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UM CAVALHEIRO

Ava Gardner.
Reencontrei Lucho Gatica. Quem é Lucho Gatica? Pois, é o homem que escreveu e cantou uma das músicas mais extraordinárias já feitas. Ela se chama “La Barca”. Quem uma vez só na vida, basta uma, uminha, uma única vez, dança “La Barca”, nunca mais se recupera. Não tem jeito. Não basta ouvir. Não. Tem que bailar “La Barca” para entender quem é Lucho Gatica. Esse chileno genial, esse gigante é uma das pilastras de sustentação do bolero. Se retirar Lucho Gatica o bolero fica perneta (a outra perna quem sustenta é Agustín Lara, inesquecível). “La Barca” inicia assim:
“Dicen que la distancia es el olvido pero yo no concibo esa razón porque yo seguiré siendo el cautivo de los caprichos de tu corazón.”
Não é maravilloso isso? “Eu seguirei prisioneiro dos caprichos de teu coração”. A música poderia terminara aí que ela já teria cumprido a sua função. Quem escuta isso dançando, acabou. Nunca mais será livre. Mas, Lucho Gatica guarda surpresas. Continua:
“Supiste esclarecer mis pensamientos, me diste la verdad que yo soñé, ahuyentaste de mí los sufrimientos en la primera noche que te amé.”
“Você me disse a verdade que eu sonhei, você afugentou meus sofrimentos na primeira noite em que te amei”. Extraordinário. “Você me disse a verdade que eu sonhei”. Espetacular. E ela disse isso através do sexo! Maravilhoso. Poderia terminar aqui, que já seria gigante. Mas, Lucho Gatica prossegue:
“Hoy mi playa se viste de amargura porque tu barca tiene que partir a cruzar otros mares de locura cuida que no naufrague tu vivir.”
“Hoje a minha praia se veste de amargura porque a tua barca tem que partir, ela tem que cruzar outros mares de loucura, mas, minha querida, só cuide de uma coisa, só de uma: que não naufragues em teu viver”. Não, mas isso é o sublime do sublime. A barca é o desejo, é o infinito desses mares, desses portos, dessa busca por aquilo que bastaria, por aquilo que chegaria, por aquilo que seria um porto final. Isso é Lucho Gatica. E o final-recomeço?
“Cuando la luz del sol se esté apagando y te sientas cansada de vagar, piensa que yo por ti estaré esperando hasta que tú decidas regresar.”
Impressionante. Na hora de morrer, e é a morte daquele que descobre então que não há porto final, que todos os portos são falhos, são insuficientes, mas são portos, então nessa hora derradeira, nessa hora-renascimento, “quando você cansar de vagar, pensa então que eu estou aqui te esperando, até a hora que tu decidas voltar.” Lindíssimo! É um homem decidido a esperar essa mulher que saiu por aí a vagar, saiu por aí para dar uma volta em outros mares. E ele está ali, esperando. Mas ali onde? Ele também andou por outros mares, ele também saiu por aí. Mas ele também aprendeu algo fundamental desses portos. Ele também morreu. E por isso decide esperar. Esperar o retorno dessa primeira noite, dessa noite primeira, dessa noite-barca em que ela lhe falou a verdade do sonho. A verdade da vida. A verdade de sempre recomeçar – ainda.
Lucho Gatica está hoje numa entrevista daquelas de se recortar, republicar, editar em livro, emoldurar na parede, transformar em cartilha de alfabetização. Em um dos trechos saborosos da entrevista, Lucho relembra seu encontro com Ava Gardner. Vejam o cavalheirismo inesquecível desse homem na resposta ao jornalista:
“- Se fala por aí um outro mito sobre você: que foi amante de Ava Gardner.
- Não, eu fui só amigo dela. Foi ela quem me chamou pelo telefone, quando eu estava em Madri. Às sete da noite ela me chama e me diz: “My name is Ava Gardner”. E eu respondi, na brincadeira: “My name is Frank Sinatra”. Ela me respondeu: “You don’t belive me”. E eu: “I don’t believe you”. Aí ela concluiu: “My suite is three fifteen”. Eu, desconfiado, chamei meu pianista, Jorge Ortega, e lhe contei o que tinha acontecido. “O quê?”, ele me respondeu. “Ela está no terceiro andar.” E ele: “mas o que você está fazendo, seu paspalho, que ainda não foi para lá?”. Pois lá fui eu. Toco a campainha, ela abre e me diz: “Agora sim você acredita, de verdade”. Eu só consegui dizer: “Yes, I believe now”. “Come on in”, ela me convidou. Entrei e ela tinha quatro discos meus ali. E assim nos tornamos amigos. Saímos para jantar e depois fomos juntos ver um flamenco.
