Blog do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba (PR) leobelferrari@uol.com.br


O EXÍLIO CONTRA O ESQUECIMENTO

Juan Gelman fotografado por Daniel Mordzinski in Babelia, El País, 26/1/2008.

 

            O poeta argentino Juan Gelman está no Babelia de hoje. Em magnífica entrevista a Francesc Relea – daquelas para emoldurar na parede -, Gelman fala também do exílio como resultado de um difícil trabalho de luto do filho morto pela ditadura militar. É um dos trechos mais impressionantes desse memorável depoimento:

 

Relea – Por que o senhor não ficou na Argentina quando terminou seu exílio?

Gelman – É o que Mario Benedetti chamou de desexílio. A mim me parece impossível o desexílio. Eu estive 14 anos exilado, e isso cria um vínculo muito forte com o exílio. Quando eu estava exilado em Roma, chegavam companheiros, amigos, também exilados e alguns deles não desfaziam as malas pensando que voltariam logo, na semana seguinte, para casa. Eu nunca tive essa sensação. Eu saí com a idéia de que ia por muito tempo. Tratei de aproveitar ao máximo essas diferenças culturais e de entendê-las. Você chega à conclusão de que o melhor é mundar. Há frases fáceis, como “sou cidadão do mundo” e outras bobagens. Isso não é verdade.

Relea – Como chegou ao México?

Gelman – Eu regressei à Argentina e conheci minha atual esposa, que havia se exilado no México. Ela terminou suas férias e voltou para o México. Eu decidi acompanhá-la para ver como ela vivia lá. Ainda hoje estou averiguando. A volta à Argentina foi estranha. Voltei ao jornalismo, ao Página 12, por alguns meses. Um dia, entrei em um bar de comida rápida. Diante de mim havia um senhor com aspecto de policial muito claro. Comecei a pensar: não será esse o filho da puta que matou meu filho? Então me dei conta que na Argentina restavam poucas alternativas de vida. Ou viver amargurado, ou agarrar uma metralhadora e matar alguns, ou acomodar-me à situação. Conclusão: fui embora.”

Fonte: entrevista de Juan Gelman a Francesc Relea, El País, 26/1/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h47
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HABEMUS RAINHA

Marcinha fotografada por Giuliano Gomes in Gazeta do Povo, 25/1/2008.

 

         Curitiba é igual ao dólar. Tem a oficial e tem a paralela. A Curitiba-oficial é a cidade horrorosa da ordem e do progresso, da quietude e da mansidão. A Curitiba-oficial é toda feita de tapumes, de vidros fumês, e de limpeza, muita limpeza. Fuja dessa Curitiba. A Curitiba que vale a pena viver é a Curitiba-paralela. Nessa, há que ir atrás. Ela não se revela fácil, ela não se deixa mostrar de repente. Custa trabalho descobrir – daí a graça. A Curitiba-paralela é a Curitiba dessa maravilhosa Marcinha ou Márcia de Souza, que ganhou ontem pela terceira vez o título de Rainha do Carnaval de Curitiba. Marcinha não é da Curitiba-oficial. Marcinha é querida, é charmosa, é uma belíssima dançarina de samba – não há nada mais difícil de dançar do que o samba no pé. Marcinha é uma artista dessa Curitiba que se esconde nas quebradas, na desordem, nos bairros sem nome, nem notícia, dessa Curitiba-humana, demasiada humana.

         Raras vezes a Curitiba-paralela aparece nos jornais. Mas hoje, quase caí da cadeira quando dei com a Marcinha na primeira página da Gazeta do Povo. Meus leitores de outros lugares talvez não se dêem conta disso, então explico. Marcinha estar na capa da Gazeta do Povo é equivalente à Revolução Francesa acontecer – é a única comparação que aceito fazer. Marcinha na capa da Gazeta do Povo – é verdade que numa foto 3x4 – ô, Dr. Francisco, Marcinha é para pôster central do jornal! – mas está lá. Obrigado, Dr. Francisco, obrigado. Até acordei meus filhos mais cedo para participarem dessa epifania.

