Blog do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba (PR) leobelferrari@uol.com.br
A MORTE DE UMA UNIVERSIDADE
Anúncio da Universidade Bandeirante, UNIBAN, publicado na primeira página do caderno Metrópole do Estado de São Paulo, 8/11/2009.
A peça publicitária acima é para se ler, guardar e colocar a partir de agora em todas as cartilhas de alfabetização e provas de doutorado país afora. Ela vem com um título estranho chamado “responsabilidade educacional”, se apresenta com um slogan bonitinho e ordinário, “a educação se faz com atitude e não com complacência” e tem como único objetivo dizer que considera a aluna Geyse Villa Nova Arruda uma puta, uma provocadora, uma inadequada, uma desequilibrada, uma não-cidadã, uma desrespeitadora dos “princípios éticos”, “dignidade acadêmica” e “moralidade” da “universidade bandeirante”. Ainda mais: há um “conselho superior” que, depois de analisar os “fatos apurados”, decidiu então queimar a bruxa, livrar-se de todo o mal e, no final, a cereja no topo do bolo, convida seus “alunos” e “alunas”, “professores”, “funcionários”, “a comunidade” e “a mídia” para um “ciclo de seminários” em “data a ser oportunamente informada”. Nenhuma palavra sobre os agressores, nenhum nome de ao menos um deles para ser punido, nada disso, ao contrário, a defesa explícita do fascismo, a “reação coletiva de defesa do ambiente escolar”. Em resumo, a vítima foi autora do crime! É hora do Ministério da Educação fechar esta farsa intitulada “universidade bandeirante”. Essa é uma das páginas mais sórdidas já escritas em nome da violência, da prepotência e da canalhice. Esse anúncio demonstra que os agressores de Geyse representam também os ideais da instituição que freqüentam, ou seja, o ódio à diferença, a perseguição implacável a quem ousar fazer qualquer coisa fora do padrão e a expulsão exemplar e rápida contra a complacência de quem aí se enquadrar. A Universidade Bandeirante morreu. Sem querer, seu “reitor”, que sequer assina o próprio nome, seu “conselho superior” (o que será isso?), assinaram o obituário da instituição que representam. Falta de coragem ou “princípio ético” número um do lugar, o anonimato? Vida longa para Geyse Villa Nova Arruda, uma mulher. Com nome e sobrenome.
Fonte: primeira página de O Estado de São Paulo, 5/11/2009.
Caetano Veloso falou bobagem. Que bom. Em entrevista a Sonia Racy, ele declarou que Lula é um analfabeto. Ontem, no Congresso Nacional do PCdoB em São Paulo, Lula respondeu: “um país governado por um analfabeto vai terminar realizando 14 novas universidades federais. Estamos fazendo uma vez e meia o que eles não fizeram em um século. Sei que isso é intragável. O Fernando Henrique Cardoso achava que nós seríamos um fracasso e que ele poderia voltar (...) tem muita gente que acha que inteligência está ligada à universidade. Isso é burro. A universidade não dá nada disso. A política é uma ciência que exige muito mais inteligência. De qualquer forma a vida é assim. As pessoas falam o que querem e ouvem o que não querem. A vida é dura.” (fonte: Soraya Aggege e Adauri Antunes Barbosa in O Globo, 7/11/2009). Eu, que não voto em Lula, tenho que admitir: Caetano teve a resposta que pediu. O presidente falou muito bem aqui. Inteligência não está ligada à universidade – basta você pensar na média dos professores que teve. De minha parte, a professora que melhor recordo, com mais carinho, era uma burra de dar dó. No entanto, em sua santa burrice, ela me levou pela mão e pelo coração, sem saber disso, a algumas das coisas mais belas da vida. Por outro lado, o professor mais inteligente que eu tive era um reacionário terrível, positivista implacável, um homem que só acreditava naquilo que saia de dentro de seu laboratório. Um pobre coitado, em suma. Também concordo que a política exige muito mais inteligência. A inteligência, por exemplo, de saber que a variedade do mundo não cabe numa planilha contábil de lucros e perdas, ativos e passivos, nem tampouco na crença estúpida e infantil de que o “deus mercado” vai regular tudo sozinho, com sua “mão invisível” (e cabeça também!). Agora, o avesso disso também é burrice, e é aí que Lula escorrega desde que entrou na política. Acreditar que só o Estado forte, gordo e imenso salva, é crer no “deus Estado”, entupido de estatais e recheado de concursos públicos, querendo “ensinar” o analfabeto do povo até sobre o que deve fazer com seu tempo livre. Aqui eu fico do lado de Fernando Henrique Cardoso e seu artigo fundamental publicado no domingo. O “papai” Lula, Getúlio redivivo a la Perón, é um perigo à solta. É a inteligência a serviço da burrice. Onde Caetano Veloso errou, Fernando Henrique Cardoso acertou. O Brasil grande de Lula é um trem desgovernado em direção ao pior. A vida é dura, mas pode ficar pior quando um presidente se unge de Salvador.
