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LOST IN TRANSLATION

Fonte: Donald Reilly in The New Yorker, 15/10/1990.
Escrito por Leonardo Ferrari às 06h35
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AULA MAGISTRAL

Mateus acaba de ser escolhido por este blog como o analisante [aquele que faz análise] do ano de 2007. Ontem, em cena memorável de “Paraíso Tropical”, ele disse ao amor da sua vida o seguinte:
“Querida Camila, meu amor não pode vencer o seu inconsciente. Se você esqueceu de comparecer ao cartório para finalizar seu divórcio com Fred, isso se chama ato falho. O que significa? Minha querida, eu que não sou bobo nem tongo, lhe digo: você não quer se separar do Fred. Como eu não tolero um ménage à trois, então, minha querida, adeus.”
Obrigado Gilberto Braga por esta aula de psicanálise para todo o Brasil. Não precisa citar meu nome nos créditos finais da novela. Recebi sua carta de agradecimento. De nada.
Escrito por Leonardo Ferrari às 12h33
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RETRATO DO AMOR QUANDO JOVEM
E eis aquele momento da vida em que Julieta diz:
“Você é um manual do beijo”.
Shakespeare in “Romeu e Julieta” in Retrato do Amor Quando Jovem: Dante, Shakespeare, Sheridan, Goethe. Projeto e tradução: Décio Pignatari. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 138.
Escrito por Leonardo Ferrari às 05h44
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RUMO À ESTAÇÃO ROSICLER

Fonte: La Repubblica, 27/9/2007.
Enrico Franceschini, correspondente do La Repubblica em Londres, traz a notícia de uma idéia gerada pela maravilhosa Royal Shakespeare Company em desenhar um “álbum de família” dos personagens de Shakespeare. A idéia foi passada adiante para o designer Kit Grover e para o professor da Universidade de Cambridge, Hester Lees-Jeffries, que resolveram criar isso sob a forma do mapa do metrô de Londres. Diz Franceschini:
“O único risco é o de algum turista, após ter estudado o mapa, resolva solicitar ao metrô uma linha de trem que o leve até a estação Lady Macbeth, aonde poderá trocar de trem rumo a Hamlet. Mas, para uma comédia de erros assim declarada, com certeza Shakespeare ficaria muito contente” (fonte: Enrico Franceschini in La Repubblica, 27/9/2007).
Em seguida, Nadia Fusini relembra Eliot para comentar a notícia (o La Repubblica é outra catiguria):
“Em uma inesquecível citação de Terra Devastada, o poeta americano T.S.Eliot, emigrado naquela época em Londres, faz uma elegia a esta “unreal city” [cidade irreal], envolta pela névoa de um amanhecer de inverno e à massa que entope a London Bridge [Ponte de Londres], ao lado de uma estação do metrô. Em uma clara alusão à Dante, o poeta declara: “Sob o nevoeiro pardo castanho de uma amanhecer de Inverno / Uma multidão fluía sobre a Ponte de Londres, tantos, / Eu não pensava que a morte tivesse aniquilado tantos. / Suspiros, curtos e raros, eram exalados, / E cada homem fixava os olhos adiante dos pés.” (versos 60-65). Eliot vê esses corpos como se fossem fantasmas que circulam em um comércio inquietante em cima e debaixo da terra. São almas que passam, são cadáveres que retornam para viver mais um pouco, são mortos em vida, são vivos já mortos. Tudo modos de imaginar a realidade existencial desse homem-massa (...) Descer e subir no metrô de Londres introduz os poetas em uma topografia subterrânea, que no imaginário se relaciona à lembranças míticas. É justo que assim seja. Quero dizer: não pode ser assim, pois devemos fazer familiar um gesto tão temerário como esse de entrar no ventre da Terra. Mas se hoje, em Londres, não encontramos mais Perséfone e Hades, podemos então nos deparar com outros fantasmas eternos. Londres não tem o equivalente à Piazza Verdi, Via Dante, Viale Petrarca, Piazzale Boccaccio: ela tem praças intituladas por nomes de grandes vitórias militares, como Trafalgar Square, ruas intituladas com nomes de reis, como Southampton, Oxford. E agora, nessa sincera homenagem e reconhecimento ao bardo Shakespeare, que povoou nossa imaginação com tantas criaturas inesquecíveis, é chegada a hora de descermos mais uma vez para debaixo da Terra”. (fonte: Nadia Fusini in La Repubblica, 27/9/2007).
Pois eu proponho à Prefeitura de Curitiba que implante já essa idéia homenageando este gigante chamado Dalton Trevisan. A partir de agora, teremos o trajeto estação-Nelsinho para a estação-Polaquinhas. Das polaquinhas o sujeito pode se perder na Rosicler e quem sabe se encontrar na Valquíria. Se encontrar na Valquíria? Sinto muito Londres, mas estou voltando para a minha Curitiba. Aonde mais é possível sair da Virgem Louca em direção à Rosinha? Aonde mais se pode esbarrar na Julietinha estando com a Mercedes? Arrivederci Londres!
Escrito por Leonardo Ferrari às 05h51
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ENQUANTO ISSO NO CANADÁ...

