Blog do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba (PR) leobelferrari@uol.com.br


O PODER DA FANTASIA

A fantasia está na origem da psicanálise. Ao contrário do pensamento de quem nunca fez análise, uma análise não trabalha contra as fantasias. Ao contrário, ela as promove. As fantasias são fundamentais. É por isso que, ao encontrar esse artigo de Manuel Rivas em um sábado pela manhã, eu só posso fazer a tradução integral dele. Magnífico! Fantasia mais a rua Corrientes de Buenos Aires? Inesquecível! Fantasia mais a luta permanente contra as ditaduras, contra os fascismos, contra os totalitarismos? Imprescindível!

         “A Fantasia – Manuel Rivas in El País, 10/11/2007

         A enciclopédia da escola dizia que éramos um império, mas os nossos pais emigravam para buscar pão. Não faz muito tempo isso. Ou não? Outro dia, subitamente, me encontrei com o Tempo. Ele me fez a pergunta mais temida: “Não te lembras de mim?”. Ainda sinto o formigamento de seu aperto de mãos. Faz muito tempo, sim. O professor perguntou o que queríamos ser quando crescer e um, lá no fundão do império, respondeu: “Emigrante!”. Se eu fosse emigrante, eu gostaria de ser um empregado de qualquer livraria da rua Corrientes de Buenos Aires. É a única rua do planeta onde as livrarias abrem de dia e de noite. Você pode ir da livraria Édipo à Antígona, e dali à Prometeu. E, nessas esquinas mais cultas do mundo, as de Buenos Aires, cada empregado é um Ulisses. Aqui, os livreiros recordam os livros como Ulisses às árvores de Ítaca. Um deles me conta que, durante a ditadura, era obrigatória, toda manhã, a leitura de um boletim oficial onde figuravam as obras que deviam desaparecer. Em muitos casos, seus autores lhes precediam. Pelo menos 82 escritores foram eliminados entre 1976 e 1983. Por nada. Seus nomes, entre os milhares de desaparecidos, reaparecem agora no Memorial das vítimas do terrorismo de Estado, inaugurado na última quarta-feira às margem do Rio da Prata. Nesta obra de arte sobre a memória, cada nome está inscrito em um pedaço de pedra, de tal modo que os muros são como estantes de uma biblioteca inesquecível às intempéries. No espantoso informe “Um Golpe a los Libros” se conta o caso do livro infantil “La Torre de Cubos”, de Laura Devetach, proibida por causa de sua “ilimitada fantasia”. Laura teve que se exilar, antes que um Ford Falcón viesse para levá-la à parte alguma. A fantasia da crueldade também pode ser ilimitada. Outra obra desaparecida foi “La Cuba Electrolítica”. Não me surpreende. Também, com um nome desses!”



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h25
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O SONHO E O DESEJO

            É uma frase lapidar sobre o desejo. O atual presidente da França é filho de pai húngaro com mãe francesa. É uma frase lapidar sobre a política.

 

      

       “Eu gostaria de ter nascido na Argélia. Quando você nasce na África do Norte, você sonha com a França, mas quando você nasce em Paris, não sonha com nada.”

 

Fonte: Nicolas Sarkozy por Yasmina Reza in L’aube le soir ou la nuit. Paris: Flammarion, 2007, citado por Lluís Bassets in Todos dicen “I Love You”,  El País, 8/11/2007.



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h48
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BONSAI

Obra de Massimo Bandera,  “O Imortal”, 2004. Juniperus chinensis Itoyagawa, 60 cm. Maceta China, dinastia Quing. Coleção privada.

 

Sebastiano Messina é uma das almas do La Repubblica. Ele tem uma pequena coluna chamada, não por acaso, de “bonsai”. Bonsai é aquela técnica japonesa de miniaturização de plantas. Ora, a coluna de Messina é uma miniatura, uma pequena árvore no meio da floresta do jornal. E, no entanto, que magnífica planta! São poucas palavras, poucas frases, mas com um poder de síntese, um poder de esclarecimento que é muito difícil de encontrar por aí. Eu já declarei meu desejo, mas há que repetir: que a Folha de São Paulo passe a publicar todos os dias o caderno La Repubblica. Em italiano mesmo, não precisa traduzir. Que os leitores comecem urgente a aprender italiano. Faz um bem danado à alma. Quem cansar do La Repubblica, pode ler Dante Aliguieri no original. Como viver sem isso? Impossível. Ao italiano, cidadãos brasileiros!

 

“O medo do poder

Sebastiano Messina in La Repubblica, 8/11/2007.

 

         Ninguém melhor do que Valentino Parlato [fundador, junto com Luigi Pintor, do excelente jornal Il Manifesto] para dar voz a esse sentimento profundo que agita a alma da esquerda comunista: o medo do poder. Parlato, que é um intelectual refinado e um polemista honesto, disse clara e precisamente aquilo que muitos companheiros pensam: “É preferível um retorno de Berlusconi [o fascista ex-primeiro ministro da Itália] do que uma berlusconização de nós mesmos”. Quer dizer: é melhor virar oposição, onde a “esquerda alternativa está em seu meio”.

