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ENQUANTO ISSO, EM ALGUM LUGAR DESSE IMPÁVIDO COLOSSO...

Fonte: Chico Caruso in O Globo, 16/2/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h42
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AGORA VAI

Fonte: O Estado de São Paulo, 15/2/2008.
A luz forte que vai dissipar a escuridão foi chamada. Agora vai. A luz forte que desfaz todas as incertezas e desvenda todos os sorrateiros foi acionada. Agora vai. A linha invisível da defesa vai atacar. Quem diria que nós temos no Brasil um setor de contra-espionagem? Isso já é primeiro mundo. Agora foi. Que notícia magnífica! A contra-espionagem da ABIN vai contra-atacar os agentes imperialistas que roubaram nossa querida Petrobrás. Agora sim. Até hoje eu via os filmes de 007 com uma inveja terrível. Até hoje eu torcia pelo Rambo em suas missões com um deslumbramento terceiro-mundista. Chega. Nunca mais. Com a ABIN em ação, eu estou orgulhoso. Com certeza agora tudo irá. Parabéns ABIN. Eu torço por vocês. Peguem esses canalhas! Carcará neles!!

O símbolo da contra-espionagem brasileira: pega, mata e come. O que é James Bond perto disso?
Escrito por Leonardo Ferrari às 16h25
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CAOS CALMO

“A Itália é totalmente incompreensível.”
Fonte: El País, 15/2/2008.
“Todos quisemos parar, ao menos uma vez; retirar-se, deter o tempo, é o que move esse homem que me é muito próximo e também muito afastado, e que me fascina por causa disso.”
Nanni Moretti sobre seu personagem no filme “Caos Calmos”, de Antonello Grimaldi, em entrevista a Jesús Ruiz Mantilla in El País, 15/2/2008.
O indispensável Nanni Moretti retorna. Depois do magnífico “O Quarto do Filho”, o filme mais extraordinário já feito sobre o trabalho de luto, eis que ele volta ao tema através de um personagem que perde a mulher. E, por causa disso, ele decide parar.
Na Itália, o debate é sobre a cena de sexo presente no filme que, é claro, escandalizou o Vaticano e incendiou a mídia. Ora, que o sexo continue a assustar, não é novidade. Porém, “Caos Calmo” é muito mais subversivo. Jesús Mantilla associa o personagem de Moretti com Bartleby, personagem de Herman Melville – que um dia decide parar. É essa parada que transforma “Caos Calmo” em um filme imprescindível. Pois essa parada fala dessa “incompreensão”, dessa impossibilidade de compreender o que se passa no luto. O final de “O Quarto do Filho” já demonstrava de forma belíssima o que a incompreensão é capaz de fazer. Mais ainda. A necessidade da incompreensão para se viver, para continuar, para seguir caminhando.
Se a Itália vive nessa incompreensão, é justamente por isso que dali emerge essa obra de arte chamada “Caos Calmo”. O próprio título é um achado. Baseado no livro de Sandro Veronesi, o título indica uma possibilidade de lidar com o caos, que não é jogando ele para debaixo do tapete, não é mantendo ele longe dos olhos, não é se esforçando vinte e quatro horas por dia para ele não aparecer, não é fingindo que ele não existe, não é se orgulhando de saber o que fazer com ele. Não. A proposta de Veronese-Grimaldi-Moretti é a de um por um, a seu jeito, com seus atrapalhos, caindo e levantando, sentado ou inclinado, conviver com o caos, falar com o caos, interrogar o caos, andar com o caos, viver o caos. A calma que resulta no final, é a calma de se saber caótico, desconjuntado, desmembrado, dividido. O caos é para sempre.

