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O HOMEM MAIS ORGULHOSO DA FRANÇA

Uma mulher contempla o auto-retrado de Coubert no Grand Palais em Paris. Fonte: AFP in El País, 13/10/2007.
Octavi Martí fala da retrospectiva de Gustave Coubert no museu Grande Palais de Paris. Conta Martí:
“Nunca perdoaram seu orgulho. O conde de Nieuwerkeke, enviado por Napoleão III para convencer-lhe a realizar uma obra para a Exposição Universal, se deparou com a seguinte resposta de Coubert: “Como esse governo se atreve a me oferecer algo, quando eu sozinho já sou um governo inteiro? Eu não necessito de ninguém para fazer a minha exposição. Vocês que montem o pavilhão de vocês, que eu montarei o meu”. E assim foi. “Senhor Coubert, o senhor é muito orgulhoso”, disse o conde. “Me surpreende que só agora você percebeu isso. Sou o homem mais orgulhoso da França”. E minha pintura é a mais poderosa, poderia ter acrescentado.”
Fonte: Octavi Martí in Gustav Coubert, a contracorriente, El País, 13/10/2007.
Coubert é o autor do genial “A Origem do Mundo”, pintado em Paris em 1866. A pintura foi encomendada a Coubert por um diplomata turco que colecionava imagens eróticas. Foi pendurada no apartamento dele em Paris, escondida atrás de uma cortina. Depois disso, o quadro desapareceu e foi redescoberto depois da II Guerra em Budapest. Quem o adquiriu então foi, nada mais, nada menos que o psicanalista Jacques Lacan (tinha que ser). Lacan diante da obra pediu a seu cunhado, André Masson, que fizesse uma pintura em madeira que ele instalou sobre o quadro de Coubert (como se fosse uma porta de correr), para escondê-lo. Em sua casa de campo, Lacan então se divertia com um jogo. Quando recebia um convidado ilustre, ele o convidava a ver a pintura do cunhado, para, subitamente, correr a tela e revelar a obra de Coubert (no blog New York on Time, fonte dessa história, é possível fazer isso). Os herdeiros de Lacan doaram o quadro para o Museu D’Orsay, onde hoje é o quadro mais popular. O homem mais orgulhoso da França continua incomodando.

O “tapume” de André Masson, encomendado por Lacan.

“A Origem do Mundo” de Coubert.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h52
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MEU AMIGO CHARLIE BROWN

“Era uma noite escura e tempestuosa”
“Seu novo livro tem um começo muito excitante”
“Obrigado”
“Boa sorte com o segundo parágrafo!”
Fonte: Charles M. Schulz in The New York Times, 12/10/2007.
Michiko Kakutani faz a resenha da biografia de Charles M. Schulz escrita por David Michaelis (Harper Collins, 2007). Schulz é o criador desse imprescindível Charlie Brown e sua turma (Snoopy, um cachorro que não é só um cachorro, Sally, uma irmã que não é só irmã e os incríveis Lucy, Linus, Schoreder, Patty Pimentinha e Marcie, sem falar no passarinho Woodstock, um passarinho que, é claro, não é só um passarinho). Schulz conseguiu a façanha de transformar todos os dias em dia da criança. Ler Schulz é um dos maiores prazeres que há na vida. Kakutani cita ao final da resenha este trecho do livro:
“Em dezembro de 1999, Schulz endereçou uma carta a seus milhares de leitores, anunciando o término de seu trabalho. Não haveria sucessor para continuar desenhando Charlie Brown. Dois meses depois, em 13 de fevereiro de 2000, o jornal de domingo trouxe a última tira ao mesmo tempo que trazia a notícia de que Charles M. Schulz havia falecido por complicações de um câncer de cólon. Algumas horas depois, a tira final de “Peanuts” começou a aparecer nos jornais ao redor do mundo. No fim, sua vida se misturou com sua arte. Quando ele parou de ser cartunista, ele deixou de existir.”
Fonte: Michiko Kakutani in Charlie Brown Gets the Blues, The New York Times, 12/10/2007.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h04
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ENQUANTO ISSO EM PORTO ALEGRE...