- E não rolou nada com ela?
- Não, essas coisas não…fomos amigos. Inclusive depois eu a vi em Nova Iorque, aonde ela foi me ver no Chateaux Madrid, com a sua irmã.
- Ela era realmente tão bonita como se diz?
- Sem dúvida, a mulher mais linda que eu já vi, a mais bela do mundo. Não colocava maquiagem, era tudo natural. Além disso, era uma mulher muito simples. A última vez que estive com ela foi numa festa em Miami, convidado por Frank Sinatra depois de seu show.”
Fonte: entrevista de Lucho Gatica a Marcelo Mellado in El Mercúrio/GDA, republicado in La Nacion, 12/1/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h38
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SETE EJACULAÇÕES

Waltraud Meier no café do Teatro Real de Madri. Fotografia de Álvaro García in El País, 9/1/2008.
“- Rainha – disse Tristão – por que me chamais de senhor? Não sou vosso homem de lígio, vosso vassalo, para vos respeitar, servir e amar como minha rainha e senhora?
- Não – respondeu Isolda. – Sabeis bem que é meu senhor e dono. Sabeis que vossa força me domina e que sou vossa serva. Ah, por que não avivei ainda mais as feridas do trovador ferido? Por que não deixei morrer no pântano o matador do dragão? Por que não desferi, quando ele jazia no banho, um golpe de espada? Eu não sabia, então, o que sei hoje.
- Mas o que sabeis hoje, Isolda? Que é que vos atormenta?
- Ah, atormenta-me tudo o que sei, tudo o que vejo! Este céu, este mar, meu corpo, minha vida!
E, pousando o braço sobre o ombro de Tristão, as lágrimas lhe apagaram a luz dos olhos e os lábios lhe tremeram.
- Amiga – repetiu ele -, o que vos atormenta?
- Vosso amor – ela respondeu.
Então ele pousou os seus lábios sobre os dela.”
Fonte: Tristão e Isolda – Lenda Medieval Celta de Amor. São Paulo: Martin Claret, 2006, p. 43.
“A ópera Tristão e Isolda é eterna”. Eis aqui as palavras de uma cantora. As palavras dessa magnífica Isolda, a soprano Waltraud Meier – recentemente aplaudida de pé no Alla Scala de Milão. “Tristão e Isolda não é nem antiga nem moderna, é eterna”, esclarece Meier. Um trecho de sua entrevista a Jesús Ruiz Mantilla do El País:
Mantilla – As críticas descreveram a montagem de Tristão e Isolda no Alla Scala como algo muito profundo e deslumbrante. Para você, como foi isso?
Waltraud Meier – Eu faço o papel de Isolda desde 1993. Mas desta vez foi o auge de minha carreira. Chéreau e Barenboim souberam extrair toda a verdade da obra. Fizemos uma leitura juntos, analizamos em detalhe cada aspecto da obra. Todo mundo deveria fazer isso. É a única forma de apreender os aspectos mais luminosos dela, porque nada foi escrito por acaso.
Mantilla – Mas qual foi a chave dessa visão de Chéreau e Barenboim?
Waltraud Meier – Eles se aprofundaram nos aspectos mais psicológicos da trama. Eles se concentraram naquilo que acontece aos personagens e fugiram da contextualização de uma época ou outra. Assim, eles conseguiram extrair o mais puro e verdadeiro, toda a grandeza interior do comportamento dos personagens, de seus sentimentos.
Fonte: entrevista de Waltraud Meier a Jesús Ruiz Mantilla in El País, 9/1/2007.
