Blog do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba (PR) leobelferrari@uol.com.br


RUMO À FELICIDADE

Estátua do Gaúcho Oriental no Parque Farroupilha ou da Redenção em Porto Alegre. Fotografia de Jefferson Botega in Zero Hora, 1/3/2008.

                       

No primeiro dia, nós viemos e levamos as tuas esporas. O que você fez? Nada. No segundo dia, nós viemos e lhe tiramos dois dedos do pé. O que fizestes? Nada. No terceiro dia, viemos e cortamos sua mão direita. E você? Nem se mexeu. Amanhã, será tua alma que deceparemos. E aí sim você estará integrado, aí sim você estará normalizado, aí sim você será mais um, aí sim você fará sucesso, aí sim você vai ganhar muito dinheiro, aí sim você vai brilhar, aí sim você estará dentro, aí sim você nunca mais sofrerá por nada, aí sim você estará tranqüilo, aí sim você estará entre nós, aí sim você fará parte, aí sim você trocará de carro, aí sim você vencerá, aí sim você se comportará direitinho, aí sim você sorrirá sem parar, aí sim você será comemorado, aí sim nunca mais olharás para trás, aí sim progredirás, aí sim serás feliz.

 

 

Zero Hora, 1/3/2008

Patrimônio

Monumento tem parte da mão furtada

Estátua homenageia o centenário da Revolução Farroupilha

Um novo personagem foi incorporado à lista dos monumentos vítimas de vandalismo na Capital.

Parte da mão da estátua Gaúcho Oriental foi furtada na quarta-feira.

No ano passado, as esporas e dois dedos dos pés da escultura, localizada no Parque da Redenção, em Porto Alegre, já haviam sido subtraídos. Alertada pela administração do parque, a Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Smam) registrou ocorrência ontem na 10ª Delegacia da Polícia Civil.

O monumento, em tamanho real e fundido em bronze, foi um presente da comunidade uruguaia residente na Capital, oferecido em janeiro de 1935, para homenagear o primeiro centenário da Revolução Farroupilha. Segundo Luiz Alberto Carvalho Junior, secretário em exercício da Smam, o autor da escultura é o uruguaio Federico Escalada.

Não há previsão para o início dos reparos.

Atos de vandalismo a monumentos têm crescido na Capital. Em 2006, o chapéu do busto de Santos-Dumont, também na Redenção, foi furtado. Em 2007, na Praça da Alfândega, o livro de bronze da estátua de Carlos Drummond de Andrade foi levado, deixando o poeta de mãos vazias.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h29
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THE SHELTERING SKY

Fotografia de Raymond Depardon/Magnum Photos. Egito, deserto ocidental, 1984.

 

         “O prazer proibido consumou-se.

         Eles se erguem do leito e, sem falar-se,

         vestem-se à pressa.

         Saem da casa em separado, às escondidas; vão-se

         um tanto inquietos pela rua, como se

         temessem que algo neles se revelasse

         em que espécie de leito possuíram-se.

 

         Mas, do artista, como a vida se enriquece!

         Amanhã, no outro dia, anos depois, serão escritos

         os versos fortes que aqui têm sua origem.”

 

 

         Konstantinos Kaváfis, “A Origem” in Poemas. Tradução de José Paulo Paes. Rio de Janeiro: José Olympio ed., 2006, p. 187.



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h22
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O DESENHO DO HORROR

Zoran Music in “Não somos os últimos”, 1974, coleção do artista in El País, 28/2/2008.

 

Barcelona promoveu ontem o encontro do escritor Jorge Semprún, ex-prisioneiro de Buchenwald, com o crítico de arte francês Jean Clair e com o poeta Alex Susana na impressionante La Pedrera, casa criada por Gaudí e também museu, para debaterem a obra de Zoran Music (Görtz, 1909-Veneza, 2005), ex-prisioneiro de Dachau. Music, ao contrário de Semprún e de Primo Levi, não escreveu sobre o horror do campo de concentração, mas desenhou. Ter conseguido fazer isso – uma atividade absolutamente proibida sob pena de morte – já foi um feito incrível de Music. Jacinto Antón, no El País, relembra um verso de Primo Levi que diz: “Desde então, em uma hora incerta, essa caneta retorna” [poema “O Sobrevivente”, Primo Levi]. Ora, no caso de Music, na hora incerta da memória, o que retornou foi o pincel.

