Blog do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba (PR) leobelferrari@uol.com.br


NAPOLITANA

“A primeira vez que nos vimos, olho no olho, foi como se nos conhecêssemos desde sempre”.

 

Sophia Loren sobre seu primeiro encontro com Marcelo Mastroianni, citado por Maria Pia Fusco in La Repubblica, 20/10/2007.

 

         Lembranças da Itália sem Sophia Loren não são lembranças da Itália. Ontem, homenageada no Festival de Cinema de Roma, Sophia Loren falou. Basta isso. Deixar essa mulher falar.

 

“Eu nasci em Roma por acaso, eu sou é napolitana!”

        

         Maravilhosa. O que significa ser napolitana? Significa fazer “Matrimônio à Italiana” (1964) de Vittorio De Sica, um filme belíssimo, de um carinho, de uma singeleza, de uma bondade infinitos. Sophia Loren é ali Filumena Marturano, magnífica. É o seu filme predileto (e também o meu). O que ela faz com Marcelo Mastroianni neste filme ajuda a entender esse olho no olho, esse conhecimento desde sempre. É algo único na história do cinema, é algo para se rever todos os dias, é algo para se guardar no canto mais precioso da memória. Inesquecível!

 

         “Totò me viu num estúdio de cinema, eu havia chegado há pouco a Roma, estava um pouco pálida. ‘Tem fome?’, me perguntou. ‘Fome propriamente não, mas posso comer qualquer coisa’. Ele então me presenteou com cem mil liras. Pela primeira vez me senti rica”.

        

         E aí essa lembrança de Totò, esse outro napolitano incrível, generoso, querido. Reparem que, famoso, Totò se dirige a uma esquálida desconhecida e oferece ajuda! É a melhor síntese desse homem que foi Totò. E a resposta de Sophia Loren é a melhor síntese dessa mulher, aberta para o outro, aberta para essa baía de Nápoles aonde se encontra, ali pertinho, o Vesúvio. Não. Aonde se encontra, dentro dela, o Vesúvio. Em erupção para sempre.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h19
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CARTA DE UM JOVEM DE 88 ANOS

Fonte: La Repubblica, 18/10/2007.

Nello Ajello trouxe ontem no La Repubblica uma carta que esse magnífico pensador italiano, Norberto Bobbio, escreveu a seu amigo Giuseppe Tamburrano, no momento em que este saía do Partido Comunista Italiano em direção ao PDS (Partido Democrático da Esquerda). A data da carta é de fevereiro de 1997. Bobbio estava então com 88 anos de idade. Velho? Se esse era o tempo cronológico de Bobbio, qual era o seu tempo lógico? Traduzo o seguinte trecho para pensar:

 

“Antes de mais nada, me parece óbvia a observação de que o homem não vive só do mercado. O campo do mercado é aquele das trocas de bens, que caracteriza o homem enquanto “econômico”. Mas cada um vive neste campo apenas uma parte, muito pequena por sinal, de sua vida. Na maior parte de seu caminhar pela vida, o homem vive em “modos de existência” que o mercado não entra. Na família, por exemplo, as relações entre suas partes não são relações de mercado. Assim também na escola, as relações entre professores e alunos não são relações de mercado. A mesma coisa, para diversas pessoas, no campo da religião. Do mesmo modo, de indiscutível importância, no campo das amizades. São todos campos em que as relações entre os indivíduos não são relações de trocas mas, principalmente, relações de doação. É inútil descrever mais sobre isso, pois é evidente a sua relevância e a riquíssima bibliografia que trata disso. São nesses campos de relações, que não tem nada a ver com relações de mercado, que se formam os indivíduos no âmbito de uma convivência humana. Ora, mesmo as relações no mercado se desenvolvem mais ou menos corretamente segundo a qualidade moral dos indivíduos que participam dele, qualidade esta que se forma – que pode se formar – não no campo do mercado, o qual, antes de mais nada, o pressupõe para funcionar. Para dizer sucintamente, o mercado precisa de pessoas que confiem umas nas outras para funcionar, ou seja, ele precisa de pessoas leais. A lealdade é uma qualidade moral que depende de um certo tipo de educação, que depende do modo como um indivíduo singular vive, cresce e se desenvolve nesses outros campos que não o mercado. Eu percebo agora que estou pensando um tema que necessita de outros desenvolvimentos. Mas, a relação entre ética e mercado, e o problema em geral dos limites ao mercado, é um tema que a esquerda não deve deixar de abordar com argumentos sempre mais desenvolvidos. Que o mercado deve ter limites éticos, todos sabemos disso.(...) Quais são os critérios que devem orientar esses limites? Não se pode esperar que eles venham do mercado. O mercado, e é necessário deixar isso bem claro, não tem moral. Então, quem tem o direito e o dever, e também o poder, de colocar esses limites? (...)”