Tristão e Isolda não deixa ninguém indiferente. É fulgurante a descrição dessa obra no clássico “Wagner” organizado por Barry Millington, que descreve sem pudor:
“Tristan und Isolde é a descrição musical de uma paixão tão intensa, uma ânsia tão inexaurível, que a sua consumação só pode ser realizada na morte. Como tal, é considerada em geral como uma das mais voluptuosas obras musicais jamais escritas. Além do mais, o compositor não fez concessão alguma ao gosto burguês: um escritor (Wilfrid Mellers) refere-se ao “êxtase orgiástico” da música, ao passo que Virgil Thomson alegou que no dueto do segundo ato “os amantes ejaculam simultaneamente sete vezes”, e que estes momentos estão “claramente indicados na música”.
Fonte: Millington, Barry (organizador). Wagner – Um Compêndio. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995, p. 346.
Sete ejaculações? Que outra obra é capaz de um feito desses? Que outro compositor é capaz de escrever sete ejaculações? Que outra cantora é capaz de chegar perto desse “êxtase orgiástico” senão essa belíssima Waltraud Meier?
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h49
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DIRETO

Fonte: Elmar Burchia in Le 10 pubblicità più agghiaccianti, Corriere della Sera, 10/1/2008.
Este anúncio foi publicado em 1979 pela PIA – Pakistan International Airlines. Vôos diretos para Nova Iorque. Será que não foi aqui que Aquele Cujo Nome Não Deve Ser Pronunciado teve aquela sinistra idéia? Será?
Escrito por Leonardo Ferrari às 16h49
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A SULLEN AND SECRETIVE TEAR

Hillary Clinton – fotografia Reuters in El País, 10/1/2008.
Querido Leonardo,
Disseram que eu estava americanizada, com os burros cheios do dinheiro. Disseram que eu estava rica, e por isso, fria, gelada, insensível. Corria por aqui um certo zum-zum de que eu não tinha mais molho, ritmo, nem nada. Mas, prá cima de mim? Prá que tanto veneno? Prá que tanta intriga? Até mostraram minhas rugas, até mostraram minhas contas. Eu lá posso ficar do jeito que eles exigem que eu fique? Eu lá sou mulher disso? Eu nasci com o swing e vivo no sereno, falando a noite inteira aquelas velhas palavras sobre mudança, mudança e mudança. Até nas rodas de malandro do meu marido, eu sigo dizendo “I love you” – enquanto ele houver. E naquela hora das comidas, eu sou do pão de Maytag Blue Cheese e das pêras ao molho de maple. Agora, quando nada disso funciona, eu sempre lembro de seu querido conselho, após aquele elixir do amor: “una furtiva lagrima”. Funcionou! Obrigado, querido.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h23
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O RETORNO DO MAMILO DURO DE DESEJO

Metade de minhas preces foram ouvidas. Olga Kurylenko foi escolhida a próxima bond girl. Só falta agora a outra metade: substituir imediatamente aquela anta do Daniel Craig. Cassino Royale foi o pior James Bond da história. Nunca antes em um filme da série – sem falar nos espasmos que até agora Ian Fleming está tendo no caixão – Bond deixou uma mulher pelo trabalho. Pois em Cassino Royale lá está a famigerada cena em que, depois de conquistar a belíssima Caterina Murino (orgulho da Itália!), ele decide abandoná-la para perseguir um dos vilões. Isso nunca havia acontecido antes. Toda a beleza dos filmes – e dos livros – residia em colocar o sexo em seu devido lugar, ou seja, o primeiro lugar, depois, mais sexo, e, em terceiro lugar, um pouco mais de sexo e, lá pelo sexto ou sétimo lugar, o dever. Pois em Cassino Royale inverteu-se a lógica. O dever veio para o primeiro lugar. Resultado: o pior filme da saga. É só ação sem parar, tiros sem parar, socos sem parar. Só para comparar, basta rever “From Russia with Love”, o melhor da série – e o melhor dos livros. A leitora repare na poesia desse trecho e o modo sutil como Fleming introduz, digamos assim, a sacanagem da SMERSH (e para aqueles não estudiosos da série, esse blog faz uma pequena concessão. SMERSH é a contração de “Smiert Spionam”, cujo significado é “morte aos espiões”, sigla de um dos departamentos mais secretos do governo soviético – e que existiu de verdade!):
“Bond levantou suas pernas para a cama. Enquanto sua boca a beijava, sua mão se dirigiu ao seio esquerdo e o segurou, sentindo sob os dedos o mamilo duro de desejo. Então a mão desceu sobre o ventre liso. As pernas de Tatiana mexeram-se, lânguidas. Ela gemeu baixinho e sua boca escorregou da dele. Abaixo dos olhos fechados, os cílios longos tremeram como asas de passarinho.