Fonte: Marco Aurélio in Zero Hora, 11/10/2007.
Escrito por Leonardo Ferrari às 15h55
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VAGÕES

Meu querido amigo Sérgio Menezes me responde em seu blog sobre essa lógica cruel e imperfeita que separa o mundo entre os poucos winners e os muitos losers. Isso me faz pensar também sobre o fascínio que o perverso exerce sobre os neuróticos – por exemplo, por que Fernando Collor de Mello teve o “sucesso” eleitoral que teve – e que continua tendo (foi eleito senador recentemente), por que Paulo Maluf continua tendo popularidade...e voto, por que Silvio Berlusconi na Itália já foi primeiro-ministro e ameaça conseguir de novo o poder, por que George W. Bush conseguiu se reeleger nos Estados Unidos, enfim, a lista é longa – nem vou citar Hitler em uma Alemanha cultíssima na época. Mas não é só na política não. E a lista desses “grandes” empresários, grandes “empreendedores”, grandes “banqueiros”, de sujeitos que passam a vida pensando em como comprar por cem e vender por duzentos (frase de Samuel Klein, fundador, “CEO” da Casas Bahia), em como emprestar cinco e receber quinhentos? A perversão é justamente esse fascínio por esse suposto “winner”, “vencedor”, que ostenta uma fachada de poder sobre a vida e sobre a morte – para o neurótico, o perverso não tem dor de barriga, o perverso não bate o carro, o perverso não perde nenhuma partida, o perverso é Deus, é o “painho”, é o mais “rico” do mundo, é o “realizador”, é o “empreendedor” do ano. Ora, Sérgio traz uma metáfora muito bonita ao dizer que enquanto o trem do perverso tem um só vagão, o trem do neurótico tem vários. Pois é. O perverso é um pobre diabo correndo sempre desesperadamente por esse a mais de gozo, esse centímetro a mais para ostentar, para mostrar, para dar a ver, sem descanso, sem parada, nesse solitário vagão de sua miséria. A miséria da perversão se chama impossibilidade – a impossibilidade de chegar nesse gozo sonhado, daí todo o patético do perverso fazendo um esforço descomunal para tentar garantir que já chegou, que já gozou. Já na neurose, de fato há como circular por vários vagões – os vagões da metonímia, inclusive deixando esse lugar de espectador do gozo perverso para tentar experimentar, nos outros vagões, o que se pode com os gozos ordinários. Fazer do ordinário uma obra e até uma obra de arte, eis o desafio da neurose. Aproveitar a viagem – mais do que esse mítico ponto final.
Escrito por Leonardo Ferrari às 05h46
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O OUTRO TREM

O meu amigo Sérgio Menezes, pilastra (!!!), publicitário e professor universitário, lançou um desafio em seu blog que é o seguinte: escrevermos um texto juntos – como se ele escrevesse o primeiro capítulo e eu o segundo. Em seu blog, Sérgio escolheu a notícia quente sobre a edição da Playboy com Mônica Veloso que esgotou nas bancas do Congresso em Brasília. Pois aqui vai o capítulo dois desta idéia genial do Sérgio.
Caro Sérgio e leitores, essa notícia me lembrou a cena inesquecível do filme “Memórias” (“Stardust Memories”, 1980) de Woody Allen em que ele está andando num vagão de trem numa direção e, subitamente, ele vê um vagão andando na direção contrária do dele, porém cheio de mulheres bonitas, homens alegres, música, uma festa só, enquanto que em seu vagão não acontece nada, não há nenhuma mulher com quem ele possa ficar e assim por diante. É uma representação maravilhosa da miséria neurótica de se acreditar que o outro sim conseguiu algo, o outro chegou “lá”, o outro tem algo que eu não tenho. Mônica Veloso é o nome desse gozo a mais, desse gozo extraordinário – não mais aquele ordinário do cotidiano (representado nesta história por aquela incrível esposa do senador) –, Mônica é o gozo que todos os neuróticos acreditam existir na vida do perverso. Ora, a absolvição deste senador se deve muito a isso. Quem foi absolvido? Não foi só o senador, mas sim essa idéia de que é possível chegar lá, nesse extraordinário lugar de uma completude total, custe o que custar – inclusive venha o dinheiro de onde vier. É toda a lógica fálica masculina em jogo aqui: quem tem o pau maior, quem come mais mulheres e, principalmente, quem fala disso o tempo todo nos cafés, nos gabinetes, naquelas infinitas reuniões – o sexo sem palavras depois, e antes, e durante, não tem graça.
Caro Sérgio, é contigo agora. Um abraço.
Escrito por Leonardo Ferrari às 05h22
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INFÂNCIA

