Blog do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba (PR) leobelferrari@uol.com.br


APRENDEU

Fonte: O Globo, 8/9/2007.

 

“O Caetano, tudo que tocava no rádio ele aprendia. Ainda vinha: ‘É assim, minha mãe, é assim, minha mãe?’. E eu: ‘É assim mesmo, Caetano.’ ”

 

Canô Veloso no documentário “Maria Bethânia - Pedrinha de Aruanda” (de Andrucha Waddington, que estréia dia 14 de setembro nos cinemas), citado por Bety Orsini in O Globo, 8/9/2007 - aliás, a fotografia que Rogério Reis fez de dona Canô para a capa do caderno Ela está magnífica. E a reportagem inteira de Bety Orsini é o que se chama de epifania. Pilastras!!



Escrito por Leonardo Ferrari às 10h42
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VIDA É CONFLITO

Iria Candela fez uma bela entrevista com o geógrafo inglês David Harvey, autor, entre outros, do belíssimo “Condição Pós-Moderna” (Loyola, 1992). Lá pelas tantas, aconteceu isso:

 

“Iria Candela - Segundo a sua idéia de cidade, o espaço público deve promover o consenso ou enfatizar o conflito?

David Harvey - Há uma frase brilhante de Heráclito que sugere que a harmonia mais bela nasce do enfrentamento das diferenças. Eu creio que uma idéia de consenso que não contemple a diferença, não tem sentido. O espaço público ideal é um espaço de conflito contínuo e com contínuas maneiras de resolver esse conflito, para que logo depois ele volte a se reabrir.”

 

Fonte: entrevista de David Harvey a Iria Candela in El País, 8/9/2007.



Escrito por Leonardo Ferrari às 09h21
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UNA FURTIVA LAGRIMA

“O mundo chora Pavarotti / Adeus Grande Luciano, a voz mais bela

“Com o bom Deus estamos empatados””

 

Fonte: La Repubblica, 7/9/2007.

 

Em uma edição belíssima, porém tristíssima, o La Repubblica se despede de Luciano Pavarotti, o vizinho mais famoso da minha Vignola, na Emilia-Romagna. Curioso foi conhecer sua casa em Módena e perceber que este imortal habitava entre nós. Leonetta Bentivoglio transcreve uma declaração-símbolo que resume Pavarotti. Nada de créditos com a vida nem de débitos com Deus. Pilastra!!!!

 

“Mesmo quando ele descobriu que estava com um câncer no pâncreas, declarou: “A vida já me deu tanto! O que posso esperar mais?”. E, sabendo-se condenado, não hesitou em confessar: “Eu nesta vida já tive tudo e se me encontrar com o bom Deus, estamos empatados”.

 

Fonte: Leonetta Bentivoglio in La Repubblica, 7/9/2007.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h28
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FOI SEM QUERER...

Fonte: El País, 6/9/2007.

 

É o ato falho do ano! O sentido é claríssimo: o inimigo está dentro, não fora. Mas, quem é esse inimigo? A democracia? Os pacifistas? Os pensadores? Os críticos? Os que ainda resistem? Os que exigem o fim das guerras? Quem será o próximo a ser bombardeado? Essa travessia dos Estados Unidos é muito simbólica. Depois desse engano, durma-se com um barulho desses...

 

B-52 com bombas nucleares cruzou EUA por engano, BBC Brasil, 6/9/2007

 

A força Aérea dos Estados Unidos confirmou nesta quarta-feira que um de seus bombardeiros B-52 sobrevoou por engano boa parte do país carregado com mísseis nucleares.

 

Os mísseis foram descobertos quando a aeronave pousou em no Estado do Louisiana, no sul dos Estados Unidos, ao final de um vôo que havia começado no Estado do Dakota do Norte, que faz fronteira com o Canadá.

Segundo um porta-voz das Força Aérea, o incidente não representou perigo à população.

Ele ressaltou que um inquérito foi aberto para apurar as circunstâncias do ocorrido e que as equipes responsáveis por carregar o avião com os mísseis foram afastadas de suas funções.

Um oficial militar disse que o presidente Bush foi informado a respeito do que ocorreu.



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h38
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SAUDADE

“El velo semitrasparente del desasosiego, un día se vino a instalar entre el mundo y mis ojos”.  

 

Quem escreve isso é o poeta uruguaio Jorge Drexler que, nas horas vagas, é também cantor. Vou traduzir:

 

“Quando você foi embora, fez-se noite em meu viver, forte eu sou, mas não tem jeito, hoje eu tenho que chorar, minha casa não é minha e nem é meu este lugar, estou só e não resisto, muito tenho pra falar”.

 

Espere. Mas isso não é Milton Nascimento e Fernando Brant em “Travessia”? Pois é. Milton é a melhor tradução para Jorge. “El velo semitrasparente del desasosiego” é o nome dessa noite que cai quando uma mulher vai embora. “El velo semistrasparente del desasosiego” é o nome de uma saudade. Não, “el velo semistrasparente del desasosiego” é a saudade. Que se mudem os dicionários. Aonde aparecer saudade, estará para sempre “el velo semistrasparente del desasosiego”. Cumpra-se. 



