Blog do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba (PR) leobelferrari@uol.com.br


O CONFLITO ENTRE DUAS VÍTIMAS

Reproduzo abaixo o trecho de uma entrevista do escritor israelense Amoz Oz, traduzido por Pedro Doria em seu blog. É a mais bela reflexão que eu já li sobre o conflito entre Israel e Palestina. Há muita psicanálise nesta análise. Amoz Oz nesta resposta construiu mais uma obra-prima. Inesquecível, maravilhosa e indispensável.

“Minha definição de tragédia é o choque entre quem está certo e quem também está certo. Neste sentido, o conflito entre Israel e Palestina é uma tragédia, o confronto entre um poderoso, convincente e doloroso argumento pela posse desta terra e outro igualmente poderoso, convincente e doloroso argumento. Este tipo de conflito pode ser resolvido de duas formas. A tradição shakesperiana resolve a tragédia com o palco, no final da peça, coberto de corpos mortos. Mas também há a tradição de Anton Tchekov. Na conclusão de uma tragédia de Tchekov, todo mundo está desapontado, desiludido, amargurado, todos têm o coração partido. Mas estão vivos. O que busco não é um fim sentimental de amor fraterno, de uma repentina lua de mel entre israelenses e palestinos. A mim, basta um final à moda de Tchekov.

O que sinto é que pela primeira vez em cem anos de conflito, os dois povos, israelenses e palestinos, estão à frente de seus líderes. Os dois povos sabem que, no fim, haverá dois países. Não gostam da solução. Você vai encontrar milhares de pessoas frustradas em ambos os lados. Mas eles sabem. Se você fizer uma pesquisa perguntando a todo judeu israelense e todo árabe palestino ‘o que você considera uma solução justa?’, ‘o que você acha que acontecerá no fim das contas’, imagino que a vasta maioria responderá que é o compromisso com a solução que prevê dois Estados. É um avanço.

As duas nações são atormentadas pelo passado. O judeu israelense quanto o árabe palestino são vítimas da Europa de duas formas distintas. Os árabes sofreram com o colonialismo, o imperialismo, a opressão e a exploração. Os judeus com a supressão, a discriminação e, por fim, com o genocídio. Agora, as duas vítimas do mesmo opressor não se tornam necessariamente irmãos. Dois filhos do mesmo pai cruel não necessariamente e abraçam. Às vezes, as piores rivalidades, na vida particular ou na pública, são justamente os conflitos entre duas vítimas do mesmo opressor. Dois filhos do mesmo pai cruel olham um para o outro e vêem a imagem daquele pai cruel, a imagem de seu opressor passado. É o que acontece entre o judeu e o árabe. É o conflito entre duas vítimas.”

Amos Oz, 2002. Tradução de Pedro Doria em seu blog, 8/3/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 17h44
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HEBE CAMARGO

Hebe Camargo. Reportagem de Melina Dalboni e fotografia de Daniel Pinheiro in O Globo, 8/3/2008.

 

         O caderno Ela do Globo é uma ilha de inteligência no jornalismo mundial. Não há nada igual em São Paulo, nada igual em Minas Gerais, nada igual no Paraná. No Rio Grande do Sul, o Donna da Zero Hora é só um pouco parecido. O The New York Times tem o Sunday Styles aos domingos que é muito bem feito, mas falta pimenta, falta uma certa irreverência, falta o Ela. A Itália tem o La Repubblica delle Donne que é bonitinho, mas não é picante, não é o Ela. Na França não vi nada assim, nem na Espanha. Mas o que é que o Ela tem? O Ela tem bom gosto, tem uma fina ironia, tem uma leveza, tem uma brasilidade, tem uma carioquice, tem humor, tem essa maravilhosa fotografia de Daniel Pinheiro, tem essa menina, Melina Dalboni, tem a indispensável Elisabeth Orsini. É tanta gente boa, que só pode sair esse caderno que é uma ode às mulheres, uma elegia ao feminino, um poema à delicadeza delas.