 

         “Outro elemento dos campos que identifica Semprún na pintura de Music é a promiscuidade. “A pior lembrança não é a fome, não é o pesadelo nem o medo, mas sim o inferno de viver sem estar um segundo sozinho”. Music ficou muito marcado pessoalmente por isso: “Era muito difícil conversar com ele, ele era muito silencioso. E essa tentativa de acabar com a promiscuidade da memória através da solidão, física e de seus auto-retratos, é também a marca, o resto dos campos”

         Fonte: depoimento de Jorge Semprún a Jacinto Antón in El País, 28/2/2008.

 

 

 

Zoran Music in “Dachau, Quatro Enforcados”, 1945. Kunstmuseum, Basel (Suíça) in El País, 28/2/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h40
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O HOLOCAUSTO E SEU ENSINO

Página do livro Die Suche (“A Busca”) in No Laughs, No Thrills, and Villains All Too Real, Michael Kimmelman in The New York Times, 27/2/2008.

 

O Holocausto está em debate na Europa e nos Estados Unidos. Como trazê-lo para a sala de aula? Três propostas diferentes estão em questão.

         Na França, o presidente, Nicolas Sarkozy, propôs, em meio às eleições municipais, que cada um dos alunos do quinto ano do primário, 10 anos de idade, “adote” a memória de cada uma das 11.000 crianças judias francesas que morreram nos campos de concentração nazistas. Uma das críticas mais contundentes veio do senador socialista, Jean-Luc Melenchon, que perguntou: “Vamos fazer a mesma coisa com as vítimas da escravidão ou com os da Comuna de Paris?” (fonte: J.M. Martí Font in El País, 16/2/2008). Simone Veil, presidente honorária da Fundação para a Memória do Holocausto, declarou que “o peso dessa memória é muito pesado de carregar para essa idade [dos alunos]” (fonte: Susan Dominus in The New York Times, 25/2/2008).

         Nos Estados Unidos, algumas escolas de primeiro grau utilizam o Holocausto como um modelo para ensinar sobre “tolerância”, ensinando, por exemplo, como é errado fazer “bullying” – termo sem tradução em português, com o significado de comportamento agressivo contra estudantes considerados “fracos” ou “diferentes”. Jeffrey Shandler, professor de estudos judaicos na Universidade Rutgers, diz que “há um risco nessa simplificação, nessa comparação entre “bullying” e assassinatos em massa” (fonte: Susan Dominus in The New York Times, 25/2/2008).

         Na Alemanha, um novo livro de história acaba de ser incorporado no curriculum. Em um projeto financiado em parte pela Fundação Rotschild, o livro se chama Die Suche, “A Busca”, e consiste em uma história em quadrinhos que conta a história de uma menina judia que vive na Holanda na época da ocupação nazista. O livro não é em branco e preto, mas a cores, o que levou Thomas Heppener, diretor do Centro Anne Frank de Berlim a declarar: “Houve muita discussão sobre o uso das cores. Branco e preto é um clichê quando se trata de retratar o Holocausto em filmes ou obras de arte. As cores são menos melodramáticas e, como cada um sabe, as árvores continuaram verdes em Auschwitz” (fonte: Michael Kimmelman in The New York Times, 27/2/2008).

