Blog do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba (PR) leobelferrari@uol.com.br


AQUI ESTÁ

“Adiós Nonino” de Astor Piazzola. Feito para seu pai, Vicente “Nonino” Piazzolla, quando este, em 1959, se encontrava no leito de morte.

 

E um dia, em 1954, Piazzolla cruzou o oceano para se encontrar com Nadia Boulanger na França, a professora de Copland e amiga de Stravinski. Cinco anos depois, “Adiós Nonino”.

 

            “Quando Piazzolla e Boulanger se viram cara a cara, ele tinha trinta e seis anos e ela sessenta e sete. Se comunicaram em inglês. Para ser aceito como aluno, ele teve que lhe mostrar o que tinha feito em Buenos Aires. Segundo Diana [a filha de Piazzolla], ele lhe mostrou sua Sinfonietta. Collier e Azzi [Simon Collier e María Susana Azzi] apostam que foi Tres movimientos sinfónicos Buenos Aires. Os biógrafos coincidem em que Boulanger, ao revisar os manuscristos, sentiu falta de “algo” que Piazzolla, ao lembrar da história, denominou de “sentimento”. A professora sempre pareceu saber do que se tratava e, um dia, como que de passagem, ela lhe perguntou que música se fazia na Argentina. Ele, envergonhado, “porque para ela ele era “o” intelectual sul-americano”, respondeu “tango”. E ela então, uma senhora de Montmartre, lonje de empalidecer, lhe disse entusiasmada: “que lindo”. Boulanger quis saber mais, que instrumento ele tocava, o que obrigou o “intelectual sul-americano” a “confiar-lhe” finalmente o segredo que trazia guardado no bolso. “Bandoneon”, confessou. E a professora lhe pediu então que lhe tocasse um de seus tangos no piano. Piazzolla arremeteu com “Triunfal”. Ao descrever a situação, Collier vê Boulanger tão embriagada, à beira do êxtase, que ao finalizar “o oitavo compasso” (os havia contado?), ela tomou as mãos de Piazzola para dar-lhe o melhor dos conselhos: “Não abandones jamais isso. Essa é a sua música. Aqui está Piazzolla”, assegura nessa parte a memória de sua fillha Diana. “Essa foi a maior revelação da minha vida musical”, admitiu Piazzolla a Gorín.”

         Fonte: Diego Fischerman e Abel Gilbert in El bandoneonista y su célebre maestra, La Nación, 5/7/2009.



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h22
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TRANSFORMERS

 

Primeira página do The New York Times, 3/7/2009.

                Ontem, véspera do 4 de julho, essa fotografia me confundiu. A legenda dela não explica, complica. Quem é o Optimus Prime aí e quem é o Megatron? Onde está o Cubo? Uma coisa é certa. Haverá a vingança dos derrotados. Fallen não cairá.  Enquanto isso, vou atrás da Mikaela. Como?  Ela foi procurar o Bumblebee? Mas que decepticon!

 

 



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h57
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O BÊBADO QUE QUERIA SER TCHEKHOV

          Como homenagear um bêbado genial? Juan Forn decidiu citá-lo. Trata-se do bebum-russo Serguei Dovlatov, escritor nas horas vagas de seu fígado. Em 1980, expulso a pontapés da União Soviética, aos 37 anos, sem nenhum livro publicado e sem nenhum dinheiro no bolso, mas com muitas garrafas entornadas em seu curriculum vitae, esse bebum-homem foi parar em Nova Iorque e ali vai morrer aos 49 anos, de coma alcoólico em uma ambulância a caminho do hospital. Nos seus doze anos novaiorquinos, esse bebum-nada vai publicar um livro por ano, doze no total, vai parar na The New Yorker e, como relata tão belamente Juan Forn:

 

“o assombroso disso é que esses doze livros escritos contra o relógio estão “talhados como poemas, linha por linha, com uma sintaxe espantosamente pura” (Joseph Brodsky), são “uma mistura perfeita de ácido sulfúrico e elegância no patíbulo” (Kurt Vonnegut) e, como diz seu tradutor para o espanhol, o colombiano estabelecido no México, Jorge Bustamante García, é assustador que das mãos trêmulas desse gigante que parecia um tratorista bêbado tenha saído uma prosa tão perfeitamente cristalina”

 