Bond esticou o braço para pegar a ponta do lençol; puxou-o para baixo e o jogou para fora da cama grande. Tatiana não usava nada além do laço preto em torno do pescoço e meias pretas de seda puxadas acima dos joelhos. Seus braços se estenderam para chamá-lo.
Sem que Bond ou Tatiana soubessem, acima deles, por trás do espelho falso com moldura dourada na parede acima da cama, dois cinegrafistas da SMERSH estavam sentados numa salinha exígua. Antes deles, muitos amigos do proprietário haviam estado naquele mesmo gabinete de voyerismo para assistir a uma noite de lua-de-mel na suíte nupcial do Kristal Palas.
As lentes frias admiravam os arabescos apaixonados que os dois corpos formavam, dissolviam e tornavam a formar. Por trás das câmaras, respirações ofegantes saíam das bocas entreabertas dos dois cinegrafistas, e rios de suor corriam entre os rostos pasmos até desaguarem nos colarinhos das camisas ordinárias.”
Fonte: Ian Fleming in Moscou contra 007. Rio de Janeiro: Record, 2003, pp. 228-229.
A Ucrânia enviou com amor Olga Kurylenko. Eu agradeço. A propósito, será que aqui em Curitiba, a cidade mais ucraniana do mundo, não há nenhum primo, tia, avô dessa menina? Já pensou Olga Kurylenko passeando no Barigui? Já pensou Olga Kurylenko na suíte do...bom é melhor ficar por aqui. Olga Kurylenko é a volta do tremer dos cílios ao cinema. Obrigado, muito obrigado.
Escrito por Leonardo Ferrari às 09h20
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HONORIS CAUSA

Carolyne Ferreira por J.R. Duran.
Essa não. E quem disse que canal erótico não é educativo? A língua portuguesa nunca foi tão valorizada como nesses canais. Não só no sentido...anatômico, mas também as vogais são trabalhadas nas mais variadas posições, as consoantes recebem a devida consideração, os adjetivos abundam... E a matemática? São somas, subtrações, multiplicações e divisões incríveis vinte e quatro horas no ar. Eu, se fosse reitor de qualquer universidade (menos a Pessoa de Moraes de Duas Caras que é careta demais – aliás, que merchandising sem vergonha das “particulares”, não?), eu proporia imediatamente o título de doutora honoris causa a Carolyne Ferreira do Sexy Hot. Seu excelente Zona Quente entrega o que promete. Não é educativo? E os filmes? Por exemplo, há franceses, como “As Noites da Presidenta”. Mas não é profético? Agora que Carla Bruni apareceu no pedaço...Dos Estados Unidos chega “Sedutoras”. Uma referência explícita à Hillary e Condoleezza – não há referências implícitas nesses canais. E do Brasil – incomparável – há um festival: “Jornada do Sexo” – lindo isso. Sexo sem jornada não tem graça. “O Feitiço dos Sonhos” – belíssimo. Quanta aprendizagem corre nesses enredos? E, ao contrário das escolas e universidades, serve para a vida toda! Espetacular!
TV paga tem mais canal erótico do que educativo
Anuário mostra que são seis de sexo contra três exclusivamente voltados à educação
Ao todo, são 106 canais, dos quais apenas 27, ou 25%, são programados no Brasil; projeto de lei em discussão na Câmara exige o dobro
LAURA MATTOS DA REPORTAGEM LOCAL, Folha de São Paulo, 8/1/2008
A TV paga brasileira tem mais canais eróticos do que educativos. São seis dedicados ao sexo contra três exclusivamente voltados à educação. O número consta do "Anuário Pay TV 2008", o mais respeitado levantamento do mercado de TV por assinatura no país, editado há 11 anos. Os seis canais eróticos atualmente disponíveis são For Man, Playboy TV, Private, Sexy Hot, Vênus e Canal Adulto. Os educativos, Canal Autodesenvolvimento (AD), Futura e SescTV. Não estão incluídos aí os que apresentam também conteúdo educativo, mas são vendidos com outras categorias, como infantil (TV Rá Tim Bum, por exemplo) ou de documentários (Animal Planet, Discovery Channel etc.). O número de canais eróticos é maior também do que o de musicais (são cinco: a MTV, o VH1 e suas variações). Outro dado relevante do "Anuário" é que existem na TV paga brasileira 106 canais ao todo, dos quais 27 (ou 25%) são programados no Brasil.(...)