Escrito por Leonardo Ferrari às 08h55
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NÃO PODE

O cartaz proibido pelo metrô de Londres.
A doutora Lorca é a intérprete de nosso tempo. Ontem, o metrô de Londres proibiu o cartaz acima – que reproduz a pintura “Vênus” do alemão Lucas Cranach, feita há quinhentos anos atrás. O cartaz anuncia a exposição em homenagem a Cranach que será realizada pela Royal Academy de 8 de março a 8 de junho deste ano.
Então que fique estabelecido: anúncios de bebida, pode. Mulher pelada, não pode. Anúncios de cigarro, pode. Vagina à mostra, não pode. Anúncios de celular, pode. Seios à vista, não pode. Anúncios de modelos anoréxicas, pode. Coxas desnudas, não pode. Anúncios de remédios, pode. Mulher sensual, não pode. Anúncios de recrutamento militar, pode. Sexo, não pode. Mulher com véu, pode. Mulher tirando o véu, não pode. Deus o livre uma mulher sem véu!
E pensar que há mais de cem anos anunciam o fim da psicanálise, tendo em vista que “não existe mais repressão sexual”. Então, mais um adendo. Terapias cognitivo-comportamentais, pode, terapias neuro-linguísticas, pode, terapias do abraço, pode, terapias do grito, pode, terapias breves, pode. Psicanálise, não pode. A psicanálise é subversiva demais para nosso tempo. Vagina? Sexo? Diferença sexual? Feminilidade? Masculinidade? Falo? Castração? Não pode. Como afirma o comunicado do metrô de Londres, “milhões de pessoas viajam diariamente pelo metrô e não tem alternativa a não ser ver a publicidade ali colocada. Devemos ter cuidado com todos os viajantes e procurar não ofender ninguém.” (fonte: Patrícia Tubella in El País, 14/2/2008).
“Não ofender ninguém”, eis aí a norma de nossa época. Cuidado com o sexo feminino. Ele pode ofender. Agora, o assassinato do brasileiro Jean Charles de Menezes pela “melhor” polícia do mundo, em pleno metrô, isso não ofende ninguém. Ele era um estrangeiro. Aliás, Carnach também. Ainda por cima, alemão. Hum, alemão em Londres? Há mais coisas entre o céu e a terra…já dizia aquele poeta bem inglês. Inglês? Sem vagina à mostra? Então pode.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h17
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SOBRE O MAL DESNECESSÁRIO

Editorial do The New York Times, 13/2/2008.
O nosso século é freudiano e ninguém quer saber disso. Um exemplo é a notícia de ontem de que o governo dos Estados Unidos, através de seus procuradores militares, pediu a pena de morte contra seis terroristas presos em Guantánamo, acusados de participação nos atentados de 11 de setembro de 2001. Em editorial brilhante e arrasador, o The New York Times – jornal que depois do 11 de setembro ficou atordoado, tonto e até passivo diante do ataque às liberdades civis promovidas pelo governo – chama a decisão de “traição aos ideais americanos” e de “má estratégia”. É mais um editorial histórico desse grande jornal que soube reconhecer os erros no “apoio” à “guerra ao terrorismo” e soube reagir com toda sua habitual inteligência e brilho. O editorial de hoje é para ser pregado nos postes das cidades, é para ser traduzido em todos os jornais do mundo. O final é magnífico. Declara que, quando um presidente decide combater o terrorismo à margem da lei, homens que cometeram crimes contra a humanidade de repente são julgados num sistema tão ilegal – menção às torturas utilizadas para fazer os terroristas “confessar” os crimes -, que o resultado é uma violenta injustiça, derrubando o grande ideal americano da justiça – lei e ordem. Pois, conclui o Times, estamos diante da não lei. O que significa uma ordem sem lei, uma ordem sem direitos humanos, uma ordem nessa mais completa esbórnia que é o governo Bush? Significa o pior. Ora, o editor diz que tudo isso é um mal “desnecessário” aos Estados Unidos. O país poderia passar “sem isso”. E é aí que entra Freud. O “isso” conta. O neurótico busca se machucar, busca se ferrar, busca se estrepar – ele busca justamente o dano desnecessário, o mal-estar, o mal. É que esse “desnecessário” é necessário para um certo gozo, uma certa satisfação que é paradoxal – é a satisfação no sofrimento, é a satisfação no pior. Eis aí um presidente que confirma Freud – por mais que muita gente prefira continuar acreditando que tudo é genética, tudo é academia de ginástica, tudo é perder o peso, tudo é colocar silicone, tudo é trocar de carro, tudo é tomar mais um comprimido, tudo é atingir as metas, tudo é “resultados”, tudo é grana.
Não querer saber de nada disso é problema de cada um. Essa é a estratégia do avestruz. Como sabemos muito bem, essa estratégia tem um problema grave. Até quem não quer saber de nada disso é surpreendido pela gravidade do problema. Mais cedo ou mais tarde.
Freud foi o homem que pensou sobre esse “mal desnecessário” e lhe deu uma resposta magnífica: análise.
Escrito por Leonardo Ferrari às 11h47
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DUAS RESPOSTAS À SOCIEDADE-CAFÉ