            O artigo inteiro de Juan Forn é para ser emoldurado na sala, é para virar cartilha de alfabetização, e, no final, não termina assim:

 

            “Seu sarcasmo, seu olho genial para retratar a estupidez (“Na televisão de Leningrado passa uma luta de box, um pugilista negro enfrenta um polaco ruivo, o locutar então anuncia: ‘O boxeador negro pode ser reconhecido pelo calção azul’”), se combinava com uma ácida sinceridade para consigo próprio, tanto para falar do alcoolismo (“Quando era criança, eu pensava que a pátria era a liberdade. Depois passei a pensar que a pátria era o lugar onde o homem encontra a si mesmo. Até que chegou o momento de ir para o estrangeiro e um amigo me falar, sem saber que dizia uma das grandes verdades da vida: ‘Recorda, velho, onde há vodka, ali está a pátria!’”), como para explicar porque escrevia (“Me atormentava minha incerteza, odeio minha disponibilidade para sofrer por pequenas coisas, eu desmaio de medo diante da vida, e, contudo, isso é a única coisa que me dá esperança, é a única coisa pela qual eu devo agradecer ao destino. Porque o resultado de tudo isso se chama literatura”).

         Nabokov dizia que caminhava sempre à borda da paródia, mas necessitava do outro lado um abismo de seriedade. A frase poderia ser aplicada perfeitamente a Dovlatov. Quem o conheceu afirma que ele lia com uma intensidade assustadora. Era célebre sua confissão: “A maior desgraça da minha vida foi a morte de Ana Karenina”. Melhor ainda a sua definição sobre a arte de bem ler (“Qualquer tema literário apresenta três aspectos: tudo o que o autor quis expressar; tudo o que soube expressar, e tudo o que expressou sem querer – e esse é o aspecto mais interessante”). Mas, a minha frase favorita absoluta de Dovlatov é essa:

         “Se pode venerar a inteligência de Tolstói, maravilhar-se com a elegância de Pushkin, admirar a coragem moral de Dostoiévski, o humor de Gogol e assim sucessivamente. De minha parte, eu só queria ser Tchekhov”.

         Ainda que seja altamente improvável, eu adoro pensar que Dovlatov pronunciou essa frase quase desmaiado na maca da ambulância, olhando para os enfermeiros porto-riquenhos que tratavam de tentar mantê-lo com vida até chegar ao hospital.”

         Fonte: Juan Forn in Confieso que he bebido, Página 12, Buenos Aires, 3/7/2009.

 

         Dovlatov não chegou. Foi se encontrar com Ana Karenina.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h13
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PARTIDA

Pina Bausch em Café Müller, na reapresentação feita em Barcelona em 2008. Fotografia de Tejederas in El País, 1/7/2009.

               

“Meu método não é simples. Eu faço perguntas complexas aos meus bailarinos e muitas dessas perguntas ficam sem respostas. No entanto, a minha preocupação é saber o que a minha companhia está pensando”.

                Pina Bausch citada por Beth Néspoli in O Estado de São Paulo, 1/7/2009.

 

                Epifânica. Belíssima também a homenagem que o crítico de dança do The New York Times, o indispensável Alastair Macaulay, fez a Pina Bausch. Em um certo momento, muito emocionado, ele diz assim:

 

“But there were several kinds of dance in Ms. Bausch’s theater pieces. Several of her epics included arch little routines (sometimes with the cast coming into the auditorium, and usually performed with women wearing red lipstick) involving a small social-dance-like step pattern, smart upper-body gestures and — here the Bausch style was always at its most precise — sophisticated facial expressions. The dichotomy between this social ego and the incoherent flailings of the anguished id was central to much of her work.”

 

Traduzido, fica mais ou menos assim:

 

“Houveram muitos tipos de dança nos espetáculos de Pina Bausch. Muitos de seus épicos incluíam um arco de pequenas rotinas (algumas vezes com os artistas descendo até o auditório e fazendo performances com mulheres de batons vermelhos), envolvendo pequenos números de danças sociais-padrão, com rápidos movimentos do corpo e – no estilo mais preciso de Bausch – com sofisticadas expressões faciais. Essa dicotomia entre o Ego social e as incoerentes flagelações de um Id angustiado foi o centro de seu trabalho.”

 

         Alastair Macaulay in A Stage for Social Ego to Battle Anguished Id [Um palco para o Ego Social combater o Id Angustiado], The New York Times, 1/7/2009.



