Blog do Leonardo Ferrari, psicanalista, Curitiba (PR) leobelferrari@uol.com.br


A GRANDE REVOLUÇÃO CULTURAL

Fonte: Jotabê Medeiros in O Estado de São Paulo, 4/12/2009.

         Pronto. Depois do Vale Cultura, virá uma cartilha, um documentário, um telecurso, um Enade, todos patrocinados pela Petrobrás e pelo Banco do Brasil, ensinando os “cumpanheiros” e as “cumpanheiras” sobre o que é cultura e o que não é cultura. Por exemplo, assistir o filme “Lula, o Filho do Brasil”, pode. É cultura. Agora, comprar revista de mulher pelada, não pode. Não é cultura. Esse é o retrato do Partido dos Trabalhadores, da esquerda, dos socialistas e dos comunistas no poder. Uma piada. Porém, para quem tem o Irã como modelo, não é uma surpresa. Ao contrário, é a consequência lógica. Com a senadora Ideli Salvatti a zelar por nós, quem precisa de aiatolá?



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h18
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WISLAWA SZYMBORSKA

Wislawa Szymborska por Witold Krassowski in Babelia, El País, 5/12/2009.

“Ao comentar um manual de ideogramas chineses, ela assinala: “Esposa é uma mulher e uma escova; amante, uma mulher e uma flauta. Desconheço a existência de um signo que represente o ideal a que nos conduzem todas as revistas européias para mulheres: a fusão da escova com a flauta””.

         Javier Rodríguez Marcos citando o livro de Wislawa Szymborska, “Lecturas no obligatorias”, publicado agora na Espanha (tradução de Manel Bellmunt Serrano, editora Alfabia, Barcelona, 2009, 22 euros) no artigo e entrevista Pequeños detalles de Szymborska in Babelia, El País, 5/12/2009.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h34
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PARA HELENA

Alek Wek por Max Cardelli in La Repubblica delle Donne, 2/2/2008. Vestido e sandálias Gucci.

    

TO HELEN

Edgar Allan Poe, 1831

 
Helen, thy beauty is to me
    Like those Nicean barks of yore,
That gently, o'er a perfum'd sea,
    The weary way-worn wanderer bore
    To his own native shore.

On desperate seas long wont to roam,
    Thy hyacinth hair, thy classic face,
Thy Naiad airs have brought me home
    To the beauty of fair Greece,
And the grandeur of old Rome.

Lo! in that little window-niche
    How statue-like I see thee stand!
    The folded scroll within thy hand —
A Psyche from the regions which
    Are Holy land!

            (Helena, tua beleza é para mim como os antigos barcos de

                   Nicéia, que suavemente, por mares perfumados,

                   transportavam para as praias natais o fatigado

                   viajor roído pelas rotas.

         A mim, que costumo errar por mares desesperados, teu

                   cabelo jacinto, teu rosto clássico, teus ares de

                   náiade me trouxeram de volta – à glória que foi

                   Grécia, à grandeza que foi Roma.

         Psiquê de regiões que são terra santa, igual a uma estátua

                   eu te vejo de pé ao nicho fulgurante da janela,

                   a lâmpada de ágata nas mãos...)

                   Tradução em prosa de Mário Faustino in Poesia-Experiência. São Paulo: Perspectiva, 1976, pp. 74-75 – citado por Antonio Manoel dos Santos Silva in Presença de Poe na Poética de Mário Faustino.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h58
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EDGAR ALLAN POE

 

Fonte: The New York Times, 1/12/2009.

            Aqui está o melhor dos Estados Unidos. O indispensável Edward Rothstein inicia assim seu magnífico artigo sobre Edgar Allan Poe no The New York Times de terça-feira. É para ler, emoldurar e voltar correndo à magnífica tradução que José Paulo Paes fez das “Histórias Extraordinárias”, publicada em 2008 pela Cia. das Letras, edição de bolso. O texto de Rothstein provoca lágrimas de tão belo, o texto de Poe transforma a vida em algo sublime, e o The New York Times, ao reunir os dois em uma mesma edição, fez epifania.

            “Edgar Allan Poe cuidou muito bem de seus corpos. Eles estão bem cortados e empilhados astuciosamente debaixo de tábuas (“The Tell-Tale Heart”[“O Coração Delator”]), em paredes de antigas catacumbas onde nada pode perturbar seu merecido descanso eterno (“The Cask of Amontillado” [“ O Barril de Amontillado”], encapsulados em caixões que, de algum modo lhes permite sair para cuidar de questões não resolvidas (“The Fall of the House of Usher” [“A Queda da Casa de Usher”]. Mas os vivos – dos quais alguns virarão esses cadáveres – têm muito mais dificuldade. Eles têm obsessões, planejam maldades e odeiam o tempo todo, são possuídos por impulsos bizarros e lutam sem parar contra forças incipientes até sucumbir,  na maioria das vezes, mal conseguindo perceber o alcance de suas perversidades.