         Com efeito, o poder emporcalha a pureza dos idealistas. O poder lhes obriga a fazer acordos com uma realidade feia e cruel, misteriosamente relutante em adequar-se à sua perfeita visão de mundo. O poder lhes obriga a participar dessa desapiedada batalha chamada eleições, nas quais não basta combater heroicamente e demolir os adversários para afastar de si o perigo mais grave, o risco mais insidioso, o terror do verdadeiro idealista: vencer.”



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h41
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XENOFOBIA

           Irônico. A Itália é para a Romênia o que o Brasil foi para a Itália. Irônico. O fantasma da xenofobia tomou conta das ruas italianas. Esse canalha inacreditável chamado Silvio Berlusconi quer a expulsão em massa desses “estrangeiros” incômodos. Eis aí um exemplo do que Slavoj Zizec denominou de “biopolítica pós-política”, ou seja, um novo fascismo, não por acaso representado na Itália por um empresário, homem de negócios, de “sucesso”, “objetivo”, “gestor”, “competente”. Berlusconi talvez tenha gerado um sucessor na França – e quem sabe essa praga não acabe caindo também sobre o Brasil. A Itália que amanheceu xenófoba é a mesma que um dia desembarcou seus filhos em massa no Brasil. O que seria deles se naquela época o Brasil fosse governado por um Silvio Berlusconi?

 

Êxodo romeno superou a previsão da UE, diz Prodi

GUY DINMORE
DO "FINANCIAL TIMES", EM ROMA in Folha de São Paulo, 7/11/2007.

A Europa subestimou a escala do êxodo da Romênia depois da admissão do país à União Européia em janeiro deste ano, de acordo com o primeiro-ministro italiano Romano Prodi.
"Ninguém estava esperando que tanta gente saísse da Romênia [e se espalhasse pela Europa]", disse ele em entrevista ao "Financial Times".
O governo italiano está enfrentando uma onda de rejeição pública à imigração romena, deflagrada pelo assassinato de uma mulher de 47 anos em um subúrbio de Roma. Um cigano romeno foi detido e acusado de agressão sexual, assalto e homicídio.
O presidente da República, Giorgio Napolitani, baixou há uma semana um decreto que confere poder às autoridades locais para que expulsem da Itália os cidadãos da União Européia considerados como ameaça à segurança pública. Prodi admitiu que "ninguém sabe" o número de romenos que ingressaram na Itália desde janeiro. Segundo ele, a estimativa de 500 mil feita pelo ministro do Interior, Giuliano Amato, é "um exagero".
O premiê defendeu o princípio da liberdade de movimento dos cidadãos da UE em todo o seu território, e argumentou que a Itália precisa de mão-de-obra importada. Mas disse que a diretriz que rege o livre movimento de cidadãos, adotada quando ele presidia a Comissão Européia, é inadequada.
"O que estou pedindo à União Européia é que tenhamos normas comuns para tornar mais efetivo o processo de repatriação, e que sejamos mais cooperativos quanto aos efeitos colaterais desses movimentos [populacionais]."
Ainda que a Itália só tenha expulso alguns cidadãos da União Européia -quase todos romenos-, o decreto deflagrou acusações de xenofobia de parte do governo de Bucareste. Calin Popescu Tariceanu, primeiro-ministro romeno, deve visitar Roma hoje para discutir a crise bilateral.


Tradução de PAULO MIGLIACCI



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h32
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A BIOPOLÍTICA PÓS-POLÍTICA

Fonte: La Repubblica, 6/11/2007.

        

O filósofo lacaniano Slavoj Zizec está hoje no La Repubblica. Zizec vive hoje em vários países e se casou com uma argentina, fazendo de Buenos Aires um de seus lares. Sorte para o Brasil. É só atravessar a fronteira para encontrar esse pensador radical. Zizec é daqueles autores essenciais. É para ler, divulgar, transformar em “case” para ser estudado com paixão. Traduzo o início deste brilhante artigo:

 

 

         “A modalidade da política que hoje predomina é a biopolítica pós-política – um conceito muito abstrato que pode ser explicado facilmente: a “pós-política” é uma política que se orgulha de ter abandonado as velhas lutas ideológicas para se concentrar sobre uma gestão e sobre uma administração competente, enquanto que a “biopolítica” designa como objetivo principal a regulamentação da segurança e do bem-estar da vida humana. É muito claro como é que essas duas dimensões se sobrepõe.

         Quando se renuncia às grandes causas ideológicas, o que resta é apenas uma administração eficiente da vida...ou quase apenas isso. Em outras palavras, quando o nível de base da política é constituído de atividades a-políticas e socialmente objetivas de uma administração competente e de uma coordenação de interesses, o único modo de introduzir paixão nesse campo, para mobilizar ativamente as pessoas, é através do medo, constituinte fundamental de nossa subjetividade. Por causa disso, a biopolítica é definitivamente uma política do medo, centrada sobre a defesa contra os potenciais perseguidores ou doenças.

