Blog do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba (PR) leobelferrari@uol.com.br


VISITADORA

Angie Cepeda ou Angélica María Cepeda Jiménez ou a Brasileira.  

 

“- Você é. E é a grande vergonha da minha vida (...) Não se queixe desse jeito, não é justo. Eu é que devia me queixar. Por sua culpa transgredi um princípio que desde que me entendo por gente eu sempre havia respeitado”

 

Pantaleón Pantoja para a Brasileira in “Pantaleón e as Visitadoras” de Mario Vargas Llosa. São Paulo: Folha de São Paulo, 2003, p.190.



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h24
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SEM A MAÇÃ OU COM A MAÇÃ

Fonte: Caco Galhardo.

 

         Pois o grande John Milton em seu magnífico “Paraíso Perdido” nos revelou o que Eva disse a Adão depois da transgressão:

 

         “E tu, de chefe meu na qualidade,

         Por que com nado de absoluto efeito

         Não me ordenaste que dali não fosse...

         Sabendo tu que iria expor-me a danos?!

         Em tua oposição tu fraquejaste,

         E nímio fácil afinal me deste

         Licença, aprovação, com rosto afável:

         Se nessa oposição tu mantivesses

         Caráter firme, decisão constante,

         Nem eu, nem tu, teríamos pecado!”

 

         John Milton in “Paraíso Perdido”, Canto IX. São Paulo: Martin Claret, 2003, p. 355.

 

         Em resumo: nós somos os culpados. As mulheres, inocentes. Nós, os de caráter fraco, decisão inconstante, frouxos. Elas, à espera da firmeza, à espera da decisão. Como isso não veio, então elas foram passear no jardim, elas foram dar uma volta. Mas não é próprio da feminilidade isso? Enquanto os homens estão preocupados em medir sua força, em calcular suas decisões, elas passeiam por aí, elas se deixam levar, elas se deixam chamar a atenção por uma cantada, o canto desta sereia-serpente. Como elas não são Ulisses que tapou os ouvidos, elas se deixaram encantar, se deixaram apaixonar, se deixaram cair por esse canto - as mulheres querem escutar, nem que seja para no final declarar: bundão. E nós, os de ouvidos tapados e de boca aberta, resta-nos a escrita dessa perda, o luto dessa Amélia que foi embora para sempre e - ao menos isso - o pecado que agora tomou o lugar da falta, o plural que nasceu desse singular. Resta-nos elas. Porém, tanto em Caco Galhardo como em John Milton, uma conclusão se instala: as mulheres não terminam a história satisfeitas. Sem maçã ou com a maçã, o problema permanece. Esse problema se chama diferença sexual. 



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h57
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O ERRO PIOR

Narciso de Michelangelo Merisi da Caravaggio, 1597-1599, óleo sobre tela, 112x92 cm., Roma, Galleria Nazionale d’Arte Antica, Palazzo Barberini. 

“Bem cedo, aprendi com a intelligentsia russa que o único significado da vida é a participação consciente na formação da história. Quanto mais penso nisso, mais profundamente verdadeiro me parece. Segue-se que é preciso alinhar-se ativamente contra tudo o que apequena o homem e envolver-se em todas as lutas que tendem a libertá-lo e engrandecê-lo. Esse imperativo categórico não é de modo algum amesquinhado pelo fato de tal envolvimento estar inevitavelmente manchado pelo erro; erro pior é viver só para si, preso a tradições manchadas pela desumanidade.”

 

Victor Serge in “Memórias de um Revolucionário”, citado por David Renton in “Apresentação – O Marxismo Dissidente de Victor Serge” in “O Ano I da Revolução Russa” de Victor Serge. São Paulo: Boitempo, 2007, p.23.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h32
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PARANÁ EM AÇÃO

Fotografia de Albari Rosa in Gazeta do Povo, 21/11/2007.