         As palavras de Marcinha logo após ganhar o título foram muito interessantes. Ela disse o seguinte:

         “É uma grande responsabilidade. Temos que levar alegria e convidar o público”, declarou a soberana sobre a eleição. Com 1,70m de altura e 51 quilos, a rainha disse que não malha, mas evita comer doces e gordura para manter a forma. Usando lentes azuis ela declarou que o papel de Rainha é uma personagem que ele vive durante o período da festa. "A Márcia em casa é outra coisa", destacou, talvez, devido ao uso da fantasia com quase nenhum pano.” (fonte: Gisele Rossi in Gazeta do Povo online, 25/1/2008).

         Querida Marcinha, eu entendi que você quis dizer que em casa você tira a fantasia. Não se preocupe. Em casa, no trabalho, com as crianças, no amor, no sexo, todos nós só vestimos outras fantasias. Nunca tiramos elas – e ainda bem que é assim. Não estar de fantasia seria o fim da alegria, o fim da esperança, o fim do carnaval. Parabéns Marcinha. A Curitiba-paralela agradece de joelhos.



Escrito por Leonardo Ferrari às 12h20
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O FUNCIONÁRIO INFIEL E O PRESIDENTE FIEL

“Funcionário infiel dá um nocaute no banco Société Générale”

Fonte: La Repubblica, 25/1/2008.

 

            Marx errou onde Freud acertou. No final do brilhante “O Manifesto Comunista” de 1848, Marx e Engels concluem: “Proletários de todo o mundo, uni-vos!”. Essa conclusão está errada. Não é pela união que o capitalismo vai cair. É pela pulsão, é pela fantasia subjetiva, particular e singular de cada um. Dois fatos comprovam essa tese.

         Primeiro fato: ontem veio à luz a maior fraude da história bancária. Aconteceu na França, no banco Société Générale, que anunciou que um empregado, chamado Jérôme Kerviel, causou uma fraude de 7 bilhões de dólares. O mais estranho foi o banco declarar que o empregado não teve ganho pessoal com a fraude. É aí que o banco se engana. Há um ganho em jogo aqui, porém subjetivo, ligado à fantasia inconsciente desse empregado. De qualquer modo, não foi a união dos proletários que quase destruiu esse banco. Foi um só, foi o “ao menos um” que decidiu agir. Muito boa a manchete do La Repubblica: “funcionário infiel”. Esse “infiel” é simbólico sobre o que está em jogo na fantasia.

         Segundo fato: estreou semana passada nos Estados Unidos um filme chamado “Cloverfield” [uma palavra que não existe no dicionário. Existe “clover”, trevo e existe “field”, campo – na Espanha o título do filme foi traduzido para “Monstruoso”]. No início do filme, a cabeça da Estátua da Liberdade é destruída. Ora, não há imagem mais reveladora do que foi o governo George W. Bush. Novamente, não é a união de proletários que destruiu a liberdade. Não. Basta um só sujeito, movido pelas mais estranhas fantasias – inclusive religiosas – para operar esse feito. Aliás, o ataque terrorista de 11 de setembro de 2001 também segue essa mesma lógica. Não foi o ataque de um exército, da união de grandes contingentes, mas sim alguns poucos sujeitos decididos.

         Voltando ao banco francês, uma recomendação a seu patético diretor presidente. Que sigam o exemplo do Citibank, aquele que dormiu nos Estados Unidos. Venham logo para o Brasil. Não há país no mundo hoje mais propício aos negócios bancários. Aqui todos os bancos nunca dormem.

 

Cena do filme “Cloverfield”.

 

Anúncio do filme no The New York Times, 20/1/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 09h22
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LUTO

Pastora Mira. Fotografia in El País, 24/1/2008.

 

         O que é o luto? Freud o descreve como um trabalho. Em um dos textos mais belos da psicanálise, “Luto e Melancolia” (há uma ótima tradução em português feita por Luiz Hanns e editada em 2006 pela editora Imago – cuidado para não confundir com a péssima tradução das Obras Completas de Freud por essa mesma editora. A nova tradução está em “Obras Psicológicas de Sigmund Freud – Escritos sobre a Psicologia do Inconsciente, volume 2”), Freud descobre que uma das maiores dificuldades desse trabalho acontecer é o problema do ser humano nunca abandonar algo que ele já teve um dia – mesmo quando um substituto se apresenta.

         O luto é sempre um trabalho absolutamente solitário, particular, não universalizável. Cada perda é significada de uma determinada maneira, de acordo com um ritmo de tempo muito diferente para cada um dos envolvidos, com conseqüências também radicalmente únicas. Na ficção, um dos filmes mais extraordinários sobre o luto é “O Quarto do Filho” de Nanni Moretti. Uma obra-prima sobre um tema tão doloroso.

