The Economist traz um artigo brilhante sobre o caso Spitzer. Abaixo um trecho do artigo e o original em inglês para corrigir a tradução às pressas:        

 

“O retorno de Salem

         A história americana é cheia de exemplos do puritanismo perturbando a lei, das bruxas de Salem até hoje. Anthony Comstock, um agitador anti-pornô do século 19, utilizou sua posição de inspetor dos correios para queimar 50 toneladas de livros e 4 mil figuras e desenhos. Ele se gabava de ser o responsável por 4.000 prisões durante a sua carreira e por 15 suicídios. Durante a Proibição, pessoas podiam pegar prisão perpétua por consumo de álcool.

         O puritanismo continua acuando o país em novos disfarces. O mais dramático exemplo da nova versão da Proibição na América, a “guerra às drogas”, ajuda a explicar porque um de cada cem cidadãos americanos adultos está na prisão. Mas há uma série de exemplos menores: as escolas impuseram regras de tolerância-zero que resultam em expulsão por qualquer ofensa, enquanto que os cidadãos do Texas não podem comprar vibradores; já os demais cidadãos americanos, estão proibidos de beber até que completem 21 anos.

         A combinação de legalismo com puritanismo invariavelmente produz os mesmos sombrios resultados. Ela cria uma máquina governamental burocrática muito expensiva e gigantesca que arrasta, sem nenhuma desculpa – e as regras de comércio inter-estaduais são uma prova disso – seus poderes sobre todos os cidadãos ou os vigia sem parar. Ela constrói rapidamente seus fanáticos zeladores que perseguem suas manias com pouco senso de proporção ou decência (relembre de Kenneth Starr [promotor que tentou o impeachment de Clinton por causa de sua relação com Mônica Lewinski]). No final, essa combinação acaba devorando seus próprios filhos. O ex-governador Spitzer é apenas o último de uma infinita linha de cruzados moralistas empalados em suas próprias espadas.”

 

Fonte: The hypocrites' club in The Economist, 13/3/2008.

 

 

“Revisiting Salem

American history is littered with examples of puritanism deranging the law, from the Salem witch trials onwards. Anthony Comstock, a 19th-century anti-porn campaigner, used his position as a postal inspector to seize 50 tons of books and 4m pictures. He boasted that he was responsible for 4,000 arrests during his career and 15 suicides. Under Prohibition people could be imprisoned for life for consuming alcohol.

Puritanism continues to stalk the country in new guises. The most dramatic example is America's new version of Prohibition—a “war on drugs” that helps explain why one in 100 American adults are in prison. But there are plenty of humbler examples. Schools impose zero-tolerance rules that result in expulsion for minor offences. The citizens of Texas may not buy dildos. Americans are banned from drinking until they are 21.

The combination of legalism and puritanism invariably produces the same dismal results. It creates expensive government bureaucracies that seize on any excuse—rules relating to inter-state commerce are a particular favourite—to extend their powers to boss people about or spy on them. It throws up swivel-eyed zealots who pursue their manias with little sense of proportion or decency (remember Kenneth Starr). And it ends by devouring its children. Mr Spitzer is only the latest in an endless line of self-righteous crusaders impaled on their own swords.”

Fonte: The hypocrites' club in The Economist, 13/3/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 16h27
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CANTORA

Kristen desvelada, mas não-toda.

Serge Kovaleski e Ian Urbina descobriram Kristen. Ela tem 22 anos e sabe cantar. Como sabe! Seu nome é Ashley Alexandra Duprè. Em sua página no MySpace, ela declara que “a música é tudo para mim”. Oriunda de New Jersey, ela veio para Nova Iorque para cantar em um night club. Na sua página dá para escutar a música “What We Want”, título bastante sugestivo. Que “nós” será esse? Rapidamente, a loja AmieStreet tratou de lançar seu primeiro álbum, “Unspoken Words”. Unsponken words? E precisa?

Kristen relança a questão sobre o que quer uma mulher. Para ela, a música é tudo.



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h02
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QUEM PEDE PERDÃO...

Fonte: Clay Bennett in Chattanooga Free Press, 18/3/2008.

