 |
|
|
A ROCHA, AS LETRAS E O DESEJO

O escultor Jaume Plensa por Carmen Secanella in El País, 3/11/2007.
“A ciência avança sobre o real ao reduzi-lo ao sinal. Mas ela também reduz o real ao mutismo. Ora, o real com que se defronta a análise é um homem a quem é preciso deixar falar.”
Jacques Lacan in “Discurso de Roma” (1953) in “Outros Escritos”. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p.143.
Jaume Plensa é escultor. Basta isso. Nessa magnífica fotografia de Carmen Secanella para o indispensável Babelia do El País, eis o escultor em meio a suas obras. Mas, o que é essa obra atrás dele? O que é esse homem com o corpo feito de letras? Sem querer, Carmen Secanella acaba de fotografar o Simbólico, o Imaginário e o Real. O simbólico são essas letras que fazem um corpo, essas letras do desejo, essas letras do Outro, essas letras que fazem uma borda, dão um contorno, limitam um corpo no espaço e no tempo. O imaginário é esse corpo do artista e os corpos dessas esculturas-modelos já “prontas”. Intrigante o olhar do artista. O real é a pedra que aparece aí como a base aonde está o artista e suas obras. O real é essa pedra dura, essa rocha inflexível (metáfora muito especial para Freud). É sobre essa pedra que as letras se esparramam tentando ganhar espaço, tentando sempre arrancar mais um pedacinho, fazer da rocha um texto, fazer da rocha um escrito, fazer da rocha uma vida.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h41
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
GRITOS

Não estaria esse grito endereçado também para aquele que vê o quadro? Eu grito por ti, à la Hemingway, parece dizer Munch.

O sorriso de Tarzan faz pensar. Foi antes do grito ou depois? Por que Chita não sorri aqui? Quem bateu a foto? Jane?
O que é um grito? O que há em um grito? Quais as semelhanças e as diferenças entre o grito de Munch e o grito de Tarzan? No belo livro sobre Edvard Munch da coleção Folha de São Paulo, a professora Teresa Camps, da Universidade Autônoma de Barcelona explica o seguinte:
“A figura central – pode ser um homem (o próprio pintor?) ou uma mulher – é refém do pânico e olha para o espectador gritando seu medo, enquanto se apóia na grade de uma ponte sem fim. A figura tapa os ouvidos e dá as costas ao sol, à natureza, às pessoas, talvez porque tudo parece estar contra si. Ao ignorar seu meio e gritar para o espectador, transmite sua dramática solidão – nessa posição, não é capaz de perceber a silhueta de uma igreja distante nem os barcos, amplificando a sensação de isolamento. Afastada da realidade, sucumbe diante do horror que vem de dentro” (fonte: Coleção Folha, Grandes Mestres da Pintura, Edvard Munch. São Paulo, 2007, p.42).