Jean-Jacques Sempé in The New Yorker, 15/10/2007.
Escrito por Leonardo Ferrari às 05h54
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DE BRUÇOS

Fotografia de Lucien Clergue exposta in Fundación Canal, Madri, 8/10/2007.
Eros vagueia. Pegou o trem em Londres e se bandeou para Madri. Lá está ele na Fundación Canal em uma exposição magnífica denominada “Ocultos”. Trata-se de 67 fotografias sobre a bunda ou, para os europeus, o “lado B”. Belíssima exposição mas...está faltando Rita Cadillac. Uma exposição dessas sem Rita Cadillac é como um verão sem sol, é como aquela coisa mais linda sem ela que passa, é como algo sem sal, sem sabor, sem aquela pimentinha da paixão louca, da paixão absurda, da paixão tão maior, tão arrasadora, tão devastadora. Agradeço o convite e a passagem aérea enviada, mas, minhas queridas amigas madrileñas, fica para a próxima, tá? Sem a Rita eu não vou. O que é Madri sem a Rita?

Fotografia de Joan Colom exposta in Fundación Canal, Madri, 8/10/2007.

E eis aqui em todo o seu esplendor, em toda a sua ternura, esta querida, esta linda Rita Cadillac, que declarou no filme de Toni Venturi, “Rita Cadillac, a Lady do Povo” (2007): “Quando eu morrer, quero ser enterrada de bruços”. Magnífica!! Pilastra!!
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h08
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LOST IN TRANSLATION

Fonte: Iotti in Zero Hora, 7/10/2007.
E como já dizia aquele francês:
“- Todos os acontecimentos – dizia às vezes Pangloss a Cândido – estão devidamente encadeados no melhor dos mundos possíveis; pois afinal, se não tivesses sido expulso de um lindo castelo, a pontapés no traseiro, por amor da Srta. Cunegundes, se a Inquisição não te houvesse apanhado, se não tivesses percorrido a América a pé, se não tivesse mergulhado a espada no barão, se não tivesses perdido todos os teus carneiros da boa terra de Eldorado, não estarias aqui agora comendo doce de sidra e pistache.
- Tudo isso está muito bem dito – respondeu Cândido – mas, devemos cultivar nosso jardim.”
Voltaire in Cândido ou O Otimismo, Contos. São Paulo: Abril Cultural, 1980, p. 236.
O que significa “cultivar nosso jardim”? Pois o indispensável Carlos Henrique Iotti, gaúcho de Caxias do Sul e italiano de paixão, criou o mais gaúcho dos italianos, o mais italiano dos brasileiros, esse inesquecível gringo Radicci. Quem é Radicci? Em italiano, “radicci” significa “raízes”. Ora, Iotti nos traz aquelas raízes das quais se pretende sempre manter encobertas e que, no entanto, são humanas, demasiada humanas.
“O Radicci é uma caricatura do colono italiano que aportou ao sul do Brasil no final do século XIX. Verdadeiro anti-herói, faz um contraponto ao mito do italiano trabalhador, perseverante e culto: é um beberrão, vadio, grosso, machista e com péssimos hábitos de higiene.”
Fonte: contracapa de Radicci 1 de Iotti. Porto Alegre: L&PM, 2003.
A tradução que Radicci faz do postulado filosófico de Voltaire é genial. Cultivar esse jardim é com ele mesmo. Não é bem isso que Voltaire quis dizer, e no entanto, é também isso. Esse não é mais um belíssimo exemplo do dito italiano, “traduttore, traitore”, “tradutor, um traidor”?
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h54
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