Ayaan Hirsi Ali fotografada por Marcel.Lí Sáenz in El País, 13/2/2008.
Na semana passada, dois fatos surpreendentes aconteceram. Na Turquia, o partido do governo conseguiu revogar uma lei que proibia o uso do hijab (véu islâmico) em locais públicos, inclusive em universidades. Essa proibição remontava à formação do próprio Estado turco, por Kemal Atatürk, que instituiu a separação entre religião e Estado. O outro fato foi a declaração do líder da Igreja Anglicana da Grã-Bretanha, o arcebisto da Cantuária, Rowan Williams, dizendo que a adoção de certos aspectos da lei islâmica (a “sharia”) pela sociedade britânica é “inevitável”.
Duas respostas contundentes apareceram. Henryk Broder, na alemã Der Spiegel, escreveu um artigo excelente, onde conclui o seguinte:
“E agora um religioso britânico quer introduzir a shariah na Inglaterra. E não se trata de um mero pastor de alguma aldeia minúscula no País de Gales, mas o líder espiritual da Igreja Anglicana, Rowan Williams, arcebispo de Canterbury. Segundo Williams, o Reino Unido deveria considerar o fato de que alguns cidadãos não podem se identificar com a lei britânica. Aceitar alguns aspectos da shariah, ele argumentou, poderia ajudar a evitar a tensão social. Segundo a proposta de Williams, as pessoas envolvidas em conflitos matrimoniais e disputas financeiras poderiam optar entre a lei britânica e a shariah.
O arcebispo poderia na verdade estar certo -pelo menos de uma forma puramente factual. De fato, os muçulmanos não serem obrigados a observar os aspectos da lei britânica que regem o casamento e o divórcio ajudaria a evitar tensões sociais. Até mesmo alguns não-muçulmanos poderiam considerar esta opção atraente. Um "casamento temporário", como é possível segundo a shariah, certamente teria muitas vantagens, especialmente se "temporário" significar apenas algumas poucas horas ou dias.
Mas o bispo está equivocado ao acreditar que é possível estruturar uma sociedade como um café, onde os clientes podem escolher entre cardápios com carne ou vegetarianos. Um pouco de shariah é tão irreal quanto estar um pouco grávida. A shariah regula todos os aspectos da vida, e qualquer um que propor a adoção de apenas algumas partes da shariah não está entendendo sua inevitabilidade inerente. Imagine se permitíssemos a nudez nas piscinas públicas, mas apenas sob a condição de que cada visitante pudesse escolher que peça do vestuário ele ou ela deseja remover.
A proposta do arcebispo de Canterbury é evidência de mais do que apenas uma ingenuidade inacreditável. Ela também revela quão longe avançou a idéia de uma capitulação preventiva diante de um problema insolúvel.
Os defensores da capitulação preventiva argumentam que devido a alguns imigrantes não estarem dispostos a aceitarem as regras da sociedade, a sociedade deve adotar as regras dos imigrantes. Para eles, "integração" também poderia ser definida como a necessidade da maioria se curvar à minoria.
Quando chegar o dia em que o ensino misto for eliminado nas escolas e a burca se tornar obrigatória para todas as mulheres, quando os pubs não forem mais autorizados a vender cerveja e as passageiras tiverem sua área separada nos ônibus e trens, onde puderem se sentir protegidas dos olhares desejosos dos homens, este será o dia em que os últimos oponentes da shariah terão que reconhecer que as tensões sociais realmente diminuíram. Aqueles que vivem em porões sem janelas não precisam temer queimaduras solares.
O que virá a seguir? As mulheres terão o direito de votar sem terem que mostrar seus rostos? Que idéia maravilhosa! Mulheres sendo autorizadas a comparecer às urnas e votar cobertas da cabeça aos pés -desde que, é claro, apresentem duas formas de identificação e uma testemunha que possa atestar sua identidade.
Não na Inglaterra -ainda não, pelo menos. Mas isto pode ser possível no liberal Canadá, um membro da Comunidade das Nações, cujo líder titular é o monarca britânico.
Fonte: Henryk M. Broder in “Quais as implicações de uma possível adoção da lei islâmica no Reino Unido?”, Der Spiegel in UOL, 13/2/2008, tradução de George El Khouri Andolfato.
No El País, J.M. Martí Font foi entrevistar Ayaan Hirsi Ali. Ali nasceu em Mogadíscio, Somália, há 38 anos. Ela foi deputada liberal na Holanda e, por causa de suas críticas radicais ao Islã e por sua defesa dos direitos das mulheres, ela foi condenada à morte por setores fundamentalistas. Hoje ela vive em uma espécie de clandestinidade, escondida e protegida, depois que o governo holandês se recusou em oferecer proteção. Um trecho de sua entrevista:
“A secularização da Turquia, que se fez de cima para baixo, está mudando e a sociedade se torna mais islâmica a cada dia, inclusive islamita, de baixo para cima. O partido de Erdogan, em sua origem muito radical, já foi reprimido e proibido por militares. Ele mudou de estratégia e começou de baixo, buscando um consenso popular. Agora, a Turquia se move do secularismo para a religião. Mas a minha opinião é que discutir o véu é um erro, tanto na Turquia como na Europa. Não é essa a questão. O verdadeiro debate é sobre a moral sexual que o véu representa, que não é outra coisa do que perceber a mulher como a responsável pela sexualidade do homem. Devemos cobrir nosso corpo para que ele não se excite; devemos permanecer fechadas em casa, para que ele não se excite. Essa moral, que põem toda a responsabilidade sobre a mulher, é o que deve ser discutido.”
Fonte: entrevista de Ayaan Hirsi Ali a J.M. Martí Font in El País, 13/2/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h30
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INSUPORTÁVEL