 

         Dois gênios não perderam a deixa. Clay Bennett, sempre surpreendente, traz a manchete “Político ligado à prostituta” e, abaixo, a maravilhosa continuação da reportagem: “Prostituta expressa vergonha e suplica por perdão”. Quem se envergonha e pede perdão é a prostituta! Sensacional!

         Tony Auth aproveita a fama de “xerife” do ex-governador e demonstra o que significa o sintoma, ou seja, se sacanear, se sabotar, atacar a si próprio. Genial!!

 

 

Fonte: Tony Auth in The Philadelphia Inquirer, 18/3/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 20h19
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LIQUIDAÇÃO - SÓ HOJE

         Para entender os Estados Unidos, basta observar a loja Cafepress. Aconteça o que acontecer, os negócios continuam. De camisinhas (ôps) a camisetas, ligue djá...



Escrito por Leonardo Ferrari às 18h09
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A NOVA ROUPA DO IMPERADOR

O casal 20 antes da queda. Silda Wall Spitzer, a mulher, no último verão em Watkins Glen, Nova Iorque, com seu marido. Fotografia de Narayan Mahon in The New York Times, 12/3/2008.

 

A renúncia do governador do estado de Nova Iorque, Eliot Spitzer, é a suprema ironia daqueles que fracassam ao triunfar. Freud adoraria essa história, pois ela comprova que o inconsciente não perdoa. Ele age – por mais que o sujeito nada queira saber dele. Não é incrível que o homem que se elegeu através da perseguição a redes de prostituição, acabe seus dias enredado completamente numa, chamada simbolicamente de “clube dos imperadores”? Este imperador estava nu e nada sabia disso. Perdeu a cabeça – e a coroa.

         No La Repubblica, Arturo Zampaglione foi ouvir o advogado Alan Dershowitz, famoso combatente dos direitos civis e das causas impopulares. Dershowitz, de 69 anos, declara o seguinte:

 

         “Não nos iludamos. A América está condenada a ser o reino da hipocrisia. A hipocrisia americana tem sua origem na religião. Nós somos a nação do Ocidente com o percentual mais alto de crentes e de pessoas que vão à igreja. Assim, enquanto a Europa vive uma fase pós-cristã, nós continuamos a confundir os pecados com os delitos e a colocar dentro da política qualquer incidente sexual. (...) A verdade é que a sociedade americana é obcecada por comportamentos sexuais desviantes para instrumentalizá-los dentro dos aplausos da opinião pública e da mídia, se recusando a ver o verdadeiro problema da hipocrisia.(...) Eu estava em Washington na época de Kennedy e todos sabíamos muito bem o que acontecia na Casa Branca, mesmo tendo em vista que os jornalistas não publicavam uma linha sequer sobre isso. Os tempos mudaram. As mídias descobriram que cavalgar a hipocrisia faz vender muito mais.” (fonte: entrevista de Alan Dershowitz a Arturo Zampaglione in La Repubblica, 12/3/2008).

 

Uma belíssima análise faz Maureen Dowd no The New York Times: 

 

12/03/2008
Sexo torna políticos estúpidos, logo chegou a hora das mulheres estarem no poder?
Maureen Dowd
Em Fairless Hills, Pensilvânia, The New York Times in UOL, 12/3/2008

Quando eu achava que minha cabeça explodiria ao tentar entender a matemática dos delegados, eu sou atingida pela matemática das garotas de programa. A aritmética de conseguir uma prostituta que seja tanto experiente quanto inspiradora é ainda mais complicada do que a aritmética de conseguir um presidente que seja tanto experiente quanto inspirador.

Se você é um governador frugal que não gosta nem mesmo de pagar a conta de seus consultores políticos, diferente de um xeque árabe ou um apostador perdulário de Las Vegas, você realmente precisa desembolsar US$ 4.300, mais despesas do minibar, para uma empresa fantasma por duas horas com uma mulher de reputação duvidosa? Não há prostitutas mais baratas no (site de classificados) Craiglist? Faz você imaginar quão afiado era o lápis de Eliot Spitzer (o governador de Nova York) na disciplina fiscal do Estado.

