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PERIGO VERMELHO

As revoluções são como os uísques. Há os verdadeiros e há os falsos. Eis aqui um puro malte, um raríssimo sabor, algo impossível de acontecer nos Estados Unidos, algo inconcebível, algo impensável, algo subversivo demais. Se todos fizerem isso, quem é que vai produzir a mais-valia? Aonde é que o mundo vai parar sem a mais-valia? E de onde saiu essa idéia esdrúxula, essa idéia maluca, essa idéia arcaica, essa idéia primitiva, essa idéia ancestral? E quem é que teve a ousadia de ter essa idéia pré-histórica, essa idéia caduca, essa idéia desatualizada, essa idéia morta, essa idéia fora de rumo, essa idéia fracassada, essa idéia desmotivada, essa idéia sem pé nem cabeça? Parar de trabalhar para fazer sexo? É o fim dos tempos. Fazer sexo todos os dias? O mundo acabou. Eu espero que a Sexta Frota se dirija imediatamente em direção a Ulianovsk para acabar com essa palhaçada. Como? A Sexta Frota está muito ocupada fazendo as malas no Iraque? Mas o que é o Iraque perto disso? O que é qualquer coisa perto dessa idéia?
Província russa estimula a população a não ir ao trabalho para fazer sexo
DA REDAÇÃO, Folha de São Paulo, 13/9/2007
Diante da angústia de uma taxa de natalidade nacional negativa, o governador da Província russa de Ulianovsk fez um apelo aos casais locais para que faltassem ao trabalho ontem e usassem o tempo livre para fazer sexo. Como estímulo, o governo anunciou que mulheres que tiverem bebês em exatamente nove meses -no dia nacional da Rússia, 12 de junho- poderão ganhar, entre outros prêmios, uma casa nova. "Tanto faz se o bebê for menino ou menina", disse a porta-voz da administração regional Ielena Iakovleva. O governador, Sergei Morozov, chegou a pedir aos empregadores que dessem folga a seus funcionários ontem. "Precisamos de mais gente", afirmou. A iniciativa faz parte da campanha do Kremlin para aumentar a taxa de natalidade russa. O país tenta reverter a tendência de diminuição da população, que registra atualmente 700 mil pessoas a menos por ano. Com 141,4 milhões de habitantes, a Rússia conta com uma taxa de crescimento populacional negativa, de -0,48%, e com uma taxa de fertilidade de 1,39 filho por mulher, segundo projeções para 2007 do CIA Fact Book. É uma das mais baixas da Europa. Este é o terceiro ano que a região de Ulianovsk, onde nasceu Lênin, dedica um dia para encorajar casais a fazer mais bebês. Em 2007, um recorde de 78 nascimentos foi registrado na maternidade do principal hospital local. Em 2006, o número foi de 26, segundo o médico Andrei Malikh. Ao menos para os recém-casados Karina e Anton Bukhanovski, que foram à Província ontem apenas para "aproveitar o clima do concurso", o estímulo foi convincente. "Vamos voltar no ano que vem para fazer um bebê", prometeu Karina.
Com Reuters
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h11
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APRENDEU

Demorou, mas aprendeu. É a lição mais difícil das academias militares. Quando a guerra estiver perdida, declare a vitória e inicie a retirada. Como estamos em tempos pós-modernos, declare o sucesso. Isso. Um grande sucesso e...saia correndo, antes que alguém perceba do que se trata.
Escrito por Leonardo Ferrari às 05h49
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TRAVESSIA
“Será – mal pergunto eu ao senhor – que viajei este sertão com o Outro sendo meu sócio?”
João Guimarães Rosa in Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p. 306.
Escrito por Leonardo Ferrari às 05h28
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A LUZ DA SENADORA

A gente sabe que está em uma outra época quando escuta as seguintes palavras de uma senadora da República:
“Só posso pedir luz”, senadora Ideli Salvatti, PT-SC (fonte: Alan Gripp in O Globo, 13/9/2007).
Ora, é que essas palavras também saíram de Goethe um pouco antes dele morrer: “Mehr licht!”, “mais luz”. Estaria a nobre senadora fazendo uma referência à Goethe? Quem sabe ao Fausto, aquele que vendeu a alma? Ou será que a luz pedida por Vossa Excelência seja outra? Há, por exemplo, uma luz que surge na porta de saída do Senado. Basta abrir a porta ou ser empurrado por ela. Há luz lá. De qualquer maneira, algo aconteceu aí. De Goethe a Ideli Salvatti. É uma outra época que vivemos. Mehr licht!
Escrito por Leonardo Ferrari às 11h54
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PULSÃO DE MORTE

