Blog do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba (PR) leobelferrari@uol.com.br


CONFETE

O bondinho de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, abriu às 9h de sábado a maratona de desfiles dos blocos de rua. Fotografia de Hudson Pontes in O Globo, 7/2/2009.

         Meu amor, não se afobe, não, que nada é pra já. Um dia os escafandristas revirarão essa fotografia para tentar entender o que você fazia aqui, tristinha por trás de um sorriso, pensativa nos gritos repetidos, olhar perdido de braços abertos, no ar, santa sem sentido outro que o desvão, ai, o desvio da alegria estranha bem no meio do luto, não mais bonde, esse carro fúnebre que nos leva, que nos traz, que nos joga, em solavanco, para cima e para baixo, essa espera de uma estação primeira, as ladeiras, as ribanceiras, derradeira dor. Não vai terminar na quarta-feira.



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h13
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MÉRICA, MÉRICA

Imigrantes italianos na entrada dos Estados Unidos em Nova Iorque – fotografia cortesia do Museu Statue of Liberty, Ellis Island National Monument.

Lorde Christopher Patten, reitor da Universidade de Oxford e ex-comissário europeu de Relações Exteriores, ex-ministro de Margaret Thatcher, deu uma entrevista brilhante a Juan Cruz no suplemento Domingo do El País. No final da entrevista, ele nos brinda com esta cereja no topo do bolo:

         “Apesar da humilhação da queda dos mestres do universo de Wall Street, da vergonha de Guantánamo e Abu Graib, apesar do sangue derramado no Iraque, a América continua sendo o superpoder, o único país que influencia a todos os demais. Uma das chaves desse poder é como ela enfoca a pesquisa e a universidade. É claro que isso influencia o fato dela ser a principal potência militar do mundo. Mas o fundamental é que das 50 melhores universidades do mundo, 42 são norte-americanas. E o que me surpreende nesse dado: há 50 anos, a metade dos europeu que se doutoravam ali, voltavam a seus países. Há 4 anos esse número caiu para 25%. Imagine você o que significa perder sua maior força intelectual em uma só direção. É por isso que 75% dos trabalhos e estudos científicos dos Estados Unidos são escritos por estrangeiros. A metade dos start ups [abertura de empresas] de Silicon Valley foram feitas por imigrantes. Essa é para mim a base permanente do poder global norte-americano.”

         Fonte: entrevista de Christopher Patten a Juan Cruz in El País, 7/2/2010.



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h22
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AVATAR CONTRA O PARQUE DOS DINOSSAUROS

Tomografia do cérebro de uma pessoa saudável, acima, quando ela responde “sim” ou “não” e, abaixo, de um paciente em estado vegetativo.

Fonte: Benedict Carey in The New York Times, 4/2/2010.

A medicina me devolveu a esperança no PSDB. Na quarta-feira foi divulgada por Benedict Carey no The New York Times a sensacional pesquisa feita na Bélgica em que médicos descobriram que um paciente, em estado vegetativo, diante da pergunta “você tem irmãos?”, demonstrou traços de atividade cerebral evidenciado em tomografias do cérebro para as respostas “sim” e “não”, contrariando tudo o que se sabia até então sobre esses pacientes e abrindo um novo horizonte de tratamento. Magnífico! Quem sabe isso possa ajudar o candidato-não candidato à presidência ou não, José Serra, atual governador de São Paulo pelo PSDB. Na semana em que o PT divulgou sua “nova” carta de intenções para o “novo” governo que vem aí, “à esquerda” do atual, um arrazoado retrógrado, arcaico, dinossáurico em sua defesa das estatais e do Estado “grande”, do Estado-babá, do Estado-cabide, nada se ouviu da boca do candidato-to be or not to be, José Serra. Minto. Na mesma quarta-feira o governador deu entrevistas para falar sobre o aumento da violência em São Paulo. E o que disse o governador-talvez candidato? Disse que a culpa do aumento da violência em São Paulo é a “histerese” – cuidado, não é a “histeria”, coitada, mas sim um conceito da “física”, tão esdrúxulo, tão sem pé nem cabeça, que me recuso a repetir aqui a “explicação” técnica do governador. Dá dó. Eu pensava que nada podia ser pior do que os discursos do Lula falando bem de si próprio – ou seja, todos. Me enganei. Ouvir Serra falando da histerese dá convulsão, dá parada cardíaca, dá falência múltipla de órgãos. Nem com tradução simultânea para o português uma coisa dessas pode seguir adiante. Mesma coisa em relação ao golpe militar perfeito de Honduras. O que se ouviu do candidato-ainda não, José Serra? Confesso que nada ouvi. E o silêncio é também resposta. Até a ótima The Economist perguntou em sua edição de quinta-feira quando é que o governador vai acordar. Não se sabe. Porém, hoje de manhã, encontro no jornal um excelente artigo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso chamado “Quem tem medo do passado?”.  Deu gosto de ler e deu saudade. E só aí percebi então que minha esperança no PSDB se chama Fernando Henrique Cardoso. Conseguirá este homem, à la Avatar, entrar neste corpo moribundo e fazê-lo caminhar? É a minha esperança.  