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h51
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CONTRA A DOENÇA DA REALIDADE

O escritor mexicano David Toscana foi entrevistado por André Miranda no Globo da última quinta-feira. É daquelas entrevistas para se emoldurar e colocar na parede da sala. Belíssima, inesquecível e indispensável. Alguns trechos:

 

“André Miranda - Em “O Exército Iluminado” [sai este mês no Brasil pela editora Casa da Palavra], um grupo de crianças com problemas mentais busca recuperar o território do Texas para o México. É possível enxergar uma analogia política de sonhos infantis e loucura na conquista? Apenas crianças e loucos devem acreditar que o México pode se “libertar” da influência americana?

David Toscana - O sonho dos meus personagens foi o sonho da minha infância. Quando criança, pensei que poderia recuperar o Texas e é uma pena que agora não acredite mais nisso. A mente infantil e perturbada está sempre disposta a aventuras grandes, mas, infelizmente, quando crescemos, nos ensinam que a prudência é um valor.(...)

André Miranda - O que há de Quixote no livro?

David Toscana - Há muito de Dom Quixote: o delírio, a capacidade de sacrifício, a vida pelos ideais, a forte crença em si mesmo e o aprendizado da impotência através de pancadas. É pensar que a vida é feita para coisas grandes. (...) Todos nascemos Quixotes, mas nossos pais, professores, sacerdotes e outros se encarregam de matar esse espírito. Só poucos sobrevivem.

André Miranda - E o senhor, com quem se identifica mais: com Quixote ou com Sancho?

David Toscana - Com Dom Quixote, com certeza. O delírio é bom na mente e, também, na ação. Sobretudo na arte, na literatura. A arte tem que ser delirante, imaginativa, selvagem, sublime. E oxalá a vida também fosse assim. Oxalá os leitores também fossem quixotescos, também quisessem viver em mundos diferentes dos seus. A literatura contemporânea está doente de “realidade”, porque as pessoas acreditam poder tocar a realidade; acreditam viver no mundo real; acreditam que, por se manterem informados, conhecem o real; acreditam que os noticiários mostram o que se passa. O mundo precisa se contaminar com o vírus de Dom Quixote. Na América Latina não deveríamos mais falar de alfabetização, mas de quixotização. Deveria ser leitura obrigatória. Ninguém deveria receber um título universitário se não demonstrasse conhecer Dom Quixote, ninguém deveria aspirar um cargo eletivo sem ter lido “Dom Quixote”.(...)

André Miranda - Qual escritor da língua espanhola foi mais importante para a sua literatura? Por quê?

David Toscana - Cervantes em seu delírio, Rulfo na sua concisão, Onetti em sua desilusão, García Márquez no seu ritmo, Donoso em seu mundo absurdo.”

 

Fonte: entrevista de David Toscana a André Miranda in O Globo, 30/8/2007.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h01
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AINDA

Fonte: “Nymph”, 2002 (2005) de Ludovic Goubet.

 

Eco, a ninfa de voz sonora. Eco, que ajudou as outras ninfas (ou ela visava aquele poderoso?), e foi punida por isso. Eco, dona de uma língua esperta, condenada pela esposa daquele traidor a fazer um uso brevíssimo das palavras. Eco, apaixonada pelo sem destino do Narciso, seguidora dos passos deste homem-fogo, desse homem-fuga, atraída para sempre por esse homem que prefere a morte ao encontro, que prefere o sono. Então Eco se esconde, envergonhada, amargurada, apaixonada. Se esconde pelos rios, se esconde pelas florestas, se esconde pelas esquinas, se esconde pelas avenidas. Dilacerada pelas preocupações incansáveis, Eco emagrece, Eco se evapora, Eco resta voz e ossos. Eco anoréxica?A voz persiste, os ossos viraram pedra. Eco é metamorfoseada pensando se metamorfosear. Eco, incapaz de desejar o mal a este homem - não parte dela o apelo à Nêmesis, a terrível, a filha da Noite, a justiça. Que ele ame sem conseguir possuir o objeto amado - é isso a justiça? Eis ele ali, parado, imóvel, também pedra?  Deseja a si mesmo, ignorante, imbecil, vingado. Não sabe o que vê. Não sabe o que perdeu. Ele emagrece, ele se evapora, ele se resta. Se não se ilude mais com a sua imagem, por que dali não sai? Por que dali não se separa, dali não se move? Eco apieda-se e ainda responde. Adeus. Eco ainda tenta, Eco ainda procura, Eco ainda não desistiu. Adeus?

 

“Fonte sem limo, pura prata em ondas límpidas,

jorrava. Nem pastor se achega, nem pastando

seu rebanho montês, ou gado avulso, acode.

Nem pássaro, nem fera, nem tombando, um ramo

perturba a úmida grama que o frescor irriga.

O bosque impede o sol de aquentar este sítio.

Da caça e do calor exausto, aqui vem dar

Narciso, seduzido pela fonte amena.

Se inclina, vai beber, mas outra sede o toma:

enquanto bebe o embebe a forma do que vê.

Ama a sombra sem corpo, a imagem, quase-corpo.”

 

Ovídio, “Metamorfoses”, traduzido por Haroldo de Campos in “ Crisantempo: no espaço curvo nasce um”. São Paulo: Perspectiva, 1998.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h41
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INFINITO

Não teria sido neste instante que Tom Jobim pensou naquilo que não tem fim?

 

“No fim, o homem é mesmo um ser tristíssimo, e não só no Brasil. O ser humano se define por três is: indefinível, inacessível e incontrolável.”

 

Lygia Fagundes Telles em entrevista a Julián Fuks in Entrelivros ano 3, nº. 29, Duetto ed., setembro/2007, p. 29.



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h48
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