         O que dizer desta magnífica Hebe Camargo em página inteira? É pouco. Hebe Camargo merecia uma edição inteira do jornal – das editorias “nacional” à “internacional”. Hebe Camargo merece todas as páginas. Que mulher gostosa! Que tesão de mulher! Linda, querida, generosa, destrambelhada, desbocada, politicamente incorreta dos pés à cabeça, Hebe Camargo é daquelas imprescindíveis. O que seria da televisão brasileira sem Hebe Camargo? Seria uma chatice sem fim, seria um tédio só, seria uma porcaria. Hebe Camargo dá à televisão uma graça infinita, uma graça derramada, uma graça escorrida, uma graça que vai fazer onda para sempre na memória de quem a vê, na memória de quem conversa com ela, na memória de quem ri junto com ela, na memória de todo aquele que foi tocado por esta mulher-deusa, essa mulher-mortal, essa mulher-diáfana, essa Hebe-Eco que nos tira do espelho e nos joga no sofá, que nos despe e que se deita junto, se enrosca, se chega, se aninha, se faz em pedaços, se abre devagar e geme, e quer mais, e volta, e dá a volta e nunca, mas nunca mesmo, está no mesmo lugar – porque se sabe passageira, se sabe parcial, se sabe desejante. Hebe Camargo não é mulher de meio-termo, não é mulher que pensa antes de falar, não é mulher com medo das besteiras, não é mulher insensível, não é mulher fria, não é mulher vulgar, não é mulher de adiar. Hebe Camargo é uma diva, é uma prima-dona. Linda, frágil, delicada, Hebe Camargo, meu amor, é minha estrela. Linda, frágil, delicada.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h19
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FORÇA VITAL

Fonte: O Globo, 7/3/2008.

 

A arte ou a vida. Louise Bourgeois é assim. Não existe o “e” tranqüilizador, o “e” pacificador, o “e” normalizador, o “e” integrador, o “e” mediador, o “e” familiar, o “e” sorridente, o “e” educativo, o “e” relacional, o “e” tolerante, o “e” compreensivo, o “e” feliz, o “e” para sempre, o “e” é isso aí, o “e” amoroso. Louise Bourgeois foi escolhida pela arte, foi tomada pela arte, foi seqüestrada pela arte, foi possuída pela arte, foi dividida pela arte, foi despedaçada pela arte, foi pela arte, é pela arte, será pela arte. Louise Bourgeois é o nome desse desejo estranho, desse desejo estrangeiro, desse desejo insano, desse desejo imenso, desse desejo carnal, desse desejo vital, desse desejo do desejo, desse desejo que se abre, desse desejo que diz vem, desse desejo que grita sim, sim, sim. A arte ou a vida. Louise Bourgeois.

 

            “Tento traduzir meu problema em pedra. A escultura começa pelo processo de negar a pedra. O problema é como completar a negação, retirar da pedra sem destruí-la completamente, mas superando-a, conquistando-a. O cubo deixa de existir como forma pura para contemplação; torna-se uma imagem. Eu o domino com minha fantasia, minha força vital. Submeto-o a meu inconsciente.”

 

         Louise Bourgeois. Destruição do Pai, Reconstrução do Pai. São Paulo: Cosac & Naify, 2000, p. 163.



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h29
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BUMERANGUES

Fonte: Pancho, L’arme fatale in Le Monde, 6/3/2008.

 

         O genial Pancho faz hoje no Le Monde o que se chama de clássico. Intitulado de “A arma fatal”, eis aqui o super-bombardeiro de Israel jogando sobre a Faixa de Gaza suas bombas. Detalhe: bombas-bumerangues. Magnífica análise de Pancho. A grande característica do bumerangue é a de retornar para quem o lançou. É incrível a semelhança aqui com o conceito de retorno do recalcado de Freud. Assim como Newton com a lei da gravidade, Freud descobriu essa lei implacável da vida cotidiana. Você pode tentar construir um muro, você pode tentar se isolar, você pode tentar negar aquilo que o incomoda, você pode tentar varrer para debaixo do tapete da sala, você pode tentar sentar em cima, você pode tentar fazer como o avestruz, você pode tentar eliminar qualquer vestígio do que o atazana, você pode tentar tomar tranqüilizantes, você pode tentar mudar o corpo, você pode tentar viajar. O resultado é que o recalcado retorna – às vezes no ato falho, às vezes no sintoma, às vezes nos sonhos, às vezes nos atrapalhos, às vezes na auto-sabotagem. Ele retorna. Freud inventou a psicanálise como um tratamento para esse recalcado, um tratamento que privilegia a sua escuta, a sua elaboração, a sua aceitação.