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h30
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MINHA QUERIDA

Kate Moss por Herb Ritts in Vogue, junho de 1997.

         Ana Serguêievna, o avesso de Diana.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h55
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FÁBULA

           

           Ele amava a Qualidade Total, o Produto Perfeito, a Excelência, o Just in Time, o Andon Cord. Ele adorava a Exame, sabia de cor a Você S.A., idolatrava a Veja. Ele não perdia uma aula de marketing, assistia todas as palestras de entrepreneurship, foi vencedor do desafio Sebrae. Ele acreditava no chefe, vestia a camisa, se superava. Ele montou um balanced scorecard para sua vida, realinhou seu planejamento estratégico, revisou o mapa das competências. Ele investiu, a bolsa quebrou, ele recuperou, foi demitido, ele reconstruiu, comprou seu Toyota. Era o sonho da sua vida. Morreu na contramão atrapalhando o sábado. Problemas no freio, alegou um. Problema no acelerador, disse outro. Ligeira falta de resposta, declarou a montadora.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h26
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POBRE DIANA

Diane Au Bain La Source”, c. 1869-1879, óleo na tela, 72,1x41cm., de Jean-Baptiste-Camille Corot (1796-1875) in Colección Carmen Thyssen-Bornemisza, Museo Thyssen-Bornemisza, Madri.

         E se Diana fizesse análise e, em vez de transformar Acteão em veado, tentasse uma vida com ele? Não havia análise naquela época. Diana transformou Acteão e mandou os cachorros dele para devorá-lo. Ela ficou imutável e ele despedaçado. A falta que a psicanálise faz...



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h01
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O BRADO RETUMBANTE

Fonte: Marco Aurélio in Zero Hora, 31/1/2010.

         Marco Aurélio é dos artistas raros, epifânicos, capazes de num gesto, num traço, numa síntese, iluminar, alegrar, embelezar a vida. No domingo ele deu de presente ao mundo esta charge sobre a embaixada brasileira de Honduras. Genial. Porém, sem querer...querendo, Marco Aurélio trouxe uma questão muito boa: para que serve uma embaixada? Pode-se aqui dar a resposta clássica amada dos embaixadores: a diplomacia é a arte de transformar o “eu tenho razão” em “os outros concordam que eu tenho razão”. Roosevelt acrescentou um provérbio africano para demonstrar que a diplomacia sozinha muitas vezes não consegue chegar nesse resultado, o célebre “fale manso, mas com um porrete na mão”, a famosa política do “big stick”. Ora, mas a diplomacia é também a arte de acolher, a arte de abrir as portas para aqueles perseguidos, humilhados e ofendidos, vítimas desse grande porrete quando nas mãos de ditadores e fascínoras. Nesse sentido, ainda bem que há vagas nas embaixadas brasileiras. Mesmo porque, nem sempre foi assim na história da diplomacia brasileira. Nem sempre ela abriu suas portas, nem sempre ela deixou entrar, nem sempre ela foi embaixada, nem sempre ela atendeu aos interesses do Brasil. “Há vagas” poderia ser afixada agora nas portas de todas as embaixadas brasileiras. Esse é um dos grandes feitos do governo Luís Inácio Lula da Silva. Que isso não seja muito reconhecido em solo brasileiro é só mais uma marca de que 20 anos de ditadura militar não desaparecem do dia para a noite. “Há vagas” é para rir e também para comemorar. É uma alegria enorme perceber que, ao menos aqui, se avança contra o fascismo no Brasil.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h09
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O CONSULTOR DA GUERRA VEM AÍ

Fonte: O Globo, 2/2/2010.

