Blog do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba (PR) leobelferrari@uol.com.br


IT'S ALIVE

O “Oasis of the Seas” chega em Fort Lauderdale, Flórida, Estados Unidos. Fotografia de Joe Skipper/Reuters in The Guardian, 26/11/2009.

         O Oásis dos Oceanos pesa cinco vezes mais do que o Titanic. Que ele seja comparado com o inafundável, não espanta. Que se divulgue seu custo astronômico de quase 1 bilhão de libras, não assusta. Que ele tenha um “central park” com 12.000 árvores plantadas em seu convés, não aturde. Porém, seu nome é inquietante. Segundo o indispensável Houaiss, na etimologia da palavra está escrito que, do latim tardio, “oásis” é uma designação de diversos locais do deserto para onde, no tempo dos imperadores, se degredavam os criminosos. Sensacional! Agora, há também uma origem grega cujo significado é “região fértil de um deserto” ou então egípcia, “uahe-as”, “sítio onde se bebe”. As coisas não estão fáceis para esse navio. Ou se bebe demais ou é um lugar de muitos criminosos. Por outro lado, esse “dos Oceanos” é dose. Por que não só do Atlântico? Por que não só do Mediterrâneo ou do Pacífico? Essa pretensão do todo e de tudo me lembra novamente o funesto antepassado, toc, toc, toc. Como já dizia a querida Glória Perez, não é auspicioso.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h24
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MORTAIS

Umberto Eco in La Repubblica, 25/11/2009.

                “A névoa é uterina. Ela te protege. Legiões de pessoas querem retornar ao útero (não importa qual, como dizia Woody Allen). A névoa realiza este sonho impossível. Ela te dá uma felicidade amniótica. Tens a sensação de que um dia vai sair da vagina e irá afrontar-se com o mundo, mas neste momento estás seguro. E se o nascimento é o início do percurso que te levará inexoravelmente à morte, a névoa é a garantia, pena que apenas virtual, de que a morte não prevalecerá. Basta parar ali. Mas, precisamente por não saber onde se encontra, na névoa tendes a se mover para sair, o que é uma estúpida loucura, louca burrice. Quem tem a sorte de ali estar, deseja sair. É justamente por isso que todos os homens são mortais.”

         Umberto Eco in “Perché amo la nebbia che ci protegge dal mondo” [“Porque amo a névoa que nos protege do mundo”], La Repubblica, 25/11/2009.



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h19
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POR UM INSTANTE

Claudia Cardinale no papel de Angelica Sedara in “Il Gattopardo” (“O Leopardo”) de Luchino Visconti, 1963.

“Por um instante, naquela noite, a morte foi de novo a seus olhos ‘coisa para os outros’“.

         Giuseppe Tomasi Di Lampedusa in O Leopardo. São Paulo: Nova Cultural, 2003, p. 265.



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h29
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GRADIVA

 

Anúncio da Campânia na contra-capa do La Repubblica de hoje.

         A Itália é assim. Ao fogo de Guadalajara ela responde com a Campânia, essa região-símbolo do sul, reunião do mar com as montanhas, das ilhas com os golfos, terra de Romanos, Bourbons, Suevos, Bizantinos, Normandos, Aragoneses, Árabes e Gregos. Essa Gradiva napolitana passeia pela história como a estrangeira, imigrante emigrante, barroca pessoa, uma italiana.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h35
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SOBROU PARA A ÁFRICA

 

Anúncio publicado in The New York Times, 20/11/2009.

            Sem nenhuma cena de sexo, sequer sugerida, o pior momento de “2012” não é quando o Cristo Redendor se despedaça anunciando o fim do Rio de Janeiro - Deus me livre! -, mas sim no último minuto do filme, no preciso instante em que o comandante de uma das arcas de Noé pós-modernas, com motores hiperpotentes, heliportos chiques, e 500.000 norte-americanos à bordo mais um russo, mais um alemão, mais um não identificado e nenhum latino à vista, então, como eu estava dizendo, nesta nova arca de Noé – os bichos estão lá -, o capitão do navio recebe a notícia “do satélite” de que há um pedaço da Terra que não foi inundado, não foi destruído, não foi extinto. Pertinho do Cabo da Boa Esperança – é a cereja no topo do bolo preparada pelo roteirista-, esse “pedaço” se chama África. Foi aí que eu chorei. Pobre África. Depois do pobre México invadido no final de “O Dia depois de Amanhã”, agora os Estados Unidos da América rumam para a África. Chorei, chorei.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h36
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O FOGO

“Hombre de Fuego”, parte do mural de José Clemente Orozco pintado na abóbada da capela do Hospício Cabañas em 1937, hoje Instituto Cultural Cabañas em Guadalajara, México in anúncio de turismo publicado no El Viajero, El País, 21/11/2009.