         Sobre Israel, um dos exemplos mais chocantes desse retorno foi a declaração semana passada do vice-ministro da Defesa, Matan Vilnai, de que o lançamento de foguetes por parte dos palestinos em Gaza poderia provocar o que ele chamou de shoah – palavra hebraica usada para denominar tanto o Holocausto nazista como uma situação de desastre. Ora, eis aqui algo inusitado. O retorno do holocausto agora como ameaça de Israel à Palestina. Um judeu nazista, um judeu identificado com o carrasco, um judeu identificado com uma política de extermínio que, no passado, atingiu seu próprio povo.

         Pedro Doria tem um excelente blog de política internacional e comentou recentemente que

 

“A atual política de Israel é um desastre. A promoção de uma carnificina na Palestina – sem esquecer a do Líbano – é uma tragédia humana. É também estúpido. Israel nasceu como a esperança de vida após uma das maiores tragédias da história humana. É uma esperança que o governo da coligação Kadima e Partido Trabalhista, hoje no poder, trai por incompetência, insensibilidade e a mais pura estupidez. Os facínoras estão no comando. Saudades de Yithzak Rabin.”

Fonte: Pedro Doria in “Israel e Palestina: a vitória da insensatez”, blog de 3/3/2008.

 

         Pois é. As bombas bumerangues retornarão. Retornarão na Palestina, retornarão em Israel. Como tratar o recalcado nessa região? Como fazer esses dois se escutarem, elaborarem suas angústias e fantasias, aceitarem a existência um do outro? Como abrir espaço para a palavra no lugar desses bombardeiros, aviões-bombardeiros israelenses e homens-bombas palestinos, foguetes-bombas palestinos?



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h09
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PUZZLE

         Fonte: Ique in Jornal do Brasil, 5/3/2008.

 

         Só uma pergunta para o Ique. Eu gostei da sátira sobre o cérebro de Chávez. O humor ainda é uma das principais armas contra a babaquice e a arrogância não só dos políticos, mas dos humanos em geral. Agora, essa charge causa um problema difícil de resolver. Se o cérebro de Chávez é assim, como é o cérebro de George W. Bush? Essa é difícil. Se um tem merda na cabeça, o outro tem...difícil. Essa é difícil. Todas as minhas associações são impublicáveis. Difícil.



Escrito por Leonardo Ferrari às 16h57
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O SUJEITO OCULTO

Fonte: Chico Caruso, 5/3/2008.

 

A interpretação psicanalítica é uma arte. Por exemplo, às vezes o analisante fala, fala, fala e fala – e é justamente o que ele não diz que se constitui o mais precioso. Na magnífica charge de Chico Caruso, quem é o sujeito que não está ali, o sujeito oculto? Quem é o Wally escondido, não visível, não aparente? Pois o ótimo Página 12 de Buenos Aires estampou ontem em sua manchete o nome desse sujeito oculto. Brilhante primeira página! Alguém em sã consciência acredita que as “forças armadas” da Colômbia foram as autoras do ataque que matou o negociador das FARC no Equador? Aliás, esse ataque tem uma impressão digital gigantesca. Quem é o especialista em matar negociadores? Quem é o useiro e vezeiro em praticar a guerra primeiro e perguntar depois?

Estréia hoje em São Paulo a mostra “Guerra nas Estrelas”. Darth Vader entre nós? Faz tempo...

 

 

Fonte: Página 12, 4/3/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 11h55
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Honoré Daumier em caricatura da série “Croquis tomados no teatro”, publicada na revista satírica Le Charivari em 1864 in El País, 5/3/2008.