                O ex-primeiro ministro britânico Tony Blair agora é consultor. Ele cobra 150 mil dólares por discurso e teria ganho só nos últimos dois anos o equivalente a 3 mil dólares por minuto. Só do banco norte-americano J.P. Morgan, recebeu mais de 6 milhões de dólares. Faz sentido. O homem mais fiel ao governo paranóico de George W. Bush, o homem que conduziu a Inglaterra para o atoleiro do Iraque, o homem que não se arrepende de nada e diz que faria tudo de novo, merece ser recompensado por quem lucra barbaramente com a guerra. Aliás, justiça seja feita. Se for para premiar ex-presidentes pelos benefícios aos bancos e adjacências, então Lula, quando chegar a hora de passar a faixa – o homem fica doente só de pensar nessa possibilidade –, dará palestras de motivação aos diretores do Bradesco e Itaú por relevantes serviços prestados. Nunca antes nesse país...

         Voltando a Blair, eis que agora o governador do Rio de Janeiro, Sergio Cabral, decidiu contratá-lo como consultor. Que bobagem. Então, junto do querido Paulo Coelho, vou fazer agora um exercício de futurologia. Se Tony Blair virar consultor da cidade, o Rio de Janeiro irá declarar guerra ao Iraque no dia seguinte. A Saara, um dos centros comerciais mais inusitados do planeta, será cercada por tropas especiais e cães farejadores. Os meninos do Rio, vadios, serão embarcados para Bagdá sem nunca mais Hawaí. E aquela garota, coisa mais linda, cheia de graça, do doce balanço, um corpo dourado, partirá a caminho de Kirkuk? Deus me livre! Está tudo errado. Não é o Rio de Janeiro que precisa de consultoria. É o mundo que precisa do Rio de Janeiro. Urgente!



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h27
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BE STUPID

Fonte: anúncio da Diesel publicado in La Repubblica, 1/2/2010.

         Excelente. Numa sequência de 6 anúncios de página inteira do La Repubblica de hoje, todos em inglês, a empresa italiana Diesel após ironizar os coroas em 1993, o ideal da beleza masculina em 1996, o casamento em 1997, a religião em 1998, a África em 2001, as três dimensões no desfile em Florença em 2008, o aquecimento global em 2009, as não relações sexuais durante todas as suas campanhas, agora surge brilhante com este bem humorado imperativo categório “be stupid”, “seja estúpido”. Que uma marca brinque com a estupidez é magnífico. Mesmo porque ela fala também de si mesma, é claro. É muito fácil, por exemplo, responder-lhe: pois é, só um estúpido aceitaria pagar 5 mil reais por uma calça fabricada no Ceará, que custou 10 reais para ser feita. Mas é aí que a resposta da Diesel fica sensacional: pois é, nós somos estúpidos sim, e só por isso conseguimos fazer com que alguém pague 5 mil reais não por um pedaço de pano, mas sim por uma idéia, a provocação carimbada nesse pano, “diesel”. Brincar com a estupidez é magnífico também porque em um mundo onde todos os imperativos categóricos vão na direção contrária, “seja esperto”, “seja o melhor”, “seja o vencedor”, “seja inteligente”, remar contra essa corrente é uma forma de demonstrar o quanto esses mantras, essas pregações religiosas do capitalismo são ridículas. “Be stupid” desnuda o sistema e, paradoxalmente, torna-o mais forte ao fazer isso. Há lugar para os estúpidos no capitalismo. Essa é a sua maior força. Se pode ganhar dinheiro fabricando coisas inúteis, coisas bizarras, coisas feias, coisas sem pé nem cabeça, coisas não aprovadas por uns, coisas não aprovadas por outros. Em outras palavras, a maior força do capitalismo está em recusar o Estado-babá, o Estado que vai dizer aos cidadãos o que eles devem comprar, quando e onde. Ao recusar essa farsa, o preço é o de conviver com a estupidez, lidar com a estupidez, negociar com a estupidez. É muito melhor isso do que um aiatolá ou um general de opereta ficar gritando onipresente com que roupa eu devo ir, o que eu devo fazer com meu sexo, como devo trabalhar. Viva a Diesel. Na minha fantasia, isso me comanda.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h51
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HIPERTENSÃO

Fonte: O Globo, 29/1/2010.

