Blog do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba (PR) leobelferrari@uol.com.br


A ARTE DE DESLIZAR

           Há uma arte muito especial. Ela consiste em deslizar. Nesta arte, não se desliza sozinho, mas sim acompanhado, sempre acompanhado de uma bela mulher. Essa arte se chama tango. Saiu hoje no Página 12 de Buenos Aires uma entrevista rara, uma entrevista daquelas de se pregar na parede, uma entrevista daquelas de se converter em cátedra de uma universidade, uma entrevista sensacional, uma entrevista magnífica, uma entrevista feita por Karina Micheletto que foi ao encontro de Edgardo Cozarinsky, autor do livro “Milongas” (editora Edhasa, Buenos Aires, 2007). Alguns trechos memoráveis, alguns trechos belíssimos, alguns trechos imortais:

 

         “Eu creio que o auge internacional do tango vem do abraço, vem da possibilidade de sentir peito com peito, face com face, porque da cintura para baixo, não há contato. Nos anos 60, a liberdade era dançar soltinho, mas isso logo mudou. Não é que as pessoas busquem disciplina, mas logo elas descobrem que, seguindo certos passos e certas figuras de dança, se alcança algo interessante, uma criação de outro tipo, um diálogo de corpos que aparece com o abraço.” (...)

- Sua hipótese é que a força do tango bailado, o êxito da dança de tango está no abraço.

         “É verdade. Peito contra peito, e em um diálogo sem palavras. Ninguém fala quando dança. Geralmente, a mulher fecha os olhos, enquanto que o homem não pode fazer isso, pois é ele quem tem de evitar as colisões na pista.” (...)

- O senhor chegou jovem à milonga?

         “De jeito nenhum. Como todos da minha idade, quando jovem, o tango não me interessava. Era uma coisa de velhos, que dizia respeito à uma outra época. Nos anos 70, a grande descoberta foi dançar sozinho na disco. Se inventavam passos, dançávamos seis ao mesmo tempo. Mas aconteceu comigo um episódio muito emocionante de minha vida. Eu estava, em novembro de 1983, trabalhando na Alemanha. E aí aconteceu a estréia, em Paris, do Tango Argentino [conjunto de tango]. Eu tomei um trem e fui até Chatelet. Eu não estava interessado nem um pouco no espetáculo, mas sim no convite feito por alguns amigos que lá estariam. Acontece que, nesse dia, uma emoção estranhíssima tomou conta de mim – em parte devido ao espetáculo, e em parte porque era o retorno da democracia – entre aspas, por favor – e eu estava longe. Foi uma coisa raríssima, vi muita gente chorando. Aí que eu comecei a escutar as letras dos tangos de modo distinto. Já não era a coisa negativa, pessimista, fora de moda, velha, tudo isso que eu não aceitava em minha juventude. Aí eu falei pela primeira vez: caramba, essas letras falam de coisas que eu vivi. E isso só pode acontecer quando se chega a uma certa idade.”

- Funcionou em seu caso aquela famosa frase...

         “Sim, o tango te espera. A mim, me esperou e me agarrou.”

 

Fonte: entrevista de Edgardo Cozarinsky a Karina Micheletto in Página 12, 5/1/2008.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h31
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ENQUANTO ISSO NA ITÁLIA...

 

“ – Na história, nós italianos fizemos coisas extraordinárias!”

“ – Então, que descansemos por dois ou três séculos...”

 

Fonte: Altan in L’Espresso, 4/1/2008.

 

Esse genial trabalho do indispensável Altan me lembrou aquela frase maravilhosa que Orson Wells, através do personagem Harry Lime, diz no filme “O Terceiro Homem” (1950), de Carol Reed:

 

         “Na Itália, por 30 anos, sob os Bórgias, tiveram guerra, terror, homicídio, sangue e produziram Michelangelo, Leonardo da Vinci e o Renascimento. Na Suíça, tiveram amor fraterno, 500 anos de democracia e paz e o que produziram...? O relógio-cuco.”

 

         Segundo Ruy Castro no fantástico “Um Filme é para Sempre” (2006, Cia. das Letras, p.118), Orson Wells tirou a idéia dessa frase de um texto de 1885 do escritor inglês James McNeill Whistler.

 

         Pois agora chegou a vez de Altan reeditar a frase em novo estilo. Pilastra!!!!



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h11
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DUAS NOTAS POLÍTICAS

David Brooks in The New York Times, 1/1/2008.