         Há cidades que anunciam suas praias, há cidades que anunciam seus parques, há cidades que anunciam suas comidas. Guadalajara anuncia o fogo.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h49
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MILAGRES

                 Luciana, a filha mais velha de Marcos e Tereza, após trágico acidente que a deixou paralítica, foi ontem assistir o filme “Lula, o Filho do Brasil” e saiu caminhando após a sessão de cinema.  Aguarda-se nas próximas horas a confirmação de cegos que começaram a ver e coxos que pararam de renguear. Esse país nunca verá coisa igual. Miguel, apatetado com o acontecido, largou a neurocirurgia e decidiu abrir uma filial do Fome Zero. Jorge, o arquiteto sério, enciumado com o irmão, partiu para o Canadá, onde, segundo ele, não tem “dessas coisas”. Helena, com os joelhos doídos de tanto pedir desculpas a Tereza, já comprou dois ingressos para a próxima sessão. Já Sandrinha e Benê, após o filme, deixaram de passar o dia escutando shimbalaiê e Sandrinha foi trabalhar de empacotadora das casas Bahia enquanto Benê se chama agora Zé Pequeno – Benê era o caralho!



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h39
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AS COXAS COMO BANDEIRA

“Como você resolveria um problema do tipo Sarah Palin? Ela é uma má notícia para o Partido Republicano – e para todo mundo também”. Fotografia retirada da revista Runner’s World de agosto de 2009 in Newsweek, 23/11/2009.

         É a foto do ano. Sensacional! Os celulares na mão esquerda, a bandeira onipresente, sempre, o sorriso dessa Mona Lisa do Alaska, o cabelo em desalinho organizado, e as coxas, ai, ai, ai, as coxas à mostra. Já ganhou meu voto. Não me interessam mais as idéias, os debates, as propostas, eu voto a partir de agora nas coxas. Minto. Desde Cida Borghetti, a deputada mais bonita do Brasil, essa paranaense querida, com todo o respeito, desde Marta Suplicy, linda, ousada, abusada, desde Manoela D’Ávila, esse porto sempre alegre em Brasília, têm sido assim. E assim será. Chega dessa babaquice masculina, os feios, peludos, façanhudos, eu quero as mulheres lá, com seus penteados, suas bocas pintadas, e suas coxas, muitas coxas em minissaias estonteantes, saltos não mortais, unhas pintadas, perfumes embriagadores. Todas têm o meu voto, a minha participação, o meu engajamento, a minha militância. Como? A senadora Ideli Salvatti também? Não todas, por favor. Não todas.



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h30
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O IMPÉRIO DO MEIO

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama é recebido pelo prefeito de Xangai, Han Zheng, no Xinjio State Guest House de Xangai, em 15/11. Fotografia de Stephen Crowley/The New York Times.

         Para entender a China, há que prestar atenção em seus símbolos. Por exemplo, Xangai recebeu o presidente dos Estados Unidos sob esse painel monumental em que um rio, uma cachoeira, a própria correnteza irrompe, transborda, inunda a paisagem. Já em Pequim, sede do governo, o cenário muda. A pedra, a rocha, a dureza, o que permanece no tempo. A China se encontra na interseção de Xangai com Pequim.

 

O encontro do presidente dos Estados Unidos e de sua Secretária de Estado, Hillary Clinton, com o presidente da China, Hu Jintao e outras lideranças chinesas no Great Hall of the People de Pequim, em 16/11. Fotografia de Jim Young/Reuters in The New York Times.



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h27
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ANGELICA

 

Claudia Cardinale.

A porta abriu-se e entrou Angelica. Isso me retorna o dia inteiro. Um porta que se abre, quem abriu? Angelica poderia não entrar, poderia não estar ali, poderia aparecer na janela, por exemplo. Não. A porta se abre e Angelica entra. Há também esse instante que dura cinco minutos – é a característica dos instantes, o de serem breves. Angelica só entra depois desse tempo que passa. Angelica não poderia ter entrado antes, é como se ela esperasse a hora certa, o momento preciso. Como se, pois ela pode estar de passagem, em direção a, sem nada esperar. Ela sabia disso? Sabe. Angelica entra dentro, ela caminha passo a passo atravessando o limite, a fronteira, a divisão que essa porta representa. A porta abriu-se e entrou Angelica. Eu amo essa mulher.