A Veja do Canadá é melhor que a Veja daqui. Eis a capa da revista “Maclean’s” que saiu essa semana no Canadá. Perfeita interpretação. O artigo do jornalista Patrick Graham analisa a recente decisão de Bush de se aliar a certos líderes sunitas, os mesmos que um dia ele chamou de “os terroristas do Iraque”. Em uma entrevista concedida à televisão canadense CTV, Graham declarou: “Um amigo iraquiano me falou, rindo muito, que os americanos são os novos bahatistas do Iraque [em referência ao partido liderado por Saddam Hussein].” (fonte: Yolanda Monge in El País, 26/9/2007). Isso fica mais evidente se for recortada a seguinte frase do discurso de Bush ontem na ONU:
“O longo reinado de um ditador cruel é chegado ao final”.
Pensando falar de Cuba, sem querer, ôps, eis aí um homem a falar de si mesmo. Não se preocupe, Bush. Acontece com todos nós. É isso o inconsciente. É isso receber a própria mensagem de forma invertida (conceito de Lacan). Que a ONU inicie imediatamente o combate à tirania do seu governo.

Escrito por Leonardo Ferrari às 05h49
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UM REITOR CONTRA O DITADOR

“O mal aterrissou”, manchete do Daily News ontem em Nova Iorque, sobre a chegada do presidente do Irã na cidade.
A Universidade de Columbia em Nova Iorque deu uma aula ontem ao mundo sobre o que é uma universidade e o que é um reitor. Ela abriu suas portas para que o presidente do Irã, Mahmud Ahmadineyad, pudesse ali debater. Debater com quem? Pois, nada mais, nada menos, do que com o reitor da própria universidade, o sr. Lee Bollinger. Ao apresentar o presidente do Irã aos estudantes, o reitor disse o seguinte:
“Você tem todos os sinais de um ditador cruel e mesquinho e, quando vem a um lugar como este, se pode vê-lo simplesmente como mais ridículo ainda do que é” (fonte: Antonio Cano in El País, 25/9/2007).
Excelente. Lee Bollinger não se acovardou, não ficou “neutro” diante do ditador e nem diante de seu auditório. Tampouco simplificou o problema estigmatizando Ahmadineyad como “o mal” (como fez o Daily News). Lee Bollinger demonstrou o que pensa e porque pensa desta forma concedendo a Ahmadineyad o direito de resposta pela palavra, e não pela destruição, não pela tortura, não pela eliminação do adversário. Lee Bollinger deu uma aula prática sobre o que é e como funciona uma democracia. Numa democracia não se fala apenas. Também se escuta.
Em seguida, o reitor lembrou o auditório que Ahmadineyad foi autor de declarações negando a existência do Holocausto, o fato, segundo o reitor, “mais documentado da história da humanidade”.
Na seqüência, Bollinger falou de seu desejo de que Ahmadineyad permita no Irã a mesma liberdade de expressão que ele estava recebendo ali em Columbia e propôs ao presidente do Irã que ele aceite que uma delegação da universidade percorra o Irã explicando o modelo da democracia ocidental.
É óbvio que, depois de escutar isso, o ditador, acostumado a só ele falar, ficou fulo. O ditador não gostou. Iniciou assim se dirigindo a Bollinger:
“O seu discurso insultante não era necessário, não era preciso este tratamento não-amigável. Quando nós convidamos alguém a falar, o respeitamos, fazemos o inverso dessas suas afirmações erradas e insultantes. Você quis vacinar os estudantes antes de eu falar” (fonte: Mario Calabresi in La Repubblica, 25/9/2007).
Que respeito será esse que Ahmadineyad diz conceder a quem convida falar? Alguém consegue imaginar a possibilidade de acontecer no Irã o que aconteceu ontem em Nova Iorque? Em seguida, ele negou todas as questões levantadas por Bollinger e estarreceu o auditório com a declaração de que não existem homossexuais no Irã, que o Holocausto precisa de mais investigações de “diferentes perspectivas” e não negou querer destruir Israel. Se limitou a dizer que “os judeus no Irã não correm perigo”. Será esse o tratamento amigável de Ahmadineyad?
Escrito por Leonardo Ferrari às 05h59
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PERVERSÃO
 
