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REGRESSO

The Arch of Hysteria de Louise Bourgeois na Fundación Miró, Barcelona. Fotografia de Carmen Secanella in El País, 26/10/2007.
Querido Leonardo,
Volte. As horas de dor desde a tua partida marcaram tudo ao meu redor. Volte. Lembras da nossa Barcelona? Pois é para lá que quero regressar contigo. Lá chegou nossa amiga Louise Bourgeois na Fundação Miró com esse arco da histeria que é o meu, Leonardo, é o nosso retrato, é a vida num sopro, que te procura e que me nomeia. Sabes por que Louise parece ter tirado a cabeça desse corpo? É porque esse corpo transtornado, esse corpo alquebrado, esse corpo desmembrado, é o meu corpo depois de ti, é o que eu restei. Só eu? Não, são nossos restos aí – porque eu não sou mais eu e eu sei que você não é mais você. Nós somos essas sobras, nós somos esses pedaços impossíveis de juntar. Querido, vinte anos não são nada. Eu perdi a cabeça, isso é tudo. Foi quando te vi pela primeira vez nessas ramblas agora entristecidas, agora pálidas? De que me adianta Colombo ali do alto, se nossa América não é aquela? Eu quero é a tua navegação, aquela que me levou pelos contornos daquele parque sinuoso, torto, colorido, aquela que quebrou aquelas quatro pernas não uma, mas duas, três, quatro, quarenta vezes – não é isso um mosaico? Esse ponto de partida, você levou. Se agora eu volto, é para te dizer que sempre se volta ao primeiro amor, sempre. Você foi esse errante estrangeiro, de uma língua a outra, essa sombra que me cobriu dos pés à cabeça, essa sombra que me guiou nessas velhas ruas, que me fez te esperar naquela esade labiríntica e nessa velha catedral gótica – o sim que não veio, o ficar que não pôde ser dito, o voltar que tomou conta de ti. E eu vivo agora disso, eu vivo com a alma aferrada a essas doces recordações. La pedrera do nosso encontro, de nosso esbarrão, la boqueria, era o que tu queria, la boqueria, enquanto que tudo o que me passava pela cabeça era uma linda e sagrada família. Desencontro? Tenho medo do encontro com o passado que volta nessa montanha mágica que subimos, você como Hans Castorp, e eu como Clawdia Chauchat – mas aí já não estávamos em Tibidabo, caímos direto em Davos-Platz, adoecemos desses pálidos reflexos do que poderia ser – e tudo foi tão maior que isso, e tudo foi tão diferente. Eu pareço aquela outra de Ítaca, a esperar fiando, a esperar desfiando. Quero te dizer, volte. Quero te dizer – e só consigo com a nossa estrela, que el viajero que huye, tarde o temprano detiene su andar...Y aunque el olvido, que todo destruye, haya matado mi vieja ilusión, guardo escondida, Leonardo, uma esperanza humilde que es toda la fortuna de mi corazón. Volver, querido, volte, devolva, retorne.
A sua, a minha, a nossa Penélope.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h06
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SOLIDARIEDADE

Fonte: Marco Aurélio in Zero Hora, 25/10/2007.
Duas solidariedades em conflito. Na primeira, Marco Aurélio demonstra a lógica fálica em ação, ou seja, o meu incêndio é maior do que o seu ou o que é o poder da natureza perto do meu? Já na segunda, o francês Frederick Deligne apresenta um inusitado pedido de ajuda daquele tão completo para quem está do outro lado do muro, para os faltantes que se encontram fora do sonho norte-americano. Sensacional! É o que Lacan denominou de falta no Outro.