Depois dos psicólogos torturadores, o psiquiatra assassino. Em 12 de agosto, Scott Shane, repórter do The New York Times, trouxe ao mundo a notícia estarrecedora de que os doutores Ph.D em Psicologia, Jim Mitchell e Bruce Jessen, a partir de 2002 desenvolveram para a Central de Inteligência Americana (CIA) um novo “programa” de interrogatórios, cuja “peça” principal é uma nova técnica, revista e atualizada, de simulação de afogamento dos prisioneiros acusados de terrorismo. Desta vez, chega a notícia de que o psiquiatra norte-americano Nidal Malik Hasan, de 39 anos, especialista em “estresse pós-traumático”, abriu fogo contra seus próprios “pacientes” na maior base militar dos Estados Unidos. Foi a mais impressionante demonstração de “fogo amigo” que se conhece. É uma pena que isso venha a colocar em xeque o trabalho sério que inúmeros psicólogos e psiquiatras desenvolvem nessas e outras instituições. Porém, é mais um lembrete de que universidade nenhuma do mundo protege o sujeito contra si mesmo. Por outro lado, no caso agora em questão, convém recomendar aos Estados Unidos o remédio que eles fornecem diariamente ao Afeganistão e ao Iraque. Que o Estado do Texas seja cercado imediatamente e que os bombardeios iniciem à meia-noite de hoje. Indiscriminadamente, sem dó nem piedade. Não é assim que eles combatem o “terror” lá fora?
Da série “Bethsabée” de Paul Cézanne, depois de 1890. A série inclui três pinturas, duas aquarelas e três desenhos.
O preciso instante, perturbador, desestabilizador, em que Davi, o rei, numa tarde, e isso é revelador, não foi na manhã de sua vida, muito cedo, nem à noite, muito tarde, levantando-se da cama, como se diz, de uma para outra, a cama aqui tem outro sentido, a passeio pelo terraço do palácio – cabe uma nota sobre a fantasia masculina, enquanto Dmitri Gurov foi comer melancia depois, Davi foi passear pelo terraço – , então ele avistou uma mulher que tomava banho. Esse “avistar” é magnífico. Ela tomando banho também. É a própria pulsão escópica, o olhar que vagueia e de repente topa, tropeça, circula ao redor dessa nudez esplendorosa, luminosa, vizinha, farol. E era muito bonita a mulher. Isso está no segundo livro de Samuel, 11, versículo 2. Agora uma pergunta para minhas amigas e amigos historiadores de arte. Por que Cézanne não pintou Betsabá sozinha neste banho? Quem é a criada de Betsabá aqui? Talvez, e arrisco uma hipótese, a mulher ao lado de Betsabá seja aquela que um dia destronou o próprio pintor:
“Eu a vi, e a senhora permitiu que eu a beijasse. Desde então, fui agitado por uma perturbação profunda. Peço-lhe desculpas se esse amigo atormentado pela ansiedade tomou a liberdade de lhe escrever. Eu não sei como qualificar essa liberdade, que a senhora talvez considere desmesurada, mas como poderia continuar sob este desânimo que me oprime? Não é melhor expressar um sentimento do que escondê-lo?”
Trecho do rascunho de uma carta rabiscada atrás de um desenho encontrado no ateliê do Jas de Bouffan, provavelmente durante a primavera de 1885, citado por Bernard Fauconnier in Cézanne (Porto Alegre: L&PM ed., 2009, p. 143).
Fotografia de Marlene Bergamo/Folha Imagem in primeira página da Folha de São Paulo, 30/10/2009.
Se Geyse Arruda é a “puta” gritada, xingada, ameaçada e perseguida por cerca de 700 alunos da Uniban, Universidade Bandeirante de São Paulo, campus de São Bernardo, esses que a tocaram, fotografaram, cuspiram e uivaram merecem ser chamados de quê? De fascistas filhos da puta. Que alunos são esses e que “universidade” é essa? Me chamou a atenção o Fantástico de domingo quando a reportagem foi entrevistar o “vice-reitor” do “estabelecimento”. O que disse a pobre figura? Disse que “seus” 700 clientes têm razão – já imaginou a possibilidade deles deixarem de pagar a mensalidade? Tudo não passou de um mal entendido em que a culpada foi a mulher – quem mandou se pintar, quem mandou vir de minissaia e salto 15 à aula? É a lógica do estuprador. Pior foi a “especialista” Glorinha Kalil reforçar tudo isso em um comentário profundamente infeliz sobre o que a roupa pode “comunicar”. Já na Folha de São Paulo, compareceu a psicanalista Anna Veronica Mautner dizendo que o fato dá o que pensar. Discordo. Com fascistas não se pensa, se age. Ou a Uniban responde vigorosamente a isso expulsando essas e esses calhordas, escrotos e cruéis animais ou que feche os portões para sempre. Acabou o “negócio” da “universidade”. A “puta” da Uniban desmascarou a farsa: há fascistas entre nós. Não se pode conviver com eles.
Baden Powell interpreta “Tristeza” de Haroldo Lobo e Niltinho, com Alfredo Bessa na percussão. A gravação encontra-se no álbum “Tristeza on Guitar” (Saba, 1966).
Este blog faz hoje quatro anos de vida. Ele nasceu no dia primeiro de novembro de 2005. De lá para cá, todos os dias bem acompanhado. Eu penso neste trabalho como Baden Powell e Alfredo Bessa com Haroldo Lobo e Niltinho. O que virá? Uma certeza: de novo cantar.
“Não toco para agradar. Às vezes chego, toco e tenho certeza de que, dentro daquele público, três ou quatro pessoas vão saber que escutaram o troço direito. Eu acredito nessas três ou quatro pessoas porque, para elas, o show vai ficar para sempre.”
Baden Powell citado por Ruy Castro in Baden Powell. Rio de Janeiro: MEDIAfashion, 2008, Coleção Folha 50 Anos de Bossa Nova, v. 4, p. 48.