         Aqui do Brasil, eu gostaria de apresentar a minha proposta. Ela consiste na leitura, em voz alta com os alunos do primeiro, segundo e terceiro grau (incluídos aí os alunos de mestrado, doutorado e pós-doutorado), do livro “É Isto Um Homem?”, editora Rocco, do gigante Primo Levi. É o testemunho mais impressionante sobre o que significou o Holocausto e os campos de concentração nazistas. É leitura obrigatória. É um retrato sem dó nem piedade sobre o que significa a razão sem ética. Primo Levi demonstra muito bem que o Holocausto não foi obra de loucos. Não. A nata da ciência alemã trabalhou vinte e quatro horas por dia para o Holocausto acontecer, segundo os mais rigorosos princípios da ciência – Descartes teria um orgasmo ao verificar a organização alemã, para em seguida vomitar sem parar diante da “aplicação” do método. É o horror dessa razão divorciada da ética que emerge da leitura de Primo Levi. Aliás, o livro “As Benevolentes” de Jonhatan Littell, publicado no Brasil pela Objetiva, passa as cem primeiras páginas descrevendo minuciosamente o funcionamento da burocracia nazista, as patentes infinitas dos oficiais - a sensação durante a leitura é de um cansaço enorme ao se deparar com a variedade dos nomes e das funções. Em outra parte, mais de cem páginas são utilizadas para uma investigação à rigor, com professores doutores das universidades, para saber se um povoado tinha origem judaica ou não. É um dos pontos altos de Littell. Mostra a perversão do discurso universitário em sua “plenitude”, na mais absoluta alienação sobre a vida humana – a única preocupação é o “saber” e a “titulação” acadêmica. Não é um livro que se possa comparar a Primo Levi. Porém, esse debate entre uma razão instrumental e a ausência da ética perpassa todas as infinitas 900 páginas do livro – Alan Riding, em resenha excelente, chamou o personagem do livro de “novo Forrest Gump” (fonte: Alan Riding in The New York Times, 7/11/2006). À parte o cansaço, o parágrafo final do livro vale todos os prêmios que Littell ganhou. É de uma fineza e de uma genialidade incríveis. Até agora não me sai da cabeça.

         Quadrinhos? Filmes? Literatura? Basta ler Primo Levi. Para sempre. Esse não me sai da vida.



Escrito por Leonardo Ferrari às 11h28
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AS DEPRESSÕES EM QUESTÃO

“Adeus Prozac & Companhia – Os cientistas: “remédios inúteis

A pesquisa de uma universidade inglesa: “Para curar a depressão não é necessário tratamentos químicos”.

 

Fonte: Enrico Franceschini in La Repubblica, 27/2/2008.

 

         A verdade às vezes demora muito e muitas e muitas vezes ela não chega. Mas ontem, na Inglaterra, a indústria farmacêutica foi derrotada. É claro que, logo logo, aparecerá o “substituto”, a “nova” pílula da felicidade, a “revolução definitiva” para o tratamento da depressão. Até lá, comemoremos essa data histórica. Ontem rasgaram o véu das farmacêuticas. “Remédios inúteis”! Espetacular essa notícia. Porém, não esquecer que, quando alguém “toma” um remédio, ele está tomando também o médico que o receitou – daí que se o “inútil” do remédio não é o que cura, a relação terapêutica com o médico cura. É o que Freud descobriu e denominou de “transferência”. Há uma história clínica de Freud muito bonita, “Katarina” (está localizada no volume “Estudos sobre a Histeria” de suas Obras Completas), em que ela lhe procura porque “tomou algo” de um outro médico e não ficou boa. Pois Freud, em vez de dar, se colocou na posição de receber – palavras. Nascia aí a psicanálise. Para as depressões e outros males.



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h55
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ENQUANTO ISSO NA FRANÇA...

“Alguns fazem de conta que os estudantes não têm problemas de alojamento”

 

Cartaz do Sindicato dos Estudantes pró-construção de novos alojamentos para estudantes na França.

Fonte: Marco Consoli in Corriere della Sera, 26/2/2008.

 

            A França é a França. Ela não nega sua paixão pelo sexo, pelo sexo e pelo sexo. Admirável cartaz do Sindicato dos Estudantes! Maravilhoso! Não é para dormir que eles querem alojamentos – chega de dormir. Tampouco é para estudar – isso se faz lá na universidade. É para acordar, é para beijar, é para fazer amor. Lindo isso! Epifânico!



Escrito por Leonardo Ferrari às 12h04
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UM ARTISTA

“Diante da loucura do mundo, a solidão nos alivia e nos salva”

Gao Xingjian em entrevista a Borja Hermoso in El País, 24/2/2008.