Fonte: Frederick Deligne in Nice-Matin, França, 25/10/2007.
Escrito por Leonardo Ferrari às 05h51
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ESCUTAR AS VOZES DO MUNDO

“Eu me levanto às cinco da manhã e vou passear pelo deserto. Isso me faz muito bem para eu manter uma certa distância diante da grandiloqüência de algumas palavras (nunca, para sempre, jamais).”
Amos Oz, ontem, em Oviedo, Espanha (citado por J.A. Rojo e I. lafont in El País, 24/10/2007).
O indispensável El País faz hoje uma belíssima homenagem a esse magnífico escritor israelense, Amos Oz. Quem escreve sobre ele é o escritor espanhol Gustavo Martín Garzo. Traduzo o final do artigo, maravilhoso:
“Os livros de Amos Oz estão cheios de meninos e meninas que não deixam de pedir o tempo todo. Pedem palavras às coisas; pedem aos seres que desejam que eles nunca os abandonem; pedem aos animais que regressem do bosque. Pedem aos vestidos que voem ao seu redor, pedem aos sorvetes que iluminem os seus lábios, pedem à água que lhes dê pé e pedem às suas peles o aroma das flores. É o que fazia Orfeu. Ia pelos caminhos e, ao tocar sua lira, as árvores inclinavam seus galhos para oferecer-lhe seus frutos, os pássaros deixavam de voar e as ovelhas levantavam suas cabeças para observá-lo. Tudo isso porque ele lhes havia pedido que ficassem atentos.
Escrever também é pedir. A escrita é uma máquina de pedir desejos. Cada palavra, cada frase, são pequenas súplicas. Com elas viajamos pelo mundo real, mas também pelo tempo, buscando transformar a arena do passado em um punhado de pedras preciosas. Esse é o poder das verdadeiras histórias, o de criar um lugar onde se possa escutar as vozes do mundo. As vozes das fontes e dos rios, dos bosques e dos animais. As vozes dos viajantes e dos que vivem em nosso lado. E para fazer isso, é preciso se esquecer de si mesmo, dispor-se a receber não o que já temos e é nosso, mas sim aquilo que nunca nos pertenceu. E assim tudo floresce, porque, como diz o poeta israelense Yehuda Amijai, “aonde temos razão, não crescem as flores”. Um livro é uma tenda, é um lugar onde aprendemos a pedir. Amos Oz criou com seus livros um lugar assim. Seria uma pena que passassem por ele sem perceber isso.”
Fonte: Gustavo Martín Garzo in Amos Oz en su tienda de palabras, El País, 25/10/2007.
Escrito por Leonardo Ferrari às 05h44
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PERIFERIA

Querida Regina Casé,
Seu Central da Periferia é a coisa mais inteligente que vi na televisão nos últimos anos. É brilhante, inteligentíssimo e transforma a câmara em uma escuta, a escuta da diversidade, a escuta do estranho, a escuta do bizarro, a escuta do desejo. Parabéns. Também quero parabenizar ao diretor geral do programa, o Estevão Ciavatta pelo artigo-anúncio do programa na Folha de domingo. Lá ele publica o depoimento desse indispensável José Eduardo Agualusa, escritor de Angola. Lá pelas tantas, Agualusa fala sobre a festa:
“Há cidades que não se distinguem, não têm propriamente uma alma, ou, pelo menos, não têm uma força, um poder. E há cidades com uma energia, com uma personalidade forte. É o caso de Luanda. Pode-se odiar imediatamente, ou pode-se amar, mas não se consegue ser indiferente. É uma cidade com uma enorme energia, uma vibração, uma alegria também, mesmo na dor, mesmo no drama, mesmo sabendo-se que a maior parte das pessoas vive muito abaixo dos limiares da pobreza, mas mesmo essas pessoas estão em festa. A minha imagem de Luanda é essa vitalidade e essa permanência da festa, do ritmo, da música. As pessoas acham geralmente que festa é uma alienação, que fazer a festa é esquecer a luta para superar a pobreza. Eu acho que fazer a festa é também um ato de insurgência, de rebelião e é, sobretudo, uma exaltação da vida, de estar vivo não obstante todas as contrariedades. Tem um personagem, acho que é do “O Ano em que Zumbi tomou o Rio”, que diz, “o pessimismo é um luxo dos povos felizes”. As pessoas que vivem situações de carência não têm tempo para serem pessimistas, e insisto nesse aspecto, a festa é também uma instituição de resistência, é uma exaltação da vida: “Caramba! Continuamos vivos, mesmo havendo quem nos queira mortos!”. Então, eu vejo a alegria, a festa, como um grande ato de subversão. É muito perturbador, atenção! Porque se você pensar bem, nenhuma sociedade totalitária convive com a festa. Se há algo comum aos ditadores, incluindo os grandes ditadores africanos, é uma opção pelo cinzento e pela ausência do riso, a aversão à alegria, a aversão ao sexo, ao carnaval. Então eu acho exatamente o contrário, acho que o carnaval, a alegria, a festa, o samba são manifestações antitotalitárias.”
Fonte: depoimento de José Eduardo Agualusa a Estevão Ciavatta in anúncio do Central da Periferia, Folha de São Paulo, 21/10/2007.
Querida Regina, pois eu acho que você é essa festa, essa alegria, esse carnaval, esse sexo em nossa televisão. Muito obrigado por mais esse programa absolutamente brilhante, imprescindível e magnífico. A vida com você resplandece!
Escrito por Leonardo Ferrari às 05h46
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A ESCOLHA DO FOGO

