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CONTRA A PERFEIÇÃO

Fotografia de Tina Tahir/Deutsche Grammophon in El País, 23/2/2008.
Na Babelia de hoje, Anne-Sophie Mutter. Escutar essa mulher falar, escutar essa mulher tocar, escutar essa mulher. Obrigado Jesús Ruiz Mantilla. Obrigado El País.
Anne-Sophie tem uma pureza muito cândida. Ela acredita piamente que a humanidade busca o amor e a beleza e que, nesse sentido, a música oferece tudo. Como lembrou recentemente meu amigo André Tezza em outra conversa, o que pensar daquela cena do filme “A Lista de Schindler” em que o general nazista põe para tocar Mozart enquanto se diverte fazendo mira e atirando em prisioneiros judeus no campo de concentração?
Mas, Anne-Sophie Mutter também diz o seguinte:
“Mantilla – Você não acha que deveríamos tirar a música [clássica] desse território tão exclusivo em que ela se encontra?
Mutter – Pois é, recuperar a espontaneidade, isso é algo que nos falta. Mozart foi uma estrela pop no século XVIII. Então, a improvisação fazia parte do espetáculo. Hoje isso falta. Se puséssemos mais espontaneidade naquilo que fazemos, se devolvêssemos à música essa sensação de estar criando-a no mesmo instante em que a interpretamos, e não simplesmente a repetir, seria muito melhor. Uma das chaves da música moderna é essa. Nos falta fogo. (...) Há uma grande anedota sobre Brahms que, quando ele dirigia uma de suas sinfonias em Hamburgo, um músico lhe disse: “Maestro, hoje o senhor foi muito mais rápido que ontem”. E Brahms respondeu: “É que hoje eu estou de bom humor”. Bom, essas coisas deveriam ser normais em nossos concertos. Pode ser que fosse espetacular encontrar “a” fórmula certa, mas isso também seria horrível. Uma vez encontrada “a” chave, tua vida terminou. É como alcançar a perfeição. Quando chegas “lá”, então podes morrer. Acabou. Não há mais perguntas, não há mais dúvidas, não há mais desafios. Ir atrás de desafios é fundamental. Você não pode chegar nas estrelas se renuncias a teu espírito de superação.
Mantilla – Esse modo de pensar a perfeição, de relativizá-la, é uma prova de sua maturidade. Os jovens são muito obsessivos em “chegar lá”. Isso aconteceu contigo?
Mutter – A perfeição não é o objetivo. A perfeição técnica é uma ferramenta que vai bem. Mas você tem que se libertar dela para ir fundo.
Mantilla – Quando você descobriu isso?
Mutter – Com Von Karanjan. Não lhe importava como cada um tocava seu instrumento em particular. O que lhe interessava era a música como um todo, e como as partes dos solistas deveriam se encaixar no conjunto. Quando discutíamos isso, eu lhe dizia coisas que me eram muito difíceis de fazer – fisicamente ou por outros motivos – e ele me respondia: “Não me interessa como é que você vai conseguir o que lhe peço tecnicamente. Você deve resolver isso – mas faça-o”. Depois, ele explicava o que, segundo a partitura, era importante, e te obrigava a fazer o encaixe da tua parte no conjunto. Eu entendia e então fazia. Além disso, você se sentia livre para fazer também de outro modo. Tu convertias a técnica em tua escrava, e não o contrário.
Mantilla – Era assim, então, que você discutia com Von Karajan?
Mutter – Sim, nos 13 anos que tocamos juntos. Bom, tinhas que estar muito certa de teus argumentos, porque logo haveria de demonstrá-los a ele.
Mantilla – Agora que será comemorado o seu centenário, o que perdeu a música após sua morte? O que ele levou para a tumba?