         Ontem, em Madri, o relato de uma mulher mostrou como a realidade pode superar a ficção. É um relato impressionante. Começa assim: um dia, na Colômbia, essa mulher recolheu na rua um jovem de 17 anos, gravemente ferido em uma das pernas. Ela não lhe fez nenhuma pergunta e o levou para casa. Tratou dele, o curou, o deixou dormir e lhe alimentou. Ao abrir os olhos, o jovem lhe perguntou: “que fotos são essas desse menino que matamos aonteontem?”. Essa mulher lhe respondeu: “Essa é a casa dele, eu sou a sua mãe e você está dormindo na cama dele”.

         Essa mulher se chama Pastora Mira, é colombiana e contou essa história ontem no IV Congresso Internacional de Vítimas do Terrorismo, em Madri, Espanha.

         Mira conta que o carrasco de seu filho começou a chorar e lhe contou que eles haviam torturado seu filho durante 15 dias, antes de matá-lo. Nesse instante, Mira lhe passou o telefone e disse: “Você tem que ter em algum lugar do mundo uma mãe preocupada com você – ligue para ela e diga que estás vivo”. “Fiz isso porque nesse momento eu me dei conta de que eram meninos, muito jovens, cheios de dor e de vergonha”, conta Mira.

         Hoje eles trabalham juntos no Centro de Aproximação para Reparação e Reconciliação em São Carlos, Colômbia.

         “Nunca voltamos a falar de meu filho. Agora temos no centro 32 ex-carrascos e 90 vítimas. Eles nos ajudaram a localizar 15 fossas de desaparecidos” ( Fonte: Natalia Junquera, El País, 24/1/2008).

 

         Nesse trabalho de luto singular, foi esse o caminho dessa mulher. Um caminho que consiste em reviver a cada dia as pegadas, as marcas, a sombra de seu filho sobre cada uma dessas vítimas, sobre cada um desses seqüestradores.

Pastora Mira não se apresentou como ideal de nada, nem como exemplo a ser seguido. Ela contou sobre o seu trabalho singular de luto. Ela falou dessa dor que jamais vai embora, mas que se modifica cada vez que se fala dela. Daí a importância da palavra para o trabalho de luto. Falar é o avesso do convite ao esquecimento presente no péssimo “conselho” que muitas vezes se dá nessas horas, “esqueça, isso vai passar”. Ora, esse é a pior maneira de tentar ajudar alguém em luto. Isso não passa. Pedir para alguém esquecer é equivalente a propor perder a única coisa que restou. A lembrança da dor, por mais paradoxal que seja, é também uma presença – por mais opaca que seja, por mais tênue, por mais frágil, por mais dolorosa. A presença da ausência.



Escrito por Leonardo Ferrari às 12h32
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O CACHO PERFEITO

Silvino Zanrosso em Linha 40, interior de Caxias do Sul. Fotografia de Almir Dupont in Zero Hora, 24/1/2008.

 

Silvino Zanrosso tem 73 anos. É viticultor e ama o que faz. “Se eu acordo longe do parreiral, fico doente”. Esse homem envolve as uvas em casulos de papel ou papelão para as proteger do sol. Ele retira os grãos menores ou aqueles que não amadureceram para que os demais se desenvolvam melhor – faz isso cacho por cacho. Ele já ganhou vários prêmios na Festa da Uva de Caxias do Sul. Aprendeu a profissão com o pai e com o avô (fonte: Zero Hora, 24/1/2008).

 

Jeanne Moreau completou ontem 80 anos. Em um belíssimo texto, Ruy Castro a homenageou dizendo:

 

 “Um dia, o cineasta Louis Malle a pôs para andar por Paris, à noite, iluminada apenas pelos néons e vitrines das lojas pelas quais passava. Ela não precisava falar nada, nem carregar nas expressões, nem olhar para a câmera. A platéia se encarregou de atribuir significados ao seu rosto. A atriz era Jeanne Moreau, e o filme, de 1957, "Ascensor para o Cadafalso". Dali Jeanne continuou sendo posta para andar e despertar significados: em "Os Amantes", também de Malle (1958), "Moderato Cantabile", de Peter Brook (1960), "A Noite", de Antonioni (1960), "Eva", de Joseph Losey (1962), "Diário de uma Camareira", de Buñuel (1964), "A Noiva Estava de Preto", de Truffaut (1967). A cidade era quase sempre Paris, mas podia ser também Milão, Roma, Veneza, o litoral ou o interior da França.