E como aquele Rolo Compressor Nº 1 repentinamente se transformou no Cliente Nº 9, um nome de amor com toque de uma colônia Gucci para homens de preço exagerado, dando muitos milhares por muitos anos para uma rede de prostituição cujo preço por hora de suas garotas é cotado na escala de diamantes, de 1 a 7, com 7 custando US$ 3.100, e acima de 7 em um clube especial por US$ 5.500 ou mais?

(Um amigo meu, que conhece os modos dos obstinados, explicou que os cafetões sem dúvida tinham um jogo de trapaça tanto quanto uma empresa fantasma: "Eles dizem: 'Você pode ficar com a Jane. Ela custa US$ 1.000 a hora. Ou pode ficar com a Tiffany, por US$ 5 mil a hora'. O cliente não sabe que Jane e Tiffany são a mesma garota. Os clientes não vão exatamente comparar anotações. 'Eu paguei US$ 5 mil pela Kristen. Você só pagou US$ 1 mil pela Chrissy?'")

Se sangue terá sangue, como Shakespeare disse em "Macbeth", o poder terá sexo.

Algumas pessoas entenderam a saga de Eliot Ness no bordel, a velha história do fariseu pego em flagrante delito, como um sinal de que uma mulher devia ser presidente. "Eu pensaria na história de nosso estimado governador como prova de que precisamos de uma mulher na presidência", uma mulher que conheço disse em uma mensagem por e-mail. Outra mulher mandou o oposto em um e-mail para um amigo: "Eu espero que isto faça as pessoas lembrarem de Monica Lewinsky. Será que escândalos sexuais podem ser oportunos?"

Nos tempos modernos, você raramente vê qualquer homem apoiando palidamente suas esposas. Mas no passado, as mulheres se envolviam com sexo e poder. Quando Bette Davis interpretou Elizabeth I, ela sempre enviava seus amantes para a Torre de Londres quando voltavam seus olhos para suas damas de companhia. Catarina, a Grande, não foi conhecida por sua moderação. Sem falar de Agripina e Cleópatra, é claro.

Hillary não deve ter ficado satisfeita em estar em todos os comentários "apóie seu marido" na TV, ou ouvir a lista dos 10 mais de Spitzer de David Letterman, que incluiu: "Eu achei que Bill Clinton tinha legalizado estas coisas anos atrás".

Lyndon Johnson já observou que as duas coisas que tornam os políticos mais estúpidos do que qualquer outra coisa são o sexo e a inveja. (...)

Tradução: George El Khouri Andolfato in UOL, 12/3/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 16h07
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A PULSÃO ESCÓPICA

Kate Moss por Irving Penn em leilão da Christie’s de Londres em Nova Iorque no próximo 10 de abril. Coleção Gert Elfering. Fotografia EFE in La Repubblica, 17/3/2008.

 

         O que há atrás de uma mulher? O que uma fotografia não consegue mostrar? O que uma mulher não revela jamais? O que um homem busca numa mulher? O que significa sustentar a imagem de uma mulher? Haverá aqui frente e verso, como pensou Euclides, ou não seria tudo uma mesma superfície, como imaginou Moebius?

         Kate Moss no olhar de Irving Penn vai numa direção. Kate Moss no olhar de Hedi Slimane, vai noutra. Em Hedi Slimane, a Moss vira mulher. Não-toda, não-completa, não-integral. O gênio de Hedi Slimane soube demonstrar que esse olhar só pode ser parcial - jamais total. A Kate de Slimane é aos pedaços - como o amor, como o sexo.

 

 

Kate Moss por Hedi Slimane in Libération, 8/3/2008.

 

 

Kate Moss por Hedi Slimane in Libération, 8/3/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h53
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ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ

Kristen não aparece aqui. Mas seu cliente número 9 pagou $4.300 para que ela saísse de Nova Iorque e fosse encontrá-lo no hotel Mayflower em Washington. Delivery? O site do Emperor’s Club foi retirado do ar após a denúncia do The New York Times. Pena. Na Slate, uma divertidíssima reportagem sobre as executivas de sucesso do Emperor’s. Coisa fina.



Escrito por Leonardo Ferrari às 16h38
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SUJEITO DIVIDIDO

O governador do estado de Nova Iorque, Eliot Spitzer, após pedido público de desculpas ontem, em Albany. Fotografia de Shannon Stapleton/Reuters in The New York Times, 11/3/2008.