Mutter – O que ficará para sempre é que, nos 36 anos em que ele regeu a Filarmônica de Berlim, ele formou seu próprio instrumento. Atualmente não existe outra orquestra que toque com uma cultura do som tão importante. Há alguns dias eu falei com um músico que esteve com ele nessa época e ele me recordou a obsessão com os ensaios. Ele podia ensaiar uma peça por 50 horas. Literalmente. Ele fazia isso por partes, como se fosse um quebra-cabeças. Ele obrigava a nos escutarmos mutuamente, a respirar juntos – convertia isso em algo muito autêntico. Por que? Porque ele passava muito tempo com a orquestra. Isso é muito difícil de encontrar hoje em dia. Os maestros viajam, compartilham orquestras, não chegam a passar mais de 12 semanas com cada uma e por isso todas se parecem. Com a Filarmônica de Berlim é diferente. Ela recria facilmente o som que conseguiu com ele. Na arte, nada de bom desaparece.”
Fonte: entrevista de Anne-Sophie Mutter a Jesús Ruiz Mantilla in Babelia, El País, 23/2/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h05
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NÓS TRÊS

Janaina Barcelos fotografada por Fernando Souza in Revista Domingo, Jornal do Brasil, 17/2/2008.
E um dia, nesse rio, nesse aí, que passou em nossa vida, eu, você, nós dois, ali à beira-mar, o sol ia caindo, e o seu olhar parecia acompanhar a cor do mar e – desgraça – você teve que ir embora, você teve que me dizer só o impossível, só o inaudível, só, justo quando a tarde caiu, justo quando as cores se desfizeram, justo quando escureceu. E o sol caiu no mar, o sol caiu em cima de mim, e a primeira luz lá embaixo se acendeu – você me pediu, então nós ficamos sozinhos naquele bar, à meia-luz, vivendo ainda esse meio-amor, essa meia-dor, enquanto que uma grande lua saia do mar – lá do meio do mar – pareceu que o bar ia fechar, mas há sempre algo para contar, algo para dizer sobre essa velha história de um desejo – esse desejo e o beijo que aí, eu, você, nós dois, o beijo aconteceu. E foi inteiro, e foi completo, e foi exatamente assim, foi absurdamente assim. E você teve que ir embora, depois. Contra as ondas, contra as ondas. Para sempre. Mas hoje eu continuo nessa beira-mar, eu continuo caindo cada vez que o sol vai embora, eu continuo me desfazendo, eu continuo só nós dois – e aquele beijo. Aquele que você me deixou. Aquele que nessa nossa fotografia eu me recomponho, nessa nossa fotografia eu ainda existo, nessa nossa fotografia eu consisto. Ali, eu sou o que nós fizemos juntos. Ali, você não foi embora. Nesse rio eu continuo – só por isso. Atrás de você. Aqui.
Escrito por Leonardo Ferrari às 05h34
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UNINDO OS PONTOS

“Sexo, desvendado o último mistério – eis aqui a fotografia do ponto G. Pesquisa italiana: ele não existe em todas as mulheres.”
Fonte: Elena Dusi in La Repubblica, 21/2/2008.
A Itália mais uma vez faz o mundo curvar-se a seus pés. O médico ginecologista Emmanuele Jannini acaba de descobrir o ponto G. Ele fica localizado, às vezes, ao lado dos pontos E,U,T,E,A,M e O – a combinação desses pontos é sempre surpreendente. Mas, às vezes, o G se liga aos pontos T,E,S,à e O, o que acaba confundindo muita gente, pois tentam localizá-lo no A e não no à – equívoco que pode ser reduzido a partir do exercício da escuta durante o ato – quando há muitos ÃS pelo caminho, então o G está perto. Agora, se não há ÃS nenhum, está longe. E como localizar o ponto? O médico italiano utilizou um ultra-som para visualizar a uretra e a vagina. Ora, é claro que ele não está sugerindo ao homem comprar um aparelhinho de ultra-som e instalá-lo no carro, no quarto, na sala de aula. Não pega bem. Então, o que fazer? – pergunta essa que no século passado era feita com outro propósito. Aí a boa psicanálise responde: fale com ela. Para que ultra-som quando há pontos A,B,C,D,E,F, inclusive o G, mas também o H, I,J, o K, aquele L, a M – ai, a inicial da primeira namorada – depois o N,O,P,Q,R,S,T, o U – esse ponto é abissal – o V, o X, e o Z? O Z é perigoso – quando ele se associa com outros, uma bela noite de sexo pode terminar em ZZZZ. Cuidado com o Z. Agora, e se faltar o G? Meu caro e minha caríssima, com todo esse alfabeto à disposição, por que se fixar numa única letra?