 

Primeira Nota

 

         David Brooks escreveu, até agora, uma das melhores análises sobre o candidato à presidência dos Estados Unidos, pelo Partido Republicano, Mitt Romney. Saiu na terça-feira, dia primeiro. Intitulada “Road to Nowhere” (“Caminho para Lugar Nenhum”), Brooks inicia o artigo assim:

 

         “A coisa mais impressionante sobre Mitt Romney é a sua clareza mental. Quando ele se apresentou como candidato ao Partido, ele estudou todos os contornos da coalizão republicana e moldou a si mesmo nas formas dessa coalizão. Dessa forma, metodicamente, ele apelou para cada um de seus grupos constituintes. Para o grupos dos conservadores da segurança nacional, ele prometeu duplicar o tamanho da prisão de Guantánamo. Para o grupo dos conservadores sociais, ele abraçou a guerra cultural contra os sem fé. Para o grupo dos céticos contra a imigração, ele apoiou leis mais rígidas contra a imigração.”

 

         Só por esse início, a análise de Brooks já seria brilhante. Afinal de contas, alguém que se molda segundo os interesses de cada um dos grupos que fazem parte da coalizão de um partido político, já seria aberrante. Agora, ter a coragem de propor o aumento do campo de concentração de Guantánamo, aí é o “ponto alto” desse candidato.

         Porém, é no meio do artigo que Brooks se torna epifânico. Eis aqui o auge:

 

         “E como qualquer verdadeiro conservador pode explicar a vocês, o tipo de planejamento racional que Mitt Romney representa, nunca funciona. O mundo é muito complicado e a razão humana é muito limitada. A mentalidade Power-Point sempre falha em antecipar as coisas. Ela sempre provoca conseqüências imprevisíveis.”

(Fonte: David Brooks in Road to Nowhere, The New York Times, 1/1/2008).

        

         Eis aqui o ponto alto da análise. “Mentalidade Power-Point”. Sensacional. E pensar que essa mentalidade tem sido estimulada cada vez mais não só na política, mas também no amor, no sexo, nas universidades, nas empresas...

 

Segunda nota

        

         Emilio Menéndez del Valle é embaixador da Espanha e eurodeputado socialista. Ele escreveu hoje no El País um artigo muito bom sobre o Quênia.  

         Mas é o início do artigo que é arrasador:

 

         “Jomo Kenyatta, líder queniano que em 1963 arrancou do Reino Unido a independência do Quênia, gostava de repetir esta frase: “Quando os ingleses chegaram ao Quênia, eles tinham a Bíblia nas mãos e nós, as terras. Hoje nós temos a Bíblia enquanto eles, as terras.”

         (Fonte: Emilio Menéndez del Valle in El País no es Solo para Safaris, El País, 3/1/2008).



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h30
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AMANHECER

Patrícia Poeta por Leonardo Aversa in O Globo, 2/1/2008.

 

            Porque foste na vida

         A última esperança

         A derradeira,

         Encontrar-te me fez

        

         Porque já eras

         Porque és

         E eu teu homem

 

         Porque tu me chegaste

         Sem me dizer que vinhas

         Sem

        

         E tuas mãos foram minhas com calma –

         E tua voz, e teu olhar, e tudo aquilo

         E tudo isso

 

         Porque foste em minh’alma

         Como um amanhecer

         No meio da noite

         Porque foste o que tinha de ser

 

         Foste o que tinha de ser

         Isso

         Um amanhecer

          

 

(inspirado em “O Que Tinha de Ser” de Vinícius de Moraes e Antonio Carlos Jobim)



Escrito por Leonardo Ferrari às 09h06
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É O AMOR

Fotografia EFE in El País, 30/12/2007.

 

A italiana Carla Bruni não renega suas origens. Ela é leitora de Lampedusa. Mais que leitora, ela parece estar identificada com o príncipe de Salina. É aquele que declara que é preciso que tudo mude, para que tudo fique do jeito que está. Espere. Mas isso não é exatamente o que seu namorado, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, está fazendo? Logo, ao amar a Sarkozy, Carla ama a si mesma refletida nele – esse “si mesma” que, por sua vez, é um reflexo do Outro-Lampedusa. Quem vai me pagar a interpretação? Pode ser em euros.

 

“O amor dura muito, mas o desejo ardente não mais que duas a três semanas.”

Carla Bruni em entrevista ao Le Figaro Magazine, citada por J. M. Martí Font in Amores de Sarkozy, El País, 23/12/2007.

“O amor? Certamente, o amor: fogo e chamas durante um ano, cinzas durante trinta. Ele sabia o que era o amor...”

Dom Fabrizio Corbera, príncipe de Salina in “O Leopardo” de Giuseppe Tomasi, príncipe de Lampedusa. São Paulo: Nova Cultural, 2003, p. 88.



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h33
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BALANCÊ

Museu Freud em Maresfield Gardens, n. 20, Londres.

        

“Contar é muito, muito dificultoso. Não pelos anos que se já passaram. Mas pela astúcia que têm certas coisas passadas – de fazer balancê, de se remexerem dos lugares.”