 

            Octavi Martí relata de Paris para o El País sobre a homenagem da Biblioteca Nacional da França ao Michelangelo da caricatura, Honoré Daumier. Daumier nasceu em Marselha, filho de um poeta vidreiro, e foi o desenhista político mais célebre do século XIX, mas morreu cego e pobre em uma casa que lhe ofereceram seus amigos artistas. Baudelaire declarou sobre Daumier que “só os artistas compreenderam o que havia de importante em seu trabalho”. Me chamou a atenção essa frase de Baudelaire: só os artistas, unicamente os artistas, só eles viram, só eles perceberam, só os artistas lhe conseguiram uma casa para morar, só os artistas o acolheram, só os artistas o divulgaram, só os artistas o ajudaram, só os artistas o aplaudiram, só os artistas se deixaram levar por este gênio, só os artistas. Só os artistas. Pois isso modifica toda a história. Daumier morreu rico, muito rico. Só os artistas? Daumier morreu riquíssimo!



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h39
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AQUI COMEÇA A VIDA NOVA

Alek Wek fotografada por Max Cardelli in La Repubblica delle Donne, 2 de fevereiro de 2008.

 

          Querida Alek,

         Eu suspiro.

           

  “Tanto gentile e tanto onesta pare
la donna mia quand'ella altrui saluta,
ch'ogne lingua deven tremando muta,
e li occhi no l'ardiscon di guardare.
     Ella si va, sentendosi laudare,
benignamente d'umiltà vestuta;
e par che sia una cosa venuta
da cielo in terra a miracol mostrare.
     
Mostrasi sì piacente a chi la mira,
che dà per li occhi una dolcezza al core,
che 'ntender no la può chi no la prova:
     e par che de la sua labbia si mova
un spirito soave pien d'amore,
che va dicendo a l'anima: Sospira.”

 

         Dante Aliguieri in Vita Nuova, 1293.

 

         “És tão gentil e de vaidade isenta

         a minha dama, quando alguém saúda,

         que a língua logo trava, tartamuda,

         e a vista na visão não se sustenta.

        

         Quando ela passa entre os louvores, lenta,

         afável na humildade que não muda,

         lembra coisa do céu vinda em ajuda

         de todo aquele que um milagre alenta.

        

         Não há graça maior pra quem a mire:

         uma doçura, pelo olhar, vai fundo

         - e só quem já sentiu pode dizê-lo.

 

         Velando o seu semblante com desvelo,

         um espírito do Amor se mostra ao mundo,

         dizendo à alma, devagar: Suspire!”

 

         Dante Aliguieri, Vida Nova in Dante, Shakespeare, Sheridan, Goethe – Retrato do Amor quando Jovem. Projeto e tradução de Décio Pignatari. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, pp. 60-61.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h05
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PENSAR SEM MEDO

Fonte: Le Monde des Livres in Le Monde, 29/2/2008.

 

            Não é preciso ser marxista para apreciar essa maravilhosa entrevista deste indispensável pensador que é Jean-Claude Milner. Há aqui humanidade, há aqui inteligência, há aqui vida, muita vida. Parabéns ao Le Monde e a Jean Birnbaum. Essa é daquelas para emoldurar na parede, transformar em cartilha de alfabetização e colar nas paredes dos campi universitários país afora. Memorável! Sensacional!

 

03/03/2008
Karl Marx ainda não disse sua última palavra
Jean Birnbaum, Le Monde in UOL.

Por que continuar lendo Karl Marx (1818-1883), o autor de "O Capital"? Por causa da clareza formal dos seus textos, e da força do seu raciocínio, explica o filósofo e lingüista Jean-Claude Milner na entrevista a seguir.