Assim tem sido o destino de Poe também. Este ano é o bicentenário de seu nascimento e, embora ele nunca tenha recebido uma renda estável, muitas vezes afundou em tempestades alcoólicas e foi incapaz de manter um trabalho regular sem incinerar suas perspectivas e regularmente ser atacado por seus contemporâneos literários – enquanto em vida, em outras palavras, ele foi um aglomerado miserável de autocomiseração, remorso, gênio, fúria e fracasso – como cadáver, ele floresceu poderosamente”.

Fonte: Edward Rothstein in For Poe, This Has Been the Year to Die For, The New York Times, 1/12/2009.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h25
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GRAZIA

Maria Grazia Cucinotta por José Luis da Conceição/AE in O Estado de São Paulo, 1/12/2009.

            Maria Grazia Cucinotta chegou domingo de manhã em São Paulo. Foi embora ontem. Ela veio para divulgar o filme que produziu, “Viola di Mare”, na mostra 5ª. Semana Pirelli do Cinema Italiano. Se eu fosse o editor do jornal, esta fotografia estaria na primeira página, e não na última, miudinha, do Caderno de Cultura. A presença de Maria Grazia Cucinotta desnorteia. Só essa cruzada de pernas já é uma obra de arte magnífica, imortal. O que há nas pernas desta mulher? Se eu fosse seu cicerone por São Paulo, a levaria ao MASP, Museu de Arte de São Paulo, uma jóia maravilhosa cravada em plena avenida Paulista. E lá, lhe diria duas coisas que diferenciam o Brasil da Itália e do mundo neste momento. Primeira, o Brasil não participa desta farsa chamada “guerra do Afeganistão”, não enviou tropas nem enviará – cabe lembrar que ontem foi o dia em que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, prêmio Nobel da paz, decidiu aumentar o número de soldados norte-americanos nesta guerra perdida. Péssima decisão. Aí está um presidente “culto”, formado em Harvard, cheio de discursos bonitinhos, porém ordinários demais. Os únicos países da Europa a baixar a cabeça e dizer sim aos Estados Unidos, ou seja, autorizarem o envio de mais tropas, foram o fiel cachorrinho de guarda da Grã-Bretanha, a boba da Espanha e uma Itália que não é a Itália de Cucinotta nem a minha, mas a Itália de Silvio Berlusconi, fascista de opereta. Todos os três curvados, capachos, covardes. Alemanha e França, por exemplo, disseram não – porém, é verdade, ainda não retiraram seus soldados que já estão lá. A outra coisa que faz a diferença do Brasil é o golpe militar em Honduras. Goste-se ou não, o Brasil se posicionou contra o golpe e ofereceu sua embaixada como asilo ao presidente deposto. Ao contrário da posição ridícula dos Estados Unidos – e de toda a Europa, ausente, negligente e patética, exemplificada por uma Espanha “socialista” em cima do muro (“não reconheceremos mas não ignoraremos as eleições de domingo”, disse ontem seu inacreditável ministro das Relações Exteriores – fonte: El País), o Brasil sai de pé desta história. Analfabeto, pobre, ignorante, meu país fez o certo, fez o justo, fez aquilo que diferencia os homens das bestas. Neste instante, fugidio, Maria Grazia me beijaria, me abraçaria, me sussurraria sim, sim e sim. Ela concordaria e me pediria mais. Então, eu a pegaria pela mão e iríamos juntos ao Fasano para comer o raviolini d’anitra al profumo d’arancia. De joelhos, faríamos reverência a Salvatore Loi por mais esta graça recebida. Nos despediríamos nessa hora, eterna. Com o profumo d’arancia nos lábios. Nossos perfumes, nossos lábios, a cidade.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h20
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ELE NÃO FALHOU

Fonte: primeira página do Globo, 1/12/2009.

                Apareceu ontem no Jornal Nacional. O vídeo secreto da “oração da propina” supera o dinheiro na meia do deputado e o dinheiro na cueca do dono do jornal “Tribuna do Brasil” de Brasília. Quem faz a oração é, além de deputado distrital, pastor da Igreja Casa da Bênção e dono de uma rádio comunitária que funciona dentro de uma igreja.

         “Brunelli: Quero te agradecer, meu Deus, por estarmos aqui...Somos gratos pela vida do Durval, que é uma benção em nossas vidas. Quantas investidas de homens malignos contra a vida dele. Precisamos da tua cobertura. O Senhor tem pessoas que têm armas para nos ajudar nessa guerra...O Senhor nunca falha. É o Senhor que determina...Proteja a vida do Durval, de seus filhos, seus familiares. Precisamos de uma cidade diferente. O Senhor tem para nós um novo tempo. O Senhor é a verdade, é a nossa justiça. É aquele que abre as portas. Tire esses homens do nosso caminho.