 

         João Guimarães Rosa in Grande Sertão: Veredas. Ficção Completa v. II. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, reimpressão da 1ª. ed., 1995, p. 121.

 

         “Compadre meu Quelemém me hospedou, deixou meu contar minha história inteira. Como vi que ele me olhava com aquela enorme paciência – calma de que minha dor passasse; e que podia esperar muito longo tempo. O que vendo, tive vergonha assaz.

         Mas, por fim, eu tomei coragem, e tudo perguntei:

         - “O senhor acha que a minha alma eu vendi, pactário?!”

         Então ele sorriu, o pronto sincero, e me vale me respondeu:

         - “Tem cisma não. Pensa pra diante. Comprar ou vender, às vezes, são as ações que são as quase iguais...”

 

         João Guimarães Rosa, op. cit., p. 385.



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h34
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UM CAMINHO SOB O SOL

Fotografia de Fábio Rossi in O Globo, 30/12/2007.

 

O Rio de Janeiro é a cidade do mundo aonde melhor se pode enxergar as contradições do capitalismo. Há cidades em que só se consegue ver a pobreza extrema, há cidades em que só se consegue vislumbrar uma riqueza obscena, há cidades mistas e há o Rio de Janeiro. O Rio é diferente. Daí o seu fascínio, daí o seu encanto, daí a sua beleza. Por exemplo, basta olhar essa maravilhosa fotografia de Fábio Rossi, estampada na primeira página do Globo de hoje sob o título “O Rio que se vê do mar”. A fotografia foi tirada das Ilhas Cagarras e se vê Copacabana à frente, com seus prédios vistosos e, atrás, à esquerda, a favela do Cantagalo e, à direita, a favela Pavão-Pavãozinho. Na legenda da fotografia, está escrito que essas favelas “invadem o cenário de Copacabana” (fonte: O Globo, 30/12/2007). Esse significante, “invasor”, foi trabalhado belissimamente por Marçal Aquino no livro e roteiro do mesmo nome, que deu origem ao magnífico filme “O Invasor” do gigante Beto Brant. É um retrato impressionante de São Paulo.

         Pois me parece que dizer que as favelas “invadem” o cenário de Copacabana é de um cinismo bem característico das festas de fim de ano. Como diz o indispensável Zizec: “a fórmula do cinismo já não é o clássico enunciado marxista do “eles não sabem, mas é o que estão fazendo”; agora, é “eles sabem muito bem o que estão fazendo, mas fazem assim mesmo”. (Fonte: Slavoj Zizec in “Um Mapa da Ideologia”. Rio de Janeiro: Contraponto, 3ª. reimpressão, 2007, p. 14).

Como assim, as favelas “invadem” o cenário de Copacabana? Quem construiu esse cenário não deve fazer parte do cenário? Quem sustenta esse cenário, não deve ser visto – o famoso “elevador de serviço”? Quem serve a esse cenário não pode fazer parte dele – os minúsculos “quartinhos de empregada”? Mas, o Rio de Janeiro conseguiu atrapalhar o cenário, conseguiu fazer da praia um lugar aonde invasor e invadido são obrigados a conviver, são obrigados a se ver, são obrigados a se cruzar. O Rio de Janeiro rasgou o véu da ideologia. O capitalismo nunca esteve tão nu como no Rio de Janeiro. Basta olhar essa fotografia. Os “vencedores” que habitam os prédios da orla “invadidos” pelos “perdedores” ao redor. O Rio de Janeiro esculhambou o capitalismo. O Rio de Janeiro avacalhou com as cortinas, com os tapumes, com os alphavilles. O Rio de Janeiro quebrou para sempre o espelho de Narciso. O que fazer?

         Bom, os cariocas se viram. Sem querer se apresentar como solução para qualquer problema – exceto o seu – Fábio Tabach resolveu transformar a areia de Ipanema em seu escritório. “Chega de bicicleta, monta a barraca e saca laptop e celular para trabalhar na direção artística de projetos” (fonte: Joaquim Ferreira dos Santos in O Globo, 30/12/2007). Eis aí o endereço do escritório de Tabach: Posto 9 – Coqueirão – Praia de Ipanema. Pois gostei da idéia do Tabach. Há que inventar, há que caminhar pelo fio dessas contradições. Pode ser sob o sol de Ipanema, pode ser sob o sol do Barigui, pode ser sob o sol do Ibirapuera, pode ser sob o sol do Alegrete. Fazer dos rios caminhos chamados de janeiros, fevereiros, marços, abrils, maios, junhos, julhos, agostos, setembros, outubros, novembros e dezembros. É o meu voto.

 

 

Fábio Tabach por Marcos Ramos in O Globo, 30/1/2007.



Escrito por Leonardo Ferrari às 10h05
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