Belíssima reflexão. E o grito do Tarzan? É o mesmo grito antes da Jane e depois da Jane? Para os pesquisadores mais minuciosos, cabe acrescentar também outra questão: é o mesmo grito antes da Chita e depois da Chita? São questões fundamentais. Aliás, às vezes uma boa pergunta é muito melhor do que uma ótima resposta. O grito de Tarzan será meu norte daqui prá frente. O que importa que ele não tenha sido patenteado? Ninguém consegue roubar o grito de Tarzan de uma criança. Ele ecoa para sempre. Ainda hoje eu escuto esse grito quando tudo o mais não faz sentido. O grito de Tarzan é a minha madalena, é o meu bem-querer. Ele me leva para Jane - aonde quer que ela esteja.
Grito de Tarzan não pode ser patenteado, diz União Européia
Márcia Bizzotto, de Bruxelas, BBC Brasil, 2/11/2007.
O grito que marca a identidade do personagem Tarzan há décadas poderá ser utilizado sem restrições por qualquer pessoa ou empresa em toda a União Européia.
Depois de uma batalha judicial que se arrastou por dez anos, o Escritório para Harmonização do Mercado Interno (OAMI, na sigla em inglês), responsável pelo controle de patentes no bloco, decidiu que o som símbolo do rei das selvas não cumpre os requisitos para ser uma marca registrada, como solicitavam os herdeiros do americano Edgar Rice Burroughs, criador do personagem.
Se o pedido fosse aceito, a empresa Burroughs poderia faturar milhões de euros vendendo os direitos autorais do grito de Tarzan para campanhas publicitárias, jogos de vídeo, brinquedos, sons de telefone e outros fins.
Entretanto, a OAMI alega que o grito criado para o personagem não se enquadra na legislação européia, que permite o registro de sons que possam ser representados em notas musicais.
A organização também afirma que o documento, encaminhado por R G C Jenkins & Co, uma companhia londrina de propriedade intelectual que representa a empresa de Burroughs, não explica claramente como é o som.
Fenômeno sonoro
O texto do pedido inclui um gráfico representando a variação de frequência do grito e explica que a “marca” de Tarzan “consiste em cinco fases distintas: uma nota sustentada, seguida por uma ululação, seguida por outra nota sustentada numa freqüência mais alta, seguida por ululação, seguida por uma nota sustentada na freqüência inicial”.
“A partir dessa imagem é impossível reconhecer se o fenômeno sonoro descrito é uma voz humana ou outra coisa. Por exemplo, o som de violinos, de sinos ou dos latidos de um cão”, a OAMI concluiu no final de setembro.
Mas o escritório londrino não dá a luta por terminada: dará entrada em um novo processo, desta vez incluindo um arquivo sonoro do famoso grito, como permitem novas regras européias.
“Qualquer pessoa entre 5 e 105 anos que escute esse som saberia que é Tarzan”, Stephen James, um dos sócios de R G C Jenkins & Co, disse ao jornal britânico The Times. A dificuldade é “colocar um som no papel”, lamentou.
Burroughs mencionou o grito de Tarzan pela primeira vez em seu livro Tarzan dos Macacos, lançado em 1913. O personagem estreou no cinema em 1918, mas foi o nadador Johnny Weissmüller quem interpretou o primeiro Tarzan do cinema falado, em 1932.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h21
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
ANIVERSÁRIO