Escrito por Leonardo Ferrari às 05h29
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THE BLESSINGS OF LIBERTY
“Mr. Bush, traveling in Rwanda on a tour of Africa, reacted to Mr. Castro’s decision to give up power by saying that the resignation should be the beginning of a democratic transition in Cuba leading to free elections. “The United States will help the people of Cuba realize the blessings of liberty,” he said.”
Fonte: Anthony De Palma in The New York Times, 20/2/2008.
“Os Estados Unidos ajudarão o povo cubano a compreender as bênçãos da liberdade”. É a frase do ano. Pertence a George W. Bush e foi o seu comentário à decisão de Fidel Castro em deixar o poder em Cuba. A melhor resposta veio da Irlanda. Trata-se do cartunista Martyn Turner – ver abaixo. Genial! É a glosa do ano à essa idéia do roto pretender ajudar o esfarrapado. Sensacional! Os prisioneiros sem-nome e sem-rosto de Guantánamo podem ficar tranqüilos. O presidente dos Estados Unidos anunciou que a nova era de liberdade, democracia e direitos humanos logo estará chegando lá. Soon...
“Isso pode anunciar uma nova era de liberdade, democracia e direitos humanos em Cuba...bom, na maior parte dela, pelo menos...”
Fonte: Martyn Turner in The Irish Times, Irlanda, 19/2/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 11h52
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QUEM NÃO SE PODE DERROTAR

Fonte: Chico Caruso in O Globo, 20/2/2008.
A genialidade de Chico Caruso captura esse instante em que o comandante vê diante de si aquilo que não se pode derrotar, a morte. É a única coisa que lhe fez soltar o charuto dos lábios. Não se trata aqui de deixar cair. Não. A morte não pede, a morte exige. Para mim, o filme mais impressionante já feito sobre a revolução cubana foi “O Poderoso Chefão, parte 2” de Francis Ford Coppola. A cena em que os mafiosos norte-americanos, sentados no terraço de um hotel de Cuba, decidem comemorar o aniversário do chefão com um bolo simbolizando Cuba, e cada fatia, um pedaço do país – a fatia-eletricidade, a fatia-hotéis, a fatia-açúcar, e assim por diante, é a síntese do que significou a revolução de Fidel. Significou tirar o doce da boca desses tubarões. Esse momento um da revolução mudou a história não só de Cuba, mas do mundo. Agora, que o comandante tenha resolvido comer sozinho o bolo, por mais de quarenta anos, é o momento dois da revolução. Que, quando retroage sobre o primeiro, ressignifica tudo o que aconteceu. Porém, há algo que fica. Fidel Castro nunca foi Fulgêncio Batista. Isso não quer dizer apoiá-lo em tudo o que fez, mas ressaltar essa diferença fundamental. Fidel Castro nunca foi George W. Bush. E isso é muito importante. Maquiavel foi quem primeiro percebeu que na política não existe completude, não existe perfeição, não existe a ausência da falha. Fidel Castro é o nome desse ato que rompe, desse ato que divide, desse ato que funda um novo caminho, um novo amanhã. Fidel Castro fez de Cuba um país – não um shopping-center. Parabéns, Fidel Castro.
