Blog do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba (PR) leobelferrari@uol.com.br


INESQUECÍVEL

           O indispensável Luiz Zanin Oricchio escreveu ontem uma crítica belíssima sobre o último filme de David Lynch, “O Império dos Sonhos”. Oricchio é daqueles críticos que faz análise. Não preciso dizer mais nada. Só para comparar, que o leitor encontre o que Sylvia Colombo escreveu sobre “Roma – 2ª. temporada” na Folha do último domingo. A pobre moça tasca um “regular” justificando a “nota” e seu “desapontamento” pelo fato de ter encontrado um “excesso de ficção” no enredo. É incrível, mas é textual. Reduzir a beleza e a riqueza do roteiro desta memorável minissérie a um “excesso de ficção” é demais. Pobres leitores da Folha. Ler Oricchio é entrar em outra atmosfera, é ingressar em outro universo. Em determinado trecho, Oricchio descreve a entrevista-sessão de análise de David Lynch no último Festival de Veneza. É para ler, guardar, emoldurar na sala, recitar em sala de aula, transformar em cartilha de alfabetização. O que é um cineasta que faz análise? Pois é só reparar nas respostas de Lynch a esse jornalista que nada sabe sobre isso. O jornalista deveria pagar a Lynch o valor de uma sessão. Que interpretação! É uma amostra do que o cinema pode ser, do que significa levar em conta o inconsciente, deixar-se levar pela fantasia, mergulhar no desejo. Só uma amostra. Essa amostra hoje no cinema se chama David Lynch. Pilastra!!!!

 

“No ano passado, Lynch apresentou Império dos Sonhos no Festival de Veneza, que o homenageou com o Leão de Ouro pela carreira. A sessão de imprensa foi das mais engraçadas pois alguns críticos saíram perplexos, sem saber em que gaveta mental deveriam arquivar o que haviam visto. Talvez tudo se esclarecesse na entrevista.

Mas não. Um jornalista ousou assumir o papel do homem comum e perguntou sobre o que era o filme. Lynch disse que achava isso claríssimo. E passou à pergunta seguinte. O jornalista insistiu e o diretor foi mais preciso: disse que a graça do cinema era essa, fazer com que o espectador entre em contato com um mundo desconhecido, onde ele não sabe o que pode acontecer. Quem compra um ingresso na bilheteria, compra, de fato, uma passagem para o imprevisível.

Mas qual o sentido de tudo isso? Nesse ponto, a meu ver, Lynch foi bastante esclarecedor: “Não se intimide”, aconselhou. “Use a intuição; deixe-se levar e lembre-se de que o cinema vai além das palavras. Esse é o problema das entrevistas. Queremos reduzir o filme a uma explicação e isso o empobrece. O público deve entrar numa sala de cinema com a mesma disposição de quem vai ouvir música num auditório. Busque a experiência, não o sentido.” ”

Fonte: Luiz Zanin Oricchio in O Estado de São Paulo, 14/12/2007.



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h05
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PROSPECTIVA

“Iraque e Afeganistão – Essas guerras devem ser sem fim?” – The Economist, 13/12/2007.

 

            “Guerra É Paz”

 

       George Orwell in 1984. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 2004, 29ª. ed., p.  7.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h31
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O CHATO DO RESTO

Morro dos Cabritos. Fotografia de Custódio Coimbra, 29/3/2007 in O Globo, 13/12/2007.

 