 

            Gao Xingjian ganhou o prêmio Nobel de literatura em outubro de 2000. No domingo, no El País, esse escritor e pintor deu uma entrevista primorosa a Borja Hermoso. É daquelas entrevistas raras, surpreendentes, instigantes, de um artista da verdade, de um artista da poesia, de um artista-psicanalista. O que ele diz sobre o zen, Lacan trabalhou em cada dia de sua clínica e de seu ensino. Um dos trechos:

 

“Hermoso – Isso tudo tem a ver com o famoso espírito zen que o senhor preconiza como veículo de distanciamento de espaço e do tempo em seu ensaio ‘Por Outra Estética’?

Xingjian – Claro que sim. Zen é uma forma de vida, é uma mentalidade, mas também ele pode se converter em método. Um método que pode ajudar a desprender-se de algo que cega nossas vidas e que se chama egocentrismo. Quando o ego se converte em obsessão, a pessoa fica doente, e pode cair numa espécie de lirismo incontrolável, um lirismo em que a única coisa que importa é seu ego. O espírito zen ajuda a tomar distância desse egocentrismo cego, a afastar-se de si mesmo. E quando alguém se afasta de si mesmo, então pode se observar. E se pode se observar, está tranqüilo. E está lúcido.

Hermoso – Seria bom injetar uma dose de zen aos políticos de hoje, não acreditas?

Xingjian – Eles só se preocupam com seu show. Os políticos seduzem o público, mas não através da arte. A arte não tem nada a ver com o interesse político.

Hermoso – Nada?

Xingjian – Nada.

Hermoso – Então o senhor descarta que a arte possa conter uma mensagem.

Xingjian – A mensagem é política, nunca arte. A arte com maiúscula tem um valor universal que ultrapassa os interesses, as épocas, as guerras, o provisório. Eu sei que alguns intelectuais, com aquilo que escrevem, se apresentam como porta-vozes do povo e bobagens assim. Isso foi terrível no século XX, tão marcado pelo marxismo e pela idéia de que podemos mudar o mundo. Ninguém pode fazê-lo.

Hermoso – Assim, como temíamos, a vocação do artista é o absoluto, e a do político, o anedótico, o temporal.

Xingjian – Sim, a política é isso, demasiado concreta. A arte não. A política é real e provisória. A arte é ficção e eternidade.

Hermoso – A política sabe utilizar a cultura a seu modo, basta ver como ela usa certos intelectuais.

Xingjian – Sim, e é muito triste esse jogo. Um intelectual deve ser suficientemente maduro para saber distanciar-se da política. Eu sou totalmente contrário a qualquer ditadura e qualquer censura, mas para ser um artista e estar bem moralmente, eu me obrigo a permanecer à margem da política. Na política, as palavras escondem tudo, segundo os interesses. Na arte não. Nesse sentido, a arte é mais verdadeira que a história.”

 

Fonte: entrevista de Gao Xingjian a Borja Hermoso in El País, 24/2/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h12
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SOBRE O GOZO FEMININO, DA NÃO-TODA AO ICEBERG

Fonte: La Repubblica, p. 7, 25/2/2008.

 

“Isso quer dizer que quando um ser falante qualquer se alinha sob a bandeira das mulheres, isto se dá a partir de que ele se funda por ser não-todo a se situar na função fálica. É isto o que define a...a o quê? – a mulher justamente, só que A mulher, isto só se pode escrever barrando-se o A. Não há A mulher, artigo definido para designar o universal. Não há A mulher, pois – já arrisquei o termo, e por que olharia eu para isso duas vezes? – por sua essência ela não é toda.”

         Jacques Lacan in O Seminário – Livro 20 – Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2ª. ed., 1985, p. 98.