         Durval – É verdade!

         Brunelli – O Senhor pegou um rei, Nabucodonosor, e fez ele pastar, comer capim, para mostrar que o Senhor prevalece. O Senhor pode dar um jeito nessa situação.

         Leonardo Prudente: (após o fim da oração) Que paulada!”

Fonte: cena do vídeo gravado por Durval Barbosa Rodrigues, durante a campanha eleitoral de 2006, então presidente da Codeplan – Companhia de Planejamento do Distrito Federal, com os deputados distritais Leonardo Prudente e Júnior Brunelli em seu gabinete. Transcrição e reportagem de Maria Lima in O Globo, 1/12/2009.

A menção aos “homens malignos” é o centro da oração. Há “homens malignos” que ameaçam a “benção” da vida deles. O pedido na oração é de uma clareza estonteante, “tire esses homens do nosso caminho”. É um pedido ou uma ordem? Sem querer, esse vídeo demonstra a magnífica tese de Lacan de que o ser humano quando fala, recebe sua própria mensagem de forma invertida – e isso também se chama o inconsciente. Esses homens “benignos”, sem perceber, estão invocando o Senhor contra si próprios! E cada um, ao seu modo, deu um jeito desse Senhor prevalecer – contra si mesmo e contra os outros. A paulada que o senhor Durval deu parece ter estabelecido um novo tempo em Brasília. Quem antes se refestelava agora pasta. Aguarda-se nas próximas horas a localização do depósito abarrotado de panetones. Os habituados ao capim agradecem.



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h37
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LÍDERES DO AMANHÃ

               Segundo o advogado de defesa, o dinheiro foi usado para a compra de panetones a serem doados no Natal (fonte: primeira página do Globo, 29/11/2009). Eu fiquei emocionado. Essa gente do DEM é diferente da gente do PT e diferente da gente do PSDB e da gente do PMDB. Eles são chiques. Só freqüentam os clubes finos das cidades, só falam inglês entre eles, seus filhos só estudam nas melhores universidades privadas, eles contratam consultores para tudo, suas administrações são vitrines internacionais. É uma gente diferente. Quem não entende, os tacha de “neoliberais”. Bobagem. Neste momento, em algum lugar de Brasília, bem grande, dormem milhares de panetones Bauducco à espera da ordem de distribuição. Isso é confiar na mão invisível do mercado?  Essa gente sabe o que faz. Se o PT dá o pão, o DEM dá o panetone. Não é isso o que o indispensável Michael Porter uma vez chamou de “vantagem competitiva”? Aprendamos com o DEM. Essa gente põe a mão na massa.                



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h05
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NADAR

Stéphie por François Benveniste, inverno de 2005, gare de Lyon. Do álbum “Noirs et Blancs et Sépie”.

“[Eu nado e berro.

Tudo, berro, como sempre, tudo cambaleia, tudo

sob controle, tudo indo, as pessoas provavelmente afogadas

na chuva oblíqua, uma pena, não faz mal berrar, é até bom,

indistintamente, difícil dizer por quê, continuo a berrar

         [e a nadar.”

         Canto trigésimo terceiro de “O Naufrágio do Titanic – uma comédia” de Hans Magnus Enzensberger. São Paulo: Cia. das Letras, 2000, p. 121. Tradução de José Marcos Mariani de Macedo.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h55
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MANSAMENTE

 

Fotografia de Ilya Rashap, Rússia.

“Era uma noite bonita,

         daquelas que só os trópicos podem oferecer.

         De olhos fechados nos refestelávamos

         em nossas espreguiçadeiras.

         A água em nossos tornozelos

         gorgolejava mansamente.”

Canto trigésimo primeiro de “O Naufrágio do Titanic – uma comédia” de Hans Magnus Enzensberger. São Paulo: Cia. das Letras, 2000, pp. 116-117. Tradução de José Marcos Mariani de Macedo.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h49
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MIRAGEM

“Cuba Libre” de Philip-Lorca diCorcia para a W., março de 2000.

         “E eu estava distraído e lancei um olhar

         sobre a amurada do porto para o mar do Caribe,

         e então o vi, muito maior

         e mais branco do que tudo o que é branco, lá longe,

         fui o único a vê-lo e ninguém mais,

         na baía escura a noite estava sem nuvens

         e o mar, negro e liso como um espelho,

         então vi o iceberg, inusitadamente alto

         e frio, como uma fria miragem,

         avançando lento, inexorável,

         branco, em minha direção.”