 

         O governador do estado de Nova Iorque, Eliot Spitzer, foi pego com a boca na…digamos, botija. O The New York Times deitou e rolou na história. Em matéria saborosa, picante, vulcânica, Alan Feuer e Ian Turbina revelam que ele era o cliente número 9, do quarto 871, do hotel Mayflower, em Washington. O íncubo teria acontecido no dia anterior ao dia dos namorados (simbolíssima data), com uma prostituta de nome Kristen – descrita na reportagem como “pretty and petite”, em resumo, gatíssima e, digamos, para combinar com a botija, com as formas cilíndricas, bem bojuda. Essa fotografia de Shannon Stapleton é magnífica. Para mim, já é a foto do ano! Já ganhou! O que aconteceu com a boca de Spitzer? Eis aqui o nó do simbólico, do imaginário e do real. Ou, o nó da Kristen. Espetacular!

 

 

Fonte: The New York Times, 11/3/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h10
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A PARTE MAIS NOBRE

Fonte: Zero Hora, 11/3/2008.

 

         Técnicos europeus vistoriaram ontem duas fazendas gaúchas das 11 que integram a lista liberada pela União Européia de 99 propriedades brasileiras para exportarem carne ao bloco (fonte: Sebastião Ribeiro e Rodrigo Santos in Zero Hora, 11/3/2008). A espanhola Ana Ramirez, a italiana Beatrice Bussi e o eslovaco Milos Juras, estiveram na Estância Santa Adriana em São Gabriel. Em Pinheiro Machado compareceram dois outros técnicos, um da Holanda e um da Bélgica. O que constataram os técnicos europeus? Que o gado está muito, mas muito bem tratado. O gado está corado, o gado está vacinado, o gado está tranqüilo, o gado está bem. É uma pena que a União Européia não se interesse em saber como anda quem trata desse gado. Se a comissão fosse vistoriar as condições de trabalho dos peões, iria se surpreender. O peão está desbotado, o peão não está vacinado, o peão vive sob ameaça constante de demissão, o peão não vive. O gado vive. O peão é descartável, é substituível, é tratado como resto. O gado come bem. O peão é custo fixo, o peão só enche o saco, o peão fala demais, o peão reclama muito, o peão come migalhas. O gado anda muito bem, circula pelo campo. O peão se arrasta, o peão é um fiapo, o peão não tem mais voz. O gado vai muito bem. Os europeus aplaudiram o gado. Quanto ao peão, não interessa. Esse não vale nada. O que interessa é o gado. O peão? Esse é um peso morto. Em breve não será mais necessário. O gado sim é que importa. Os europeus adoraram o gado. E o peão? Que se dane, que se estrepe, que se lixe. O gado foi checado, o gado foi minuciosamente examinado. O gado foi aprovado.  Isso é o que importa. O gado.

         Mais uma observação. Há uma parte do boi, pertinho do alcatra, entre a maminha e a costela, que se chama vazio. Vazio!!!! Espetacular! É a parte mais nobre do boi. Sem ele, nada mais existe. Na próxima vez que o leitor ou a leitora for ao açougue, não se esqueça: um quilo de vazio e qualquer outra coisa para acompanhar! Não há nada igual ao vazio. Nada. O boi não seria sem o vazio.

 

 

Fonte: Zero Hora, 11/3/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h52
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A MÚSICA DA NOITE

                 De vez em quando a Gazeta do Povo surpreende e traz um retrato não retocado, sem photoshop, da Curitiba oficial. Só de vez em quando. Chato é que a alma do espanhol vai ter que esperar. Quem sabe na próxima vez...

 

“Casa Cheia

A sociedade curitibana compareceu em peso ao show de Julio Iglesias na noite de sexta-feira, no Clube Curitibano. Estavam lá pessoas como o ex-governador Jayme Canet Júnior, acompanhado da família, empresários, socialites e políticos. O Salão Azul ficou completamente lotado. Quem sentou nas (micro) mesas do fundo saiu frustrado por assistir ao show mais pelas tevês de plasma espalhadas pelo salão do que ao vivo.