Este blog completa hoje dois anos de vida. Dois anos! Obrigado meus leitores e minhas queridas leitoras de Curitiba, Carazinho, Vignola, Belo Horizonte, Porto Alegre, Cascavel, Salvador, Londrina, São Paulo, Fortaleza, Rio de Janeiro, João Pessoa, Goiânia, Teresina, Brasília, Florianópolis, Recife, Fujieda, Moscou, Barcelona, Charlottetown, Bucareste, Helsinki, Nagoya, Paris, Caracas, Londres, Vicente Lopez, Madri, Dublin, La Victoria, Savona, Nova Iorque, Novo Hamburgo, Criciúma, Los Angeles, Natal e tantos outros de tantas outras cidades do Brasil e do mundo. Muito obrigado. E obrigado ao Google Analytics para que eu soubesse a quem agradecer. O retrato acima é apenas do último ano que passou. E é apenas um retrato das cidades que visitaram o blog, mas não das mensagens e conversas que o blog originou. Dois anos de idade! Magnífico! Pilastra!!!!
Escrito por Leonardo Ferrari às 05h12
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
SERÁ?

Fonte: Ángel Boligán in El Universal, Cidade do México, 29/10/2007.
Sobre a eleição de Cristina Fernández de Kirchner para a presidência da Argentina, o genial cartunista cubano-mexicano Ángel Boligán propõe uma questão fundamental: será ela uma repetição, uma re-edição, revista e atualizada, de Eva Perón? Será Cristina uma marionete dessas mãos que a sustentam, as mãos de seu marido, agora ex-presidente? Eu não acredito nisso, mas a questão é muito boa. Por outro lado, ter uma mulher como presidente da República é algo essencial. Desejo a Cristina que esse cartum não seja profético. Desejo a Cristina que esse cartum seja só isso, uma reflexão. Para o psicanalista argentino Marcos Aguinis, meu desejo não vai se realizar. “A gestão de Néstor Kirchner se caracterizou por uma demolição de instituições, própria de governos autoritários ou até ditatoriais. O Congresso se tornou um apêndice desprestigiado do Executivo, e a Justiça teme linchamentos caso divulgue excessivamente os atos de corrupção. Em poucas palavras, a Argentina caiu sob o governo de um punhado de indivíduos, ou talvez de apenas um casal. Ou seja, na prática se instalou uma espécie de monarquia que nem mesmo podemos definir como constitucional.” (Fonte: Marcos Aguinis in Folha de São Paulo, 27/10/2007). Sobre Eva Perón, diz Aguinis: “Eva Perón promoveu uma mudança cultural muito séria no país. Se analisarmos a história ignorando o mito, veremos que ela foi uma mulher com enorme sensibilidade social. Mas, ao dedicar-se a dar presentes aos pobres, foi mudando o que era uma cultura de trabalho para uma cultura de mendicância. Até hoje, o assistencialismo, os presentes dados antes das eleições ou durante a administração, vão contra uma cultura de trabalho e fazem com que o país não apenas empobreça financeiramente, mas espiritualmente. Essa é a herança de Evita. Há milhões de pessoas que se acostumaram a receber subsídio sem trabalhar. Não buscam mais trabalho. Isso acarreta em aumento de problemas com drogas, violência, etc.” (Fonte: entrevista de Marcos Aguinis a Pedro Doria in O Estado de São Paulo, 28/10/2007).
Escrito por Leonardo Ferrari às 05h55
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
COM OU SEM FUTEBOL

“O que Deus uniu, diz a doutrina cristã, o homem não separa. Mas esta placa flagrada pela coleguinha Mônica Ramos na entrada de um espaço para festas em Vila Isabel chama a atenção pelos tipos de comemoração que oferece. Repare que, além de batizado, comunhão, aniversário, casamento, bodas de prata, bodas de outro e outros, a lista inclui até festa de... separação!”
Fonte: Ancelmo Gois, O Globo, 30/10/2007.
Eu gosto demais do Rio de Janeiro. São essas pequenas coisas, essas coisinhas miúdas que me apaixonam no Rio de Janeiro. Há um senso de humor aqui muito raro, raríssimo.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h30
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
É O AMOR

Esta flor é conhecida como “Verônica formosa”.
Para aqueles que já perderam a esperança, para aqueles que já se desiludiram, para aqueles que se sentem traídos, alquebrados, sem vontade de nada, desmotivados, para aqueles que não sabem o que fazer com quem mexeu no seu queijo, este blog dedica-lhes este pequeno trecho da entrevista que Verônica Calheiros, mulher daquele senador, deu à jornalista Mônica (ôps!) Bergamo na Folha de hoje. É daquelas entrevistas antológicas! E a resposta que o senador deu à sua mulher é algo para ficar registrado nos anais da República! Reparem que não foi uma resposta qualquer. Há conteúdo aqui! Há um peso muito especial nesta resposta! Que o leitor tire suas conclusões. Nunca antes nesse país...
“CASAMENTO "Eu sofri muito quando eu soube [do relacionamento do marido com Mônica]. E eu soube por outras pessoas, por cartas anônimas, não por ele. E comecei a perceber que ele estava triste, angustiado, não conseguia dormir direito. Um dia, eu falei: "Nan, eu quero que você me conte a verdade para que eu possa te ajudar". E ele me contou tudo. Eu perguntei: "Nan, você quer ficar com essa pessoa?". Ele falou: "Eu quero você. Você é a mulher da minha vida. É a minha companheira". Eu o perdoei. E, aconteça o que acontecer, nós vamos estar juntos, como estamos há quase 29 anos, desde os meus 17 anos. Eu sou uma mulher como milhões e posso não fazer diferença para os outros. Mas, para ele, eu sei que eu faço. Hoje mesmo, eu ia saindo de casa, ele me chamou e disse: "Ei, não vai me dar um beijo?"."”
Fonte: entrevista de Verônica Calheiros a Mônica Bergamo in Folha de São Paulo, 29/10/2007.
Escrito por Leonardo Ferrari às 11h36
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
ENQUANTO ISSO LÁ PELAS BANDAS DE ROSÁRIO DO SUL...