 

Curitiba mais uma vez na frente do Brasil! Sensacional! A polícia militar do Paraná, através de sua “patrulha escolar”, invadiu as salas de aula de escolas estaduais em Curitiba e revistou as malas dos alunos!! Parabéns, governador Requião. Foram apreendidos celulares suspeitos, baralhos marcados, tesouras com pontas, pincéis atômicos e aparelhos de som (MP3 e MP4), além de perigosíssimos CDs e DVDs (Fonte: Pollianna Milan in “PM acha objetos proibidos em colégios”, Gazeta do Povo, 21/11/2007). Mas por que só nos colégios estaduais? Que se estenda a medida para os colégios particulares, para os jardins de infância (lugar de formação de meliantes) e também, porque não, para as universidades e centros universitários. É assim que se faz, governador. Que o Rio de Janeiro, São Paulo, o Rio Grande do Sul, a Bahia, aprendam com o Paraná.

Uma última observação: para os pais e diretores de escola que aplaudiram a iniciativa, cabe lembrar o que a professora carioca Genuína Fazendeira (no jornal da UFRJ de 1/9/2006) escreveu sobre o reitor Pedro Calmon:  

“Há uma passagem de Pedro Calmon, quando ele ainda era reitor, que eu acho excelente. Ele estava na Faculdade de Letras e a polícia queria entrar pela força. O reitor se postou na escada e perguntou se haviam feito vestibular, porque aqui só se entra pelo vestibular. E eles ficaram tão atônicos, era tão inesperada aquela fala, de um senhor que não tinha a menor força contra eles, que voltaram atrás”.  

         Polícia nas escolas? Só como aluno. A não ser que o Paraná esteja querendo imitar aquele filme do Spielberg chamado “Minority Report”, onde se combatia o crime antes dele acontecer. Nesse caso, quem são os paranormais da história, os “precogs”? O que eles viram ontem para que os tom cruises invadissem rapidamente essas escolas? 



Escrito por Leonardo Ferrari às 14h17
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PROVAS

Fotografia de Bilal Hussein/AP in 11/9/2006. 

Excelentíssimo senhor juiz:

         Exigem-nos provas. Ei-las:

         1. Bilal Hussein é fotógrafo. Essa é a primeira prova. Numa guerra, tudo é permitido, exceto fotografias. A fotografia revela aquilo que não pode ser revelado. Ela mostra o que deveria ficar velado. Ela dà à luz algo insuportável de se ver, algo da ordem do desconhecido, algo estranho, algo avesso ao nosso discurso sobre a democracia e os valores do ocidente. Por isso, esse fotógrafo precisa ser detido. Que se imobilize imediatamente os dedos desse fotógrafo e que seus olhos sejam vedados para sempre. Nada de fotos. Que ele sirva de exemplo para todos os demais. A partir dessa data não existirão mais fotografias de guerra. Chega. Nossas guerras não suportam mais esses ataques cruéis e sanguinários de uma simples fotografia. Basta.

         2. Bilal Hussein é iraquiano. Essa é a segunda prova, excelência. Desde o 11 de setembro sabemos que cada iraquiano é terrorista desde o nascimento – e que seus pais, seus avós, seus bisavós, também foram. É por isso que, em nossas ações cuidadosamente planejadas e executadas, não fazemos mais distinção entre alvos civis e os outros. É tudo a mesma coisa.

         3. Bilal Hussein é Hussein. Esta é a prova definitiva. O outro Hussein nós já tratamos de despachar. O senhor sabe que um fruto nunca cai longe do pé. Logo, há que extirpar, há que liquidar o resto. O senhor sabe do que um resto é capaz. Nada de resto.

         Como? O senhor não concorda, senhor juiz? Ora, considere-se preso sob a acusação de terrorismo. Para Guantánamo imediatamente. Que o próximo juiz se apresente. Now!

 

Fotógrafo é acusado de terrorismo

Zero Hora, 21/11/2007

Os Estados Unidos anunciaram ontem que denunciarão por terrorismo um fotógrafo da agência de notícias americana Associated Press (AP).

O iraquiano Bilal Hussein, 36 anos, vencedor do prêmio Pulitzer de fotojornalismo pela cobertura da Guerra do Iraque, está detido há 19 meses sem nenhuma acusação formal. O caso será levado à Justiça iraquiana, que decidirá sobre a pertinência do julgamento.