Escrito por Leonardo Ferrari às 05h47
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A REGRA FUNDAMENTAL DA PSICANÁLISE
Pensando em teta eu associo com mamata. Mamata me remete a ladroeira, negociata, trapaça, arranjo, marmelada. Marmelada – há uma de Luziânia, Goiás, que é inesquecível, a marmelada de Santa Luzia – saborosa, ela vem dentro de uma caixa de madeira – é um doce absolutamente maravilhoso. Mas por que marmelada está ligada a mamata? Segundo o Houaiss, é porque muitas vezes o doce feito de marmelo recebia a adição fraudulenta de chuchu, que funciona como liga. Chuchu como liga? Liga? Cinta-liga...no lugar do marmelo? Curioso é que o dicionário informa que sinônimo de marmelada é esfregação. Como? Esfregação? Liga, cinta...fui lá ver, esfrega, esfregadela, esfregadura, esfregamento, o mesmo que bolinação, agarração, agarrado, agarramento, amasso, apalpação, atracação, bolinagem, chamego, coco, pegação, perfumaria, roçadinho, roçado, sacanagem, sarro, xumbregação. Xumbregação? Vou poupar o leitor da seqüência de minhas associações. É para o bem dele e do meu. Xumbregação? Isso vai longe...
Fonte: Chico Caruso in O Globo, 19/2/2008.

Fonte: Marco Aurélio in Zero Hora, 19/2/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h08
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TETA DE NEGRA

O presidente Lula e o ministro da Defesa, Nelson Jobim. Teta à vista?
Fotografia de Ricardo Stuckert/AgBr in Zero Hora, 18/2/2008
A viagem do presidente Lula à Antártica rendeu um dos momentos mais belos da história. Aconteceu nesse diálogo entre Lula e um oficial da Marinha do Brasil:
“Como o frio persistia, ele pediu um chapéu com protetor auricular. Ao ver uma pedra enorme na geleira, perguntou a um oficial:
- Qual o nome daquela pedra?
- Teta de negra – respondeu o oficial.
- Imponente, não?
A pedra, conforme explicou o oficial, nunca fica coberta de gelo, mesmo no inverno mais forte. Isso se dá por causa da ação do vento.”
Fonte: Chico de Gois, Diana Fernandes e Adriana Vasconcelos in O Globo, 18/2/2008.
No meio da geleira, uma pedra enorme, uma pedra que nunca fica coberta de gelo. Em qualquer lugar do mundo essa pedra ou não teria nome ou então seria batizada com o nome do descobridor. Mas um brasileiro – quem será? – batizou essa pedra de “teta de negra”. Maravilhoso isso. O real virou simbólico e imaginário – e a partir daí se pode fazer ciência, se pode fazer poesia, se pode fazer literatura, se pode fazer sexo. “Teta de negra” é tirar toda a aspereza do real, toda a dureza do insabido. “Teta de negra” é o nome da falta, é nome do ideal, é o nome daquilo que se espera encontrar nessa vastidão gelada, fria, dolorida. “Teta de negra” é o conforto imediato, é a madalena que traz um tempo perdido, uma teta quentinha, uma teta acolhedora de uma negra querida, de uma negra que foi capaz de mostrar a esse branco toda a grandeza da mistura, toda a paz da troca, do beijo molhado, do tato maluco, do olfato infinito, dos olhares proibidos, dos lugares descobertos. “Teta de negra” é o nome do bem querer, é o nome desse diz que diz que, é o nome desse continente negro, desse continente feminino. Não se diz “a” Antártica? É mulher. É teta de negra.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h46
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RITA LOBATO

Para Belkiss, cuja paixão pela vida transforma a clínica em obra de arte.
Roberta Jansen contou ontem no Globo a belíssima história de Rita Lobato, a primeira médica formada no Brasil. É uma história tão bonita, tão humana que merece virar cátedra de qualquer universidade do mundo. No primeiro ano, Rita Lobato I, no segundo ano, Rita Lobato II, e assim por diante. E qual seria o conteúdo dessa disciplina? Essa é fácil. Basta recordar essa história de Rita Lobato:
“Um mensageiro do estancieiro mais poderoso da região irrompeu à casa de Rita Lobato com um recado urgente: os serviços da senhora eram requisitados na fazenda. O ano era 1915 e a cidade, São Pedro do Rio Grande, interior do Rio Grande do Sul. Um evento rotineiro na vida daquela mulher – a primeira a concluir um curso superior no Brasil, em 1887, na Faculdade de Medicina da Bahia, aos 20 anos de idade.