Escrito por Leonardo Ferrari às 08h32
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ELÁSTICA

Le Sacre du printemps [em russo, Весна священная] de Igor Stranvinski, coreografado por Pina Bausch em 1975, hoje no repertório do Ópera de Paris.

 

Palavras que definem uma vida. “Essa menina é muito elástica” – lhe disse o Outro quando criança, no restaurante da família em Solingen, Alemanha (fonte: Roger Salas in El País, 1/7/2009). “Bewegung” – lhe disse o Outro desde que nasceu. “Bewegung”, palavra que significa “movimento” na língua alemã e também “emoção” (fonte: Win Wenders in La Repubblica, 1/7/2009) – bela língua! Banhada pelo Outro, no movimento do elástico, o que fez ela quando em terra estrangeira, em Outra língua, diversa da sua? Ela, sem muito querer por aí, levada, movida, mexida, salta do “motion” a “emotion” – só podia fazer isso. Da Principessa Lherimia de Fellini no maravilhoso E La Nave Va ao Café Müeller que Pedro Almodóvar pôs um pedaço no inesquecível Fale com Ela, Pina Bausch dançou, errou, tropeçou, foi dançada, foi vivida, foi habitada pelo desejo. Isso fala, isso dança, isso vive. Linda mulher!

 



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h49
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CIEL BROUILLÉ

Eliska por Petr Kleiner, República Tcheca, em 29 de junho de 2009.

Ciel brouillé

On dirait ton regard d'une vapeur couvert;
Ton oeil mystérieux (est-il bleu, gris ou vert?)
Alternativement tendre, rêveur, cruel,
Réfléchit l'indolence et la pâleur du ciel.

Tu rappelles ces jours blancs, tièdes et voilés,
Qui font se fondre en pleurs les coeurs ensorcelés,
Quand, agités d'un mal inconnu qui les tord,
Les nerfs trop éveillés raillent l'esprit qui dort.

Tu ressembles parfois à ces beaux horizons
Qu'allument les soleils des brumeuses saisons...
Comme tu resplendis, paysage mouillé
Qu'enflamment les rayons tombant d'un ciel brouillé!

Ô femme dangereuse, ô séduisants climats!
Adorerai-je aussi ta neige et vos frimas,
Et saurai-je tirer de l'implacable hiver
Des plaisirs plus aigus que la glace et le fer?

Charles Baudelaire

Céu nublado

 

Dir-se-ia teu olhar coberto de uma bruma;

Teu olhar misterioso (é azul, verde ou se esfuma?)

Às vezes terno e sonhador, às vezes cruel,

Reflete a palidez e a indolência do céu.

 

Lembras os dias brancos, mornos e velados,

Que em prantos põem os corações enfeitiçados,

Quando, despertos por torção desconhecida,

Os nervos tensos zombam da alma adormecida.

 

Não raro imitas essas cores vaporosas

Que fulguram aos sóis das estações brumosas...

Como resplendes, horizonte assim molhado

Quando a flama do sol aquece o céu nublado!

 

Ó mulher perigosa, ó climas sedutores!

Hei de adorar a tua neve e os teus rigores?

E como arrancarei do inverno em que me enterro

Mais agudo prazer que os do gelo e do ferro?

 

Charles Baudelaire in As Flores do Mal. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, pp. 216-217. Tradução de Ivan Junqueira.



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h45
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DO NÃO SÉRIO AO SÉRIO

Domingo de manhã em Tegucigalpa, Honduras: soldados invadem o palácio presidencial para prender o Presidente Manuel Zelaya. Fotografia de Esteban Feliz/Associated Press in primeira página do The New York Times, 29/6/2009.