Fonte: La Repubblica, 24/9/2007.
A marca Nolita, do grupo Flash&Partners de Tombolo (província de Pádua, região do Vêneto, Itália), publicou hoje no La Repubblica este anúncio contra a anorexia elaborado pelo fotógrafo Oliviero Toscani (depois da Benetton, agora ele repete a dose na Nolita). O anúncio parte da premissa de que a anorexia seja uma doença causada “em parte” pela propaganda. Logo, fazer uma campanha contra a anorexia trará como resultado uma diminuição dessa “doença”. Há vários problemas aqui. Em primeiro lugar, ninguém fica anoréxica porque quer. Se a anorexia fosse um problema de “força de vontade”, então essas campanhas seriam um “sucesso”. À diferença da psiquiatria, a psicanálise não trata a anorexia como uma doença, mas sim como uma posição subjetiva. O que isso quer dizer? Quer dizer que há desejo em questão, há inconsciente na parada, há um sujeito a ser escutado em sua radical singularidade. Essa campanha parece se inscrever à perfeição no discurso médico-pedagógico que tenta, mais uma vez na história (basta pensar nas histéricas do século XIX), dizer a uma mulher como é que ela deve ser, de que jeito seu corpo deve se enquadrar, deve se normalizar. Para a psicanálise, essas “boas intenções” vão na direção contrária à de verificar que estranho desejo se faz aqui presente, que estranho corpo está aqui em questão (corpo simbólico? Corpo imaginário? Corpo real?). Cabe ressaltar a preocupação válida da medicina em salvar uma vida que parece se esvair dia a dia. Porém, a preocupação da Nolita aqui é outra. É vender roupas, é vender moda. Se utilizar da anorexia para vender “nolita” é o que se chama em psicanálise de perversão. Nada mais, nada menos.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h31
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CONTRA A INDIFERENÇA

Fonte: O Globo, 22/9/2007.
Miguel Conde entrevistou Lloyd Jones, escritor neozelandês (autor de “O sr. Pip”, Rocco ed.) que, por sua vez, lembrou do grande escritor judeu David Grossman nesta belíssima resposta:
“Miguel Conde – O senhor acredita que a literatura ainda pode ter a importância e influência que possuía no tempo de Dickens?
Lloyd Jones – Ela precisa, para mitigar a má influência daquele instrumento embotador que chamamos mídia de massa. O escritor israelense David Grossman recentemente deu uma palestra em Berlim onde falou sobre como a indiferença pode entorpecer nossos julgamentos. Como foi que uma população de pessoas comuns se tornou parte de um maquinário que resultou no Holocausto? Ele concluiu que a indiferença deve ser culpada. E o que cria indiferença? A mídia de massa. A mídia de massa cria algo chamado “as massas”. Experimentos recentes mostram que “as massas” carecem de uma reação moral. Como compreender Ruanda, o Congo, Darfur? É o que se chama no negócio uma “história noticiosa”. Nós somos o “leitorado”, uma estatística mais importante para lucros da mídia do que para fazer soar uma nota de indignação. Indivíduos são capazes disso, no entanto. Grossman prosseguiu dizendo que o trabalho da literatura é despertar essas vozes latentes dentro de nós. Eu não poderia concordar mais. O trabalho da literatura – além de nos encantar com histórias – é nos lembrar o que é o ser humano. Quando calçamos os sapatos de outros, experimentamos empatia, que é o oposto da indiferença. Essa é uma das dádivas da literatura.”
Fonte: entrevista de Lloyd Jones a Miguel Conde in O Globo, 22/9/2007.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h56
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