Jeanne já tinha 29 anos e 20 filmes pelas costas quando Malle a descobriu. Os outros diretores a maquiavam demais, para disfarçar os círculos em volta de seus olhos e o rosto marcado, de quem acabara de fazer amor. Malle percebeu que a beleza de Jeanne estava exatamente aí e fotografou-a de rosto quase lavado em "Ascensor para o Cadafalso". Nascia uma estrela, que iria aposentar as três grandes damas do cinema francês: Michelle Morgan, Danielle Darrieux e Micheline Presle.

Para o público, seu personagem era ela mesma: a mulher inteligente, madura e independente. Mas os diretores sabiam que aquela era apenas uma de suas facetas como atriz e que Jeanne era capaz de fazer qualquer papel. E os íntimos garantem que, na vida real, ela sabia também miar, se necessário.

Jeanne Moreau completa hoje 80 anos, lúcida, firme e na ativa. Como Humphrey Bogart para as mulheres, ela ensinou aos homens que a beleza feminina mais duradoura podia estar nas imperfeições.” (fonte: Ruy Castro in Moreau aos 80, Folha de São Paulo, 23/1/2008).

 

Pois há homens que tentam transformar as mulheres em uvas. Há homens que tentam envolvê-las em casulos, tentam protegê-las de tudo e de todos, tentam retirar aquilo que não gostam, tentam acrescentar o que querem, tentam fazê-las amadurecer ou rejuvenescer, tentam moldá-las e podá-las, tentam coisificá-las, tentam eliminar qualquer imperfeição, qualquer mácula, qualquer desvio, qualquer diferença. Há homens que têm ódio das mulheres a ponto de matá-las dia a dia, a ponto de acabarem com suas curvas, eliminarem suas arestas, investigarem seu passado, determinarem seu futuro, massacrá-las com suas exigências infinitas, com seus pedidos de provas de amor, com suas ordens e com seus gritos. Cuidado. Há homens que não suportam Jeanne Moreau. Há homens que só querem o cacho perfeito – limpo, ordenado, imaculado, mudo.



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h44
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O BEIJO DO TOSCO

 

O deputado federal Paulo Maluf (PP-SP) dá um beijo e sussurra no ouvido da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff ontem, na cerimônia de posse de Edison Lobão (PMDB-MA) no Ministério de Minas e Energia – fotografia de Ailton de Freitas in Zero Hora, 23/1/2008.

 

         Puccini se revirou no túmulo...

 

Scarpia
Tosca, finalmente mia!...
(ma l'accento voluttuoso si cambia in un grido terribile - Tosca lo ha colpito in pieno petto)
(gridando)
Maledetta!

Tosca (gridando)
Questo è il bacio di Tosca!

Scarpia (con voce strozza)
Aiuto! muoio!
(Scarpia stende il braccio verso Tosca avvicinandosi barcollante in atto di aiuto. Tosca lo sfugge ma ad un tratto si trova presa fra Scarpia e la tavola e, vedendo che sta per essere toccata da lui, lo respinge inorridita. Scarpia cade)
Soccorso! Muoio!

Tosca
(con odio a Scarpia)
Ti soffoca il sangue?
(Scarpia si dibatte inutilmente e cerca di rialzarsi, aggrappandosi al canapè)
E ucciso da una donna!
M'hai assai torturata!...
Odi tu ancora? Parla!... Guardami!...
Son Tosca!... O Scarpia!

Scarpia
(fa un ultimo sforzo, poi cade riverso)
(soffocato)
Soccorso, aiuto!
(rantolando)
Muoio!

Tosca
(piegandosi sul viso di Scarpia)
Muori dannato! Muori, Muori!
(Scarpia rimane rigido)
È morto! Or gli perdono!

Fonte: Giacomo Puccini in Tosca, segundo ato.



Escrito por Leonardo Ferrari às 14h05
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CONFIANÇA

Para onde se dirige o olhar de Bill Clinton no feriado em homenagem a Martin Luther King, em Atlanta, na segunda-feira? Fotografia de Tami Chappell/Reuters in The New York Times, 22/1/2008.