         O Rio de Janeiro amanheceu nervoso. O jornal “O Globo” trouxe uma reportagem de Selma Schmidt intitulada “Fábrica de Favelas”, onde se registra que os moradores da Lagoa Rodrigo de Freitas e os do Leblon – dois bairros “nobres” do Rio, ameaçaram não pagar IPTU por causa da favelização do Morro dos Cabritos, um lugar aonde “não deveria” existir os juvenais antenas e seus seguidores. Ora, ora, ora. O problema do capitalismo está aqui em cores: o que fazer com o resto? O resto tem a chata propriedade de se instalar, de querer ficar por perto (afinal de contas, para onde vai o porteiro do prédio quando o expediente acaba? Para onde vai a babá das crianças naquelas horinhas de folga? Essa resposta o capitalismo não consegue produzir). O resto é incômodo, não é prático, está sempre lembrando que não há ônibus para onde o patrão gostaria que ele fosse depois da mais-valia – a linha Leblon-Puta-que-o-pariu ainda não existe. Como o ônibus não vai até lá, não é que o resto resolve ficar por perto? Isso é o mais chato do resto: ele inventa soluções onde não deveria, onde não é possível, onde é impensável. Pois o resto pensa, o resto quer dormir, o resto quer ter uma vista bonita, o resto quer também morar bem. Mas às vezes nem isso. O resto quer chegar cedo no trabalho – pois senão vai prá rua, é descontado. O resto quer cumprir aquela jornada de trabalho “informal” de poder ficar só mais um pouquinho – mas aí, como voltar prá casa se a casa é muito longe? Pois o resto dá um jeito, o resto se ajeita. O que fazer com o resto? Como já dizia aquele conselheiro, um dia o sertão vai virar mar – e o mar vai virar sertão. Até lá, que se expulse o resto para bem longe, que se prenda o resto, que se torture o resto, que se exclua o resto da vista – vai que esse louco esteja certo? O resto faz mancha no quadro, é o borrão que cada vez mais toma conta da paisagem. O pior do resto é ele não se conformar com seu lugar. Como apagar esse borrão sem que a paisagem desapareça junto? O que fazer com o resto?

 

Fonte consultada: Elio Gaspari in “Favelafobia, um veneno social”, O Globo, 12/10/2005.



Escrito por Leonardo Ferrari às 12h41
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ZERO

       “Eu vivo em permanente contradição”.

 

       Ang Lee em entrevista a Rocío García in El País, 13/12/2007.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h26
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UM FORTE

          

         O bandido brasileiro é, antes de tudo, um forte. Ele não tem a plástica impecável dos bandidos italianos, por exemplo. Nem o desempenho formidável dos bandidos belgas. O bandido brasileiro é desgracioso, é desengonçado, é torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. Só que, quando diante de um andar sem firmeza, diante de uma aparência de cansaço, eis que esse bandido transfigura-se. Empertiga-se, revela-se, nada o contém, no ímpeto. Transcende a sua situação rudimentar. Resignado e tenaz, com a placabilidade superior  dos fortes, o bandido brasileiro encara de fito a fatalidade incoercível e reage. E que reação, senhoras e senhores! Que reação!

 

Bandidos seqüestram ônibus e assaltam transportadora no Mercado São Sebastião

Publicada em 12/12/2007 às 09h45m

Luisa Valle - O Globo Online, Bianca Lopes - Extra e Jorge Martins - O Globo

RIO - Numa ação ousada, mais de 20 bandidos que estavam em um caminhão-baú seqüestraram um ônibus para fazer uma "lotada" e assaltar a transportadora Hi-tech, na Rua do Alho, no Mercado São Sebastião, na Penha, Zona Norte, na madrugada desta quarta-feira. De acordo com a polícia, antes de chegar à transportadora, onde eles ainda roubaram um caminhão que estava carregado de mercadorias, os criminosos teriam passado por pelo menos três comunidades da Zona Norte para pegar os comparsas que participariam do assalto. (...)



Escrito por Leonardo Ferrari às 12h27
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2007

       “Ignorância É Força”

      

       George Orwell in 1984. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 2004, 29ª. ed., p.  7.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h37
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DEZ

              Mas eu aposto que Dana Perino não erra nenhuma palavra ao falar a língua inglesa. Eu aposto que Dana Perino tem um MBA. Eu aposto que Dana Perino sabe tudo sobre cash flow, VPL, mercado futuro. Eu aposto que Dana Perino sabe tudo sobre técnicas de oratória e sobre como fazer amigos e influenciar pessoas. Eu aposto que Dana Perino é Ph.D. em prática, em objetividade, em ir direto ao ponto. Eu aposto que Dana Perino foi formada pela melhor universidade dos Estados Unidos – suma cum laude. Eu aposto que no currículo que ela seguiu não tinha nada dessas matérias subjetivas, dúbias, ultrapassadas. Eu aposto que Dana Perino é perita no que faz. Eu aposto que Dana Perino foi escolhida em um rígido processo de seleção aonde só “the best” passam. Eu aposto que Dana Perino faz todas as neuro e congitivo-terapias da moda. Eu aposto que Dana Perino não perde tempo, não tem nenhuma dúvida sobre nada, eu aposto que ela é a funcionária padrão da Casa Branca, é a funcionária do ano. Eu aposto que Dana Perino obedece. Eu aposto que Dana Perino é correta em tudo o que faz. Eu aposto que Dana Perino toma prozac. Eu aposto que Dana Perino é a empreendedora do ano nos Estados Unidos. Eu aposto que Dana Perino vai ser capa da Forbes em breve. Eu aposto que Dana Perino é um sucesso, chegou lá, é orgulho nacional. Eu aposto que Dana Perino leu os manuais dos idiotas latino-americanos e adorou. Eu aposto que Dana Perino é dez.