 

Fonte: Nello Ajello in Il Filosofo e lo Storico Dialogo sulla Política, La Repubblica, 18/10/2007 e  Norberto Bobbio in Quel che la Sinistra deve dire sul Mercato, La Repubblica, 18/10/2007.



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h30
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O FOGO DA FANTASIA

Lorenzo Mattotti in The New Yorker, 22/10/2007.

Eu proponho ao Príncipe da Satisfação e à Açúcar que se deixem levar por Lorenzo Mattotti, esse gênio italiano maravilhoso, esse artista estupendo, esse humano, demasiado humano. Lorenzo Mattotti nos cativa aqui pelo poder da máscara. Não é fácil desenhar uma fantasia – quanto mais falar dela. É ótimo que esse casal seja da Bósnia-Herzegovina, região simbólica na história da psicanálise, pois foi exatamente passando por lá, que Freud cometeu o ato falho magnífico do “Signorelli” – está no v. VI das Obras Completas, primeiro capítulo da inesquecível “Psicopatologia da Vida Cotidiana”. Ora, o que esse casal descobriu subitamente é que as fantasias são fundamentais. Sem elas, vida não há. Outro exemplo disso é o comentário de Francesco Merlo (anteontem neste blog) de que ao cair a ideologia, subiu o consumo de álcool na Itália. Sem fantasias, é o pior. Proponho ao Príncipe da Satisfação e à Açúcar que não se separem. Traição? Ora, na fantasia somos sempre traidores. Separação? Mas isso é um final neurótico demais. Pelo contrário. Agora é que começou a ficar bom. Há uma quarta-feira de cinzas para vários dias de carnaval. Por que viver só nas cinzas?

16/10/2007 - 09h16
Casal se divorcia após descobrir que estava junto na vida real e na virtual

Belgrado, 16 out (EFE).- Um casal com problemas conjugais foi buscar refúgio na internet e acabou se apaixonando no mundo virtual, mas esta coincidência não impediu que se separasse na vida real. Devido aos problemas no casamento, os dois iniciaram contatos pela internet, sem saber de suas identidades, e se apaixonaram após trocar algumas mensagens.

Segundo a edição de hoje do jornal sérvio "Zabavnik", eles não podiam mais se imaginar sem o apoio que davam um ao outro conversando sobre os problemas que sofriam. Ele começou a chamá-la de "Açúcar", e ela lhe deu o apelido "Príncipe da Satisfação".

Quando a relação se tornou séria, eles decidiram se encontrar, e então cada um descobriu que seu par na internet era aquele com quem brigava todos os dias, e que, na prática, não se dirigia a ele com apelidos carinhosos. O casal decidiu se separar, ao alegar traição.

O jornal assegura que se trata de um casal da cidade de Zenica, no centro da Bósnia-Herzegovina, e propõe aos psicólogos explicar como um marido e uma mulher que não se entendem na vida real podem se apaixonar na virtual.

Fonte: UOL – Últimas Notícias.



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h34
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DADINHO É O CARALHO...

Essa é do imprescindível Ancelmo Gois:

 

“Tropa não agradou

         A polêmica persegue “Tropa de elite”. Dois ladrões que assistiam ao filme domingo à noite na Casa Laura Alvim, em Ipanema, saíram no meio, disseram que o filme “é uma droga”, renderam o gerente e limparam a bilheteria.”