Fonte: The New York Times, 12/2/2008.
Como diz o indispensável Ancelmo Gois, deve ser muito difícil viver num país onde se roubam obras de arte de museus...
Ladrões levam telas de US$ 160 mi na Suíça
Quadros de Edgar Degas, Claude Monet, Paul Cézanne e Vincent Van Gogh são roubados de museu em Zurique
Três homens armados invadiram o centro de arte E. G. Buehrle anteontem, pouco antes do fechamento; ação durou apenas três minutos
MARCELO NINIO DE GENEBRA, Folha de São Paulo, 12/2/2008.
Os suíços ainda comentavam o desaparecimento de dois quadros de Pablo Picasso de uma galeria perto de Zurique, na semana passada, quando a polícia anunciou ontem um novo roubo de obras de arte, já considerado um dos maiores da história. O valor somado das telas de Paul Cézanne, Edgar Degas, Vincent Van Gogh e Claude Monet foi estimado em US$ 160 milhões (R$ 282,7 mi). O roubo ocorreu no domingo, quando três homens armados entraram no museu E. G. Buehrle, em Zurique, especializado em arte européia dos séculos 19 e 20. Em seguida, com os funcionários deitados no chão e sob a mira de uma arma, dois deles foram até uma das salas e levaram as obras. Faltava meia hora para o museu fechar. "É o maior roubo já cometido na Suíça, talvez na Europa", disse Marco Cortesi, porta-voz da polícia de Zurique, que classificou a ação de "espetacular". Ele a comparou ao roubo da tela "O Grito", de Edvard Munch, em 2004. As obras levadas anteontem foram "O Menino de Colete Vermelho" (1890), de Cézanne, "O Conde Lepic e Suas Meninas" (1871), de Degas, "Papoulas em Vetheuil" (1880), de Monet, e "Castanheiro em Flor" (1890), de Van Gogh. (...)
Escrito por Leonardo Ferrari às 11h49
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BOND, JAMES BOND
“ “Qual é o seu nome, querida?”
Repórter da CNT, jogando-se para o mulherão que descia de um carro da União da Ilha, no grupo de acesso.
“Meu nome é Wilson”
Destaque respondendo, sério, à pergunta.”
Fonte: O Globo, 10/2/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h15
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SIM