Le Monde - Qual é o lugar que Marx e a sua obra ocupam no seu itinerário de pensamento?
Jean-Claude Milner - Em qual momento um estudioso resolve parar com a sua atitude de definir como único objetivo de repetir da melhor maneira possível o que já foi dito? Este momento, para mim, dependeu de Marx. A meta de escrever para si mesmo, e não para satisfazer às exigências acadêmicas, não é tão simples assim; se eu a alcancei de vez em quando - pouco importa que o resultado seja ou não digno de interesse -, foi em primeiro lugar graças a Marx. Posteriormente, outros nomes tomaram o seu lugar, mas, no caso de Marx, foi uma prioridade, e continua sendo uma dívida para com ele. Não há dúvida de que o impulso inicial foi dado por Louis Althusser (1918-1990, filósofo marxista) foi decisiva, mas o meu interesse subseqüente se deve aos textos do próprio Marx. Eu não diria que eles me ensinaram a pensar, mas sim que eles me ensinaram que o pensamento consiste em abandonar as nossas próprias bagagens. Marx me ofereceu a oportunidade para a minha primeira "emigração filosófica". Se eu tivesse de resumir o que revelou ser mais importante e continua sendo até hoje, mencionaria o seguinte: quando o lemos como se deve, Marx nos torna especialmente sensíveis para o fato de que uma entidade não precisa mudar de natureza para operar efeitos opostos. Isso não se deve ao fato de a entidade se transformar no seu contrário; é justamente porque ela permanece idêntica a si mesma que os seus efeitos se invertem. A máquina, ao permanecer tal como ela é, pode acentuar a servidão ou gerar um princípio de liberdade. A burguesia não se torna diferente dela mesma entre o momento em que ela desencadeia as revoluções e o momento em que ela instala os conservadorismos. O capitalismo precisa ao mesmo tempo de que a mais-valia exista e que nenhum capitalista consiga compreender que ela existe. Mais perto de nós, foi ao persistir em se inscrever numa mesma estrutura histórica que a Europa democrática produziu, em relação ao nome judeu, tanto a recusa do crime quanto a aceitação dos resultados do crime. Temos nisso um exemplo de reviravolta topológica da mesma ordem do que aquelas que Marx descreve e analisa. Ele recorria a uma linguagem hegeliana e à dialética. Mas isso não é nem um pouco necessário. Outras linguagens revelam-se, da mesma forma, adequadas: estou me referindo a Roman Jakobson ou a Michel Foucault. O que importa é que é preciso ter lido Marx para se dar conta disso.

Le Monde - Qual é o texto de Marx que mais o impressionou, e que mais lhe proporcionou ensinamento, e por quê?
Milner - Muitos foram os textos que me impressionaram, de uma maneira ou de outra. Entre outros, os textos do período que vai de 1840 a 1850, que são modelos de inteligência. Mas o mais completo, em minha opinião, é "Salário, preço e lucro". A nitidez da forma, a força do raciocínio, a vontade de não ceder em nada ao politicamente correto, a força explicativa diante de fenômenos paradoxais, tudo nele é admirável.