 “O tal instante durou cinco minutos; depois, a porta abriu-se e entrou Angelica.”

Giuseppe Tomasi, príncipe de Lampedusa in O Leopardo. São Paulo: Nova Cultural, 2003, p. 94.



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h31
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REBELDE

 

“Rebelar-se, uma vida americana” de Sarah Palin, hoje em todas as livrarias dos Estados Unidos.

         É o livro do ano. Dela se perdoa tudo, suas idéias obtusas, sua vertente à direita de George W., aquele, os pecados da família, a gravidez de sua filha, os atritos com seu genro, as brigas com os assessores do senador John McCain durante a última campanha para presidente, seu jeito jeca de ser. Só uma coisa não se perdoa em Sarah Palin: a beleza. Da esquerda radical à ultra-direita fascista, isso é imperdoável. Se é bonita, então, todos concluem, é burra, se é bonita, todos dizem, é ordinária, se é bonita, é conservadora demais, se é bonita, é carola, se é bonita, não serve. Ora, Sarah Palin, saída dos grotões do Alaska, é bonita, é charmosa, é feminina, e dá, tem marido e filhos. Pode ser que ela seja um pouco de tudo isso que a acusam, não sei, mas ela ajudou a revelar o que é e como funciona o Partido Republicano dos Estados Unidos. E, só por isso, devemos ser gratos a Sarah Palin. Esta mulher desequilibra, desestabiliza, atrapalha, mexe as cadeiras. Viva Sarah Palin!   



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h45
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ONTEM, HOJE E AMANHÃ

 

Fotografia de Walter Bird, Londres, ao redor dos anos 30.

         Aurora.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h04
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DIVA

 

“Loves come quickly” de Stefan Beutler, Alemanha, em 13 de novembro de 2009.

         “O canto fluía de seus lábios.”

         Homero através de Odisseu pensando em Circe in Odisséia II – Regresso. Porto Alegre: L&PM, 2007, p. 153. Tradução de Donaldo Schüler.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h36
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ÍTACA

Fotografia de Stanko Abadžić, Zagreb, Croácia.

         “Andar errante é meu destino.”

         Homero através de Teoclímeno in Odisséia III – Ítaca. Porto Alegre: L&PM, 2007, p. 83. Tradução de Donaldo Schüler.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h19
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FODIDOS

O navio de Robert Falcon Scott, Terra Nova, visto de uma gruta na Antártica, em 1911. Fotografia de Herbert Ponting, Popperfoto/Getty in 100 Years of Great Press Photographs, The Guardian, 7/11/2009. O diário de Scott, encontrado junto ao seu cadáver, continha a seguinte introdução: “Se acaso sobreviver terei uma lenda para contar sobre a bravura, força e coragem de meus companheiros, que irá engrandecer o coração de todos os Britânicos”.

         Todos losers, sem vocação, fracassados, perdidos, cacos do que deveriam ser, farrapos, maus partidos, divididos todos, nenhum milhão à vista, esses quebrados, desossados, odisseus sem coroa, sem manto, sem Helena, aquela. Não há para onde retornar – mas isso só se sabe durante. A terra nova é estrangeira e familiar, uma diversa próxima, polimorfa sim, e na névoa, a velha sereia vencedora vai ter a última palavra, derradeira dadeira, o não.

“A EMIGRAÇÃO DOS POETAS

         Homero não tinha morada

         E Dante teve que deixar a sua.

         Li-Po e Tu-Fu andaram por guerras civis

         Que tragaram 30 milhões de pessoas

         Eurípedes foi ameaçado com processos

         E Shakespeare, moribundo, foi impedido de falar.

         Não apenas a Musa, também a polícia

         Visitou François Villon.

         Conhecido como “o Amado”

         Lucrécio foi para o exílio

         Também Heine, e assim também

         Brecht, que buscou refúgio

         Sob o teto de palha dinamarquês.”

         Bertolt Brecht, poema de 1933-1938 in Poemas 1913-1956. São Paulo: editora 34, 6ª. ed., 2001, p. 121. Tradução de Paulo César de Souza.



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h53
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