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O AMOR

Mauro Ventura conta no Globo que Fernanda Montenegro, após o estouro de “Central do Brasil”, recebeu vários convites para trabalhar.
- Fui chamada para viver matriarcas mexicanas, salvadorenhas, madrilenhas, chilenas, iranianas. Eu dizia: “Por que vocês não convidam uma mexicana, uma salvadorenha, uma madrilenha, uma chilena, uma iraniana?”.
Assim que o diretor inglês Mike Newell a convidou para uma adaptação cinematográfica do livro “O Amor nos Tempos do Cólera”, de Gabriel García Márquez, ela deu a mesma resposta:
- Por que não uma colombiana?
Newel insistiu:
- Eu quero seus olhos. Venha para cá fazer o filme comigo.
Fonte: Mauro Ventura in O Globo, 22/12/2007.
Eis aqui um magnífico exemplo da mais bela definição sobre o amor:
“Eu te amo, mas, porque inexplicavelmente amo em ti algo que é mais do que tu – o objeto a minúsculo, eu te mutilo.”
Jacques Lacan in O Seminário – Livro 11 – Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar editor, 3ª. ed., 1988, p. 254.
O amor é sempre aos pedaços. E por isso, é sempre complicado, é sempre confuso, é sempre inusitado, é sempre parcial, é sempre radical, é sempre tenso, é sempre insatisfatório, é sempre capenga, é sempre despedaçador, é sempre dolorido, é sempre dividido. Caso o seu não seja desse jeito, não se preocupe. Não é amor. Não se preocupe.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h08
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SIM

Fonte: Chico Caruso in O Globo, 21/12/2007.
O MASP é um dos museus mais lindos do mundo. Até pelo fato de ser pequenininho, ele é aconchegante, íntimo, pessoal. A primeira vez que fui a São Paulo, a trabalho, é claro – só mais tarde se vai a São Paulo para outras coisas – fui visitá-lo. Nunca esquecerei desse primeiro encontro. Foi tão atordoante, foi tão espetacular, foi tão maravilhoso, que passei a visitá-lo pelo menos uma vez por ano. É engraçado que, pouco depois, conversando com uma amiga paulista, eu só falei dele. Ela até cansou – pena. Ela me perguntava do trabalho – e eu só respondia do MASP. O que era o trabalho perto do MASP? O que era tudo perto do MASP? Fiquei fascinado, fiquei desmembrado, fiquei sem chão. O MASP é a Ilha Desconhecida de Saramago. O MASP é aquele encontro com o estranho, com o inusitado, com o inadequado, com o anormal, com o desequilibrado, com o inútil, com o supérfluo, com o alienante, com o preguiçoso, com o triste, com o maldito, com o sublime, com o desencanto, com o mais íntimo e mais fora de si mesmo. O MASP é o objeto a de Lacan. O MASP é o não-ser, é o não-existir, é o não. O MASP é o sintoma, é aquilo que de mais estranho pode existir numa cidade. O MASP é minha querência, é meu pago querido, é um lugar para se estar quando o resto se vai, o resto retorna, o resto se apresenta. O MASP é Carazinho, o MASP é Curitiba, o MASP é Vignola, o MASP é Nova Iorque, o MASP é Barcelona. O MASP é uma São Paulo que me disse sim.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h28
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AQUELA COISA

Cristian Mino e Jorgelina Guzzi in “Tango Fire”. Até o dia 6 de janeiro no Joyce Theater, 175 Eighth Avenue, at 19th Street, Chelsea, Nova Iorque. Fotografia de Andrea Mohin in The New York Times, 20/12/2007.
“Ela tem aquela coisa que só as bailarinas latino-americanas possuem”, frase atribuída à bailarina russa Alexandra Danilova em conversa com um amigo crítico. “Humm, eu não consigo pensar na palavra...”, continuou Danilova, ao que o amigo sugeriu: “Temperamento?”. Danilova replicou imediatamente: “Não. Putaria.”
Fonte: Alastair Macaulay in Man and Woman, Hot and Acting Hotter, belíssima crítica do espetacular “Tango Fire” in The New York Times, 20/12/2007.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h13
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INTRANSIGENTE

Fonte: Chico Caruso in O Globo, 19/12/2007.
“Às vezes me perguntam qual é a razão da predominância da curva em minha arquitetura. E recordo logo André Malraux a dizer: "Guardo dentro de mim um museu de tudo que vi e amei na vida". E, como ele, é desse museu imaginário que muita coisa me ocorre com certeza, ao elaborar os meus projetos.
Na realidade, aprecio as coisas mais diferentes. Gosto de Le Corbusier como gosto de Mies van der Rohe. De Picasso como de Matisse. De Machado de Assis como de Eça de Queiroz. Somente no campo da política sou radical, intransigente com o império assassino de Bush ou com os que, em nosso país, tentam combater o governo de Lula, que, diante dos problemas da América Latina, tão importantes para nós, tem sabido se manifestar.
Nestes momentos de pausa e reflexão é que me permito dizer que a vida é mais importante do que a arquitetura. Que, um dia, o mundo será mais justo e a vida a levará a uma etapa superior, não mais limitada aos governos e às classes dominantes, atendendo a todos, sem discriminação.
Releio este artigo e lembro Le Corbusier a escrever o poema sobre o ângulo reto, e eu a falar da curva que tanto me fascina:
"Não é o ângulo reto que me atrai Nem a linha reta, dura, inflexível, Criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual, A curva que encontro nas montanhas do meu país, No curso sinuoso dos seus rios, Nas ondas do mar, No corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo, O universo curvo de Einstein."”
Fonte: Oscar Niemeyer in Conversa de Arquiteto, Folha de São Paulo, 17/7/2006.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h28
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DISSOLVER-SE