 

Não é um país sério. O que são esses soldados rastejando por debaixo da cerca? Será que ninguém aprendeu nada com os Estados Unidos? Bombardeiem, arrasem, liquidem com tudo! Não, a América Central continua fazendo tudo errado. Pablo Ordaz, correspondente do El País, relata que o presidente de Honduras, Manuel Zelaya Rosales, acreditou que os militares golpistas tivessem ficado comovidos com as declarações de solidariedade internacional que ele recebeu na semana passada – entre elas, as de Hugo Chávez, Daniel Ortega, Raúl Castro, mas também da Organização dos Estados Americanos (quem?), bem como do ministro espanhol Miguel Ángel Moratinos (será que ofereceu asilo? Improvável em um país que trata os imigrantes hondurenhos a pontapés). Na noite de sábado, foi para casa dormir tranquilo, crente que os apoiantes lhe dariam algo mais do que palavras. Acordou no domingo com um fuzil apontado para ele – não leu Maquiavel: um poder sem armas não é poder. E assim, de pijama, um grupo de militares o retirou da cama e o conduziu para uma base aérea, onde foi transportado em avião militar para San José da Costa Rica. Ali, ainda de pijama, ao lado do presidente Óscar Arias, Zelaya declarou, de pijama: “Só o povo pode me retirar do poder, não um grupo de gorilas” (fonte: Pablo Ordaz in El País, 29/6/2009). Agora acompanhem comigo: um presidente de pijama? Gorilas? Bananas de pijamas? Não é um país sério. Corro as páginas do jornal para o noticiário local. Aí sim, as coisas como devem ser. No Kentucky, um pastor da igreja New Bethel, em Louisville, convocou os frequentadores do lugar para trazerem seus revólveres ao culto de sábado, para celebrar o direito de portar armas! Ah, o que são os ares de uma civilização! Isso é um país sério! Se não for atingido por uma bala, God bless America!

 

 Sábado à noite em Louisville, Estados Unidos. Pronto para sacar! Fotografia de Ed Reinke in The New York Times, 29/6/2009.



Escrito por Leonardo Ferrari às 10h20
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ESCALADAS

“Enquanto que nos Estados Unidos você está acabado, na França você acaba de ser eleito presidente”.

Fonte: Chip Bok in the Akron Beacon Journal, Ohio, Estados Unidos. 

               

         Te cuida, Sarkozy!

 

               

 

 “Querida, esqueça o governador…você tem que acreditar em mim. Eu realmente estou escalando a trilha dos Montes Apalaches”.

Fonte: Clay Bennett in Chattanooga Times Free Press, 25/6/2009.

 

         A geografia do desejo inclui agora essa maravilhosa escalada dos Montes Apalaches...na Argentina! Sensacional!!



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h30
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VER ANNA

Anúncio publicado in La Repubblica delle Donne, 27/6/2009.

 

         Querida Anna Netrebko,

         Você me pergunta se mesmo assim eu vou? É claro que não. Sem você, como? Eu não troco nossas tórridas segundas, imperfeitas terças, inconstantes quartas, fulgurantes quintas, extasiantes sextas e atordoados sábados por um plácido domingo. Além disso, não gosto dessa cidade. É aí que aquele maledetto matou Romeu e matou Julieta. Disgraziato, farabutto, bugiardo. Como? Você me espera então na península de sempre? Beijos, Ferrari.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h31
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AH AH AH AH AH

Epifania de Chico Caruso in O Globo, 27/6/2009.       

 

“It's close to midnight and something evil's lurking in the dark
Under the moonlight, you see a sight that almost stops your heart
You try to scream but terror takes the sound before you make it
You start to freeze as horror looks you right between the eyes
You're paralyzed”

                Michael Jackson, versos iniciais de “Thriller”, 1982.

 

             Continua assim: e ninguém, mas ninguém mesmo, vai te salvar da besta que já atacou, continua atacando. Você pensa em ver a luz do sol? Não é imaginação. A criatura rasteja, é uma coisa de quarenta olhos acompanhada de criaturas da noite, disfarçadas, com presas. Você sente uma mão fria no seu bolso. Não adianta fechar os olhos. Não há para onde correr. É o fim...da picada. Elas estão lá para te pegar. Arrepiante, assustador. Thriller?



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h12
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EU VOU ME LEMBRAR

“Remember the Time” de Michael Jackson, do álbum “Dangerous”, 1992.

            Foi em 1977. Ela estava lá, era seu aniversário. Eu não. Então, uma voz passa por mim, algo que repete e repete e repete “I’ll be there”. Eu sabia muito pouco de inglês, mas o suficiente para perceber que essa música falava da gente. E então fomos dançar. Para sempre.

         Foi em 1985. Ela achava que eu tinha morrido. Eu também. Longe, em outra cidade, estranha, difícil, estrangeira. E foi desse jeito que eu vi, assustado, atordoado, ultrapassado, um balé de mortos-vivos, “Thriller”. Renasci. Para sempre.