Escrito por Leonardo Ferrari às 12h42
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DOCE BALANÇO

Uma mulher observa o Tríptico 1974-77, de Francis Bacon, exposto nas salas da Christie’s em Londres – fotografia AP in El País, 8/1/2008.
Eu vinha cansado de tudo, de tantos caminhos, tão sem poesia, com medo da vida, com medo de amar. E aí, na tarde vazia, olha ali, olha que coisa mais linda, mais cheia de graça, sem medo da vida, sem medo de amar, ela lá fora ou ela aqui dentro, ela só sombra ou ela que passa a caminho, num doce balanço, tão linda no espaço dentre, essa que vem e que passa, na fresta, na greta, na fenda, essa do corpo dourado, essa do corpo negro, essa de corpo rachado, que é mais que um poema, é a coisa mais linda que eu já vi passar. A caminho.
Ah, porque estou tão sozinho, porque nesse tríptico nós não somos o quatro, tudo tão triste. Ah, se ela soubesse que quando ela passa, ah se ela soubesse disso, ah, se ela soubesse que quando ela borra a imagem, ah, se ela soubesse dessa graça que ela me faz, tudo fica mais lindo. Eu vi a menina. A caminho.
“David Sylvester – Só que você previu esse componente extraordinário que são as cabeças.
Francis Bacon – No início, eu queria alguma coisa na praia, junto do mar, apesar de o painel central não estar propriamente junto do mar, mas usei no plano de fundo dele, a mesma cor que está no céu dos painéis laterais. Acho que, quando imagens surgem diante de mim – ainda que, nos quadros elas não fiquem como surgem -, elas próprias apontam o caminho da chance e do acaso. Eu penso sempre em mim, não como pintor, mas como um instrumento da chance ou do acaso.
David Sylvester – Por que você diz isso?
Francis Bacon – Talvez porque eu seja único nesse gênero. Talvez dizer uma coisa dessas seja vaidade. Mas eu não me acho talentoso, acho apenas que sou receptivo.
David Sylvester – A alguma energia cósmica, por assim dizer?
Francis Bacon – Acredito que a energia está em mim mesmo e acredito que sou muito receptivo a ela. Mas espero que você não fique com a impressão de que eu me ache um iluminado; sou apenas receptivo.”
Fonte: David Sylvester in Entrevistas com Francis Bacon. São Paulo: Cosac Naify, 2007, pp. 140-141.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h24
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LOST IN TRANSLATION

Narrow Alley, Praga, 1997. Fotografia de Seán Duggan.
Meu nome é Ferrari. Leonardo Ferrari. Por favor, lembre-se disso ao terminar a leitura que segue. Obrigado.
“(...) Feitas as apresentações, conto que Otto Carpeaux, como seria de se esperar, tinha vasta admiração pelo escritor tcheco-alemão-judeu Franz Kafka. Mais: Otto Carpeaux conheceu Kafka.
A história desse encontro me encantou. Em 1921, Berlim era a capital do mundo intelectual. Tudo de novo, vivo e pulsante acontecia lá. Otto vivia na cidade como estudante universitário e candidato a escritor, e, a exemplo de todos nessa condição, freqüentava o Café Românico, o correspondente ao Les Deux Margots para os existencialistas de Paris, duas décadas depois. Algumas mesas do bar estavam reservadas para os já famosos, Heinrich Mann, Arnold Zweig, Werfel. Dessa região, nenhum mortal ousava se aproximar, a não ser que fosse convidado.
Uma noite, o Românico estava especialmente agitado. Não apenas pela presença dos intelectuais, mas também porque entre eles circulava com suas longas pernas uma famosa atriz alemã que granjeava fama de Messalina. Todos em volta dela, aquela coisa, aquela excitação. Carpeaux, meio desasado, retirou-se para um canto da janela, já ocupado por um rapaz "franzino, magro, pálido, taciturno". E continua Carpeaux: "Eu não podia saber que a tuberculose da laringe, que o mataria três anos mais tarde, já lhe tinha embargado a voz. Apresentou-se: Kauka. Não entendi, perguntei: Como é o nome? Repetiu: Kauka. Não sabia eu outra coisa para dizer que: Muito prazer. E esse foi o diálogo todo; não muito espirituoso, mas histórico. Ao sair, perguntei a um amigo: Quem é aquele rapaz magro com a voz rouca? Respondeu: É de Praga. Publicou contos que ninguém entende. Não tem importância".