 

         Eu estava lendo Lacan quando literalmente meu olhar caiu sobre esse anúncio da Versace no indispensável La Repubblica. Onde mais, a não ser nesse jornal romano por excelência, haveria um anúncio desses? É o anúncio-Lacan! Eis aí, em sua falta, a mulher não-toda, a mulher não-universal. Os mais freudianos poderão me retrucar dizendo que ali, no lugar da falta, eis a sandália ou o fetiche. Pois é, a Versace anunciaria tudo, menos a falta – já que ela se apresenta como aquilo que justamente vai completar...agora, que belo anúncio, não? O que seria da leitura dos jornais sem essas pequenas janelas com essas mulheres aos pedaços, divididas, carentes? É só comparar essa mulher-Versace à mulher-iceberg, quatro páginas depois no La Repubblica. Essa é forte. Iceberg? Que nome para uma marca, não? À espera do homem-titanic? Não gostei. Isso me parece anunciar tragédia. Seria esse um anúncio não-lacaniano? Nem tanto. Me lembrou a célebre advertência de Lacan sobre não existir a relação sexual. Existem os atos, agora quem espera uma relação proporcional entre os sexos, esqueça. Toda expectativa de relação vai bater no iceberg do gozo feminino. Já comecei a gostar dessa mulher-iceberg, mas eu fico com a Versace. Está demais essa mulher não-toda. Epifânica!

 

 

Fonte: La Repubblica, p. 11, 25/2/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 12h11
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MAL-ENTENDIDO

“- Trata-se de um sujeito imprescindível, que despertou amores e ódios...teve seguidores no mundo todo. Porém, essa era que ele iniciou, chega agora ao seu final.

- Perdão, mas você está falando de Fidel Castro ou de Harry Potter?”

 

Fonte: Daniel Paz e Rudy in Página 12, 25/2/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h20
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HILDEGARD ANGEL

Hildegard Angel in revista Domingo, Jornal do Brasil, 24/2/2008.

 

Hildegard Angel faz no Rio de Janeiro algo que é muito raro. Só recentemente, graças a uma querida amiga do Rio, comecei a ler e ver diariamente o que faz Hildegard Angel. Os mais retrógrados vão dizer que ela faz “coluna social”. Não. Isso é muito pouco para definir o que faz Hildegard Angel. Em primeiro lugar, há uma graça em seu trabalho, há um amor por gente, uma paixão pela amizade, uma devoção a pequenos detalhes, que transforma a leitura de suas palavras numa aventura pelo coração humano, demasiado humano. Em segundo lugar, há uma generosidade nessa mulher, há um cuidado, há um carinho em cada retrato que ela faz, em cada escuta que ela deixa compartilhar, em cada julgamento que ela se recusa a participar, que eu nunca vi em nenhum outro lugar do Brasil, nem tampouco na Itália, na Espanha, na França e nos Estados Unidos. Como exemplo disso tudo, basta abrir a revista Domingo de hoje no Jornal do Brasil. Hildegard Angel convidou uma amiga, Narcisa Tamborindeguy, para, aparentemente, fazer o que a revista New York Magazine propôs à atriz Lindsay Lohan, ou seja, a de reproduzir o último ensaio fotográfico de Marilyn Monroe feito por Bert Stern em 1962 no Hotel Bel-Air na Califórnia. Pois Hildegard teve a idéia de fazer o ensaio de Narcisa no Hotel Fasano de Ipanema – o que é o Bel-Air perto do Fasano? Acontece que, quando se trata de Hildegard Angel, as aparências enganam. Até o final, eu pensei que ela tinha pedido a Narcisa que imitasse Marilyn Monroe. Ora, a graça, a epifania, Hildegard deixou para a última frase de seu trabalho:

 

“Só depois de pronto o ensaio fomos buscar as fotos emblemáticas de Marilyn que se encaixassem nas de Narcisa. Não foi Narcisa que se fez Marilyn. Marilyn se fez Narcisa. A sensualidade feita imagem. O feminino exacerbado, o sex-appeal num simples gesto de abotoar a sandália. A Marilyn de Narcisa explode natural, por acaso. Ela não se guiou por fotos-referência para fazer as suas.”

Fonte: Hildegard Angel in revista Domingo, Jornal do Brasil, 24/2/2008.

        

Maravilhoso isso. “Marilyn se fez Narcisa”. O que Hildegard Angel faz se chama arte, se chama amor pela vida, se chama amor pela beleza, se chama graça.

 

 

Narcisa Tamborindeguy fotografada por Marcelo Faustini in Hildegard Angel, revista Domingo, Jornal do Brasil, 24/2/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h16
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