         Foi em 1993. Nada ia muito bem. E foi naquela praia, numa pequena boate, escuridão, névoa, fumaça, muita gente, que ressoou para mim aquela voz, de novo, a me intrigar, do you remember?

         Obrigado, Michael Jackson. Para sempre.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h19
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OUR WAY

“Fim do mistério – Governador afirma ter tido um affair – Desaparecido na Argentina – Confissão, por Sanford da Carolina do Sul, levanta novas questões.”

Primeira página do The New York Times, 25/6/2009.

 

         A palavra chave aqui é “confissão”. Em um país doente de tanta religião, é de praxe que políticos pegos no contrapé, venham a público chorar, muitas tears, se confessar, pedir perdão e, em seguida, sofrerem as chagas das ferozes punições – the end is near. Ontem foi o dia do governador da Carolina do Sul, Mark Sanford face the final curtain. E que cortina! Ele state his case com um upgrade sensacional em relação aos anteriores. Em primeiro lugar,  Sanford não é um político qualquer. Se trata de um dos maiores líderes do fanático Partido Republicano dos Estados Unidos. Inclusive, por pouco, muito pouco, não foi ele o escolhido a concorrer com Barack Obama na última eleição – ótima aqui a glosa de Gail Collins no The New York Times, em sua coluna de hoje epifanicamente intitulada “The Love Party” [“O Partido do Amor”]: “é incrível, mas haviam opções piores do que Sarah Palin [escolhida como vice-presidente pela chapa John McCain]”.  Em segundo lugar, o governador sumiu durante uma semana and more, much more than this, a princípio seus assessores, aqueles de doze mil (dólares) por mês, disseram que ele teria tirado uns dias para escrever. Não colou. Então, os mais graduados, vinte e quatro mil por mês, estabeleceram que ele teria ido escalar os Montes Apalaches. Ontem, voltando de Buenos Aires (ai, ai, ai), o governador confessou: “Fui infiel à minha mulher”. Os Apalaches eram Outra! “Tive uma relação com alguém que começou como uma querida amiga na Argentina”. Sensacional! Casado, pai de quatro filhos, ele did. E como did!! Regrets? Ele have a full. Inclusive mencionou que passou os últimos cinco dias chorando na Argentina – a impiedosa Gail Collins não perdoou e associou isso com Andrew Lloyd Webber, pai do maravilhoso Fantasma da Ópera e, no caso em questão, de “Don’t Cry for Me Argentina”. Ele cried, e como cried. A maldosa Gail Collins traz no final de seu artigo algumas “lessons” sobre o caso. Na segunda delas, ela diz que é tempo de repensar a idéia de se eleger homens de meia idade e heterossexuais para posições de grande importância. Que bobagem! Não existe imunidade contra o inconsciente – uma governadora mulher também vai meter os pés pelas mãos, não é mesmo governadora do Rio Grande do Sul? Um governador homossexual tampouco vai conseguir deixar de se atrapalhar no exercício do cargo. O problema não está no sexo nem tampouco nas escolhas sexuais de cada um. O problema aqui se chama pulsão, se chama inconsciente, se chama divisão do sujeito, se chama sintoma. Aí sim eu concordo com a quarta e última “lesson” de Gail Collins. Ela diz que está na hora do Partido Republicano pedir desculpas a Bill Clinton, recém vindo de Buenos Aires (ai, ai, ai), pelo péssimo papel que teve no julgamento de impeachment dele. Diz Collins: “está demonstrado fartamente que jogar pedras na vida sexual das pessoas é um perigosíssimo esporte” (fonte: Gail Collins in “The Love Party”, The New York Times, 25/6/2009). Para rimar com a confissão, atire a primeira pedra quem...



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h24
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O QUE UNS OLHOS E UM SORRISO TÊM QUE OUTROS NÃO TÊM?

Epifania é rever “Todas as Mulheres do Mundo” de Domingos Oliveira. Com lágrimas de dor, de saudade e de felicidade vivi essa cena, gravada em um quarto do hotel Quitandinha, em Petrópolis, onde Paulo (Paulo José) recita para Maria Alice (Leila Diniz) “teu sexo é um rio”. É um Rio, ecoa, ressoa, murmulha, me embala, acalanta, teu sexo é. Despedida ou ponto de partida? Porto.