         A edição do jornal O Globo de sexta-feira foi daquelas para entrar na história. A manchete principal grita: “Pressão alta obriga Lula a parar por 4 dias”. Ao lado, um gráfico demonstrando a dupla jornada do presidente, ironicamente diagnosticada como “pré-campanha” às próximas eleições, e suas infinitas viagens para promover sua candidata. Mas foi embaixo disso tudo, como a dizer, sustentando essa aparência toda, que aparece a charge magnífica de Chico Caruso acima republicada. Sensacional! Que isso tenha vindo de um artista lembra a belíssima reflexão de Freud do quanto ele teve que se afastar do saber pomposo de sua época para ir aprender com os poetas, os escritores, os pintores, em suma, com quem sabia do inconsciente sem saber que sabia, e, mesmo assim, falava disso o tempo todo – para quem estivesse disposto a escutar, evidentemente. Pois Chico Caruso falou. E o que diz Chico Caruso? Chico Caruso diz que há uma pressão sobre o presidente que não é apenas biológica, não é apenas fruto de estresse, fadiga ou excesso de viagens, que não é somente fruto de uma dieta incorreta ou oriunda do hábito de fumar. Mais: essa pressão não aparece em eletrocardiograma, não será fotografada em tomografia das artérias cardíacas, não ecoará em ultrassom do abdômen nem tampouco da próstata, não será indicada no teste de função pulmonar e tampouco em exames de sangue, urina e fezes. Entretanto, ela existe, ela está lá, é uma pressão constante – Freud a denominou de “força constante”, a força da pulsão. O que fazer com essa pressão? Senhor presidente: ao lado do Instituto do Coração, o senhor irá encontrar em um prédio desconhecido, em um andar tranquilo, nenhuma fila na porta, alguém que saberá acolher essa pressão e, juntos, dar-lhe um destino outro que não a dor, que não a vertigem, que não a paralisia. Esse alguém se chama psicanalista. Para essa e outros tipos de pressão, senhor presidente.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h33
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CINDERELA

A secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, 'perde' o sapato ao ser recebida pelo presidente da França, Nicolas Sarkkozy, nesta sexta-feira (29), no Palácio do Eliseu, em Paris. O ministro de Relações Exteriores, Bernard Kouchner (à esq.), observa a cena - foto: Reuters in G1, 29/1/2010.

Era uma vez uma mulher sofrida, criada de uma madastra visionária e malvada que, junto de suas  filhas, transformaram-na em sua serviçal. Cinderela, a executiva perfeita, tinha de fazer todos os serviços sujos da casa – lavar o inlavável, varrer o invarrível, cozinhar o incomível – e ainda era alvo de deboches e malvadezas. Um belo dia, é anunciado que haverá um baile no Castelo, para que o príncipe escolha sua esposa dentre todas as moças do reino. A madastra de Cinderela sabia que ela era a mais bonita, a mais talentosa, a mais preparada, e por isso fez de tudo para ela não ir ao baile – fez discursos, discursos e mais discursos. Cinderela chorou. Chorando muito, chorando o tempo todo, a Fada Madrinha apareceu – há Fadas Madrinhas, é uma moral dessa história -, lhe deu um vestido, lhe deu sapatos, lhe deu movimento. Cinderela foi, Cinderela fez, Cinderela disse a que veio. O príncipe adorou, amou, grudou em Cinderela feito cola – até que o fatídico relógico bateu meia-noite – não foi ela a escolhida. Cinderela perdeu. O sapatinho é o nome dessa perda, é a marca, é o umbigo do que poderia ter sido. Desse resto fez-se história. Outro príncipe – há príncipes, é outra moral - tarado, outro príncipe gamado, outro príncipe louco de saudade partiu de porta em porta, dividido, perdido, fendido ao meio, à procura de sua diferença, à procura dessa que ele um dia provou. As outras tentavam caber no sapatinho, faziam esteira sem parar, esculpiam o corpo a cinzel e martelo, injetavam plástico a litros, tiravam dali e punham aqui, mas nada. Só quando Cinderela colocou o sapato se soube o que este príncipe já sabia. Só há uma Cinderela. E como termina essa história? Eles sabem.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h28
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UMA MATA, A OUTRA ESFOLA

“Medo sustenta farmacêuticas, diz médico

Pneumologista alemão é autor da moção no Conselho da Europa que questiona se a OMS exagerou alarme da gripe A

Para o especialista em saúde pública e ex-deputado Wolfgang Wodarg, há um paralelo entre a indústria farmacêutica e a bélica”

Fonte: Luciana Coelho in Folha de São Paulo, 27/1/2010

           
           