Walter Veltroni em Spello, Perúgia, Úmbria, o ponto de partida da esperança. Fotografia in La Repubblica, 11/2/20008.
E a onda Barack Obama chegou na Itália. Diante do retorno do velho fascista Berlusconi, eis que um homem decide lutar. Um homem decide ir até o coração da Itália, a Úmbria, para dizer “se po’ fa’ “, ou seja, “Si può fare”, a tradução para o italiano do lema, da bandeira de Barack Obama nos Estados Unidos: “yes, we can”.
Só por esse gesto, só por essa coragem, só por essa estratégia belíssima, vale a pena lutar por Walter Veltroni. Qualquer pessoa que se levante contra o fascismo, merece apoio, merece adesão, merece luta. Sim, se pode fazer. Se pode fazer da Itália um país decente, um país humano, um país onde se possa respirar vida.
Há esperança na Itália. Ela se chama Walter Veltroni.

Fonte: Encyclopaedia Britannica, consultada em 11/2/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h25
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É O RUÍDO DA LIBERDADE, ESTÚPIDO
Ele foi escolhido pelo The New York Times como um dos dez melhores livros de 2007. “Imperial Life in the Emerald City” [“A Vida Imperial na Cidade Esmeralda”] foi escrito pelo jornalista Rajiv Chandrasekaran, editor do The Washington Post. É a melhor tomografia do fiasco gigantesco da invasão do Iraque pelos Estados Unidos. Não é um livro de ficção. Aliás, é mais uma prova de que a realidade inteira está construída como ficção, às vezes da pior qualidade. Ele foi escrito com base numa série de entrevistas feitas no Iraque durante o governo da “Autoridade Provisória da Coalizão” – de 21 de abril de 2003 a 28 de junho de 2004.
O indispensável Enric González faz hoje uma resenha magnífica no El País. Um dos trechos:
“Uma comédia é um detalhe de uma tragédia, visto de muito perto. A invasão e ocupação do Iraque, o fato mais impressionante dos últimos anos, não foge à regra. Parece difícil rir diante dessa carnificina, mas é possível, como também se pôde rir dos massacres nazistas vendo “Ser ou Não Ser”, filme feito pelo judeu Ernst Lubitsch, sobre a ocupação da Polônia. A primeira grande comédia sobre o desastre no Iraque se chama “Vida Imperial na Cidade Esmeralda”, e é obra de um jornalista norte-americano, Rajiv Chandrasekaran. (...)
Alguns diálogos são esplêndidos. Em uma conferência de imprensa do general de brigada Mark Kimmitt, ocorrida em 25 de fevereiro de 2004, no interior da “zona verde” [o “enclave” murado e protegido dentro de Bagdá, onde está sediado o contingente da administração da ocupação norte-americana no Iraque – daí o nome “cidade esmeralda”, que também tem o significado de “ilha da fantasia”], um jornalista do Iraque fez a seguinte pergunta: “General Kimmitt, o ruído que fazem os helicópteros americanos voando tão baixo aterrorizam as crianças, especialmente à noite. Por que vocês insistem em voar tão baixo e em aterrorizar o povo iraquiano?”. O general respondeu: “O que eu respondo aos meninos iraquianos é que aquilo que eles ouvem é o ruído da liberdade”.
Fonte: Enric Gonzáles in El País, 10/2/2008.
Bom, já há uma tradução deste livro em Portugal pela edições 70. Tomara que logo seja editado também no Brasil. Como se viu, leitura obrigatória. Ruído da liberdade? Essa é antológica.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h57
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