Le Monde - Em sua opinião, em que este autor encontra hoje a sua atualidade mais intensa?
Milner - Eu seria o primeiro a defender a opinião de que as doutrinas econômicas de Marx merecem plenamente o recrudescimento de interesse que as cercam atualmente. Mas isso é o mais importante? Não creio. Para a política, não se pode deixar de mencionar o preço que Marx foi obrigado a pagar por se distanciar de Hegel: a ausência de toda reflexão verdadeira sobre as instituições. Sobre o Estado, sobre o sufrágio universal, sobre os poderes, sobre o direito, não há nada em sua obra, a não ser a crítica altiva. É por esta razão que Lênin foi obrigado a improvisar - o que ele fez de maneira brilhante, em certos casos, é verdade, mas a improvisação nesses campos é proibida: ela conduziu à catástrofe. Prefiro situar Marx em outro campo. Do lado da escrita e do lado do pensamento. Leo Strauss insistiu sobre a existência de uma arte de escrever por parte de quem é vítima de perseguição. Que seja, mas é preciso se perguntar também como os autores fizeram, depois das Luzes, lá onde todos podiam escrever a respeito de assuntos polêmicos sem temerem a perseguição. A resposta é simples: foi preciso desenvolver uma nova arte de escrever. Esta foi a mais gloriosa empreitada do século 19; os que se dedicaram a ela não são tão numerosos assim. Na língua francesa, só consigo me lembrar dos romancistas e dos poetas. Na língua alemã, Marx é certamente um dos mais importantes. Ele praticou dois modos de escrita. Eu chamarei o primeiro de 'a corrosão do presente pela esperança no futuro' - uma categoria na qual se incluem os textos sobre a atualidade, "As lutas de classes na França de 1848 a 1850" (1850), "O 18 Brumário de Luis Bonaparte" (1852), os artigos do "New York Tribune" (1852-1862). Ou ainda os comentários ocasionais a respeito de obras literárias - estou me referindo, por exemplo, à espantosa desmontagem de "Os Mistérios de Paris" (um romance de Eugène Sue, publicado em 1842-43) em "A Santa Família" (1845). O outro modo de escrita diz respeito ao saber - o qual Marx separa explicitamente de toda esperança. Sobre esta questão, leia o prefácio de "O Capital". Mas, voltando aos dois modos de escrita, trata-se de escrever sem temer a perseguição. Estou me referindo evidentemente à perseguição policial, mas existem outras formas de perseguição mais sutis. Por exemplo, a desaprovação daqueles dos quais nós deveríamos, em nome da esperança, nos tornar amigos. Não há nada mais estimável em Marx do que a sua vontade de não dar ouvidos para as lamúrias dos bem-intencionados que tentam convencê-lo de que ele está equivocado em não se enganar. Mas é preferível aqui não nos deter aos detalhes. A verdadeira questão diz respeito ao futuro da arte de escrever sem reservas mentais, uma arte que é mais recente do que aquela de Strauss, mas que caiu ainda mais no esquecimento. Eu sei que a perseguição reapareceu. As matanças, as maldições, a prisão, tudo recomeçou. Então, a arte de escrever sob a perseguição é um tema que está se tornando novamente inevitável. Mas, nos lugares onde o pior ainda não se instalou, ninguém precisa se apressar a renunciar a esta outra arte de escrever, da qual Marx foi um mestre. As virtudes da sua abordagem são muitas: nem prudência nem respeito, raciocinar sem dobrar-se; não fingir estar errado quando se está certo, não deixar para intermediários a tarefa de dizer o que se pensa, não misturar aquilo que se tem como verdadeiro em meio a declarações de submissão e de fidelidade àquilo que se tem como falso. Estas são as virtudes que conservei de Marx. Ora, andei constatando que há uma grande indiferença em relação a esta questão por parte daqueles que dizem ser os seus herdeiros. Resta o pensamento. Nós sabemos que Marx declara ser um materialista. A proposta materialista por excelência tem o seu enunciado: nada se perde, nada se cria. Resumindo, a matéria é um jogo no qual a soma é nula. Ora, o materialismo de Marx afirma abertamente o contrário: existe algo material que se cria por meio apenas do jogo das forças materiais. Tal é a teoria da mais-valia: a força de trabalho cria valor lá onde este não existia. Todos os grandes pensamentos materialistas se baseiam numa operação análoga. Ou alguma coisa se perde, ou alguma coisa se cria. É possível detectar a existência de materialismos do "menos um" (tal como defendeu Freud nos seus textos finais) e de materialismos do "mais um" (o "clinamen" de Lucrécio, filósofo epicurista do século 1 a.C.; ou ainda o aleatório darwiniano como origem das espécies, etc.). O "nem tudo" de Lacan opera uma abertura para as duas leituras. Esses diversos operadores enunciam que o jogo não resulta numa soma nula. Ou que o único jogo que valha é um jogo cuja soma não é nula. Negativa ou positiva, isso depende das doutrinas.
Mas, na realidade, os jogos de soma nula são aqueles que predominam efetivamente. Eles têm por nome matéria, ou espírito; ou grande desígnio, ou ordem mundial, ou revolução mundial, ou Papai Noel, pouco importa - é o infame. Contra este inimigo, os textos de Marx contêm um operador eficiente, embora este seja demasiadamente oculto.

Tradução: Jean-Yves de Neufville para UOL.



Escrito por Leonardo Ferrari às 11h44
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FUNÇÃO PATERNA

Relâmpagos sobre o céu de Zurique, Suíça, na noite de 29 de junho de 2006. Da esquerda para a direita, as igrejas “Preachers church”, “Fraumuenster” e “Saint Peter’s church”. Fotografia de Alessandro Della Bella/Keystone.