Desenho de Kim de Marco in The New Yorker, 24/12/2007.
“Pranto generoso invadiu-lhe os olhos. Nunca se sentira assim por uma mulher, mas sabia que isso era amor. As lágrimas cresceram nos olhos e ele imaginou ver na penumbra do quarto um jovem parado sob uma árvore encharcada. Outras formas pairavam ali. Sua alma acercava-se da região habitada pela vasta legião dos mortos. Pressentia, mas não podia apreender suas existências vacilantes e incertas. Ele próprio dissolvia-se num mundo cinzento e incorpóreo. O mundo real, sólido, em que os mortos tinham vivido e edificado, desagregava-se.
Leves batidas na vidraça fizeram-no voltar-se para a janela. A neve tornava a cair. Olhou sonolento os flocos prateados e negros, que despencavam obliquamente contra a luz do lampião. Era tempo de preparar a viagem para o oeste. Sim, os jornais estavam certos: a neve cobria toda a Irlanda. Caía em todas as partes da sombria planície central, nas montanhas sem árvores, tombando mansa sobre o Bog of Allen e, mais para o oeste, nas ondas escuras do cemitério abandonado onde jazia Michael Furey. Amontoava-se nas cruzes tortas e nas lápides, nas hastes do pequeno portão, nos espinhos estéreis. Sua alma desmaiava lentamente, enquanto ele ouvia a neve cair suave através do universo, cair brandamente, como se lhes descesse a hora final, sobre todos os vivos e todos os mortos.”
James Joyce in Os Mortos in Dublinenses. São Paulo: Folha de São Paulo, 2003, pp. 221 e 222.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h54
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SUBVERSIVO

Fotografia de Koji Sasahara/Associated Press in Folha de São Paulo, 17/12/2007.
Foi pouco. Tomou cartão amarelo ontem. Essa camiseta NÃO PODE, como diz aquela magnífica doutora Lorca. Agora, I belong to Nike, Marlboro, Brahma, Adidas, Nokia, Volkswagen, Pirelli, Fiat, Nintendo, Microsoft, isso PODE. Que alguém corrija esse menino enquanto é tempo. Cartão vermelho de uma vez!
Escrito por Leonardo Ferrari às 14h36
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CUIDADO COM O CACHORRO

Cuidado com o psiquiatra-cachorro-de-Pavlov. Tal qual aquele animal que, diante da campanhia, se punha a salivar desesperadamente, o psiquiatra-cachorro de pavlov diante de um paciente, se põem a receitar medicamentos sem parar.
Aconteceu em São Paulo, mas acontece também em Curitiba, em Porto Alegre, em Belo Horizonte, em qualquer cidade. Todos os dias. A única diferença é que o morto dessa vez tem família. E tem uma família que está revoltada pelo que aconteceu. É a única diferença.
O caso: o psiquiatra Sabino Ferreira de Farias Neto foi convocado pela própria família à delegacia de polícia do 91º. Distrito (Vila Leopoldina) para atender um preso chamado Ryan Gracie, lutador de jiu-jítsu, que, segundo a polícia, estaria “agitado” na cela.
A receita: o psiquiatra aplicou seis medicamentos (tranqüilizantes, antipsicóticos e contra hipertensão). Foram três comprimidos de Dienpax, dois de Topamax, um de Capoten e outro de Leponex, além de duas ampolas de Fenergan e outras três de Haldol.
O resultado: Ryan Gracie morreu.
A defesa do psiquiatra:
“Como disse um colega, a dose que apliquei foi de passarinho. Tenho o maior pesar pelo que ocorreu, mas eu lutei contra isso com tudo o que sei”. (fonte: Roberto de Oliveira in Folha de São Paulo, 17/12/2007).
Infelizmente para o doutor, os efeitos colaterais de tanto remédio parecem ter matado o paciente.
Só uma última pergunta: se isso é dose para passarinho, qual é a dose para elefante?
Cuidado com o psiquiatra-cachorro-de-Pavlov. Ele pode matar.
Escrito por Leonardo Ferrari às 11h15
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PERTO

Fotografia de J. Borodina (Eliara).
“Me esqueci de tentar te esquecer”.
Isolda in “Outra Vez” (letra e música).
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h24
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SUBLIME

Fonte: Chico Caruso in O Globo, 15/12/2007.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h32
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