 |
|
|
MARTINA

Carla Cassapo, como Martina e Paulo Rodrigues, como William.
Querido Carlos Gerbase,
Vi ontem seu filme “3 Efes” no Canal Brasil. Parabéns. Reencontrar essa magnífica Carla Cassapo como essa personagem inesquecível dessa dona de casa Martina é algo raro, raríssimo. Martina é daquelas mulheres que conseguem transformar o tédio em tesão. Que mulher, querido Carlos, que mulher! É uma mulher que não consegue se conter, que não consegue se limitar a seu papel, que não consegue se comportar, que não consegue se adequar, que não consegue seguir as receitas prontas – nem na culinária. É daquelas mulheres que fazem um pedido antes do sexo, que querem porque querem aquilo que não é fácil, aquilo que pode desequilibrar, aquilo que ninguém está disposto a fazer de bom grado, aquilo que é muito perigoso. Aliás, o final do filme é sublime. O final do filme é o filme. Aqueles mal-entendidos, aquelas não-relações, aqueles tropeços infinitos, aquelas traições, aqueles pares desemparelhados, aquele mal-estar que permanece, que resta, que não vai embora - está lá a sombra da morte, a noite da repressão, a violência do não. Carla Cassapo imortalizou esse filme. Essa Martina tira do sério qualquer um, essa Martina veio para enlouquecer, veio para confundir, veio para ficar. Essa Martina é bunuelesca, é rodriguiana, é joyceana mas é, sobretudo, gaúcha – tudo ao mesmo tempo agora.
Querido Carlos, mais uma vez você desvela o que ninguém vê, o que está na cara, o que está por aí, por aqui, o que habita esse corpo louco, esse corpo desarvorado, esse corpo muito partido, esse corpo muito dividido. Querido Carlos, “3 Efes” é sublime! A Porto Alegre que tu escancaras dói. Doeu demais essa cidade desalmada, essa cidade corroída, essa cidade podre, essa cidade triste. Mas, você também conseguiu trazer Martina à vida, conseguiu fazer essa mulher partir prá cima, conseguiu fazer essa mulher gemer não mais como imitação, não mais como simulacro, mas um gemido de desforra, um gemido de vingança, um gemido de resistência, um gemido de vida, muita vida, um gemido do sim. Martina é o nome desse filme. Martina é um porto prá se ir quando se está meio down. Martina não é a falsidade daquele porto dos casais. Não. Martina é a verdade de um porto alegre. Ainda.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h35
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
ALGUMA COISA

Alessandra Negrini, magnífica Cleópatra.
“Eu faço filmes porque estou atrás de alguma coisa que não sei o que é.”
Julio Bressane em entrevista a André Miranda in O Globo, 2/12/2007.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h03
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
ACORDAR

Ná Ozzetti por Marcos Hermes.
“O primeiro contato com a música é a lembrança mais remota que tenho. Eu ainda dormia num berço, no quarto dos meus pais. Acordei de madrugada e fiquei escutando os cães que latiam nas casas vizinhas. Passei um tempo me divertindo, comparando a distância entre o som de um latido e de outro. Pela primeira vez percebi por meio do som a tridimensionalidade do espaço. Essa mesma sensação sobrevive até hoje na minha escuta musical.”
Ná Ozzetti in “Escutei Sabiás-Laranjeira”, Piauí 15, dezembro 2007, p. 78.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h43
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
A VOLTA DOS QUE NÃO FORAM