 

Porta-voz de Bush diz que ignorava Crise dos Mísseis

AP in O Estado de São Paulo, 11/12/2007

A porta-voz da Casa Branca, Dana Perino, admitiu que não sabia que o mundo havia vivido a Crise dos Mísseis de Cuba e que entrou em pânico ao ser recentemente questionada sobre o assunto por um jornalista. "Entrei um pouco em pânico porque não sabia nada sobre a Crise dos Mísseis", admitiu Perino em entrevista a uma rádio americana no fim de semana. Perino, de 35 anos, nasceu dez anos depois da crise ocorrida em outubro de 1962 e foi nomeada Secretária de Imprensa pelo presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, em setembro deste ano.

A Crise dos Mísseis foi o mais grave conflito envolvendo os Estados Unidos e a extinta União Soviética durante a Guerra Fria. Na ocasião, os líderes soviéticos pretendiam instalar em Cuba uma base de lançamento de mísseis nucleares em resposta à instalação, no ano anterior, de armas atômicas americanas na Turquia. A crise representou o momento na história em que o mundo esteve mais próximo de um conflito nuclear.

A pergunta sobre a Crise dos Mísseis foi feita em 26 de outubro, quando o episódio foi citado pelo presidente da Rússia, Vladimir Putin, durante uma reunião de cúpula com líderes da União Européia (UE) em Portugal com o objetivo de reforçar sua oposição à instalação de um sistema antimísseis americano no leste europeu. "Ações similares da União Soviética ao enviar mísseis a Cuba provocaram a Crise do Caribe", disse então o presidente russo. "Crise do Caribe" é a forma como os russos batizaram aquele momento histórico.

Perino foi então questionada sobre o assunto em Washington e, segundo uma transcrição da Casa Branca, respondeu: "Bom penso que a comparação histórica não é (...) exatamente adequada. O que posso dizer é que o presidente Putin disse - o que o presidente (Bush) e o presidente Putin disseram - é que podemos trabalhar juntos nisso". Em entrevista à NPR (National Public Radio), ela admitiu ter entrado em pânico e reconheceu que precisava se informar melhor sobre o evento histórico. A porta-voz disse que ao chegar em casa naquele dia perguntou ao marido Peter, se o episódio era parecido com a invasão da Baía dos Porcos, em 1961. A resposta foi “Ai, Dana!”.



Escrito por Leonardo Ferrari às 11h45
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A ESTRÉIA DO PRIMEIRO-DAMO

 

“Assessora – Senhora...chamado urgente de seu marido em Olivos [residência oficial].

 

Cristina – Puxa, nem assumi direito e ele já está me chamando, com certeza para dar conselhos...o que ele quer?

 

Assessora – Ele quer saber se a máquina de lavar é automática ou se tem que centrifugar à parte.”

 

Fonte: Daniel Paz e Rudy in Página 12, 11/12/2007.



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h57
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POSSE

“Eu não cheguei à Presidência para me transformar em guardiã dos lucros dos empresários”.

 

       Cristina Fernández de Kirchner, em discurso de posse na Presidência da Argentina em 10 de dezembro de 2007.



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h39
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LIDA

          “Pedro sentou-se, cruzou as pernas, tirou algumas notas na flauta, como para experimentá-la, e depois, franzindo a testa, entrecerrando os olhos, alçando muito as sobrancelhas, começou a tocar. Era uma melodia lenta e meio fúnebre. O agudo som do instrumento penetrou Ana Terra como uma agulha, e ela se sentiu ferida, trespassada. Mas notas graves começaram a sair da flauta e aos poucos Ana foi percebendo a linha da melodia... Reagiu por alguns segundos, procurando não gostar dela, mas lentamente se foi entregando e deixando embalar. Sentiu então uma tristeza enorme, um desejo amolecido de chorar. Ninguém ali na estância tocava nenhum instrumento. Ana não se lembrava de jamais ter ouvido música de verdade naquela casa. Às vezes um dos irmãos assobiava. Ou então eram as cantigas tristonhas e desafinadas de sua mãe. Ou dela mesma, Ana, que só cantava quando estava sozinha. Agora aquela melodia, tão bonita, tão cheia de sentimento, bulia com ela, dava-lhe um aperto no coração, uma vontade danada de...”