De bombachas, ela rapidamente mandou selar um cavalo e seguiu a galope para a estância, intrigada.
Um parto de última hora? Na sala da fazenda, a família toda reunida, o clima de velório desmentia a hipótese. O estancieiro tomou à frente e anunciou que sua filha não era mais virgem. Mas ele queria o parecer da ciência, o aval da médica de que a moça tinha mesmo sido deflorada, para tomar as providências cabíveis, certamente terríveis.
Rita aquiesceu. Entrou sozinha nos aposentos da moça e de lá saiu algum tempo depois indignadíssima.
Como ousavam, eles todos, caluniar uma moça daquela forma? Que se envergonhassem e pedissem perdão por tamanho pecado. Traumatizar desse jeito uma jovem tão pura, onde se viu? Que rezassem muito para, quem sabe, com a graça de Deus, conseguissem o perdão.
Envergonhadíssimo, o fazendeiro perguntou à médica o que se poderia fazer para reparar tamanha barbaridade.
A resposta veio logo: que desse permissão à moça para se casar com o rapaz por quem parecia ter tanta afeição. Quem sabe assim, ela conseguiria, um dia, superar o trauma de ter sido caluniada tão sordidamente, argumentou a médica. E assim foi.
Uma versão bem distinta da história emergiu em 1959, com a morte da moça. Em seu testamento, ela contava que, tão logo a examinou, Rita soube que ela não era mais virgem.
E dizia que a médica não só acobertou como ainda arrumou o seu casamento com o namorado.
Agradecida, ela legava uma quantia para a recuperação do túmulo da médica (que morrera pouco antes, em 1954).”
Fonte: Roberta Jansen in A Primeira Universitária in O Globo, 16/2/2008.
Eis aqui o que seria ensinado na disciplina “Rita Lobato”: humanidade. Amor pela vida, respeito pela diferença, combate à prepotência. O que Rita Lobato fez nessa consulta médica foi muito mais do que medicina. Rita Lobato percebeu que para além da técnica médica, para além de um saber técnico frio, calculista, para além da demanda de um pai – a de saber o segredo da filha, a de confirmar uma suspeita, a de selar o destino de uma vida – está a vida humana. Essa vida tão frágil, essa vida tão passageira, essa vida tão leve. A resposta de Rita Lobato não atendeu a demanda paterna. A resposta de Rita Lobato foi na direção do desejo – o desejo vivo, o desejo pulsante, o desejo que despedaçou esse pedaço do corpo feminino, esse hímen-prova, esse hímen-símbolo.
Rita Lobato, mulher, médica, pioneira, a primeira a desvirginar o curso de Medicina no Brasil. De um lugar só de homens, lá veio essa mulher abrir caminho, lá veio essa mulher se instalar, lá veio essa mulher nos ensinar que uma vida vale pelos atos que nela se faz. É isso a ética. De que vale um saber quando usado para machucar, quando usado para oprimir, quando usado para explorar, quando usado para enriquecer às custas do sofrimento alheio, às custas da animalização do outro, às custas da coisificação da vida humana?
Rita Lobato, mulher, médica, ensina que um saber divorciado da ética pode servir para virar capa de revista, pode servir para virar prêmio da esquina, pode servir para engordar a conta bancária, pode servir para acumular bens, pode servir para fazer viagens pelo mundo afora, mas um saber sem ética é um saber tolo, é um saber estúpido, é um saber ignorante, é um saber vagabundo.
Rita Lobato fez de sua vida não o que quis, mas, daquilo que lhe coube escolher, ela foi em direção à vida, tão frágil, tão passageira, tão leve.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h22
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