 

Chega da Alemanha uma das melhores análises sobre Barack Obama. Excelente.

“Todas as pessoas que vêm sonhando com o primeiro presidente negro dos EUA agora têm que acordar lentamente. Acontecerá um dia, espera-se, mas não nestas eleições. E talvez seu nome seja Barack Obama. Mas o primeiro presidente negro terá que ter uma personalidade mais madura do que esta que Obama, 46, pode oferecer aos eleitores americanos hoje. O senador de Illinois neste momento perdeu duas primárias, perdas que fizeram o astro voltar a ser um candidato ordinário. E, depois do debate da CNN na segunda-feira (21/1) à noite, uma coisa está clara: Obama é um candidato sob fogo amigo.

Hillary Clinton fez perguntas desconfortáveis, que foram agressivas e precisas -e, como resultado, eficazes. Houve acordos evasivos em Chicago? Por que ele apoiou a guerra no Iraque no Senado, quando sempre foi contra? O que pensa exatamente sobre a questão do aborto?

Um astro popular que tem que agüentar essas perguntas não é mais astro popular. Pedir para ser tratado com mais justiça é uma estratégia arriscada para alguém que está tentando ocupar o mais alto cargo no mundo ocidental. É seguro dizer que Osama bin Laden não será nada mais gentil. (...)

Os comícios de Obama ainda são eventos cheios de energia, e ele ainda consegue atrair grandes multidões de defensores que rotineiramente recebem suas palavras com aplausos e até lágrimas. Ainda mais interessante, entretanto, é notar o tipo de pessoa ausente nas multidões de Obama. Ele não conseguiu atrair fortes números de seguidores entre os mais velhos e operários. A maioria das mulheres o acha interessante, mas apóia Hillary Clinton. A maioria esmagadora de hispânicos se opõe a Obama, parcialmente por ser negro. Nem mesmo os afro-americanos estão unidos em seu apoio.

Os maiores defensores do senador de Illinois são os jovens e graduados, grupos em que o entusiasmo por Obama é alto. Ele é o candidato dos afluentes e dos vencedores da sociedade. Sua mensagem de esperança e mudança parece prosperar em ambientes onde as pessoas bebem café latte macchiato e lêem New York Times. Seu idealismo é contagiante entre os que esperam mais da política do que mais um corte de impostos ou a próxima iniciativa de paz desanimada para o Oriente Médio. Seus defensores amam "a coisa de visão" e sonham com uma eleição presidencial que verdadeiramente leve à mudança inovadora, a uma revolução nas urnas -ou algo assim.

Obama é o candidato dos idealistas. Uma vez a cada duas décadas aparece alguém com a habilidade de inspirar profundamente esse grupo, que talvez seja o que mais tem discernimento de todos. Esse fato por si só o torna notável. (...)

Obama chegou cedo demais -ou talvez tarde demais. Nos anos 90, quando a economia ia bem e os terroristas islâmicos ainda não tinham aparecido no cenário mundial, um homem como Obama provavelmente teria melhores perspectivas. Mas tempos difíceis são tempos duros para visionários.

O que é preciso para compreender a atração de Clinton é observar como as pessoas reagem quando ela fala com eleitores em pequenos grupos, como fez recentemente na Universidade de Nevada. Não havia quase estudantes na platéia, mas cerca de 100 mulheres de meia-idade, algumas das quais até tinham carregado seus maridos, estavam sentadas em torno da candidata em cadeiras dobráveis. Clinton disse ao seu público sobre o trabalho duro que a esperava na Casa Branca, sobre a responsabilidade e sobre sua visão de si mesma como solucionadora de problemas. Ninguém aplaudiu, ninguém pulou da cadeira e não houve um coro de aprovação. Mas as mulheres aquiesceram em silêncio. Não pareciam animadas, mas se sentiam compreendidas.

Observando o grupo, entendi que talvez esta eleição não seja sobre visões, mas sobre algo ainda maior: confiança.”

Fonte: Gabor Steingart in O Fim da Revolução Barack Obama in Der Spiegel, traduzido por Deborah Weinberg in UOL, 23/1/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 12h06
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NARCISO EM MARTE

Foto panorâmica e depois ampliada da sonda Spirit (NASA) entre 6 e 9/11/2007 in Corriere della Sera, 23/1/2008.