Adelfa Volpe me lembrou Jean Cocteau. Certa vez, numa entrevista, perguntaram a ele o seguinte: “e se essa casa começasse a pegar fogo agora e você só pudesse levar uma coisa consigo, o que escolheria?”. Cocteau respondeu sem hesitar: “Eu levaria o fogo”. Adelfa Volpe escolheu o fogo. Adelfa Volpe escolheu vivê-lo em cada momento e em seu louvor ela espalhou seu canto e derramou seu pranto, e quem sabe pôde dizer dele que foi infinito enquanto durou. Ela o levou. Ela não quis levar a casa, o carro, ela não quis levar o cofre, a reputação, ela não quis levar a sociedade, a integridade. Não. Ela não quis levar a saúde, ela não quis levar a normalidade. Ela ficou com o fogo. Louca, maluca, histérica, desavergonhada, descontrolada, burra. Ela escolheu o fogo. Perigosa, mau exemplo, desfrutável, desequilibrada. Ela só quis o fogo. Irracional, sem bom senso, vai ser enganada, trouxa, não pensa nas conseqüências. Ela e o fogo.
O fim de um romance inusitado
Morre idosa argentina casada com jovem de 24 anos
Zero Hora, 23/10/2007
Durou pouco o relacionamento pouco convencional de uma senhora de 82 anos e um jovem de 24 anos, que despertou a atenção na Argentina.
Adelfa Volpe, 82 anos, morreu no domingo em um hospital de Santa Fé. Ela ficou conhecida em 28 de setembro, ao se casar com Reinaldo Waveqche, 58 anos mais novo.
Segundo um porta-voz do Hospital San Jerónimo, Adelfa morreu por volta da meia-noite de domingo (1h de ontem em Brasília), depois de sofrer arritmia cardíaca e dores no peito. A idosa, que retornou recentemente da lua-de-mel no Rio de Janeiro, havia sido internada na quarta-feira em Santa Fé para fazer exames antes da próxima viagem prevista do casal, para a Espanha.
No sábado, ela sofreu um derrame. Os argentinos se casaram no civil em Santa Fé e posteriormente receberam uma bênção na Basílica de Guadalupe. Adelfa convidou o jovem a morar em sua casa depois que a mãe dele - que era sua amiga - morreu, mas a relação "mudou com o tempo", segundo ela. Eles namoraram por seis anos antes de se casarem.
Após o casamento, ambos declararam que "não se importavam" com a diferença de idade. Apesar dos rumores da mídia argentina, Waveqche negou que tenha se casado por interesse financeiro.
- É o amor que nos une, não interesses materiais. Se quisesse algo material dela, eu teria. Adelfa não tem filhos. Não tem ninguém, sua única família sou eu - afirmou.
O jovem viúvo terá direito aos rendimentos que Adelfa recebia como aposentada e à casa própria que ela deixou como herança. Waveqche havia dito que ficaria "de coração partido" se a idosa morresse.
- Não vou me resignar e pensar que vou perdê-la. Estou rezando por ela - havia declarado o marido.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h42
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QUANDO A PALAVRA APRISIONA