         Érico Veríssimo in O Tempo e o Vento – O Continente I. São Paulo: Globo, 2002, 2ª. edição, p. 115.

         O cd se chama “Lida”. Só esse nome já justificaria a compra e a escuta para sempre. “Lida” fala de “lidar”, lutar em batalha, duelar, mas também sofrer, suportar, conviver, enfrentar o touro. Por exemplo, “lida campeira” envolve todas as atividades que envolvem o trabalho do gaúcho no campo. Por outro lado, “lida” pode se referir também a uma leitura feita, a uma leitura realizada. Seu autor se chama Yamandú Costa. Só esse nome já justificaria que o mundo inteiro parasse para escutar o que esse homem faz com um violão. O que diz esse homem?

         “A maioria das faixas é como uma fotografia. Ana Terra, por exemplo, compus pensando na personagem olhando seu reflexo na água. Por isso, os efeitos de trêmulo no violão.” (fonte: entrevista de Yamandú Costa a Renato Mendonça in Zero Hora, 11/12/2007).

         Eis aí esse leitor de Érico, esse leitor de Ana Terra, esse leitor de Simões Lopes Neto. Aliás, esse encontro de Ana Terra com seu reflexo na sanga é maravilhoso:

         “A sanga corria por dentro dum capão. As folhas das árvores farfalhavam e suas sombras no chão úmido do orvalho da noite eram frescas, quase frias. Ana aproximou-se da pedra onde sempre batia roupa, e depôs o cesto junto dela. Deu alguns passos à frente, ajoelhou-se à beira do poço fundo, fez avançar o busto, baixou a cabeça e mirou-se no espelho da água. Foi como se estivesse enxergando outra pessoa: uma moça de olhos e cabelos pretos, rosto muito claro, lábios cheios e vermelhos. Não tinha sequer um caco de espelho em casa, e, no dia em que pedira ao irmão que lhe trouxesse de Rio Pardo um espelhinho barato, o pai resmungara que era uma bobagem gastar dinheiro em coisas inúteis. Para que queriam espelho naqueles cafundós onde Judas perdera as botas?”

         Érico Veríssimo, op. cit., p. 101.

         Agora imagine transformar esse trecho em música. Pois Yamandú fez. Desculpe. Yamandú não transformou esse trecho em música não. Ele transformou em obra-prima, em obra de arte. Uma última observação: na entrevista, Yamandú também disse o seguinte:

         "Quando tocamos no Exterior, o público espera que um instrumentista brasileiro toque samba ou choro. Também toco isso, mas toco muito mais. O preconceito sempre acaba caindo por terra, mas os estrangeiros não sabem o que é o Brasil. Não sabem que somos um gigante que reúne tantas culturas." (fonte: entrevista de Yamandú Costa a Renato Mendonça in Zero Hora, 11/12/2007).

         Mas é impressionante isso.  Depois vem uns babacas escrever manuais de idiotas sul-americanos. E o que dizer desses idiotas norte-americanos, desses idiotas franceses, desses idiotas alemães, desses idiotas japoneses, desses idiotas suecos? 



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h59
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ASSIM

“É assim que todo o curso de uma vida pode ser desviado – por não se fazer nada.”

 

       Ian McEwan in Na Praia. São Paulo: Cia. das Letras, 2007, p. 128.



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h30
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ENCONTRO COM O OUTRO

Ian Storey e Waltraud Meier em uma cena de Tristão e Isolda, no teatro La Scala de Milão – Fotografia de Marco Brescia in El País, 9/12/2007.

 

          “Mas não há nenhuma nova ordem nem nenhuma nova desordem amorosa a defender. Muitos padrões de comportamento modelizados e modelizadores, muitos padrões de comportamento rebelde, nenhum padrão. Só quem atravessa é que sabe o segredo de algo que é vivido de maneira singular, constelações que não estão codificadas pela cultura e pela sociedade, puras singularidades. E estas singularidades, dimensão a que estamos remetidos quando entramos por esses labirintos, essas singularidades são heréticas, eu digo entre aspas, “heréticas”, porque elas não têm lugar nos códigos dados, nos códigos prontos, movimento que passa pelas malhas das ortodoxias. (“Não importa com quem você se deite / que você se deleite seja com quem for / apenas te peço que aceite / o meu estranho amor”, Caetano Veloso, Nosso estranho amor.) Segredo poético-musical, claríssimo, oculto e óbvio, eclipse oculto, lugar-comum. O que será.”