 

            Exclusivo. Há vida em marte. Mas, espere, que vida é essa? Que o leitor compare com a vida que o milionário Cristopher Getty está levando no Rio de Janeiro. O que significa passar a noite no meio das mulatas da Grande Rio? O que é Marte perto disso? O que é o cosmos diante delas? Há vida em Marte...e ela não merece ser vivida. Ao Rio de Janeiro cidadãos do universo...

 

 

O milionário norte-americano, neto do banqueiro Paul, Cristopher Getty, em meio às mulatas da Grande Rio no clube Monte Líbano, fotografado por Antonio Kämpfe na imprescindível coluna de Hildegard Angel in Jornal do Brasil, 23/1/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 09h22
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EPIFÂNICAS

Eluane, passista da Acadêmicos da Rocinha, fotografada por Rafael Moraes in Jornal do Brasil, 20/1/2008.

 

Há certas mulheres que definem uma cidade. Eis aqui o Rio de Janeiro. É isso o Rio. Pilastras!!!!

 

“Saçarico da vovó

         Domingo, no bailão de carnaval família do concurso de marchinhas da Fundição Progresso, no Rio, uma vovozinha de uns 80 anos, no meio da muvuca, dançava com uma lupa na mão para acompanhar as letras. Fez o maior sucesso.”

 

Fonte: Ancelmo Gois in O Globo, 22/1/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 14h17
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RASGARAM O VÉU DAS FARMACÊUTICAS

“Pesquisadores encontram parcialidade nos relatórios de testes de medicamentos”

Fonte: Benedict Carey in The New York Times, 17/1/2008.

 

         Na melhor tradição da frase que rasgou o véu da ideologia, dita pelo ex-ministro da Fazenda, Rubens Ricupero, “eu não tenho escrúpulos. O que é bom a gente fatura, o que é ruim, a gente esconde” (1/9/1994, frase dita “em off” a Carlos Monforte, na Rede Globo, sobre os índices de inflação, manipulados para favorecer o candidato à presidência Fernando Henrique Cardoso – apoiado na época pelo então presidente Itamar Franco), eis que o indispensável Benedict Carey do The New York Times divulga um fato nada surpreendente para quem conhece os meandros das indústrias farmacêuticas. Os fabricantes de antidepressivos, como Prozac e Paxil, nunca publicam os resultados negativos dos testes desses medicamentos. Só publicam os resultados positivos. No admirável mundo novo das farmacêuticas, não existem efeitos colaterais – tremores diversos, fala arrastada, impotência e até suicídio -, não existe dependência, não existe nada de errado com seus produtos. E é dessa forma que elas anunciam suas maravilhas – não sem antes divulgar que qualquer outro tipo de terapia é um fracasso, leva muito tempo, não há base científica. Boa sim é a “base científica” delas e os “resultados”, é claro, são “imediatos”.

         Ontem, dois artistas argentinos comentaram essa notícia, com o brilho de sempre, a graça magnífica desses cartunistas. Eis aqui a obra-prima que deveria vir impressa, a partir de agora, na embalagem de todos esses medicamentos. É muito mais eficaz que aquela frase tenebrosa, à la Big Brother, “o ministério da saúde adverte...”. Eu não confio nos ministérios - fico sempre com os cartunistas. 

 

 

 

“Repórter – Dizem que os laboratórios ocultam que os antidepressivos não são tão eficazes como se acredita que sejam.

Cientista do laboratório – Sim...é que, se dissermos a verdade, as pessoas ficarão deprimidas.”

Fonte: Daniel Paz e Rudy in Página 12, 21/1/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h53
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O INEXPERIENTE

Barack Obama fotografado em Manning, South Carolina, por Callie Shell/Aurora in Time – Pictures of the Year 2007.

 

Brilhante artigo de Nicholas Kristof sobre Barack Obama. Excelente.

“Todo o esforço de Hillary Clinton em minar a campanha de Barack Obama ao dizer que ele não tem experiência forte o suficiente para ser o próximo presidente me faz pensar em outro candidato que era quase um noviço - teve apenas um mandato como deputado - e chegou à Casa Branca: Abraham Lincoln.