 

Fonte: Ancelmo Gois in O Globo, 17/10/2007.



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h31
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EM TEUS SEIOS

Fonte: Marco Aurélio in Zero Hora, 17/10/2007.

 

         Marco Aurélio mais uma vez. Marco Aurélio sempre. É pilastra-mor, é daqueles sujeitos absolutamente indispensáveis. Deveria ser estudado dos jardins de infância até os pós-pós-doutorados. Seu cartum de hoje é daqueles antológicos. Brincando com o “sucesso” do filme “Tropa de Elite”, Marco Aurélio nos brinda com esse inusitado “Deleite” que, sobre a forma dos dois seios de Niemeyer pode virar “de leite”, para mamar, mas também o “deleite”, que, no magnífico Houaiss, tem a etimologia do latim “delecto”, “atrair com afagos, afagar”, “atrair com agrados, mimar” e “enlaçar, enredar”. Logo, esta tropa está enredada, enlaçada num deleite, no prazer de sugar sem parar o doce leite da pátria amada, deitada em berço esplêndido, mãe gentil. A tropa agradece. Faca na caveira?



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h39
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QUANDO A REPRESSÃO NÃO É FASCISMO

Fonte: O Globo, 16/10/2007.

  

Francesco Merlo escreve no La Repubblica sobre uma tragédia italiana e bem brasileira. Numa época em que falar de repressão causa urticária, vale a pena traduzir integralmente:

 

“Quando o álcool se transforma em ideologia – Francisco Merlo, La Repubblica, 16/10/2007.

 

Finalmente as estatísticas da polícia descobriram o álcool. Elas indicam 35.620 motoristas bêbados na Itália nos nove primeiros meses de 2007 e confirmam o crescimento exponencial dessa “nova” emergência. Na realidade, nós todos já sabemos que, ao menos de duas gerações para cá, os jovens se embebedam. O álcool é para eles o que para nós foi a ideologia. Nós nos embriagávamos de palavras, de excessos políticos, metíamos os pés pelas mãos (nos melhores dos casos). Eles, se embebedam de drogas leves e de cerveja e vinho (nos melhores dos casos). Mas, a vontade de se exceder é a mesma. Na Itália, diminuiu o nível de ideologia enquanto que aumentou o nível de álcool no sangue. Pois bem, antes que se difundam alguns conselhos e uma pedagogia sociológica, nós adultos, que não fomos melhores do que eles, temos o dever de impedir para prevenir e de prevenir para impedir. Reprimir os perigos desse mal-estar que os jovens desejam exaltar fazendo-se mal e fazendo o mal, significa controlar, prender, cassar a carteira de motorista, fazê-los pagar caro. A idéia de que a banalidade seja reacionária é de uma estupidez infinita. Reprimir os jovens que ensangüentam nossas estradas não é fascismo, mas sim educação. E se o problema na Itália não é o álcool, mas sim a polícia?”

 

Fonte: Francesco Merlo in La Repubblica, 16/10/2007.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h37
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HÁ MUITO TEMPO, NUMA GALÁXIA MUITO, MUITO DISTANTE...

Fonte: Marco Aurélio in Zero Hora, 15/10/2007.



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h00
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DIFEROCRACIA

O Globo do Rio criou uma nova seção do jornal muito boa chamada “Logo – a página móvel”, que se movimenta pelo jornal – não tem caderno fixo, não tem um único lugar de referência, não trata das mesmas coisas. É até um prenúncio do que pode se transformar esses dinossauros dos jornais ainda presos ao tempo do Êpa.       