Casa cheia 2

A apresentação estava marcada para as 21h30, mas começou efetivamente às 22h57, depois de insistentes pedidos dos organizadores para que o público se acomodasse em seus lugares. Um minuto depois, Iglesias surgiu no palco fazendo trejeitos e assim continou até o final, à meia-noite e vinte e cinco, quando beijou a palma da mão e a encostou no chão, sob aplausos, com o público cantando e dançando o hit “Mal acostumado”, da banda Ara Ketu.

Casa cheia 3

Logo no começo, ao iniciar a segunda música, um momento desconfortável. Como muita gente conversava, Iglesias interrompeu a música e falou em português arrastado: “Se vocês vão estar falando minha alma não vai chegar até vocês. Se vocês não falam eu juro que vão morrer de amor”. E retomou a canção.”

Fonte: Reinaldo Bessa in Gazeta do Povo, 9/3/2008.

 

 

“Antes do início do show, algumas pessoas que tinham mesas no fundo do salão trocaram os números com outras localizadas mais à frente e que ainda não estavam ocupadas. O fato gerou desconforto e confusão aos organizadores do evento.”

Fonte: Cristiano Luiz Freitas in Gazeta do Povo, 10/3/2008



Escrito por Leonardo Ferrari às 12h07
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SABATCHKA

Tomorrow From Yesterday, Tomorrow, Today, Paris

Man Ray, 1931.

 

            “Tinham a impressão de que mais um pouco e encontrariam a solução e, então, começaria uma vida nova e bela; todavia, em seguida, tornava-se evidente para ambos que o fim ainda estava distante e que o mais difícil e complexo apenas se iniciava.”

 

        Anton Pavlovitch Tchekhov. A Dama do Cachorrinho (1899) in A Dama do Cachorrinho e Outros Contos. Tradução de Boris Schnaiderman. São Paulo: editora 34, 1999, p. 333.

 

            Haverá conto mais erótico que “A Dama do Cachorrinho” de Tchekhov? Haverá traição mais bela que aquela feita por Nikita Mikhálkov em sua maravilhosa “adaptação” do conto para o cinema em “Olhos Negros” (1987), com o inesquecível Marcello Mastroianni? Haverá um final de conto mais espetacular que esse de Tchekhov, reproduzido acima? Haverá um final de filme mais pungente que o de Nikita Mikhálkov?

         Em certas horas incertas da vida, aquelas mais constantes, eu retiro da estante A Dama do Cachorrinho e releio, releio e releio. Quando isso não basta, eu revejo Olhos Negros, mais uma vez, de novo, outra vez. Não é só Tchekhov, não é só Mikhálkov, não sou só eu. É aquela dama, são aqueles olhos, é o início que nunca terminou, é o fim que sempre esteve ali. Sabatchka.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h34
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DIANA VISHNEVA

Diana Vishneva, primeira bailarina do Maryinsky (Kirov) em uma cena de F.L.O.W. (“For Love of Women”) do coreógrafo Moses Pendleton, parte do programa “Diana Vishneva: Beauty in Motion” no New York City Center, Nova Iorque. Fotografia de Armen Danillian in The New York Times, 15/2/2008.  

 

 

         “E assim Tirésias,

         Famoso em todas as cidades e vilarejos de Aonian,

         Dava respostas irretocáveis a todos os que vinham

         Em busca de sua orientação. Um dos primeiros a testar

         As verdades que ele dizia foi uma náiade do rio,

         Liriope, a quem o deus dos rios, Céfiso,

         Abraçou e arrebatou para sua casa aquática.

         Ela deu à luz uma criança, a mais linda

         Das crianças, e lhe deu o nome de Narciso,

         E perguntou a Tirésias se o garoto viveria

         Até uma idade avançada. Tirésias respondeu:

         “Sim, se ele nunca descobrir a si mesmo”. Quão tolas

         Aquelas palavras soaram, por tanto tempo! Mas do jeito como as

         coisas aconteceram,

         O tempo provou que elas eram verdadeiras – o modo como ele

         morreu, a estranheza

         De sua fascinação.”

 

         Ovídio. A História de Eco e Narciso in Metamorfoses. São Paulo: Madras, 2003, p. 61.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h54
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