Outro presidente de sucesso declarou, certa vez: "A velha experiência é irrelevante". Ele sugeriu que o melhor treinamento para o Salão Oval não vem de ficar fazendo lobby pela Casa Branca ou pelo Congresso, mas da experiência "ancorada na vida real das pessoas", porque "é isso que traz resultados, se tivermos coragem de mudar".

Este homem é Bill Clinton, quando concorria em 1992 contra George Bush (pai) - que estava, então, vangloriando a própria experiência frente ao jovem marido de Hillary. (...)

Para dizer de outro jeito, vamos pensar em qual político é hoje o mais experiente hoje no governo, experiência no sentido clássico, daquele jeito que o tornaria o homem mais qualificado para ser o próximo presidente dos EUA. Este homem é Dick Cheney. Dou por encerrada a discussão.”

Fonte: Nicholas D. Kristof in Experiência não é tão útil à política, The New York Times, publicado em Jornal do Brasil, 21/1/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 14h51
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O ÍNDIO QUE NÃO QUER APITO

            Não seguiu o conselho de Lula. É o que dar ser índio, impaciente e monoglota. Era só esperar mais quinhentos anos que tudo se resolveria. Burro, voluntarista e iletrado. Que venha urgente ao Brasil para aprender como é que se espera. Urgente.

 

“"Quando a gente via uma mulher de saia rodada tradicional no palácio de governo, era um cozinheira ou uma faxineira, com certeza. Agora pode ser uma secretária, a presidente da Assembléia Constituinte", comemora o taxista aimará José Apaza, 32, questionado sobre o que pensa de dois anos de mandato do primeiro presidente indígena da história da Bolívia.”

 

Fonte: Flávia Marreiro in Morales avança em política indígena, mas interação ainda é problema, Folha de São Paulo, 21/1/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 13h21
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A MEDÍOCRE PACIÊNCIA

Fonte: Chico Caruso in O Globo, 21/1/2008.

 

Nessa maravihosa arte de Chico Caruso está condensado todo o governo Lula. É o governo-Sancho Pança, é o governo-brochante, é o governo-anão, é o governo-Ferreira Gullar. Me explico. Ontem, na Folha de São Paulo, Ferreira Gullar escreveu essa inacreditável sentença:

 

“Mas a noite custa a passar também nos cárceres. Já imaginou quanto deve demorar a noite, nas selvas colombianas, para as pessoas que as Farc mantêm seqüestradas? Para quem teve roubado seu futuro, a noite se prolonga dia adentro e emenda com a seguinte, é a noite sem aurora.
Que diferença daquela noite boliviana, nos anos 60, quando Guevara punha em risco sua vida por um sonho: o sonho de criar uma sociedade fraterna e igualitária nas Américas. Sonho, que ele sonhou errado, na hora errada, no lugar errado, por acreditar que quem sabe faz a hora, não espera acontecer. Não faz. Esse voluntarismo juvenil só conduz à derrota.

É que o homem perdeu o paraíso pela impaciência, como disse Kafka. Mas podemos dizer que, pela paciência, quem sabe, ainda poderá recuperá-lo. Paciência que signifique determinação, persistir na luta, demore o que demorar, paciência que nos ajude a vencer a noite com todos os seus fantasmas e pesadelos.”

Fonte: Ferreira Gullar in Dentro da Noite, Folha de São Paulo, 20/1/2008.

 

Esse medíocre convite à paciência é a síntese do governo Lula. Aliás, não foi isso que ele recomendou ao presidente da Bolívia, Evo Morales, no último 17 de dezembro? Lula é esse líder-paciência, acomodado, quieto, manso. Que bobagem é essa de “voluntarismo juvenil”? Pior, que sábio é esse de declarar que isso “só conduz à derrota”? Como ter paciência após escutar o que Pedro Simon, o maior senador dessa república, declarou ontem na Zero Hora?

 

“Simon gosta da conversa na praia. Não tem tempo para acabar, é mais solta, franca, sem cerimoniais, sem assessores, sem terno. Há exceções. Já recebeu, de bermuda, visitas cerimoniosas. Em 1989, o então governador de Alagoas, Fernando Collor de Mello, desembarcou de manhã em Rainha do Mar. Foi no dia 27 de fevereiro, uma segunda-feira mormacenta. Collor, também do PMDB, iniciava a campanha à Presidência da República. Era o caçador de marajás. Sentou-se na varanda de sapatos, calça, camisa de colarinho e gravata. Queria Simon de vice na sua chapa. O senador relembra:

- Depois, ele sugeriu que eu fosse candidato a presidente, e ele seria o vice. Mas ele queria sair do PMDB e formar um novo partido.