Hoje, Arnaldo Bloch foi entrevistar o psicanalista Magno Machado Dias, o MD Magno. Magno trouxe ar para a psicanálise mundial. É autor de trabalhos clássicos na psicanálise como o maravilhoso “O Pato Lógico” (editora aoutra, Rio, 1986), coordenador da belíssima Revirão (Revista da Prática Freudiana, editora aoutra, Rio, 1985), autor do imprescindível “O Porre e o Porre de Quincas Berro D’Água” (aoutra editora, 1985) sobre o alcoolismo, entre outros seminários e livros editados. Magno traduziu também o Seminário XX de Lacan, uma tradução absolutamente impossível de ser feita e lá está toda a ousadia das criações de Magno em cima do “original”. Eu lembro bem duma época “séria” das “instituições” de psicanálise (e que, por incrível que pareça, continuam “sérias”) e de repente lá estava Magno no Colégio Freudiano do Rio de Janeiro debatendo o desejo com Joãozinho Trinta! Essa abertura, essa porosidade, ninguém perdoou. Logo tacharam Magno de “maluco”, “delirante” e de “obtuso” (essa é de Jacques-Alain Miller, genro de Lacan que não gostou nada do estilo de Magno).  Ora, quem é que não fala besteira de vez em quando? Quem é que não escreve bobagem uma hora e outra?

 

“O inconsciente é capitalista – Foi Lacan quem disse que o inconsciente é capitalista. Infelizmente é verdade. Não estou dizendo que numa sociedade marxistas o sujeito não possa se analisar. Mas, se o fizer, descobrirá, fatalmente, que é a estrutura da própria mente que gera o capitalismo. Em vez de lutar contra, o caminho é ver como se vai organizá-la para o bem comum.”

 

“A síndrome do rolex – Luciano Huck foi tolo. Se roubarem meu relógio posso sentir pena, ficar feliz de não ter levado tiro, mas não vou fazer um escândalo nacional. Também não vou dizer que roubou porque é pobre. Claro que se a desigualdade é menor, a violência arrefece. Mas tem gente que rouba porque gosta de roubar. O povo do Congresso, por exemplo, não é pobre mas rouba. Na probreza ou na riqueza, há quem se conforme com suas limitações, e há quem não se conforme.”

 

“Elite e intelectualidade brasileira – (...) Eu, por exemplo, sempre estive, há trinta anos, dizendo as mesmas coisas e levando porrada. Aí quando fui analisado por Lacan, e lecionei na Universidade de Paris no departamento dirigido por ele, virei o máximo.”

 

“A democracia não existe – Na verdade, nunca existiu na prática. A democracia é só um horizonte. O que predomina é a vontade de poder e suas injunções. O debate político se dá sem qualquer fundamento. Dizem que a democracia é o pior regime, à exceção dos demais. Pode ser. Mas sua sacralização impede que admitamos um passo seguinte, uma evolução. O que é “maioria” ou “vontade geral”? Se a vontade geral impuser uma monstruosidade, fica por isso mesmo? Isso é definitivo?”

 

“Saída é a “diferocracia” – Trata-se de um outro horizonte, que na verdade já está aí. Em vez de maioria ou vontade geral, prevalece o cuidado de cada um diante do próprio sujeito, a identidade de cada um em relação ao seu ser, independentemente de suas relações com o mundo.(...)”

 

“O jeitinho brasileiro do bem – Não é que as leis tenham que ser abertas. É que não pode haver só vencedores e perdedores. O jeitinho brasileiro, por exemplo, é um talento enorme para arrumar as coisas. São pequenos tribunais informais. Costuma-se associá-lo à safadeza. Não é. Uma institucionalização seletiva do jeitinho é um instrumento poderoso para a diferocracia prosperar.(...)”

 

“Moças numa livraria e o futuro da psicanálise no Brasil – Outro dia entrei numa livraria e vi uma moças de 20 e 30 anos, nas prateleiras de psicanálise. Uma delas pegou um livro meu e disse: - Esse cara é maluco, maluco. Imaginem só, ele tem a própria teoria dele...Uma colega, razoável, quis saber: - Mas o que a teoria dele diz? – Ah, sei lá. Tenho anotado num caderno lá de casa. – Assim são nossos futuros profissionais: estudam uma psicologiazinha, entram numa instituição psicanalítica na Zona Sul e amanhã abrem um consultório onde ficam repetindo frases de Lacan sem sequer imaginar o que significam”.

 

Fonte: entrevista de MD Magno a Arnaldo Bloch in O Globo, 14/10/2007.



Escrito por Leonardo Ferrari às 09h17
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