         Fonte: José Miguel Wisnik in A Paixão Dionisíaca em Tristão e Isolda in “Os Sentido da Paixão”. São Paulo: Cia. das Letras, 2006, 13ª. reimpressão, p. 223.

 

         Tristão e Isolda atravessaram. Passaram para o outro lado do espelho. Mas foi José Miguel Wisnik, esse professor-símbolo da Universidade de São Paulo, esse professor-símbolo do que uma universidade de verdade deve ser, quem escreveu a análise mais bela já feita sobre Tristão e Isolda. Ouvir e depois ler Wisnik é daquelas emoções muito raras. É encontrar o diferente, é encontrar o inusitado, é encontrar o estranho. Lembrei de Wisnik ao ler Juan Ángel Vela del Campo no El País de hoje. Ele esteve no La Scala de Milão e escreveu uma resenha belíssima sobre a estréia de Tristão e Isolda nesta que é a casa, a morada da ópera. Intitulada magnificamente de “Encontro com o Outro”, eis aqui o trecho inicial:

 

         “O título do último livro publicado na Espanha de Ryszard Kapuscinski – “Encontro com o Outro” – vem como título dessa resenha como o anel para o dedo. Por diversas razões. Em primeiro lugar, pelo duplo processo de descoberta do Outro dos personagens de Tristão e Isolda, que o diretor Patrice Chéreau acentua continuamente sob uma perspectiva teatral. Em segundo lugar, porque um triunfo assim tão espetacular de Wagner na casa familiar de Verdi indica uma aproximação entre as culturas líricas italiana e alemã. Um encontro ou um reencontro, não sem destacar que Tristão e Isolda há 29 anos não era reapresentado no La Scala. Em terceiro lugar, a sedução que o maestro Daniel Barenboim e, de passagem, Stéphane Lissner, estão exercendo no território de outro sedutor, Ricardo Muti, corrobora que o La Scala já tem um novo líder musical. Desde as grandes noites de Muti que não se escutava no La Scala aclamações tão apaixonadas entre os atos como as que aconteceram anteontem com Barenboim. Os milaneses – assim como toda a orquestra – se “encontraram” com o maestro argentino. Barenboim é o Outro. E, em último lugar, nessa dinâmica de cordialidades deve-se destacar a presença de cinco chefes de Estado – da Itália, Alemanha, Áustria, Grécia e Qatar – que estiveram na noite inaugural, além de muitos ministros de diferentes países, bem como muitos espectadores negros e ao menos um casal árabe, ela com o véu cobrindo a cabeça. Para culminar, a grande beleza feminina da noite não foi a de uma italiana, mas sim a da primeira dama do Qatar, Mozah Bin Nasser. Kapuscinski ao menos nos deu a pista de que, para entender o mundo que nos rodeia, há que ter em contra a importância do Encontro com o Outro.”

Fonte: Juan Ángel Vela del Campo in Encuentro con el Otro, El País, 9/12/2007.

 

O maestro Daniel Barenboim foi entrevistado por Angelo Foletto no La Repubblica e fez o resumo da ópera:

 

“Mais que uma história de amor, Tristão e Isolda é uma história sobre a morte.”

Fonte: entrevista de Daniel Barenboim a Angelo Foletto in La Repubblica, 6/12/2007.

 

Agora, o mais bacana de tudo é que nada na Itália é unânime. Tudo na Itália é dividido, é confuso, é dúbio. É essa, aliás, toda a grandeza da Itália. É por isso que ainda é um país aonde se pode viver. Aqueles países aonde tudo é certinho, tudo é único, tudo é unânime, são países invivíveis, insuportáveis, inabitáveis. Eis que parte do público do Scala não gostou dos figurinos da ópera. E a polêmica ganhou as ruas de Milão. Acusam Richard Pedruzzi de ter criado figurinos e roupas muito tétricos e austeros, parecendo uma “fábrica cheia de operários” (fonte: Paola Zonca in La Repubblica, 9/12/2007). Ora, me parece que Pedruzzi ousou justamente em tirar o brilho da imagem para ressaltar mais ainda a escuta, a música de Wagner. Agora, tirar o brilho da imagem em Milão, a pátria da moda? É preciso muita coragem. Parabéns Pedruzzi.



Escrito por Leonardo Ferrari às 09h57
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