“Cidadãos, emigrem! Vocês viverão melhor como emigrantes em qualquer outra nação do que como cidadãos em seu próprio país”.
Fonte: La Repubblica, 2/12/2007.
A cidade de Montegrotto Terme [Termas de Montegrotto], de pouco mais de dez mil habitantes, está localizada na província de Padova, em uma das regiões mais ricas da Itália, o Vêneto (região norte, cuja capital é Veneza). Nesta semana, o prefeito da cidade decidiu tornar manifesto aquilo que hoje se alastra como uma nova peste nessas regiões da Itália: a peste da intolerância, a peste da xenofobia, a peste do ódio ao imigrante, a peste do esquecimento da própria história (e da história de seus pais e avós), enfim, a peste do fascismo. O prefeito decidiu convidar seus cidadãos a emigrarem, a irem embora dali. Cláudio Luca (que pertence ao partido de direita AN, Aliança Nacional) explicou assim o convite: “Na Itália, estão dando muitos direitos aos irregulares. Assim, se vive melhor como imigrante do que como cidadão. E nós, prefeitos, não podemos fazer nada, estamos de mãos amarradas. Ou nos dão instrumentos para garantir a segurança ou renunciamos ao mandato”.
Em Treviso, província situada ao lado de Padova, um membro do partido fascista Liga Norte, Giorgio Bettio, declarou ontem que contra os imigrantes é necessário utilizar os métodos das SS (Waffen-SS, tropa de elite de Hitler): “Há que punir dez imigrantes para cada italiano prejudicado”, declarou Giorgio Bettio. “É importante fazer o imigrante entender como eles deveriam se comportar usando os mesmos métodos dos nazistas. Para cada trevisano atingido por eles, serão punidos dez imigrantes”.
Não é incrível como o fascismo está vivo e forte em uma das regiões “mais desenvolvidas” do mundo?
Eis aí um retrato de um pedaço da Itália de hoje. Não de toda a Itália. Só da Itália mais rica, da Itália mais próspera, da Itália mais desenvolvida economicamente, de uma Itália fascista que ainda resiste, que ainda grita, que ainda machuca.
O que seria dos pais e avós desses fascistas se tivessem encontrado nos países que os acolheram pessoas como seus filhos? Eles simplesmente não existiriam! Mas, para entender isso, há que não ser fascista, há que não ser desumano, há que não pensar só em ganhar dinheiro, há que não pensar só em sacanear com os outros, há que não pensar só em explorar sem limites, há que não pensar só em vencer, há que não pensar só no seu umbigo. Para entender isso há que ser gente.

Fonte: La Repubblica, 5/12/2007.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h58
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
POR AÍ
“Mas a verdadeira casa do Tom não ficava sob os braços do Redentor abertos sobre a Guanabara. Nem no sítio do Poço Fundo, no Estado do Rio, seu refúgio mateiro desde os 15 anos de idade. Nem no apartamento de Manhattan, por ele apelidado de 'a room with a view'. Sua casa ficava em qualquer parte do planeta. 'Minha casa é por aí', ressalva um verso de Chapadão [poema autobiográfico], 'é no mundo, monde, mondo'.”
Sérgio Augusto in “Ensaio poético sobre as moradas de Tom”, O Estado de São Paulo, 1/12/2007.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h04
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
CLOSER

Natalie Portman por Raymond Meier in The New York Times Magazine, 2/12/2007.
“Eu tenho morrido muitas vezes. Eu morri em “Closer”, mas eles mudaram o final e, miraculosamente, eu sobrevivi. Eu também morri em “Star Wars” e em “Cold Mountain”. Cenas de morte não são mais difíceis do que outras cenas. É muito mais difícil rir do que chorar. Eu acho muito difícil fazer um riso. Eu não tenho nenhum outro riso, exceto meu próprio, que é muito particular, muito moderno. É muito trabalhoso fazer outro riso parecer real. É como espirrar, você só tem um único espirro.”
Fonte: entrevista de Natalie Portman a Lynn Hirchberg in The New York Times Magazine, 2/12/2007.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h58
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
ALGO NA VOZ

Anna Netrebko por Ruven Afanador in The New York Times Magazine, 2/12/2007.
Em um belíssimo perfil, Charles McGrath escreve de joelhos sobre essa magnífica Anna Netrebko. Um trecho desta ode:
“Netrebko não era muito dedicada aos estudos, então, aos 16 anos ela se mudou para São Petersburgo com a idéia de se tranformar em uma atriz, até ela descobrir que milhares de outras jovens mulheres tinham o mesmo sonho. “A competição era tão grande”, diz ela, “e eu escutava tantos rumores sobre ter que ir para a cama com os diretores que, então, eu decidi tentar a vida como cantora de ópera. Muitas pessoas me diziam que eu tinha uma voz para isso.”
Ela estudou dois anos na escola de música para depois fazer o teste para o conservatório de música de São Petersburgo. “Eu disse para mim mesma: ‘Tudo bem. Eu vou tentar. Talvez eu consiga entrar, mas o pior que pode acontecer é eu ter que voltar para casa e passar o resto da vida cantando operetas. Isso vai ser mais do que o suficiente”. O conservatório aprovou ela, mas muitos de seus colegas não a encorajaram a prosseguir, lhe dizendo que sua voz era muito fraca e o máximo que ela poderia conseguir seria um lugar no coro. “Mas eu pensei que talvez eu fosse melhor do que eles pensavam que eu era”, recorda Netrebko. “Eu encontrei algo em minha voz. Ela é muito clara e facilmente reconhecível. Ela não era possante, mas era sempre afinada. Foi isso que me levou a continuar a pensar que eu poderia ser uma cantora.”
Fonte: Charles McGrath in A New Kind of Diva, The New York Times Magazine, 2/12/2007.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h35
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
 |
| [ ver mensagens anteriores ] |
|
 |


|
 |