Se condenado, Bilal pode ser sentenciado à morte. Segundo o porta-voz do Pentágono, Geoff Morrell, há novas provas - "convincentes e "irrefutáveis - da ligação entre Bilal e grupos insurgentes.

- Os militares vêm dizendo isso há 19 meses, mas quando pedimos para ver o que é tão "convincente", recebemos de volta algo que nada tem de convincente - declarou o conselheiro jurídico da AP, Dave Tomlin, que também criticou o sigilo mantido sobre as supostas evidências, o que "impossibilita a defesa de seu cliente.

Investigação interna não encontrou irregularidades

A agência de notícias afirmou que sua própria investigação interna, coordenada pelo ex-procurador federal americano Paul Gardephe, não encontrou sinais de que Bilal "estivesse fazendo qualquer coisa além de trabalhar como jornalista em um zona de guerra. Entre as provas anteriormente citadas pelo Comando Militar dos EUA no Iraque, estão a posse de propaganda insurgente, de material usado na fabricação de bombas e da fotografia de uma instalação militar americana.

Integrante da equipe da AP que venceu em 2005 o prêmio Pulitzer - principal reconhecimento do jornalismo americano - , Bilal está entre os mais conhecidos dos 14 mil detentos dos EUA no Iraque. Não é, porém, o único profissional de imprensa preso.

Levantamento da Comissão de Proteção aos Jornalistas, uma das ONGs que pedem a libertação imediata de Bilal, relata dezenas de prisões, sobretudo de profissionais iraquianos, nos últimos três anos.

 



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h44
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RETRATO DE UM EMBURRECIMENTO QUANDO JOVEM

Querida Pamela, eu emburreci. É isso, querida Pamela. Descobri agora lendo o artigo do doutor em psicologia social, Thierry Meyer, no último Journal of Experimental Social Psychology. Antes eu não sabia, querida Pamela. Antes, quando nos divertíamos juntos naquelas areias da Venice, naquelas lojinhas do Rodeo, naqueles filminhos da Universal, eu nada sabia, querida Pamela. O que eu sabia naquela época é que tudo era muito amor, muito veneno e que o lugar era pouco. Eu nada sabia de minha burrice. Como é que fazíamos coisas do demônio nessa terra de anjos? Eu só tinha saber para o teu beijo a aguardente naquela calçada da fama. E o teu corpo-serpente a me provocar lá nas areias de Santa Mônica? Quanta burrice, querida Pamela, quanta burrice. Cada vez que você fechava a luz e apagava a porta naquele nosso hotelzinho, o Regent Beverly Wilshire, eu mandava dizer que tinha ido prá Bagdá (ainda era possível as mil e uma noites). Uma coisa eu sabia, minha querida: que um dia qualquer, tudo iria dançar. Mas até isso acontecer, eu emburreci, minha querida, eu emburreci. Eu só consegui ver a árvore desses seus olhos de sereia oblíqua e dissimulada – e não consegui enxergar a floresta do grande estereótipo que você carrega. Burro. E quando eu quis passear contigo pela Disney? Burrice infinita. Pois lá fomos nós rodar naquelas xícaras da Alice. Maravilhoso, minha querida, mas só agora eu sei que foi burrice. O parquinho era muito pequeno para nos suportar. Agora, nesse rancho da saudade em que danço, eu sei que a cachoeirinha dessas lembranças nem o tempo vai secar. E só por causa disso, minha querida, obrigado. Muito obrigado.

 

 

Homens 'emburrecem' diante de loiras, sugere estudo, BBC, 19/11/2007

 

Um estudo publicado na revista especializada Journal of Experimental Social Psychology sugere que os homens mudam de comportamento e "emburrecem" para se adequar ao estereótipo da "loira burra".

No estudo liderado pelo psicólogo social Thierry Meyer, da Universidade Paris-X Naterre, o desempenho intelectual dos homens cai quando eles são expostos a fotografias de mulheres loiras.

Os cientistas fizeram testes de conhecimento geral em homens em duas ocasiões, depois de mostrar a eles diferentes fotos de mulheres. Nas experiências, os homens que viram fotos de loiras tiveram resultados inferiores.