 

                “A cena ficou meio escurecida, feita com a típica câmera na mão do cinema novo de 1966, e mostra uma mulher de biquíni branco caminhando no mar, de costas para o espectador. O dia está nublado, e a água atinge a altura de suas coixas. Ela dá três passos, pequenos pulinhos, ultrapassando as marolas da beira da praia. Quando se aproxima uma onda maior, a mulher de corpo bem recortado vira-se para que a água lhe bata nas costas, ficando assim de frente para a câmera. Só então revela o rosto. Nesse momento, a imagem congela, num dos mais felizes fotogramas do cinema brasileiro – e lá está ela.

         É Leila Diniz sorrindo.

         Trata-se de uma entrada em cena ao estilo clássico das grandes divas do cinema.

         Audrey Hepburn também está de costas, chupando um sorvete de casquinha, enquanto a câmera vai aos poucos contornando seu corpo até mostrá-la, faceira, observando as jóias na vitrine da Tiffany’s, no início de Bonequinha de luxo.

         Elizabeth Taylor surge em Cleópatra de dentro de um tapete que vai sendo desenrolado.

         Ursula Andress irrompe simplesmente de debaixo d’água, primeiro a cabeça, em seguida os olhos enormes, o arpão de caça submarina, e só depois o biquíni n’O satânico dr. No.

         O sonho de qualquer diretor é que toda a platéia nesses momentos faça “oh!” e, fisgada, nas duas horas seguintes não desgrude mais daqueles rostos que são o imã onde ele pregará suas idéias.

         O rosto sorridente de Leila fica congelado por alguns segundos, numa expressão moleca de quem sente o prazer da onda batendo com força no bumbum. Serve de fundo para que se projete por cima o letreiro do filme que começa: “Domingos Oliveira apresenta Todas as mulheres do mundo”.”

 

         Joaquim Ferreira dos Santos in Leila Diniz. São Paulo: Cia. das Letras, 2008, pp. 67-68.



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h42
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DESOBEDIENTES

“The Puppeteer” [“O Titereiro”] de Clay Bennett in Chattanooga Times Free Press, 23/6/2009.

 

            A farsa da “democracia” iraniana ganha sua mais completa tradução nesse genial cartum do imprescindível Clay Bennett. Eis aí o líder supremo, o aiatolá de plantão, às voltas com um inusitado problema. O fantoche não obedece mais como antigamente. Desgraça! Roger Cohen, no The New York Times (22/6), lembrou do fascista-mor Stálin, que sentia ânsias de vômito cada vez que ouvia falar em democracia, pontificando que “não é quem vota que conta, mas quem conta os votos”. Pois é. Mas quando os contadores de votos exageram, é hora de seguir a recomendação de Brecht: que se substitua imediatamente o povo!



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h28
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ASSURRA

Primeira página do caderno de esportes do jornal O Globo, 22/6/2009.

 

         Deliciosa a brincadeira que o Globo fez com o nome da seleção italiana de não-futebol, a “Azzurra”. Substituiram os “zz” (de sono também!!) pelos brasileiros “ss”, transformando o sentido para essa surra histórica que o Brasil aplicou na Itália. Aliás, o indispensável José Geraldo Couto lembrou na Folha de São Paulo de sábado a manchete que a própria “La Gazzetta dello Sport” da Itália deu após a derrota da “Azurra” para o Egito nesta mesma Copa das Confederações: “As múmias somos nós”. Sensacional! Epifânico! Ontem isso teve um outro sabor também: ver um país que não persegue imigrantes com “rondas noturnas”, ver um país que não tem um presidente perverso, fascista e sacana (características do primeiro-ministro da Itália, não do presidente italiano), ver o Brasil ganhar dessa Itália irreconhecível, dessa Itália destroçada, dessa pseudo-Itália, foi bom demais. Por outro lado, a leitura de um italiano dessa brincadeira da “Assurra” faz também eco a um outro “ss” de triste memória. Para quem acha essa associação um exagero, basta lembrar a manchete do La Repubblica de Roma em sua edição domenical uma semana atrás: “As rondas negras [alusão aos fascistas “camisas negras”] com a divisa que evoca o nazi-fascismo”. “SS”? Triste Itália.

 

 

Primeira página do La Repubblica, de Roma, 14/6/2009.



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h38
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