E é chegada aquela hora da vida em que ao se deparar com a Teiniaguá, após vencer as sete provas e ganhar a possibilidade de fazer uma de sete escolhas, pode-se fazer como Blau Nunes e pedir a oitava, aquela que não foi oferecida, aquela impossível, aquela louca, aquela fora de propósito, aquela irrealizável, aquela sonhadora, aquela que ele teve a coragem de fazer, teve a arrogância de tentar, teve a ousadia de não se conformar:
“- Teiniaguá encantada! Eu te queria a ti, porque tu és tudo!...És tudo o que eu não sei o que é, porém que atino que existe fora de mim, em volta de mim, superior a mim...Eu te queria a ti, teiniaguá encantada!...”
Fonte: Simões Lopes Neto, “A Salamanca do Jarau” in “Lendas do Sul”. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2002, p. 93.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h28
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
IMPERMANÊNCIA

Ana Maria Bahiana escreveu um lindo depoimento no Globo sobre o que significa viver em Los Angeles. Não sei se gostei mais desse império da impermanência que ela fala ou do elogio à Hollywood que permeia todo o texto. Também amei esse espírito da cidade que o fogo não consegue destruir. Quantas cidades conseguem ter isso? Aliás, essa chuva de sapos do inesquecível Magnólia é, para mim, a síntese da cidade. Los Angeles é essa chuva de sapos – poética e catastrófica, dia dos sem juízos que ali teimam em ficar, teimam em não esperar, teimam em persistir na fantasia. Lembrei também do maravilhoso “L.A. Story” do Steve Martin, que é simplesmente magnífico. Há uma leveza nesse poema que é algo absolutamente raro. Raríssimo.
“Seca, fogo, inundação, desabamentos, com terremotos pelo meio. Como alguém pode viver num lugar assim? Los Angeles é um império da impermanência. Tudo muda, tudo está preparado para sua mudança. Tudo é um pouco cenário, bonito mas sem que se invista muito em sua permanência. A destruição iminente de Los Angeles já foi descrita, sonhada, imaginada em detalhes e filmada, em geral pelos seus próprios habitantes. No romance O Dia do Ganfanhoto, de 1939, de Nathaniel West – uma das mais perfeitas traduções de L.A. – o alter ego de West, Tod Hackett, um diretor recém-instalado na cidade, imagina incessantemente o que deve ser sua obra-prima, um grande e violento mural que ele quer intitular “O Incêndio de Los Angeles”. Nas sete décadas seguintes, L.A. foi sucessivamente pulverizada por terremotos gigantescos e subseqüentes vulcões, em filmes como “Terremoto” e “Volcano, a Fúria” e em livros como “The Late, Great State of Califórnia”, de Curt Gentry; visitada por uma variedade de alienígenas hostis (incluindo zumbis, abelhas assassinas, russos comunistas e japoneses durante a Segunda Guerra mundial), incendiada inúmeras vezes, ocupada por hordas de malfeitores. Choveram sapos sobre ela no filme “Magnólia”, de Paul Thomas Anderson, e robôs gigantescos destruíram o centro da cidade em “Transformers”, de Michael Bay. Em “The year of the jackpot”, de 1952, o escritor Robert Heinlein consegue destruir Los Angeles várias vezes, com uma super-seca, um terremoto, um ataque nuclear, uma epidemia de peste bubônica, uma invasão soviética e o ressurgimento de Atlântida. Viver constantemente ao lado de catástrofes reais e previsíveis gera esses pesadelos. Ir ao encontro deles de olhos abertos faz dessas sombras uma confortadora catarse. Porque esta terra amarga também é a terra do leite e mel dos livros de John dos Passos e Steinbeck. (...) Mas o sul da Califórnia sabe sonhar: construíram-se aqui os recursos e os métodos para transformar em algo novo, entre arte e comércio, esse ciclo de horrores. Essa é uma das forças secretas desse lugar. É o que o torna, de fato, inquebrantável. (...) Porque o espírito de uma cidade é algo impossível de ser substituído. As feridas ficaram abertas um bom tempo e, para quem sabe olhar, as cicatrizes ainda estão lá. Mas as raízes que esse povo teimoso cismou de criar nesse lugar improvável são boas. Olhem as fotos do incêndio, de novo: o fogo não leva esse espírito.”
Fonte: Ana Maria Bahiana in A Serpente de Fogo Avisou, O Globo, 28/10/2007.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h28
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
 |
| [ ver mensagens anteriores ] |
|
 |


|
 |