Os cientistas acreditam que os resultados não foram causados por simples distração causada pelas loiras, mas sim porque, inconscientemente, eles teriam sido contaminados pelo estereótipo da "loira burra".

Estereótipo

"Isso prova que as pessoas confrontadas com estereótipos geralmente se comportam de acordo com eles", disse Meyer. "Neste caso, as loiras têm potencial para fazer homens agirem de forma mais burra, porque eles 'imitam' inconscientemente o estereótipo da loira burra."

Pesquisas anteriores já mostraram que o comportamento do ser humano é fortemente influenciado por estereótipos. Alguns trabalhos apontaram que as pessoas tendem a andar e a falar mais devagar diante de idosos.

Segundo os pesquisadores, o esterótipo da "loira burra" se intensificou, particularmente, no último século. Nos Estados Unidos, a imagem ganhou peso com a publicação do livro Os homens preferem as loiras, de Anita Loos, em 1925, que trata loiras como desfavorecidas intelectualmente, apesar da atenção privilegiada que elas despertam no mundo masculino.

O romance virou filme estrelado por Marilyn Monroe e contribuiu para fortalecer o estereótipo.

 

 

A derrota foi o combustível do CTG Rancho da Saudade

Gustavo Souza in Zero Hora, 20/11/2007

O objetivo do Rancho da Saudade foi definido há um ano. Desde lá, a dedicação dos 31 dançarinos tradicionalistas desse centro de tradições gaúchas (CTG) localizado no Distrito Industrial de Cachoeirinha, e que completou 21 anos em outubro, beirou o profissionalismo. Assim, o resultado não poderia ser melhor: o primeiro lugar na categoria de danças tradicionais no principal evento do Estado de culto aos costumes e hábitos do gaúcho.

O desfecho vitorioso do Rancho - como é chamado por seus integrantes - no 22º Encontro de Artes e Tradição Gaúchas (Enart), que acabou no domingo em Santa Cruz do Sul, começou a ser desenhado na final do concurso de 2006, quando obtiveram a segunda colocação. Ao perderem para um dos maiores vitoriosos da competição, o CTG Aldeia dos Anjos, de Gravataí, os dançarinos do Rancho sabiam que o detalhe havia lhes tirado o título. (...)

 

 

 



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h36
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LABIRINTOS

Jean-Jacques Sempé in The New Yorker, 10/1/2005.

 

 

“3 de Maio

 

Trecho tirado da autobiografia de um músico de jazz:

 

         Uma noite, depois do último número, um sujeito baixinho apareceu no meio da fumaça do Biltmore Ballroom. Era um homem baixo e meio acabado, trazia uma caixa surrada e dentro dela um trompete surrado. Perguntou a Doe se podia sentar conosco e tocar junto, e Doe disse que tudo bem. Era assim naqueles lugares, nesses tempos inesquecíveis e muito acelerados de jazz cru e animado. Daí o sujeito tirou o trompete surrado da caixa e, por duas horas, tocou labirintos milagrosos de harmonia, que teriam feito os anjos chorar de emoção. Depois guardou o trompete surrado na caixa surrada e saiu no amanhecer azulado de Chicago. O nome dele era Bertolt Brecht.

 

Kenneth Tynan in Diário. Piauí 13, outubro 2007, p. 19. 



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h25
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NO FORNECEDOR MAIS PRÓXIMO DE VOCÊ

 

“Adeus à psicoterapia – o fenômeno Prozac completa vinte anos de idade – mas há controvérsias sobre os efeitos nas crianças”

Fonte: Marina Cavallieri in La Repubblica, 18/11/2007.

 

            Eis aqui uma típica reportagem jornalística de vinte anos para cá. É daquelas reportagens “otimistas”, “para cima”, “motivadoras”, “sucesso” garantido nas bancas. A jornalista, Marina Cavallieri foi inclusive atrás do “especialista”, do “doutor”, do “cientista”, do “professor”, no caso, o psiquiatra romano Giovanni Cassano. Que, como em todas essas reportagens, há vinte anos, só fala bem do Prozac. Diz ele que foi uma “revolução”, com pouquíssimos “efeitos colaterais”, em suma, uma “maravilha”.  Todos os jornais, revistas, programas de televisão só fazem isso há vinte anos. Por quê?