Collor almoçou, continuou a conversa depois da refeição e ficou para o jantar. Não convenceu Simon. O senador foi dormir certo de ter recebido um aventureiro que não tinha nada a perder:

- Pensei: esse cara é louco. Pois o doido era eu.

Collor criou o partido, o PRN, e se elegeu presidente. Hoje, Simon convive no Congresso com o senador alagoano, eleito em 2006. Têm uma relação respeitosa. Simon diz, referindo-se à corrupção:

- O que aconteceu no governo do Collor iria hoje para o juizado de pequenas causas perto do que tivemos no governo do Fernando Henrique e do Lula.”

Fonte: Moisés Mendes in Na Varanda do Sábio da Rainha do Mar, Zero Hora, 20/1/2008.

 

Paciência? “Voluntarismo juvenil”? Lembrei de Abbie Hoffman:

 

“Não acabamos com o racismo, mas acabamos com a segregação legal.

Acabamos com a idéia de que se pode mandar meio milhão de soldados para o outro lado do mundo lutar numa guerra que as pessoas não apóiam.

Acabamos com a idéia de que as mulheres são cidadãs de segunda classe.

Fizemos da defesa do meio ambiente uma questão que não pode ser ignorada.

As grandes batalhas que ganhamos não podem ser revertidas.

Nós éramos jovens, cheios de certezas, temerários, hipócritas, valentes, tolos, teimosos e amedrontadores.

         E nós estávamos certos.”

 

Fonte: Abbie Hoffman citado por Robert Altman in The Sixties in Piauí 16, Janeiro/2008, p. 40.



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h25
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COISA DA MEMÓRIA

Anna Akhmatova.

“Metade puta que arde de paixão, metade monja que implora o perdão de Deus.”

         Boris Eijenbaum, crítico literário, sobre Anna Akhmatova citado por Rosa Pereda in La poesía en el ‘gulag’, El País, 19/1/2008.

 

         Sobre Anna Akhmatova, Joseph Brodsky conta:

 

         “Quando o pai ficou sabendo que sua filha estava a ponto de publicar uma coletânea de poemas numa revista de São Petersburgo, ele a chamou e disse que, embora nada tivesse contra o fato de ela escrever poesia, pediria que ela “não conspurcasse um nome respeitado” e usasse um pseudônimo. A filha concordou, e foi assim que “Anna Akhmatova” entrou na literatura russa, em vez de Anna Gorenko.”

         Joseph Brodsky in “A Musa Lastimosa” in “Menos que Um”. São Paulo: Cia. das Letras, 1994, p. 33.

        

         Ler Anna Akhmatova é ir de encontro a essa memória-sofrimento e memória-glória, é ir de encontro à dura pedra, branca, preta, vermelha. Ler Anna Akhmatova é ir olhar bem de perto, é ficar triste e pensativo. Ler Anna Akhmatova é espantar a tristeza. Ler Anna Akhmatova é te mudar para dentro de mim.

 

 

Как белый камень в глубине колодца,

Лежит во мне одно воспоминанье.

Я не могу и не хочу бороться:

Оно — веселье и оно — страданье.

 

Мне кажется, что тот, кто близко взглянет

В мои глаза, его увидит сразу.

Печальней и задумчивее станет

Внимающего скорбному рассказу.

 

Я ведаю, что боги превращали

Людей в предметы,не убив сознанья,

Чтоб вечно жили дивные печали.

Ты превращен в мое воспоминанье.

                  Слепнево

                 1916

 

Como Pedra Branca  

Como pedra branca no fundo do poço

dentro de mim está uma memória.

Nem quero afastá-la, nem posso:

é sofrimento e é prazer e glória.

 

Julgo que quem olhar-me bem de perto

dentro em meus olhos logo pode vê-la.

E ficará mais triste e pensativo

que alguém que escute uma anedota obscena.

 

Eu sei que os deuses metamorfoseavam

os homens em coisas sem tirar-lhes alma.

Para que o espante da tristeza dure sempre,

em coisa da memória te mudei.

 

(Tradução de Jorge de Sena)  

 

Fonte: http://www.arlindo-correia.com/180900.html, consultado em 20/1/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 09h40
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