É de Merval Pereira no Globo a melhor síntese sobre o que aconteceu ontem no Senado. Indispensável.
“Sob o comando do reverendo norte-americano Jim Jones, 914 seguidores da seita Templo do Povo foram forçados, em novembro de 1978, a beber uma mistura de suco de laranja, cianureto e analgésicos, no maior suicídio em massa de que se tem notícia até hoje. Ontem, qual Jim Jones redivivo, o senador Renan Calheiros levou 81 senadores ao suicídio coletivo numa reunião secreta em Brasília.”
Fonte: Merval Pereira in O Globo, 13/9/2007.
Escrito por Leonardo Ferrari às 08h00
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ÉDIPO

Fonte: El País, 13/9/2007.
Rodrigo Fernández, correspondente do El País em Moscou, trouxe uma notícia alvissareira. A Rússia, depois que os Estados Unidos inventaram a MOAB [Mother Of All Bombs], a “mãe de todas as bombas”, declararam ontem ter testado com sucesso o FOAB [Father of All Boms], ou seja, o pai de todas as bombas. Nós, os filhos, agradecemos. Agora, eu prefiro o Brasil. O Acre ontem inaugurou a Camisinhabrás. Bomba? Nem pensar. É o avesso da bomba. Aliás, para aqueles que crêem no capitalismo selvagem, saibam que o Acre está seguindo o exemplo daqueles países atrasados como a França, a Suécia, a Finlândia, o Canadá. São países aonde o Estado ainda existe como força de agregação, como força de proteção do cidadão contra a lei da selva do cada um por si. São países aonde o capitalismo ganhou novas respostas. Não existe um único capitalismo. Existem vários. Aliás, parte dois, até os Estados Unidos são poli-capitalistas. Ora, a Camisinhabrás é uma solução que vai trazer novos problemas, que por sua vez exigirá novas soluções. Nada contra.
Governo inaugura no dia 21 estatal que fará 100 milhões de camisinhas a cada ano
ANGELA PINHO DA SUCURSAL DE BRASÍLIA, Folha de São Paulo, 12/9/2007
Passada a série de privatizações dos anos 90, o país tem agora uma nova empresa estatal: a fábrica de camisinhas de Xapuri, Acre, cidade onde o líder seringueiro Chico Mendes foi morto em 1988. O empreendimento, uma parceria entre o governo federal e o governo do Estado do Acre, deverá ser inaugurado no próximo dia 21. As primeiras camisinhas já passam por testes de qualidade. A fábrica será a primeira no Brasil a usar látex nativo. Fará 100 milhões de preservativos por ano, que serão vendidos a cerca de R$ 0,70 cada. Em 2005, o governo comprou 1 bilhão de preservativos. (...)
Escrito por Leonardo Ferrari às 05h42
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ARTE
“Que virtude mais preza na boa arte?
A capacidade de reinventar a vida. É isso que eu acho extraordinário. Algo que me tira o chão, que me deslumbra, ou pela alta qualidade, ou pela imaginação, pela emoção. É como disse Rilke em seu soneto célebre: algo que me faça mudar de vida. É o que eu mais valorizo na arte, quando ela me muda ou muda a minha vida.”
Fonte: entrevista de Ferreira Gullar in O Estado de São Paulo, 9/9/2007.
Escrito por Leonardo Ferrari às 05h43
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TERROR

Fonte: Jeff Parker in Florida Today, 10/9/2007.
Um dos resultados dos atentados terroristas aos Estados Unidos em 11 de setembro de 2001 podem ser observados aqui. O cartunista Jeff Parker do Florida Today relembra, seis anos depois, o que continua desaparecido no país: a missão de derrotar Bin Laden e a Al Qaida, as liberdades civis, a liderança da Presidência, a unidade nacional e “our resolve” [“nossa determinação”]. Por outro lado, uma organização chamada Freedoms Watch publica esse anúncio de página inteira no caderno “National” do The New York Times. É um chamado à guerra, a não se render aos terroristas. “A vitória é a única escolha”, grita o cartaz. América dividida, América dilacerada, América desnorteada. E não foi patético o aparecimento desse canalha do Bin Laden às vésperas do 11 de setembro conclamando os americanos a se converterem ao islã? A cada reaparição desse fantasma, a ferida se reabre e começa a sangrar de novo. O anúncio da Freedoms Watch é o sangue jorrando sem parar, exigindo uma “única escolha”. É assustador esse anúncio. Ele se iguala à mensagem de Bin Laden. Ambos exigem o não pensamento, a não reflexão. Exigem sangue.