Os encontros e desencontros de Carpeaux com Kafka não terminariam aí. Cinco anos depois, ele foi até a editora berlinense Die Brücke (A Ponte) a fim de tentar receber por alguns trabalhos que prestara à casa. O diretor deixou-o esperando por mais de meia hora. Não tendo o que fazer, Carpeaux olhou para os lados e viu uma pilha de livros, todos iguais. Tomou um, abriu-o e começou a ler. Era a primeira edição de "O Processo", de Kafka. Carpeaux estava distraído, lendo sem prestar muita atenção ao texto, quando um tapa nas costas o surpreendeu. Era o diretor.
- Pagar não posso, meu caro - disse-lhe. - Mas, se você quiser, pode levar, como pagamento, esse volume e mesmo a tiragem completa. O Max Brod, que teima em considerar um gênio esse amigo dele, já falecido, me forçou a editá-lo. É uma droga. Não vendi nem três exemplares. Pode levar tudo!
Carpeaux não aceitou a proposta. Ficou apenas com o volume que havia aberto e o resto foi vendido como papel de embrulho. Justamente aquele volume foi um dos poucos livros que ele conseguiu trazer para o Brasil, durante a Segunda Guerra.
Se tivesse topado o curioso pagamento do editor, Carpeaux seria um homem rico. Mas quem poderia imaginar que Kafka se transformaria no mais célebre, mais cultuado e mais poderoso escritor entre todos os freqüentadores do Café Românico?
Kafka só foi se tornar Kafka muito depois de morto, o que não é incomum em se tratando de escritores. É preciso haver certo distanciamento histórico para apreciá-los como devem ser apreciados. (...)”
Fonte: David Coimbra in Encontro com Kafka, Zero Hora, 6/1/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h51
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GIOCONDA
 
Marília Pêra como Gioconda.
“Eu nunca mais vou fugir da realidade.”
Gioconda, logo após retornar de sua visita à favela da Portelinha e decidir jogar fora todos os tranqüilizantes e calmantes que tomava diariamente - capítulo que foi ao ar ontem, 5/1/2008.
Aguinaldo Silva criou personagens magníficos nessa novela que já tem o emblemático título de “Duas Caras”. Gioconda é um deles. Interpretado pela maravilhosa Marília Pêra, Gioconda passava o dia deitada, dormindo, de olhos fechados. Graças à sua filha – e aí o autor foi brilhante, pois demonstrou que, pelo seu marido, ela poderia continuar dormindo para sempre. O marido de Gioconda é outro personagem excelente. O advogado Paulo Barreto – interpretado maravilhosamente por Stênio Garcia (que ator espetacular!) – demonstra toda a canalhice de um saber técnico (o direito) à serviço da perversão (os interesses de Ferraço – outro personagem incrível – e olha que já são três!). Pois bem, graças à filha, Gioconda começa a acordar. E de seu sorriso “fabricado” pelos remédios quilométricos que tomava, de seu sorriso “máquina”, creio que Aguinaldo Silva prepara o sorriso enigmático de Gioconda, um sorriso humano, fruto de trabalho, fruto de dor, fruto de lágrimas. Esse Aguinaldo-Leonardo é genial! Para homenageá-lo, pensei nesta citação de Simone de Beauvoir que li hoje no El País:
“Lamento que tenha sido necessária a guerra para fazer-me compreender que eu vivia no mundo e não fora dele.”
Simone de Beauvoir em 1985, referindo-se ao período da ocupação alemã da França, em que ela e seu companheiro Jean-Paul Sartre não manifestaram nenhuma inquietação política, convencidos, já em 1941, que os norte-americanos iriam retirar as castanhas do fogo, ou seja, que o melhor a fazer era esperar em casa, junto à lareira, escrevendo novelas, obras de teatro ou reflexões filosóficas - citado por Octavi Martí in Claroscuros de Simone de Beauvoir, El País, 6/1/2008.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h44
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