Quando o coronel de opereta Hugo Chávez falou, todo mundo riu. Quando o governador do Paraná repetiu na Escola de Governo das terças-feiras, todo mundo xingou. E não é que agora é um médico alemão, pneumologista, que abre a boca para denunciar? Esse médico, certamente mal-formado em uma reles universidade da Europa, daquelas que insistem em preparar os alunos para pensar, para questionar o mercado, duvidar dele, e não a baixar a cabeça e dizer “sim, senhor”, daquelas que ainda lidam com gente, e não com a “boiada” que vai alegre para o matadouro do mercado, daquelas universidades, em suma, que ainda podem ser chamadas de universidades. O médico Wolfgang Wodarg, ex-deputado de centro-esquerda, carrega consigo a praga do pesquisador, o vírus do pensamento científico que põe em xeque a realidade para a partir disso transformá-la. Não é um acomodado, não é um boboca, não é um integrado. Que má formação esse homem teve! Eis aqui o momento precioso desta excelente entrevista feita por Luciana Coelho na Folha de São Paulo de quarta-feira:

“Luciana Coelho  - A Novartis acaba de anunciar lucro recorde.
WODARG - Vi os resultados das empresas de pesquisa farmacêutica na Alemanha. Elas tiveram um lucro médio menor apenas do que o da indústria militar. Há semelhanças entre as duas, não? Ambas vivem do risco e da ameaça às pessoas. Uma precisa do terrorismo, outra, da pandemia.”

         Sensacional comparação! A indústria farmacêutica e a indústria militar! “Uma precisa do terrorismo, a outra, da pandemia”. Olha, é a entrevista do ano. Parabéns a Luciana Coelho. O médico Wolfang Wodarg é o meu candidato ao Prêmio Nobel. De medicina? Não. Da verdade!



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h43
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O GOLPE PERFEITO

Fonte: El País, 28/1/2010.

         É simbólico. No mesmo dia em que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, fez o seu primeiro discurso do Estado da União em sessão conjunta no Congresso e transmitida ao vivo pela TV, centrando o foco na criação de empregos, ali pertinho, ali ao lado, em Honduras, o fantoche Porfírio Lobo, apoiado pelo governo dos Estados Unidos, assumia a presidência após o que o enviado especial do El País, Pablo Ordaz, denominou de “golpe perfeito”. Excelente definição. O que é um golpe militar perfeito? É aquele que estupra a democracia, violenta todos os direitos políticos mais básicos e ainda conta com o beneplácito dos Estados Unidos. É incrível que nem desse vez os Estados Unidos conseguiram ficar do lado da democracia. Era tão fácil se posicionar em Honduras, era tão simples, que é um escândalo, é uma vergonha o que aconteceu. Não há desculpas aqui. Coube ao governo do Brasil, sob a presidência de Luís Inácio Lula da Silva, dar o exemplo do que significa apoiar a democracia. Lula fez o certo em sustentar Zelaya até o fim – esse exílio de triste repetição, de triste memória na América Latina.  Neste gesto, Lula demonstrou a diferença entre discurso e prática. De que vale um discurso de esperança e mudança quando os atos vão na direção contrária ou sequer existem? Lula agiu em Honduras como um gigante. É uma das páginas mais belas da história do Brasil. Quanto aos Estados Unidos, que pena. Mais uma vez.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h30
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ELA

Fotografia de Daniel Troyse e Caroline Bomst em Paris in Stockolmstretstyle, 27/1/2010.

         “Na rua, ele seguia com os olhos as mulheres, procurava uma que se parecesse com ela...”

         Tchekov em A Senhora com o Cachorrinho. Tradução de Tatiana Belinky in “Lendo Tchekov” de Janet Malcolm. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005, p. 191. 



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h24
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AMOR-PERFEITO

Jean Simmons, 1929-2010.

Para a mais doce Ofélia, com amor e gratidão. Não fui buscá-la, como aos demais. Você não. A esperei, querida Jean, não como aquele pastor impostor que mostra o caminho do céu, ígreme e escarpado, enquanto segue, dissoluto e libertino, pela senda florida dos prazeres. Não. A esperei, altiva Jean, enquanto segui cada passo seu, com admiração, carinho e cuidado para esta que foi a crônica do tempo, foi meu dia, foi minha noite, e será agora. A esperei, amada Jean, como o amante fiel que não mais precisa ser distinguido, nem pelo bordão, nem pela sandália, nem pela concha do chapéu. Assim sou. Como a neve da montanha, que sabe o que é, não o que será. A esperei,  gentil Jean, você quis sempre que tudo saísse bem, que a roda da Fortuna lhe desse mais do que tirasse, com rosmaninho numa mão e o pobres amores-perfeitos na outra, com funchos e aquiléias também, arrudas e margaridas várias, violetas violentas, o salgueiro enfim. Haja o que houver, eu nunca mais serei o que fui, por causa de você. Por isso te recebo, dádiva adorada. Eu amorte.  



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h56
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