 

         O que é a função paterna? Eis aqui um belíssimo, um magnífico, um espetacular exemplo de Enrique Vila-Matas. Um pai é aquele que, ao estabelecer um limite para o sujeito, instala o mistério das possibilidades do desejo. Com um não, a função paterna possibilita os sims.

 

            “Eu estava de visita na casa de meus pais, no começo de outubro passado. Havíamos tido uma tarde plácida em Barcelona, mas, de repente, tudo foi escurecendo e em poucos minutos desabou uma tempestade de água acompanhada de grandes relâmpagos. Estávamos já há um bom tempo nessa tormenta quando, após um trovão colossal, meu pai murmurou que não entendia isso. O quê? Não sei como, mas eu me apropriei de uma linguagem técnica e me pus a explicá-lo a origem da formação de um trovão. Não esquecerei facilmente aquele momento, porque logo me pareceu que minha linguagem científica soava ridícula. Quando terminei de falar, meu pai sorriu e disse que estava perfeitamente informado da existência de nuvens alto-cúmulos e outras, mas que não tinha querido falar exatamente disso. Seguiu-se um silêncio, como se tivéssemos adentrado em uma tensa espera até a chegada do próximo trovão. Estávamos os dois agora subitamente imóveis, na expectativa.

         - Eu falava do mistério – disse meu pai.”

 

“Estaba de visita en casa de mis padres, a principios de este octubre. Habíamos tenido en Barcelona una tarde plácida, pero de improviso había ido oscureciendo y en pocos minutos se había desatado una tromba de agua acompañada de gran descarga eléctrica. Llevábamos ya un buen rato en plena tormenta cuando, tras uno de los más colosales truenos, mi padre murmuró que no lo entendía. ¿El qué? No sé cómo, pero me apropié de un lenguaje técnico y me puse a explicarle el origen de la formación de un trueno. No olvidaré fácilmente aquel momento, porque de pronto me pareció que mi lenguaje científico sonaba ridículo. Cuando hube terminado, mi padre sonrió y dijo que estaba perfectamente informado de la existencia de las nubes altocúmulos y demás, pero que no había querido exactamente hablar de eso. Siguió un silencio, como si nos hubiéramos adentrado en una tensa espera hasta que llegara el siguiente trueno. Estábamos los dos ahora de repente inmóviles, a la expectativa.

-Yo hablaba del misterio -dijo mi padre.”

 

Fonte: Enrique Vila-Matas, “Lo Insondable” in La Nacion, 1/3/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h37
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A FAMÍLIA EM PRIMEIRO LUGAR

Iren Ferrari, from Russia with love.

 

Querida prima,

         Te escrevo preocupado. Eu li a manchete da Der Spiegel sobre as eleições russas e não gostei. Ela declara: “Ameaças nucleares e mulher fogosa temperam a disputa pelo segundo lugar nas eleições russas” (fonte: Benjamin Bidder in Der Spiegel, 29/2/2008). Mulher fogosa? É pouco, querida prima. Como representante da família aí na Rússia, eu sou testemunha do bem que você tem feito ao povo russo. Agora, precisava se aliar a esse velhaco do Zhirinovsky? Como? Foi um pedido pessoal do Putin? Mas esse é outro velhaco, minha querida. Por que não te juntastes com o Kasparov? Eu sei, eu sei que ele não está concorrendo a nada, mas pelo menos você sairia do tabuleiro menos manchada, menos conspurcada. Você não sabe o que é conspurcada? É aquilo que acontece quando você sai com gente dessa laia, querida prima. É uma conspurcação só. Zhirinovsky, Putin e Medvedev, é tudo farinha do mesmo saco. Nessa terra de Tchecov, Dostoiévski, Sharapova, Stolichnaya e Kalashnikov, você tinha que se entregar justamente a essa corja? A Rússia não merece isso. Eu não mereço isso. Você não tem alternativa? Que é isso, querida prima? E a oferta que eu te fiz? E a passagem que te mandei? Família é para isso. Te espero na quinta em Cumbica – não esqueças daquele beluga que me prometestes.

Seu primo, Leonardo.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h14
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