         Canto terceiro de “O Naufrágio do Titanic – uma comédia” de Hans Magnus Enzensberger. São Paulo: Cia. das Letras, 2000, p. 21. Tradução de José Marcos Mariani de Macedo.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h12
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IT'S ALIVE

O “Oasis of the Seas” chega em Fort Lauderdale, Flórida, Estados Unidos. Fotografia de Joe Skipper/Reuters in The Guardian, 26/11/2009.

         O Oásis dos Oceanos pesa cinco vezes mais do que o Titanic. Que ele seja comparado com o inafundável, não espanta. Que se divulgue seu custo astronômico de quase 1 bilhão de libras, não assusta. Que ele tenha um “central park” com 12.000 árvores plantadas em seu convés, não aturde. Porém, seu nome é inquietante. Segundo o indispensável Houaiss, na etimologia da palavra está escrito que, do latim tardio, “oásis” é uma designação de diversos locais do deserto para onde, no tempo dos imperadores, se degredavam os criminosos. Sensacional! Agora, há também uma origem grega cujo significado é “região fértil de um deserto” ou então egípcia, “uahe-as”, “sítio onde se bebe”. As coisas não estão fáceis para esse navio. Ou se bebe demais ou é um lugar de muitos criminosos. Por outro lado, esse “dos Oceanos” é dose. Por que não só do Atlântico? Por que não só do Mediterrâneo ou do Pacífico? Essa pretensão do todo e de tudo me lembra novamente o funesto antepassado, toc, toc, toc. Como já dizia a querida Glória Perez, não é auspicioso.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h24
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MORTAIS

Umberto Eco in La Repubblica, 25/11/2009.

                “A névoa é uterina. Ela te protege. Legiões de pessoas querem retornar ao útero (não importa qual, como dizia Woody Allen). A névoa realiza este sonho impossível. Ela te dá uma felicidade amniótica. Tens a sensação de que um dia vai sair da vagina e irá afrontar-se com o mundo, mas neste momento estás seguro. E se o nascimento é o início do percurso que te levará inexoravelmente à morte, a névoa é a garantia, pena que apenas virtual, de que a morte não prevalecerá. Basta parar ali. Mas, precisamente por não saber onde se encontra, na névoa tendes a se mover para sair, o que é uma estúpida loucura, louca burrice. Quem tem a sorte de ali estar, deseja sair. É justamente por isso que todos os homens são mortais.”

         Umberto Eco in “Perché amo la nebbia che ci protegge dal mondo” [“Porque amo a névoa que nos protege do mundo”], La Repubblica, 25/11/2009.



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h19
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POR UM INSTANTE

Claudia Cardinale no papel de Angelica Sedara in “Il Gattopardo” (“O Leopardo”) de Luchino Visconti, 1963.

“Por um instante, naquela noite, a morte foi de novo a seus olhos ‘coisa para os outros’“.

         Giuseppe Tomasi Di Lampedusa in O Leopardo. São Paulo: Nova Cultural, 2003, p. 265.



Escrito por Leonardo Ferrari às 05h29
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GRADIVA

 

Anúncio da Campânia na contra-capa do La Repubblica de hoje.

         A Itália é assim. Ao fogo de Guadalajara ela responde com a Campânia, essa região-símbolo do sul, reunião do mar com as montanhas, das ilhas com os golfos, terra de Romanos, Bourbons, Suevos, Bizantinos, Normandos, Aragoneses, Árabes e Gregos. Essa Gradiva napolitana passeia pela história como a estrangeira, imigrante emigrante, barroca pessoa, uma italiana.



Escrito por Leonardo Ferrari às 06h35
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SOBROU PARA A ÁFRICA

 

Anúncio publicado in The New York Times, 20/11/2009.

            Sem nenhuma cena de sexo, sequer sugerida, o pior momento de “2012” não é quando o Cristo Redendor se despedaça anunciando o fim do Rio de Janeiro - Deus me livre! -, mas sim no último minuto do filme, no preciso instante em que o comandante de uma das arcas de Noé pós-modernas, com motores hiperpotentes, heliportos chiques, e 500.000 norte-americanos à bordo mais um russo, mais um alemão, mais um não identificado e nenhum latino à vista, então, como eu estava dizendo, nesta nova arca de Noé – os bichos estão lá -, o capitão do navio recebe a notícia “do satélite” de que há um pedaço da Terra que não foi inundado, não foi destruído, não foi extinto. Pertinho do Cabo da Boa Esperança – é a cereja no topo do bolo preparada pelo roteirista-, esse “pedaço” se chama África. Foi aí que eu chorei. Pobre África. Depois do pobre México invadido no final de “O Dia depois de Amanhã”, agora os Estados Unidos da América rumam para a África. Chorei, chorei.



Escrito por Leonardo Ferrari às 07h36
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