Fonte: anúncio publicado na página A21 do The New York Times, 11/9/2007.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h33
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PRÉ-HISTÓRIA
“Bethânia é do tempo em que as letras das canções queriam dizer alguma coisa”.
Dona Canô in “Maria Bethânia - Pedrinha de Aruanda” (de Andrucha Waddington, estréia dia 14 de setembro nos cinemas), citado por Joaquim Ferreira dos Santos in O Globo, 10/9/2007.
Eu também, Dona Canô, eu também...
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h44
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ABISMO

O escritor catalão Enrique Vila-Matas quase morreu no ano passado de uma grave insuficiência renal. Carles Geli foi entrevistá-lo sobre seu novo livro “Exploradores del Abismo” (Anagrama, Espanha, 2007). Alguns trechos:
“Carles Geli - Com qual Vila-Matas falamos?
Vila-Matas - No íntimo, com uma pessoa mais serena. Na literatura, há poucas mudanças: nunca ninguém muda radicalmente. (...)
Carlos Geli - O que a doença mudou na sua forma de ver ou sentir, o clássico tempus fugit?
Vila-Matas - Ao sair do hospital comecei a valorizar cada instante. Lembro que me emocionei ao ver o verde das árvores do hospital, algo insólito porque eu nunca tinha reparado nessa função clorofílica.(...) Eu sou um explorador de meu próprio abismo. (...)
Carlos Geli - A vida cultural e artística é definida [no livro] como “uma corrida enlouquecida para lugar nenhum”...
Vila-Matas - A arte também dá sentido à vida...e aqui o preocupante é a ausência de pensamento e de que não se escuta a intelligentsia de um século para cá, cuja voz não é levada em consideração por ninguém. A ninguém hoje interessa que lhe expliquem as coisas que não se compreende ou que não se sabe. Daí a ausência.
Carles Geli - Quem é culpado disso?
Vila-Matas - É o poder. Ele e essas classes sociais que são vítimas do poder e desse educação nula que se faz desde cima para produzir seres nulos que, tampouco, é claro, estão interessados na palavra de alguém que pensa. Tudo isso conduz os intelectuais a serem minoritários e a alguns deles em tentar plataformas políticas para escapar de seu papel nulo como intelectuais, mas são aventuras destinadas ao fracasso. Por isso essa ausência de elites intelectuais que dirijam os países.
Carles Geli - Ou, quem sabe, porque tampouco existam tantos intelectuais que saibam ler bem o mundo de hoje.
Vila-Matas - Esse é mais um dos resultados dessa separação, feita há um século, entre poder e pensamento. Isso conduz a nada, é o nada mesmo.”
Fonte: entrevista de Enrique Vila-Matas a Carles Geli in El País, 10/9/2007.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h33
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DA ITÁLIA, COM AMOR
 
Fonte: La Repubblica, 9/9/2007.
Por que o La Repubblica é o jornal mais bonito do mundo? Que o leitor observe essas duas páginas da edição de hoje. Elas são primorosas. Há um conjunto aqui de texto e de fotografia reunidas por um desenho admirável. Talvez seja essa a palavra que melhor defina a alma desse jornal: desenho. Nisso, a Itália é imbatível. Não se vê nada igual no The New York Times, nada parecido no Le Monde, nada nem que chegue perto no El País. No Brasil, o jornal que mais se aproxima, através de seu magnífico Ela, é O Globo. O La Repubblica traz muitos desenhos feitos à mão (aquarelas belíssimas), muitas fotografias ousadas, e muito texto de ótima qualidade. A psicanálise está sempre presente no jornal (é difícil citar um dia em que ela não seja destaque), a filosofia é debatida em temas essenciais (o que demonstra as raízes ancestrais da Magna Grécia que foi o sul da Itália), a sociologia está o tempo todo ali, sem falar em história (esses dias durante três semanas se analisou, todos os dias, Aníbal!!!) e história da arte (essa nem precisa citar quando se fala de Itália). Isso transforma a leitura desse jornal numa viagem espetacular pelas fronteiras do conhecimento, essência do próprio conceito de humanismo. É isso a beleza, é isso o desenho. Está na hora dos maiores jornais brasileiros incluírem diariamente o suplemento La Repubblica. E no original, em italiano. Que se aprenda italiano em todas as escolas do Brasil! É absolutamente indispensável. Como viver sem o La Repubblica? Impossível.
Escrito por Leonardo Ferrari às 07h58
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