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BAILEI NAS CURVAS

Querida Flávia,
Parabéns. Sua Alzira acaba de entrar para a história. Nunca antes nesse país se viu algo igual na televisão. O que é a “dança” da Alzira? As aspas vão em respeito à personagem. Como definir aquilo que Alzira fez ontem, diante dos olhos esbugalhados de seus fãs e daquele impagável Wolf Maia como Geraldo Peixeiro? Como definir toda a sua expressividade descendo por aquela pilastra feito uma cobra? Era dança aquilo? Eu não arrisco – eu prefiro vaguear pelas palavras, que elas me levem, eu não as levo há muito. Essa Alzira-enfermeira, essa Alzira-dançarina, essa Alzira-esposa, essa Alzira--mãe, essa Alzira-prima, essa Alzira-Outra veio para confundir. Gostosa? Não Flávia, tu é maior que esse adjetivo. Tu não cabe na boa fôrma-forma que tentam te prender. Essa Alzira-Eva saída da costela desse Aguinaldo é um achado. Adorei a sua lembrança de Nelson Rodrigues na entrevista. Essa Alzira é rodriguiana até a medula. É ela essas duas caras que nos dividem, que nos abrem a alma ao meio, que nos dilaceram, é ela, é ela o nome disso que nos desnorteia, é ela a causa, é ela a razão, é ela aquela que nos leva e que nos puxa, é ela. Alzira. Flávia. Alessandra...
Escrito por Leonardo Ferrari às 09h44
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DEUTSCHLAND ÜBER ALLES

O mundo acabou. Anote a data: 15 de novembro de 2007. O mundo não é mais mundo. Os trens pararam na Alemanha. O mundo acabou. Eu escrevo do além-mundo. Quando os trens param na Alemanha, isso significa o fim. Quando a Alemanha pára, então não há mais dúvidas. O mundo acabou. Uma última nota sobre o fim do mundo: nem esse sisudo jornal hamburguês, o Die Welt, conseguiu mostrar isso. A fotografia é de uma estação de trem de Paris, é claro. É impossível mostrar uma estação alemã parada. Isso é demais. Os leitores não suportariam. Fiquemos com os franceses. Lá, é comum. Lá, é de praxe. Lá não é o fim do mundo. Mas aqui, na Alemanha, aqui é impossível isso ser sequer pensado, sequer cogitado. Nenhum cidadão alemão está preparado para isso. A Deutschland está preparada para tudo, menos para os trens pararem. Isso está fora de qualquer possibilidade, está fora do fora, isso é o impossível, isso é o surreal, isso é o acredite se quiser, isso é a hora do pesadelo, isso é à meia noite levarei teu cadáver, isso é jogos mortais parte cinco, o final. Não pode ser verdade. Não é verdade. Não aconteceu. Na França sim. Aqui, não. Jamais!
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h32
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IN TEL BEL BRASIL

Fotografia de Stefano Robino “Alla partenza della ‘Cristoforo Colombo’ “, Gênova, 1959.
“Miséria! Esta a verdadeira e exclusiva causa da emigração transoceânica entre 1880 e a Primeira Guerra Mundial. Mais em particular, a febre emigratória disse respeito por alguns anos ao Brasil, assimilado tout court [simplesmente] à América nas cantigas rurais, concisas mas amplamente alusivas às motivações de desforra em relação aos proprietários fundiários:
‘Anderemo in Mèrica
In tel bel Brasil
E qua i nostri siori
Lavorerà la tera col badil!’
[Iremos para a América, para aquele belo Brasil, e aqui nossos senhores trabalharão a terra com a pá!]
A fuga, inclusive a pé em pleno inverno, para chegar ao porto de embarque – Gênova – envolvia aldeias inteiras e podia assumir aspectos de verdadeira libertação, como notava, não sem certo temor, um observador da época, De Kiriaki: ‘Vão para a América como iriam à aldeia vizinha na festa do padroeiro, e vão em procissão, às vezes até ao som de sinos, quando não levam consigo estes, como aconteceu numa aldeia da região de Treviso’ “.
Fonte: Angelo Trento in Do Outro Lado do Atlântico. São Paulo: Nobel, 1989, pp. 30-31.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h31
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CALAR A BOCA?