Miguel Rep brindou os leitores do Página 12 com uma entrevista belíssima do psicanalista argentino Jorge Alemán, autor, em conjunto com Sergio Larriera, de “Exsistencia y Sujeto” (Málaga: Miguel Gómez Ediciones, 2006 ou pela Grama editora, Buenos Aires, 2007). Isso numa segunda-feira de manhã é o que se chama de epifania. É para ler, recortar, guardar, emoldurar na parede, recitar em praça pública. Traduzo um trecho:
“(...) esses dois pensadores [Heidegger e Lacan], desejavam sair do âmbito onde eles se haviam constituído como pensadores. Heidegger queria atravessar a filosofia e Lacan queria levar a psicanálise à um novo lugar, ou ao menos a um lugar aonde Freud não conseguiu, a uma espécie de “novo nascimento” à respeito do que significa ler e escrever. Subitamente eu entendi isso. Entendi que o mundo estava feito de filosofia, no sentido de Heidegger, quer dizer, a filosofia está presente até na modulação mais simples da vida cotidiana, quando falamos de nós e dos outros, dos objetos e da nossa história, e isso já não é mais uma mera questão filosófica. Pensar que a filosofia está em relação com a fala comum, a experiência sensível e a vida cotidiana, eu devo isso a Heidegger. Mas eu devo a Lacan a idéia de pensar as conseqüências disso, ou seja, que toda a nossa relação com a palavra é uma relação que tende a favorecer o adormecer ou o despertar em meio à força de não despertarmos. É o que em Heidegger seria a metafísica; ele fala retroativamente, inventa e se engana à respeito de seus fundamentos. Mas isso em Lacan seria já comprovar que as invariantes da significação que se sustentam na fala comum formam parte de uma construção fantasística que inclui o sujeito do inconsciente. Nos dois há uma grande devoção à palavra, mas também uma grande suspeita. O que permitiu uma conexão foi isso: que a fala brinca em nós, que somos mais falados do que falantes, e que, por paradoxal que seja, nós somos responsáveis disso; resulta então inevitável nos perguntarmos o que é que fazemos com isso, porque não basta dizer, como acreditam alguns filósofos, que estamos atravessados pela linguagem. E, como eu te dizia antes, o que mais me impactou nisso tudo, talvez pelas minhas experiências pessoais com a poesia, é o enorme respeito pela palavra, a idéia que ambos têm de que a palavra é o único meio para avançar na vida, sobre a própria existência e sobre a realidade. A idéia de que toda prática, toda tentativa de transformar a realidade, estão armadas com palavras, e talvez a suspeita sobre a palavra, quer dizer, a clara convicção de que isso tem um limite e que a palavra pode ser justamente a via para adormecermos ou para levar-nos a uma domesticação que excede o disciplinar e introduz um controle próprio dos sistemas de saber-poder contemporâneos. A palavra pode ser a maneira de nos encerrarmos e nos aprisionarmos em um campo de significações que já não nos permita pensar nada de novo.”
Fonte: entrevista de Jorge Alemán a Miguel Rep in Página 12, 22/10/2007.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h04
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UM RACISTA SOLTO NO LABORATÓRIO

Fonte: O Globo, 18/10/2007.

Fonte: O Globo, 21/10/2007.
Qual a melhor resposta para essa imbecilidade, essa declaração racista e fascista deste que é considerado um dos “maiores” cientistas da atualidade, prêmio Nobel de Medicina em 1962? No Globo de hoje, Arnaldo Bloch coordenou uma belíssima resposta na imprescindível “Logo” do jornal. Magnífica resposta. Bloch escreveu – deixando bem claro que faltaria papel para escrever todos - o nome de negros e descendentes de negros que fizeram e continuam fazendo com sua inteligência aquilo que se chama cultura, humanidade e civilização. O avesso do pensamento deste totalitário repugnante chamado James Watson. Eu não concordo com o professor Sergio Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais que afirmou que ou Watson está gagá ou que quer aparecer. Não. Watson demonstra perfeitamente o problema maior da ciência: a ausência da ética. É por isso que a política é vital nesse campo. A ciência deixada sozinha no laboratório degenera. Ciência sem ética é um monstro atirando para tudo que é lado. Como controlar esse Frankenstein?

Fonte: Arnaldo Bloch in O Globo, 21/10/2007.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h32
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