         Pois bem, o indispensável The New York Review of Books desta semana traz uma resenha de três livros recém publicados nos Estados Unidos que se aproximam dessa resposta. Frederick C. Crews escreve a resenha dos livros “The Loss of Sadness: How Psychiatry Transformed Normal Sorrow into Depressive Disorder” [“A Perda da Infelicidade: como a Psiquiatria Transformou uma Tristeza Normal em Desordem Depressiva”] de Allan V. Horwitz e Jerome C. Wakefield (Oxford University Press), “Shyness: How Normal Behavior Became a Sickness” [“Timidez: como um Comportamento Normal foi Transformado em Doença”], de Christopher Lane (Yale Univeristy Press) e “Let Them Eat Prozac: The Unhealthy Relationship Between the Pharmaceutical Industry and Depression” [“Deixe eles Comerem Prozac: A Relação Doentia entre a Indústria Farmacêutica e a Depressão”] de David Healy (New York University Press).

         Crews inicia a resenha desses livros contando que, no verão de 2002, o programa de maior audiência na TV norte-americana, The Oprah Winfrey Show, recebeu a visita de um astro do futebol norte-americano, Ricky Williams. Ali, no meio da entrevista, Williams confessou sofrer de muitas dores e de uma infelicidade crônica. Ora, o que a apresentadora não sabia – muito menos os telespectadores – é que o jogador recebeu um incentivo monetário para dar essa declaração no meio da entrevista. A companhia farmacêutica GlaxoSmith Kline (GSK), através de uma empresa de relações pública, Cohn & Wolfe, pagou para que Williams apenas declarasse ser uma pessoa muito tímida – atenção, não precisava dizer que estava tomando o antidepressivo da Glaxo, Paxil. Não precisava porque logo foi ao ar uma série de comerciais aonde o próprio jogador dizia feliz para as câmaras: “Como muitos que sofrem de fobia social [“SAD – Social Anxiety Desorder”], eu estou muito feliz pela mais nova opção de tratamento, como o Paxil, agora disponível para ajudar todas as pessoas que sofrem desse transtorno.”

         Crews informa na resenha que as maiores empresas desse ramo, conhecidas nos Estados Unidos como “Big Pharma”, gastam anualmente mais de 25 bilhões de dólares em marketing e na contratação de mais lobistas que o número total de deputados e senadores. “O seu poder, em relação a todas as outras forças que tentam se opor a sua vontade, é tão desproporcionalmente grande que elas conseguem ditar como elas deverão ser pouco regulamentadas, de que modo as pesquisas médicas deverão ser conduzidas, que tipo de resultado das pesquisas deverá ser publicado (e qual escondido), quais críticos deverão ser cooptados e de que modo favorecer ao máximo na comunidade médica os benefícios de seus produtos.” (Frederick Crews).

         Crews cita o livro de Horwitz e de Wakefield que traz a informação de que até 2020, a depressão será a segunda maior doença incapacitante do mundo, só atrás das doenças cardíacas. É óbvio que os três livros resenhados por Crews não afirmam que as pessoas que sofrem do mal-estar depressivo estão fingindo ou não estão doentes o suficiente para não merecer tratamento. Mas, o que os três livros afirmam é que, por detrás de uma aparência de “cuidado” e “tratamento”, há uma relação doentia entre a indústria farmacêutica e a medicina, onde a doença do paciente não está mais em primeiro plano. A relação médico-paciente não é mais a dois (nem mais a quatro, como descobriu Freud: o médico, o paciente, e o inconsciente de ambos) – há um quinto elemento presente na sala, às vezes nem tão invisível assim. E o que a indústria farmacêutica quer é o avesso da medicina. Quando a medicina dá o braço à este “amigo” pensando atingir a psicoterapia o que ela não sabe é que o próximo alvo é ela. Não é só o adeus à psicoterapia que está em jogo aqui. É o adeus à clínica médica também. Quando a indústria farmacêutica receita, quem precisa da medicina?



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h48
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