         É isso que distingue uma política de emancipação radical do nosso atual status quo político. Aqui não estamos falando da diferença entre duas visões, mas entre a política baseada sobre uma série de pressupostos universais e uma política que renuncia à dimensão mesma do que constitui a política, submetendo-se [nota do tradutor: o verbo italiano affidare significa submeter-se aos cuidados de, à custódia de e também abandonar-se à confiança de - ou seja, é a política submetida ao medo e, ao mesmo tempo, procurando o medo como quem procura o tratamento para seu mal-estar] no medo como último recurso de mobilização: o medo ao imigrante, o medo ao crime, o medo à depravação sexual, o medo de um excesso de Estado, e de seus pesados impostos, o medo das catástrofes ecológicas, o medo das doenças. O politicamente correto é a forma progressista exemplar dessa política do medo (...)”

 

Fonte: Slavoj Zizec in Quando la politica si affida alla paura, La Repubblica, 6/11/2007.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h18
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ENCONTROS

Lela Rae por Nad Iksodas.

 

“Não sei como é isso para o senhor, mas percebo a possibilidade de receber as atenções de uma mulher à primeira vista, pela feição, nariz, ouvidos e lábios. Perdoe-me se estou sendo um pouco vulgar, mas, não fosse assim, teria dificuldade de fazer sentir que ao longo da vida encontrei mulheres que de imediato acreditei estarem à minha espera. Destinavam-se a mim – nossos pensamentos, fantasias, anseios, a temperatura do sangue eram iguais. Nós nos procurávamos como o vento e a bomba do poço sem dono; como o rato e o buraco; como aves migratórias e seus lugares de descanso. São encontros estranhos nos caminhos falsos da vida. Subitamente, sem nunca tê-la visto, nós a reconhecemos. O aperto de mão, o olhar, a pulsação, o trabalho meticuloso, desbravador de nossos desejos se encontra, como escavadores num túnel. Eu buscava aventura na cidade desconhecida, como um mascate entediado. A senhora Hartvig também esperava uma oportunidade, embora esteja convencido de que nunca lhe ocorrera mostrar a ninguém as pernas vestidas em meias brancas.

         Entretanto, permita-me contar com seriedade, sem a frivolidade dos viajantes, quem era a senhora Hartvig.

         A senhora Hartvig era uma santa.”

 

Gyula Krúdy in O Companheiro de Viagem. São Paulo: Cosac & Naify, 2003, p. 23.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h58
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FINADOS TODOS OS DIAS

Fonte: O Globo, 4/11/2007.

 

É para ler, recitar nas salas de aula, pregar nos muros das universidades. Luciana Rodrigues foi escutar o futurólogo americano Alvin Toffler. Memorável entrevista. E pensar que isso que ele fala sobre as crianças está pesadamente instituído na educação de adultos! Alguns trechos:

 

“A questão não é investimento, é diversiment (um trocadilho com as palavras em inglês investment e diversity, ou diversidade). É preciso se livrar da educação em estilo industrial. As crianças hoje são treinadas num tipo de disciplina exigido nas indústrias. As escolas hoje seguem um modelo fabril, pré-moldado. Um exemplo é a pontualidade. Numa economia agrícola, se uma criança se atrasa para trabalhar na lavoura, não há grandes problemas, seu pai ou seu tio começam o serviço antes. Mas, numa fábrica, o atraso de um funcionário compromete toda a linha de montagem. Então, nas escolas, as crianças aprendem desde os 5 ou 6 anos de idade que a pontualidade é muito importante. E, como numa linha de montagem, as mesmas tarefas são repetidas, dia após dia.”

 

“As escolas atendem as necessidades de uma economia industrial, e essa não é mais a realidade de hoje. Quando terminam os estudos, os jovens estão disciplinados para o trabalho em fábrica. E esse não é o tipo de emprego que necessariamente vai estar disponível. Precisamos de uma grande dose de inovação e criatividade. Numa economia pós-fabril, do conhecimento, será preciso mais variedade. E não todo mundo pensando do mesmo modo, agindo da mesma forma.”

 

“As escolas de hoje – e eu imagino que a educação no Brasil siga um modelo semelhante ao americano e europeu – são um cemitério de idéias.”

 

“Eu conheço bem o sistema asiático, minha mulher e eu tivemos alguma experiência no Japão e Coréia do Sul. Temos um grande amigo coreano, e a sua filha, que hoje está no Ensino Médio, passa 11 horas por dia na escola. Isso não é criatividade. O ensino lá é repetitivo. Assim como eles foram excelentes em adaptar sistemas industriais e produzir com mão-de-obra barata de forma muito eficiente, as escolas seguem esse mesmo padrão. E isso não é a maneira de gerar a imaginação que será necessária na economia do amanhã. No Japão, as crianças vão à escola pública pela manhã e, depois, seguem para cursos em escolas privadas. Vimos crianças estudando cálculo às 10 da noite. Isso não é uma solução criativa! É claro que Japão, Coréia do Sul e China tiveram até hoje resultados incríveis. Mas, por enquanto, só alcançaram os requisitos da economia industrial do passado. E não da economia criativa do amanhã.”

 

Fonte: entrevista de Alvin Toffler a Luciana Rodrigues in O Globo, 4/11/2007.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h33
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