“O Rei manda Chávez calar a boca em tumultuado encontro no Chile”
Fonte: El País, 11/11/2007.
O que significa o Rei da Espanha vir até a América Latina e mandar o presidente de um país calar a boca? De que lugar fala o Rei da Espanha? É incrível como praticamente toda a mídia concordou com o Rei – inclusive o El País! Incrível porque vindo de quem vem, não se pode aceitar essa ordem. A história do colonialismo espanhol na América Latina é uma história muito feia. Sabe-se muito bem o que significou o “calar a boca” espanhol no México, no Peru, na Bolívia – só para ficar nestes países emblemáticos. Sobre isso, convém lembrar o grande Frei Bartolomé de Las Casas, um espanhol que não calou a boca de ninguém, sequer a sua própria diante do horror perpetrado por seu país na América Latina. Diz essa voz que não se calou:
“Sobre esses cordeiros tão dóceis, tão qualificados e dotados pelo seu Criador como se disse, os espanhóis se arremessaram no mesmo instante em que os conheceram; e como lobos, como leões e tigres cruéis, há muito tempo esfaimados, de quarenta anos para cá, e ainda hoje em dia, outra coisa não fazem ali senão despedaçar, matar, afligir, atormentar e destruir esse povo por estranhas crueldades (como vos farei ver depois); (...)”
Fonte: Frei Bartolomé de Las Casas in O Paraíso Destruído. Porto Alegre: L&PM, 2007, pp. 27-28.
Outra voz, mais recente, também se recusou a ficar calada. É a do magnífico pensador Tzvetan Todorov que, em seu trabalho maravilhoso chamado “A Conquista da América” escreveu uma das epígrafes e dedicatórias mais atordoantes da história:
“O capitão Alonso Lopez de Ávila tinha-se apossado, durante a guerra, de uma jovem índia, uma mulher bela e graciosa. Ela havia prometido ao marido, que temia ser morto na guerra, não pertencer a nenhum outro, e assim nenhuma persuassão pôde impedi-la de preferir perder a vida a deixar-se seduzir por outro homem; por isso ela foi atirada aos cães – Diego de Landa, Relación de las cosas de Yucatán, 32.
Dedico este livro à memória de uma mulher maia devorada pelos cães.”
Fonte: Tzvetan Todorov in A Conquista da América. São Paulo: Martins Fontes, 2003, epígrafe e dedicatória.
E ontem mesmo uma terceira voz se manifestou. É a voz desses geniais artistas argentinos Daniel Paz e Rudy, que sintetizaram perfeitamente o problema. Os espelhinhos coloridos que a Espanha distribuiu pela América Latina não valem as vidas que daqui foram exterminadas, não valem as vozes que aqui foram caladas para sempre. Calar a boca? Jamais.

“Assessor – Parece que desta vez a Coroa Espanhola está muito revoltada.
Chávez – Por quê?
Assessor – Ela pede que lhe devolvamos todos os espelhinhos de cor que nos deram há 500 anos.”
Fonte: Daniel Paz e Rudy in Página 12, 13/11/2007.
Escrito por Leonardo Ferrari às 05h14
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DE QUEM É A VEZ?

Fonte: Clay Bennett in The Christian Science Monitor, 13/11/2007.
O grande artista norte-americano Clay Bennett, que nas horas vagas faz cartuns, traz uma excelente reflexão em seu trabalho de hoje. O que será da privacidade diante da paranóia da segurança cada vez mais desenvolvida? Encastelado nessa torre solitária, o cidadão se vê ameaçado por todos os lados. CIA (Central de Inteligência Norte-Americana ou, como dizia o inesquecível Gomes da Glória Pérez, Central de Desinteligência), FBI (uma espécie de Polícia Federal dos Estados Unidos, Bureau Federal de Investigação), NSA (Agência de Segurança Nacional), aparecem aqui jogando contra a cidadania, e não a favor – uma inversão do que deveria ser essa “homeland security”, a segurança doméstica. Curioso é que, se é a vez das brancas jogarem, a torre até poderia fugir do ataque do bispo e comer a rainha. Acontece que, em seguida, o cavalo, que a protege, liquidará com a torre. Porém, há algo interessante aqui. Como não aparece o tabuleiro inteiro, talvez na vez das brancas jogarem, a torre consiga dar xeque-mate. O que seria esse xeque-mate? Como controlar o Big Brother? Como se livrar dessas três ameaças transformando adversários em jogadores do mesmo time?
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h08
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QUANDO O TAMANHO CONTA

Kirchner – O Brasil anunciou a descoberta de uma gigantesca bacia petrolífera.
Cristina – Quão gigantesca?
Kirchner – O que importa? Você não diz sempre que o tamanho não é o mais importante?
Cristina – Ah, Néstor...isso são coisas que se dizem durante a campanha...
Fonte: Daniel Paz e Rudy in Página 12, 11/11/2007.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h10
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...OU PIOR

Fonte: Luis Fernando Verissimo in Zero Hora, 11/11/2007.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h49
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